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quinta-feira, 9 de maio de 2013

SEXO EM NOME DA FÉ

O deputado e pastor Marco Feliciano, que se tornou uma celebridade ao levar para o Conselho de Defesa dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados suas ideias arcaicas sobre direitos de minorias, volta ao noticiário por conta de suas relações com outro religioso, Marcos Pereira da Silva, que acaba de ir para a cadeia. O pastor Marcos Pereira da Silva é presidente da igreja denominada Assembleia de Deus dos Últimos Dias, com sede no Rio de Janeiro. Pesam contra ele denúncias de associação com traficantes de drogas, homicídios e violência sexual contra seguidoras de sua organização. Os jornais divergem quanto ao número de mulheres que teriam sido estupradas pelo sacerdote. Segundo o Estado de S.Paulo, ele teria abusado de seis fiéis, usando a alegação de que elas estariam possuídas pelo diabo e que o ato sexual as libertaria. Na versão da Folha de S. Paulo, foram quatro as vítimas e, segundo o Globo, os depoimentos colhidos em um ano de investigações identificam pelo menos 26 casos. O acusado se tornou conhecido por negociar o fim de rebeliões em presídios e libertar reféns de traficantes, impedindo suas execuções, mas, segundo a polícia, ele na verdade era uma espécie de líder espiritual de traficantes e outros bandidos, aos quais era associado, e esses episódios eram simulações combinadas com os criminosos. O conjunto das reportagens compõe um roteiro escabroso de exploração da fé, abusos, manipulação de consciências, homicídios, lavagem de dinheiro e roubo puro e simples. Embora seja um caso extremo de delinquência associada à religiosidade, a carreira do pastor Marcos Pereira da Silva deveria inspirar um esforço de investigação jornalística em torno do fenômeno das seitas que proliferam por todo o país e avançam sobre o campo político. As relações entre Pereira da Silva e o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados merecem uma atenção maior do que a mera reprodução de declarações que tem marcado a ação da imprensa. Uma das pistas a serem seguidas é a da lavagem de dinheiro: o pastor é acusado de receber comissão de traficantes para dissimular a receita do crime por meio da venda de CDs e DVDs de evangelização. Além disso, sua ascendência sobre chefes do crime organizado o coloca como um dos líderes da onda de ataques que aterrorizaram o Rio em 2006 e 2010, como reação contra o programa de ocupação de favelas pela chamadas unidades de polícia pacificadora. Considerar que o deputado Feliciano ignorava tal folha corrida seria chamá-lo de alienado – coisa que ele, definitivamente, não é. O estelionato da fé O inquérito contém preciosidades, como a descrição de orgias que teriam sido promovidas pelo dublê de líder religioso e chefe de quadrilha em um apartamento na Avenida Atlântica, registrado em nome da igreja e avaliado em R$ 8 milhões: segundo testemunhas, o pastor teria o hábito de realizar encontros que incluíam relações homossexuais de homens e mulheres. Também há referências a troca de favores com políticos e autoridades policiais, o que indica a extensão da influência do personagem, e que pode ser medida pelo empenho do deputado Feliciano em defender o acusado. A imprensa precisa esclarecer essa relação suspeita. Preso, o pastor Marcos Pereira da Silva tem sua vida vasculhada pelos jornais, que fazem descrições espantosas sobre sua longa carreira de abusos. No entanto, o noticiário ainda se limita ao relato puro e simples dos crimes de que ele é acusado, quando o episódio deveria levar a imprensa a analisar com mais profundidade o fenômeno de entidades supostamente religiosas que são, na verdade, organizações criminosas. Não importa se a delinquência se limita ao estelionato mais primário em nome de angústias espirituais ou se chega ao estágio sofisticado de criminalidade que é atribuído ao líder da Assembleia de Deus dos Últimos Dias. No livro intitulado Mídia e poder simbólico, o jornalista e cientista social Luís Mauro Sá Martino já tratou com detalhes a questão do mercantilismo no campo religioso. O caso do pastor Pereira da Silva abre uma oportunidade para a imprensa investigar a verdadeira natureza de organizações que colocam no poder político figuras como o deputado Marco Feliciano, capaz de transformar um órgão do porte da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em um circo místico de crendices e preconceitos. Pode-se ir um pouco além, analisando-se, por exemplo, como a sociedade contemporânea ainda se mantém vulnerável à penetração de arcaísmos e mistificações, que contaminam as instituições da República, e de que modo tais manifestações de irracionalidade atrapalham o desenvolvimento do país. Mas isso seria esperar demais. Desmascarar outros falsos religiosos associados ao crime já seria um bom começo.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Encontro de Natal

- Vai graxa aí patrão?
Ele olhou para os sapatos empoeirados e respondeu: - Vai sim. Em seguida, pensou na dureza da vida de engraxate, agora que todo mundo só calça tênis. O menino, franzino, não tinha mais do que oito anos e, em vez de boné, usava um gorro de papai Noel. Foi quando o "patrão" perguntou:
- Onde você mora?
- Na rua.
- Você não tem casa?
- Tinha, mas minha vó mandou a gente embora.
- Por quê?
- Porque minha mãe falou que o vô era meu pai. Aí a vó disse que ela tava louca e pôs a gente para fora de casa... Minha mãe é aquela ali, ó. (Aponta para uma mulher maltrapilha sentada na calçada, do outro lado da rua).
- Qual é o nome dela?
- Nazaré.
- E você tem ou não tem pai?
- Tenho. Tô aqui esperando ele chegar.
- Onde ele mora?
- Em Mirassol. Esse ano ganhou indulto de Natal. Ele disse que vai trazer uma bola de presente para mim, para a gente jogar futebol.
(o Terminal Barra Funda, em São Paulo, é onde param os ônibus que vem dos presídios do interior do estado)
- Poxa, que legal! É a primeira vez que ele sai de lá?
- É.
- Há quanto tempo ele está preso?
- Desde que eu nasci.
- E o que foi que ele fez?
- Ele matou meu vô.
- Por quê?
- Porque ele disse que o vô "estrupô" minha mãe.
- Ah... E você sabe o que é isso?
- Não. Mas meu pai me disse que minha mãe não é louca e que ficou daquele jeito por causa dos remédios que deram para ela no posto. É que tentaram envenenar ela...
- É mesmo?
- É, minha tia me falou. Quando ela saiu do hospital tava assim. Ela quase não fala mais, quando fala diz que eu tenho dois pais: o papai do céu e o papai do chão. Aí ela ri, depois ela chora, aí começa a bater nela... A gente tem que segurar, para ela não se machucar.
- Quanto custou o sapato?
- Nada.
- Como assim?
- Você não viu que hoje eu sou o papai Noel?
- Ah, entendi, o gorro...
- Sabia que hoje é dia mais feliz da minha vida?
- Não, por quê?
- Porque é meu aniversário e vou encontrar meu pai.
- E como chama seu pai?
- José.
O "patrão" se despediu e, enquanto caminhava apressado, sem olhar para trás, chorou. Um choro que não era dele, mas da dor representada pela doce e alegre figura do pequeno filho de Nazaré.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Olho por olho, dente por dente


Outro dia, como sempre por curiosidade, parei defronte a uma banca de jornal para ler as manchetes do dia e ficar "antenado".

Como era uma banca que não se localizava na zona sul ou numa parte mais sofisticada da cidade, os tablóides que estavam expostos eram aqueles mais vagabundos e sensacionalistas, os chamados "jornais de sessenta centavos".

Pois bem, no primeiro tablóide lia-se: "Marido joga mulher e filho de carro em alta velocidade na rodovia" (ou algo parecido).

Logo abaixo tinha outro que estampava em letras garrafais: "Babá-monstro cola olhos e boca de bebê com super-bonder".

Como eu não procurava este tipo de informação em bancas de jornais, comecei a procurar manchetes mais "sérias" que tratassem de economia, política, cultura ou coisa que o valha.

Nesse momento, ouvi uma voz ao meu lado dizendo: "Olha só! Boa coisa ele não estava fazendo, não é mesmo?" Virei-me na direção da voz e vi que era um senhor que dirigia-se a mim.

Como tinha várias manchetes a nossa frente, perguntei-lhe: "A que o senhor está se referindo?". Ele, então, apontou para um terceiro jornaleco, onde se lia: " Gari encontra filho adolescente morto na lixeira".

Senti uma indignação profunda e respondi murmurando entre os dentes: " Não sei o que ele fez, como vou saber?!"

Saí imediatamente de perto para não me indispor com o velho. Porém me veio uma vontade de dizer a ele que a mulher e a criança jogadas do carro em alta velocidade e o bebê que teve olhos e boca selados por cola também deveriam ter feito algo errado para merecerem tamanho castigo.

A nossa sociedade tem sempre uma explicação para um ato violento comentido contra uma criança pobre e marginalizada. Quando elas são assassinadas a primeira coisa que passa na cabeça das pessoas é de que aquilo não se trata de crime, mas de justiça!

Vivemos numa sociedade então a qual se diz cristã mas que em vez de seguir os ensinamentos de Jesus Cristo ("Vinde a mim as criancinhas"; "Amai-vou uns aos outros"; "Aquele que não tiver pecado, que atire a primeira pedra"), prefere praticar os preceitos de Moisés (Olho por olho, dente por dente? Infelizmente a resposta parece ser SIM...

domingo, 5 de abril de 2009

O sentido da Páscoa!



-Papai, o que é Páscoa?
-Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
-Igual ao Natal?
-É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressureição...
-Ressurreição?
-É, ressurreição. Marta , vem cá !
-Sim?
-Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
-Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu ?
-Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
-O que é isso menino?
- Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu ! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã ! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola ? Deus me perdoe ! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
-Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus ?
-É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
-O Espírito Santo também é Deus?
-É sim.
-E Minas Gerais?
-Sacrilégio!!!
-É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
-Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
-Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa ?
-Eu sei lá ! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
-Coelho bota ovo ?
-Chega ! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais !
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa ?
-Era... era melhor,sim... ou então urubu.
-Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né ?
-Que dia ele morreu ?
-Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
-Que dia e que mês?
- (???)
-Sabe que eu nunca pensei nisso ? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressucitou três dias depois, no Sabado de Aleluia.
-Um dia depois!
-Não três dias depois.
-Então morreu na Quarta-feira.
-Não, morreu na Sexta-feira Santa... ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas ? Ah, garoto, vê se não me confunde !Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como ? Pergunte à sua professora de catecismo!
-Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua ?
-É que hoje é Sabado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
-O Judas traiu Jesus no Sábado ?
-Claro que não ! Se Jesus morreu na Sexta !!!
-Então por que eles não malham o Judas no dia certo ?
-Ui...
-Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
-Cristo. Jesus Cristo.
-Só ?
-Que eu saiba sim, por quê?
-Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
-Ai coitada!
-Coitada de quem?
-Da sua professora de catecismo!