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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Múmia Inca intacta apos 500 anos

Museu dos Andes exibiu em 2007 pela primeira vez menino e meninas sacrificados há 500 anos. Ritual do império levava crianças nobres a morrer de frio no alto de montanhas. Salta, Argentina - Além da donzela Llullaillaco (15), também foram encontrados o menino (7) e a menina do relâmpago (6): três crianças incas, que estavam sepultados em uma montanha árida e gelada há 500 anos como um sacrifício religioso. Perto da fronteira com o Chile, seus corpos congelados estão entre as múmias melhor preservadas já encontradas, ainda com sangue, orgãos internos são encontrados intactos como o coração, pulmões, apenas pele e características faciais foram pouco afetados. Nenhum esforço especial foi feito para preservá-los. O frio eo ar seco e fino fez todo o trabalho. Eles congelaram até a morte enquanto dormiam, e 500 anos depois, ainda se parecia com crianças dormindo, e não múmias. As crianças foram sacrificados como parte de um ritual religioso, conhecido como "capacocha", no qual são colocadas em uma dieta de ganho de peso durante um ano inteiro antes de seu sacrifício e, em seguida, eles foram drogados e deixados em cima do vulcão Llullaillaco.
Eles caminharam por centenas de quilômetros para cerimônias em Cuzco e foram levados até o cume do monte Llullaillaco (yoo-yeye-YAH-co), e, uma vez que eles estavam dormindo, colocadas em nichos subterrâneos, onde eles congelaram até a morte. Bonitas, saudáveis, as crianças fisicamente perfeitos foram sacrificados, e foi uma honra serem escolhidas. De acordo com as crenças incas, as crianças não morrem, mas se juntam aos seus ancestrais e vigiam suas aldeias a partir das montanhas como os anjos. Uma das crianças, uma menina de 6 anos de idade, tinha sido atingida por um raio em algum momento depois que ela morreu, resultando em queimaduras no rosto, parte superior do corpo e do vestuário. Ela e o menino, que tinha 7 anos, tinham crânios levemente alongados, criado deliberadamente por envolvimentos na cabeça - um sinal de status social elevado, possivelmente até mesmo realeza. Os cientistas trabalharam com os corpos em um laboratório especial, onde a temperatura do laboratório inteiro poderia cair para 0 graus, e as múmias nunca foram expostas a temperaturas mais elevadas por mais de 20 minutos a uma hora de tempo, para evitar o descongelamento.
Testes de DNA revelaram que as crianças eram independentes, e tomografias mostraram que eles estavam bem nutridos e não tinham ossos quebrados ou outros ferimentos. A "Donzela" aparentemente tinha sinusite, bem como uma doença pulmonar chamada bronquiolite obliterante, possivelmente o resultado de uma infecção. "Há dois lados", disse Dr. Miremont. "O científico - podemos ler o passado das múmias e os objetos. O outro lado diz que essas pessoas vieram de uma cultura que sobreiveu, e um lugar santo na montanha. " Alguns consideram a exposição como se estivessem numa igreja, disse Dr. Miremont. "Para mim, é um museu, não é um lugar santo", disse ele. "O lugar santo é no topo da montanha."
As montanhas ao redor de Salta abrigam pelo menos 40 locais de sepultamento, outros sacrifícios rituais, mas o Dr. Miremont disse que o povo nativo que vivem nessas regiões não querem mais corpos retirados. "Vamos respeitar os seus desejos," disse Dr. Miremont, acrescentando que três múmias foram suficientes. "Não é necessário quebrar túmulos mais. Gostaríamos de ter boas relações com o povo local."

domingo, 17 de junho de 2012

A verdade sobre a ocupação na Líbia

Na segunda-feira (04.06) um fato chocou a Líbia, mas não foi noticiado pela imprensa ocidental porque não foi uma notícia aprovada pelo imperialismo: a tomada do Aeroporto Internacional de Trípoli pela Brigada Al-Awfea [“Legalista”], leal a Kadafi, que se supõe que tenha vindo da cidade de Tarhouna, uma das últimas fortalezas kadafistas a cair quando o país foi atacado pela artilharia aérea de EUA-OTAN. Os habitantes de Tarhouna são líbios negros que foram discriminados na Líbia na época do Rei Ídris, mas foram resgatados no governo da Jamahiriya. O novo aeroporto de Trípoli estava sendo construído antes da guerra de ocupação da Líbia por uma empresa brasileira. Seria o maior e mais moderno aeroporto do mundo, não fossem as bombas terroristas despejadas no país – e no aeroporto - pela OTAN-USA e seus aliados colonialistas. Segundo relatos de moradores, a Líbia hoje é um país mergulhado no caos: falta água, luz, medicamentos e alimentos. Algo impensável na época de Kadafi. Quando a OTAN e seus cúmplices (governos dos EUA, França, Inglaterra, Canadá, Arábia Saudita, Catar e outros asseclas) despejaram toneladas de armamentos de paraquedas, em todas as regiões da Líbia, estavam criando as condições necessárias para o caos agora instalado no país. Mas era este o objetivo, além de assassinar covardemente o líder Muamar Kadafi. O martirizado líder líbio construiu o maior rio artificial do mundo, estava construindo o melhor aeroporto do mundo, enquanto Obama mandou bombardear as estações adutoras de água do rio artificial e a construção do aeroporto. Bombardeou toda a infraestrutura do país para que hoje 8.000 soldados norte-americanos estejam ocupando todos os poços de petróleo da Líbia. Estão roubando petróleo da Líbia. EUA, França e Inglaterra, roubam o petróleo líbio e contabilizam como “despesas de guerra”. Afirmam que o povo líbio pediu para ser bombardeado e que agora precisa pagar os custos e despesas com a guerra de ocupação. A Brigada Al-Awfea declarou que a principal razão para a ação de invadir e tomar o Aeroporto Internacional de Trípoli foi protestar contra o misterioso desaparecimento de seu líder, coronel Abu Ajela Al-Habashi e chamar a atenção do mundo para o sofrimento do povo de Tarhouna e outros líbios negros, no período pós-Kadafi. Foguetes lança-granadas, alguns tanques e fogo de artilharia pesada foram usados para ocupar a entrada e as cercanias do aeroporto. Aviões internacionais foram impedidos de decolar. Os passageiros, inclusive os que já estavam embarcados prontos para decolar, receberam ordens, de homens armados, para desembarcar e retornar aos hotéis. Aos olhos da Brigada Al-Awfea, a tomada do aeroporto foi uma espécie de sátira política, carregada de simbolismo e, sobretudo, de legitimidade. A acusação que mais se faz contra a Brigada Al-Awfea é que prega e difunde estereótipos racistas que, cada dia mais, circulam na Líbia pós-Kadafi. Mesmo assim, a ação no aeroporto gerou pânico entre as autoridades líbias, que bracejam num oceano de confusões. Todas as chegadas internacionais foram desviadas para Mitiga, o aeroporto militar de Trípoli. Não é a primeira vez que elementos descontentes da classe mais baixa da população de Trípoli empreendem ações contra os símbolos usados para propaganda da infraestrutura líbia. Mas a ação da Brigada Al-Awfea contra o Aeroporto Internacional de Trípoli é, até agora, de longe, a mais ousada e temerária. A Líbia atual prepara-se para as eleições nacionais de uma assembleia constituinte, em julho de 2012. As eleições foram adiadas, previstas como estavam para 19 de junho. O atraso indica o estado de confusão e desorganização do Conselho Nacional de Transição. Depois das eleições, a assembleia terá de indicar um primeiro-ministro, um gabinete e uma autoridade constituinte, que redigirá uma nova Constituição para a Líbia. Depois, a Constituição – que se teme que venha a ser fortemente influenciada por grupos ligados à Al Qaeda – será submetida a referendo popular e, se aprovada, haverá eleições gerais num prazo de seis meses, contados a partir do referendo. As próximas eleições gerais estão sendo saudadas como as primeiras eleições livres e justas na história da Líbia. Mas a junta governista - que não governa - não sabe como controlar um país onde a maioria da população está armada e só teme os bombardeios da OTAN. O Partido Justiça e Desenvolvimento, braço político da Fraternidade Muçulmana é o partido maior e mais bem organizado. Outros partidos parecem ter expressão apenas regional, como o Partido Verdade e Democracia de Benghazi ou o Congresso Líbio Amazigh, que tem formação de base étnica. A democracia ocidental é um presente de grego de Obama para o povo líbio. Na época de Kadafi o governo era uma Jamahiriya (Poder Popular). Os habitantes se reuniam em Congressos e Comitês Populares, e decidiam os destinos do país. O Livro Verde ensina que dar uma carta em branco para um político é algo temerário e absurdo porque “a representação é uma impostura”. O poder popular deve ser exercido e não transferido a um representante. Na Jamahirya não havia políticos, mas os Congressos e Comitês Populares podiam destituir e eleger ministros e administradores públicos a qualquer momento. Kadafi dedicou sua vida à construção de um país que não se dobrava às potências ocidentais. Obama dedica sua vida a fortalecer o complexo militar, petrolífero e bancário norte-americano, que estão destruindo o mundo com consumismo exagerado e extinção dos recursos naturais. Durante a guerra de ocupação da Líbia por potências ocidentais criminosas, que assassinaram mais de 200.000 líbios, Kadafi recebeu convites de diversos países para se exilar, e jamais aceitou nem considerou essa possibilidade. Lutou até o final, como um verdadeiro guerreiro, seguindo o exemplo de Omar Moukhtar, e como ele foi martirizado. O advogado das causas populares, Barak Hussein Obama, foi eleito presidente e traiu seus eleitores ao cumprir fielmente a agenda dos banqueiros, indústrias bélica e petroleira, para se manter no poder e usufruir dos privilégios inerentes ao cargo. Kadafi preferia as tendas árabes aos hotéis luxuosos do ocidente. Por todos esses motivos, um Kadafi vale por 100 Obamas. Kadafi é a resistência dos pequenos povos e países submetidos ao terrorismo estatal do imperialismo e das potências colonialistas. Obama é o retrato de um político profissional de um país que sobrevive explorando, roubando e saqueando os pequenos povos e países do mundo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dias para abalar o mundo


O movimento contra Mubarak toma proporções de revolução e muda os rumos do Oriente Médio

A escalada do movimento contra o regime de Hosni Mubarak cresceu das proporções de uma manifestação nacional de protesto, no “dia de fúria” de 25 de janeiro, para a de uma autêntica revolução, a partir da sexta-feira 28 – mesmo se ainda está em aberto se ela será vitoriosa e no que isso resultará.

O momento crucial, a “Queda da Bastilha”, foi quando a multidão saiu das mesquitas (e, em menor quantidade, das igrejas coptas) do Cairo, convergiu para a ponte Kasr al-Nil e tomou-a aos policiais que a defendiam com gás lacrimogêneo, jatos d’água e cassetetes, obrigando-os a recuar e deixar o povo ocupar a Meydan Tahrir (Praça da Libertação). Quartéis da polícia foram incendiados, primeiro em Suez, depois em outras grandes cidades.

O medo da repressão foi vencido e a mobilização explodiu. O anúncio do Exército de que não atiraria nos manifestantes ajudou-a a culminar na “marcha dos milhões” de 1º de fevereiro, que fez jus ao nome. Segundo a Al-Jazira, 2 milhões de fato saíram às ruas no Cairo, meio milhão em Alexandria e números proporcionalmente impressionantes em outras grandes cidades, de Damieta, extremo norte, a Assuã, no sul. No Sinai, os beduínos expulsaram as forças da repressão, tomaram cidades na fronteira de Gaza e ameaçaram atacar o Canal de Suez. Com anuência de Israel, o Egito enviou tropas para controlar a região, desmilitarizada desde o tratado de paz de 1979.

Na hora zero da sexta-feira, o governo egípcio cortou completamente a internet, medida sem precedentes no mundo. Nos momentos mais críticos, inclusive o 1º de fevereiro, tirou do ar também a telefonia celular e os principais satélites de comunicações. Levou demasiado a sério a “revolução pelo Twitter” alardeada pela mídia ocidental. O blecaute digital paralisou os bancos e a economia – até cartões de crédito e caixas automáticos deixaram de funcionar –, mas não afetou os protestos, não cortou a cobertura jornalística e prejudicou a imagem do regime. Assim como outras medidas mais convencionais: toque de recolher, cassação da licença da Al-Jazira e perseguição a jornalistas.

A mais perigosa foi retirar a polícia das ruas, a partir da derrota da sexta-feira. Se o regime esperava causar caos e pânico e levar a população a recolher-se e implorar pela restauração da ordem, o tiro saiu pela culatra. Depois dos primeiros saques, dos quais parecem ter participado agentes provocadores, o povo organizou comitês, armou-se de paus e facas, ergueu barricadas e fez cordões humanos para proteger suas casas e seus tesouros nacionais, inclusive o Museu Nacional (onde peças foram danificadas), a Biblioteca de Alexandria e o Vale dos Reis. Mostrou ao governo que pode dispensá-lo.

Aparentemente, houve desentendimentos entre o governo, o aparelho repressivo e os diferentes ramos das Forças Armadas, bem como entre Mubarak e seus aliados nos EUA, Europa e Israel. Correram boatos de que o Exército desacatou ordens de disparar nos manifestantes. Soldados e oficiais foram vistos confraternizando com populares e dizendo estar a seu lado.

O secretário-geral do governista Partido Nacional Democrático (pateticamente expulso, em 1º de fevereiro, da Internacional Socialista), o poderoso empresário siderúrgico Ahmed Ezz, foi destituído, enquanto seus escritórios e indústrias eram saqueados. Já o baixo clero dos políticos e empresários governistas pareceu mais agarrado ao poder que o próprio ditador, acusando os manifestantes de serem desordeiros, fundamentalistas ou espiões de Israel.

Em 25 de janeiro, Hillary Clinton dizia que “o governo egípcio é estável e procura meios de responder aos interesses legítimos do seu povo”, mas, depois da sexta-feira, o discurso mudou. A Casa Branca pressionou Mubarak, que, no sábado, trocou o primeiro-ministro Ahmed Nazif (tecnocrata neoliberal identificado com a plutocracia e com uma política econômica impopular) pelo ministro da Aeronáutica e marechal-do-ar Ahmed Shafik. Nomeou o diretor de inteligência Omar Suleiman para a Vice-Presidência, vaga há 29 anos, sinalizando que Gamal Mubarak, filho de Hosni, até então tido como sucessor, foi deserdado – um golpe nos políticos do PND em proveito dos militares.

A reforma do gabinete não satisfez os manifestantes e a aliança de oposições (partidos laicos, Fraternidade Muçulmana, sindicatos, estudantes) liderada pelo recém-retornado Mohamed El-Baradei, que continuaram a exigir a renúncia de Hosni. No domingo, o presidente Barack Obama, depois de telefonar aos líderes de Israel, Arábia Saudita, Turquia e Reino Unido, cobrou publicamente o fim da repressão e uma “transição ordeira”, pouco depois que Hillary Clinton havia dito que as medidas da véspera não bastavam, eram “mero começo”.

A Casa Branca não conseguiu agradar nem a gregos nem a troianos. A oposição egípcia não se satisfez e conservadores dos EUA e de Israel condenaram a “traição” de Obama ao velho ditador, que sinalizaria a outros autocratas do Oriente Médio que não podiam confiar no apoio estadunidense. Eytan Gilboa, cientista político israelense entrevistado pelo site Ynet, disse que Obama “já virou as costas a Israel uma vez, apunhalou Mubarak pelas costas e é hora de desenvolver relações com novas potências”, Índia e China – como se fosse concebível criar lobbies sionistas em Nova Délhi e Pequim.

No Reino Unido, enquanto o primeiro-ministro conservador David Cameron pareceu afinado com a Casa Branca ao pedir “transição ordeira”, Tony Blair defendeu Mubarak, chamando-o de “imensamente corajoso, uma força para o bem”, e advertindo contra “o que poderia emergir de eleições apressadas”. No mundo árabe, Mahmoud Abbas e o rei saudita, Abdullah, também ofereceram seu apoio ao ditador cambaleante.

Outros entenderam melhor: o líder do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, no poder há 32 anos, anunciou reformas e prometeu não se recandidatar, enquanto na Jordânia o rei Abdullah II demitia o primeiro-ministro. Mas o próprio Mubarak resistiu a mais concessões até o dia da “marcha do milhão”, durante o qual os EUA enviaram um emissário especial para repetir o recado. Só ao fim dessa noite reapareceu na tevê para avisar que não voltaria a se candidatar, mas permaneceria no cargo até as eleições gerais em setembro.

O anúncio satisfez, segundo jornalistas, alguns manifestantes, ansiosos por voltar à vida normal, mas não às principais forças de oposição, incluindo El-Baradei e a Fraternidade Islâmica. E o governo, ou parte dele, reagiu violentamente. Em 2 de fevereiro, violentos militantes pró-Mubarak irromperam na Praça Tahrir sem ser detidos ou incomodados pelo Exército, enfrentaram com cavalos, camelos, chicotes, navalhas, pedras e coquetéis molotov os manifestantes da oposição e espancaram e prenderam jornalistas. Parte deles era de policiais à paisana ou membros do PND – 120 foram capturados por populares, que exibiram a jornalistas suas identificações – outros seriam populares pagos por empresários governistas, a 200 libras egípcias por cabeça (34 dólares), principalmente entre guias turísticos das pirâmides, que as manifestações deixaram sem trabalho.

Tática desastrosa: uniu a oposição em vias de se dispersar e dividiu o governo. O papel da Fraternidade Islâmica visivelmente cresceu. O primeiro-ministro Shafik ameaçou renunciar e fez um pedido de desculpas em público, EUA e Europa se pronunciaram condenando a prisão de jornalistas e pedindo transição “rápida”: não dá mais para esperar até setembro.

A lógica dos EUA é clara: quanto mais Mubarak resistir, mais antiocidental será o regime que o suceder. Mas o tipo de transição que os EUA gostariam de garantir já não é um sonho? Mais de uma vez, um ditador longamente apoiado por Washington e derrubado por um movimento popular foi sucedido por um regime democrático amigável para com o Ocidente – por exemplo, a queda de Ferdinand Marcos, em 1986, e de Mohamed Suharto, em 1998. Mas, neste caso, é improvável que qualquer governo democraticamente eleito seja tão dócil aos EUA e a Israel quanto Mubarak. E não é impossível que seja hostil.

No Irã, a insurreição do Egito recebeu apoio tanto do governo conservador de Mahmoud Ahmadinejad quanto de Mir-Hossein Mousavi, o principal líder da oposição tida (indevidamente) como liberal. Os primeiros veem no movimento do Cairo uma repetição da revolução islâmica do Irã de 1979 e, os segundos, da “onda verde” do Irã de 2009. Nos EUA e em Israel, uma divergência similar de interpretação opõe conservadores e liberais, ainda que os primeiros, ao contrário de seus similares iranianos, considerem aterradora a perspectiva.

Qual análise é a mais realista? Em favor dos liberais, diga-se que as manifestações foram iniciadas por estudantes aparentemente laicos, que não se ouvem palavras de ordem fundamentalistas nos protestos contra Mubarak, que neles participam tanto muçulmanos quanto cristãos coptas e que os líderes da Fraternidade Islâmica têm sido cautelosos. Só apoiaram os protestos depois de iniciados e têm participado da coalizão da oposição liderada pelo líder laico Mohamed El-Baradei sem parecer pretender um papel dominante.

Há muito “parece” nesse parágrafo, e não sem razão. O olhar dos observadores ocidentais, principalmente os jornalistas, tende a dar um peso desproporcional a líderes, intelectuais, blogueiros e tuiteiros que sabem se expressar em inglês – que frequentemente são oposicionistas sinceros e até radicais, mas tendem a ser mais ocidentalizados e liberais que as massas e não necessariamente representam seu sentimento.

Sob a superfície, outras correntes podem ser mais poderosas. Uma pesquisa da Pew Research (instituição presidida por Madeleine Albright, ex-secretária de Estado de Bill Clinton), conduzida em maio de 2010 e publicada em dezembro do mesmo ano em sete países islâmicos, mostrou que a maioria dos muçulmanos egípcios tende ao islamismo político.

Os egípcios estão divididos 48% a 49% entre os que consideram o atual papel do Islã na política grande ou pequeno. Dos 48% que o julgam já “grande”, 95% acham isso bom. Dos que acham pequeno, 80% não estão satisfeitos com o quadro. Noves fora, 85% consideram positiva a influência do Islã na política – bem mais do que, por exemplo, no Paquistão (68%), Líbano (58%) ou Turquia (38%) – e só 2% a julgam ruim, menos que em qualquer outro país pesquisado, o que inclui Indonésia, Nigéria e Jordânia. Nada menos de 82% apoiam a punição do adultério com apedrejamento, 77% a punição do roubo com açoite ou amputação de mãos, 84% a pena de morte para a apostasia e 54% a segregação de homens e mulheres no local de trabalho, porcentagens sempre em primeiro ou segundo lugar entre os países pesquisados.

São 59% os que preferem a democracia a qualquer outro tipo de governo – uma maioria, mas inferior à de outros países, exceto Paquistão. Só 20% aplaudem a Al-Qae-da e 19% o Hezbollah, mas 49% simpatizam com o Hamas, que historicamente surgiu da Fraternidade Islâmica, a qual venceu pelo menos metade das eleições das quais Mubarak permitiu que participasse.

Os egípcios parecem tender a uma democracia islâmica e não liberal, e vale lembrar que, com todas as limitações, o Irã tem eleições mais reais que o Egito ou qualquer país árabe, exceto o Líbano. As semelhanças com o Irã também incluem a presença de uma considerável mão de obra feminina, de um movimento trabalhista significativo (e em boa parte islâmico, ainda que moderado) e uma forte identidade nacional.

Por outro lado, o Egito difere do Irã por uma minoria não muçulmana grande e influente: os coptas representam pelo menos 10% da população, com uma representação mais que proporcional nas classes média e alta, inclusive os artesãos e comerciantes do “bazar”, cuja hostilidade à modernização e à concorrência do capital ocidental foi decisiva em Teerã. No Egito, essa camada é mais ocidentalizada e dependente do turismo.

O islamismo sunita, predominante no Egito, não é necessariamente mais moderado que o xiita do Irã – Osama bin Laden e o Taleban que o digam –, mas é mais plural e menos hierarquizado, o que dificulta a estruturação de um regime teocrático. Mas que não haja um “aiatolá Khomeini” é uma meia-verdade: embora não tenha autoridade formal sobre o Islã ou a Fraternidade Islâmica, o teólogo egípcio Yusuf al-Qaradawi, exilado no Catar desde 1961, foi em 2008 classificado pela revista Foreign Policy como o terceiro intelectual mais influente no mundo. Não é o único líder religioso relevante, mas sua voz se fez ouvir sobre a dos demais, ao condenar o regime Mubarak e declarar haram (religiosamente proibida) a repressão aos manifestantes. Tem uma audiência de 40 milhões na Al-Jazira, é hostil a Israel e foi proibido de pisar nos EUA e no Reino Unido por elogiar o “martírio” dos homens-bomba palestinos.

Não que seja o único: para a diplomacia e a inteligência de Israel, só o “círculo interno” de Mubarak está comprometido com a paz. Não confiam em El-Baradei, visto pela imprensa ocidental como a esperança laica e democrática. Sua gestão na Agência Internacional de Energia Atômica, de 1997 a 2009, lhe rendeu o Nobel da Paz de 2005, mas também uma série de atritos com o Estado judeu, que culminou em 2007, quando acusou Tel-Aviv de violar a lei internacional ao bombardear as instalações nucleares da Síria e Ehud Olmert pediu sua demissão. El-Baradei também atacou a invasão do Iraque, criticou os exageros do Ocidente quanto à suposta ameaça nuclear do Irã e os diferentes pesos e medidas aplicados a Israel, que se recusa a aderir ao tratado de não proliferação, e que ele apontou como a maior ameaça à paz no Oriente Médio.

Mesmo que o resultado não seja uma teocracia nem uma declaração de guerra a Israel, a queda de Mubarak – se for mais que a farsa de uma substituição por um Suleiman ou Shafik – mudará a face da região. Depois de romper com a Turquia, Israel perderá seu último apoio na região, ficando mais isolado do que nunca. Seus navios e submarinos não mais poderão passar por Suez e o gás natural deixará de ser fornecido a preços camaradas. Pode ser também o fim definitivo das negociações por um Estado palestino independente, deixando Israel à deriva, em uma rota suicida.

Fonte: Carta Capital

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Orwell estava certo, Huxley também...





Published on Monday, December 27, 2010 by TruthDig.com

2011: A Brave New Dystopia

by Chris Hedges


As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Brave New World. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.

Temos sido gradualmente desempoderados por um estado corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Brave New World para 1984. O estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.

[...]

Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão. Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.

“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.

O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O estado corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.

O estado corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Brave New World, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.

O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.

Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , seja no noticiário noturno ou nos programas como “Oprah”, nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.

Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.

[...]

A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Brave New World de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.

O estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.

Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.

A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.

Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.

“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.

O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.

Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR. A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.

“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.

Fonte: Viomundo

domingo, 8 de agosto de 2010

Santos do pau-oco, os verdadeiros terroristas!


Os rapazes da foto tem origem nas chamadas boas famílias de classe média, branca, cristã, protestante e que tiveram acesso a boas escolas e à academia militar da força aérea estadunidense. Qualquer mãe gostaria de ter como genro um rapaz destes - não é assim que se diz?

Entretanto, se tratam de perigosos terroristas. Minutos depois de posar para esta fotografia histórica, eles movimentaram uma fabulosa máquina de morte e destruição que matou na hora cerca de 140 mil pessoas (98% de civis) em Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945, há 65 anos.

O do centro, fumando cachimbo, é o piloto Paul Tibbets do avião B-29, o Enola Gay, que acionou o mecanismo que liberou a bomba nuclear sobre a cidade japonesa, e que a destruiu minutos depois, deixando-a contaminada com a letal poeira atômica, carninogênica e teratogênica.

Que diferença há entre esse pessoal cristão e os muçulmanos ortodoxos do talibã, por exemplo?

Muita diferença. Os talibãs - "fanáticos", como gosta de frisar a imprensa ocidental - lutam pela sua terra, pela sua cultura, pela sua crença religiosa e não invadem o país de ninguém.

Esses sete rapazinhos brancos lutavam pelo quê mesmo? Ah, sim, diziam-se guardiães da civilização ocidental, da sociedade de consumo e do capital e - claro - de um Deus branco, misericordioso e que prega o amor entre os mansos e humildes de coração.

Foto: AP/Força Aérea dos EUA

Fonte: Diário Gauche

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Europa está implodindo?

por Immanuel Wallerstein, no Esquerda.Net

A Europa teve os seus opositores desde o início da longa senda para a unificação. Houve muitos que a acharam impossível. E houve muitos que a consideraram indesejável. Ainda assim, temos de dizer que, no longo e sinuoso caminho que seguiu desde 1945, o projeto de unificação européia teve um notável sucesso. Afinal, a Europa fora dilacerada por conflitos nacionalistas durante pelo menos 500 anos, conflitos que culminaram na horrenda Segunda Guerra Mundial. E a vingança parecia ser o sentimento dominante. Em 2010, o que hoje se chama União Européia (UE) alberga uma moeda única, o euro, usada em 16 países. Tem também uma zona de 25 membros, chamada Schengen, que permite uma forma de livre circulação, sem vistos. Tem uma burocracia central, um tribunal de direitos humanos, e está a caminho de ter um presidente e um ministro de Relações Exteriores.
Não se deveria exagerar a força destas estruturas, mas não se deveria também subestimar até que ponto tudo isto representou, para o bem ou para o mal, a superação da resistência nacionalista por toda a Europa, especialmente em alguns dos estados mais fortes. Contudo, também acontece que neste momento, em certos aspectos importantes, a Europa parece prestes a implodir. As palavras-chave desta implosão são “Grécia” e “Bélgica”.
A Grécia, como todo o mundo sabe, atravessa uma crise severa da sua dívida soberana. A Moody declarou que os títulos gregos estatais são lixo (junk bonds). O primeiro-ministro George Papandreou disse, muito relutantemente, que teria provavelmente de buscar o Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter um empréstimo, um empréstimo que implica as habituais condições que exigem formas específicas de reestruturação neoliberal. Esta idéia é muito impopular na Grécia – um ataque à soberania grega, ao orgulho grego, e especialmente aos bolsos gregos. Também foi acolhida com desânimo em muitos estados europeus, que consideram que a ajuda à Grécia deveria vir, em primeiro lugar, dos outros membros da UE.
A explicação deste cenário é bastante simples. A Grécia tem um grande déficit orçamentário. Como o país é parte da zona euro, não pode desvalorizar a moeda para aliviar o problema. Por isso, precisa de ajuda financeira. O país maior e mais rico da Europa, a Alemanha, tem sido muito relutante, para não dizer pior, em dar essa ajuda. O povo alemão opõe-se fortemente a ajudar a Grécia, basicamente por um reflexo protecionista num momento de tensão europeia. Teme também que a Grécia seja o primeiro de uma fila de outros (Portugal, Espanha, Irlanda, e Itália) que façam pedidos semelhantes se a Grécia obtiver essa ajuda.
O povo alemão parece desejar que todos os problemas desapareçam, ou pelo menos que a Grécia de alguma forma seja expulsa da zona euro. Para além do fato de isto ser legalmente impossível, o país que mais sofreria as conseqüências disto, depois da Grécia, seria certamente a Alemanha, cuja riqueza econômica é amplamente baseada no forte mercado exportador que possui no interior da zona euro. Assim, de momento, parecemos estar num impasse. E os abutres do mercado pairam sobre os países da zona euro que estão em dificuldades com sua dívida soberana.
No meio disto, a agora perene crise belga voltou a manifestar-se de forma particularmente aguda. A Bélgica, como país, chegou à existência como resultado de políticas pan-europeias. O colapso do império Habsburgo de Carlos V resultou na partição dos chamados Países Baixos da Borgonha nas Províncias Unidas no Norte e nos Países Baixos Austríacos no Sul. As Guerras Napoleonicas levaram a que as duas partes se unissem de novo no restaurado Reino dos Países Baixos. E os conflitos europeus de 1830 levaram mais uma vez à divisão das duas partes, com a criação da Bélgica, mais ou menos no que outrora tinham sido os Países Baixos Austríacos, com um rei importado de fora.
A Bélgica sempre foi um composto de “Flamengos” de fala holandesa e de “Valões” de língua francesa, em grande parte, mas imperfeitamente localizados em dois diferentes setores geográficos (o norte e o sul da Bélgica). Há também uma pequena zona de fala alemã.
Até 1945, os valões eram os mais ricos e educados, e controlavam as principais instituições do país. O nacionalismo flamengo nasceu como a voz dos desfavorecidos lutando pelos seus direitos políticos, econômicos e lingüísticos. Depois de 1945, a economia belga sofreu uma mudança estrutural. As áreas dos valões perderam e as áreas flamengas ganharam força. A política belga, em conseqüência, tornou-se uma luta infindável dos flamengos para obter mais direitos políticos – devolução de poderes, com muitos tendo o objetivo final de dissolver a Bélgica em dois países.
Pouco a pouco, os flamengos foram obtendo mais e mais. Hoje, a Bélgica, como país, tem uma monarquia comum, um ministro das Relações Exteriores comum e muito pouco mais. A questão problemática neste acordo é que a Bélgica é hoje um estado confederado, com três, não duas, regiões – Flandres, Valônia, e Bruxelas (a capital).
Bruxelas não é só a capital da Bélgica. É a capital da Europa, a sede da Comissão Europeia. Bruxelas é também uma cidade bilíngüe. E os flamengos insistem em torná-la menos. O problema é que, mesmo que houvesse um acordo para a dissolução da Bélgica, não haveria uma forma fácil de chegar a acordo sobre o destino de Bruxelas.
A última negociação foi tão intratável que o Le Soir, o principal jornal de língua francesa, proclamou que “a Bélgica morreu em 22 de Abril de 2010″. O principal editorialista perguntou: “Este país ainda faz sentido?” No momento, o rei está tentando, talvez em vão, recriar o governo. Pode ser forçado a convocar novas eleições, sem muitas esperanças de que estas produzam um parlamento realmente diferente. Em 1 de julho, a Bélgica assume a presidência rotativa, de seis meses, da UE, e não é certo que haja um primeiro-ministro belga que a presida.
O problema grego é o problema da propagação. Não haverá uma réplica das dificuldades – se é que isso já não acontece – noutros países da Europa? Será que o euro pode sobreviver? O problema belga apresenta contudo, um ainda maior problema de propagação. Se a Bélgica se divide, e ambas as partes serão então membros da UE, não haverá outros estados pensando em dividir-se? Afinal, existem importantes movimentos secessionistas ou quase secessionistas em muitos países da UE. A crise belga pode facilmente tornar-se a crise da Europa.
Das duas ameaças de implosão, aquela simbolizada pela Grécia é a mais fácil de resolver. Basicamente, é necessário que a Alemanha compreenda que as suas necessidades são melhor preenchidas pelo protecionismo europeu que pelo protecionismo alemão.
A crise belga coloca uma questão muito mais fundamental. Se a Europa estivesse disposta, imediatamente, a avançar para um verdadeiro estado federativo, poderia acomodar a explosão de qualquer dos seus estados existentes. Mas, até agora, não se mostrou disposta a isso. E as dificuldades econômicas mundiais coletivas reforçaram em muito os estreitos elementos nacionalistas em virtualmente todo país europeu, como demonstraram todas as recentes eleições. Sem uma forte federação européia, seria extremamente difícil que a Europa sobrevivesse a uma corrente de divisões. No meio da destruição política, a Europa poderia ir pelo cano abaixo.
Há uma certa Schadenfreude (alegria mordaz) entre os políticos americanos acerca das dificuldades européias. Porém, o que pode salvar a Europa da implosão é precisamente a sempre crescente ameaça de implosão dos Estados Unidos. A Europa e os Estados Unidos estão numa gangorra, na qual enquanto um sobe, o outro desce. Que resultado isto vai ter nos próximos dois a cinco anos é tudo menos claro.

Fonte: Viomundo / Esquerda.net

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Lei Áurea, 122. Conheça o escravo de hoje


por Leonardo Sakamoto


Há exatos 122 anos, era declarada ilegal a propriedade de um ser humano sobre outro no Brasil.

Contudo, a Lei Áurea – curta, grossa e lacônica – não previu nenhuma forma de inserir milhões de recém-libertos como cidadãos do pais, muitos menos alguma compensação pelos anos de cárcere para que pudessem começar uma vida independente. Para substituir os escravos, veio a imigração de mão-de-obra estrangeira, agora assalariada. Os fazendeiros não precisavam mais comprar trabalhadores, podiam apenas pagar-lhes o mínimo necessário à subsistência. Ou nem isso.

Enquanto isso, o trabalho escravo moderno deu lugar a formas contemporâneas de escravidão, em que trata-se o trabalhador como animal, explora-se sua força física aos limites da exaustão e cria-se maneiras de prendê-lo à terra, seja por dívidas ilegais, seja por qualquer outra forma. Para isso, são usadas ameaças e violência como estratégias de convencimento. No passado, sentiram isso na pele imigrantes europeus nos cafezais do Sudeste e migrantes nordestinos nos seringais do Norte. Ainda hoje, são vitimas da escravidão contemporânea milhares de trabalhadores pobres em fazendas de gado, soja, algodão, milho, arroz, cana-de-açúcar, carvoarias, oficinas de costura, pátios de obras de hidrelétricas.

Qual o perfil desse escravo de hoje? Desde 1995, quando o governo federal criou os grupos móveis de fiscalização que verificam denunciam e libertam trabalhadores, 37.205 foram oficialmente retirados dessas condições. Se considerarmos os trabalhadores rurais resgatados entre 2003 e 2009 (descontando o trabalho escravo urbano e o voltado para exploração sexual), temos Maranhão, Pará, Bahia e Mato Grosso do Sul como principais fontes de escravos; uma maioria de homens (95%); a ausência de formação – 40% analfabetos e 28% apenas com a 4ª série incompleta; 63% entre 18 e 34 anos – ou seja, no auge de sua força física, podendo entregá-la aos empregadores.

Saem de regiões pobres para procurar empregos em outros lugares fugindo da pobreza e da falta de oportunidades melhores. A fronteira agrícola amazônica tem sido, historicamente, Pará à frente, o principal destino desses trabalhadores. O município de São Félix do Xingu (PA) é campeão no número de casos de fiscalização desse crime. A fazenda e usina Pagrisa, em Ulianópolis (PA), foi palco da maior libertação até agora com 1.064 pessoas resgatadas. Mas resgates já foram realizados do Rio Grande do Sul a Roraima, passando por São Paulo e Rio de Janeiro, mostrando que o problema é nacional.

Vamos dar um passo atrás e ver e ver de onde vem essa herança maldita. Em 1850, o governo brasileiro finalmente adota ações eficazes para coibir o tráfico transatlântico de escravos após pressão inglesa. Nos anos seguintes, foram tomadas medidas que libertaram crianças e sexagenários. O que, na verdade, serviu apenas como distrações para postergar o fim da escravidão. Os escravos que conseguiam chegar aos 60 anos já não tinham condições de trabalho e eram um “estorvo” financeiro para muitos fazendeiros que os sustentavam. Já os filhos dos escravos não possuíam autonomia para viver sozinhos. Muitos, até completarem 18 anos, foram tutelados (e explorados) pelos proprietários de seus pais.

Mas, por mais que fosse postergada, com o fim do tráfico transatlântico, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição total?

Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não cedê-las como era feito até então. O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de capital para a ampliação de seus domínios – ainda mais com os excedentes que deixaram de ser invertidos com o fim do tráfico. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição.

As legislações que se sucederam a ela e trataram do assunto apenas reafirmaram medidas para garantir a existência de um contingente reserva de mão-de-obra sem acesso à terra, mantendo baixo o nível de remuneração e de condições de trabalho. Com a Lei de 1850 estava formatada uma nova estrutura – em substituição àquela que seria extinta em maio de 1888 – para sujeitar os trabalhadores.

O fim da escravidão não representou a melhoria na qualidade de vida de muitos trabalhadores rurais, uma vez que o desenvolvimento de um número considerável de empreendimentos continuou a se alimentar de formas de exploração semelhantes ao período da escravidão como forma de garantir uma margem de lucro maior ao empreendimento ou mesmo lhe dar competitividade para a concorrência no mercado. Governo e sociedade têm obtido vitórias no combate a esse crime, atacando o tripé que o sustenta (impunidade, ganância e pobreza). Mas sua erradicação ainda é um sonho distante.

Para além dos efeitos da Lei Áurea que completa 122 anos, trabalhadores rurais do Brasil ainda vivem atualmente sob a ameaça do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.

Fonte: Blog do Sakamoto

122 anos de 13 de maio - parte I




Renda de negros cresce 222% em 8 anos


Os consumidores negros e pardos devem fechar 2010 com uma renda de R$ 546 bilhões no bolso, o que equivale a 40% do total previsto para todas as famílias (negras e não negras) do país, de R$ 1,38 trilhão.

Isso significa que, a cada R$ 10 disponíveis para o consumo neste ano no Brasil, R$ 4 estarão em poder de trabalhadores negros e pardos (com ou sem carteira assinada). No total da população, eles representam 51%. Em 1998, eram 45%.

As projeções da renda disponível neste ano foram feitas pelo Data Popular, instituto de pesquisas e consultoria, a partir dos rendimentos das famílias da Pnad de 2008, última disponível pelo IBGE.

Os valores foram atualizados para 2010 e consideram a inflação medida pelo IPCA no período, os reajustes concedidos ao salário mínimo nos últimos dois anos e a previsão de crescimento do país de 5% neste ano.

Em 2002, a massa de renda total de negros e pardos foi de R$ 170 bilhões. Se confirmada a previsão deste ano (R$ 546 bilhões), o crescimento será de 222% em relação àquele ano.

O resultado chama a atenção porque o salário de um negro ainda é cerca da metade do de um branco. Mesmo assim, a massa de renda dos negros já representa 40% do total.

O que explica essa aparente contradição é que no total de rendimentos das famílias não entram somente salários. No cálculo estão todas as fontes de receita -como trabalhos avulsos (bicos) e temporários.

A disparidade salarial obrigou as famílias negras a estimularem também o trabalho de crianças e adolescentes para complementar a renda.

"Em uma família branca, que, em geral, é menos numerosa, é comum encontrar só o pai como gerador de renda", diz Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto. "Na família negra, os filhos trabalham. Se não for assim, não terão como pagar a faculdade e melhorar de vida."

O aumento de emprego formal e o maior acesso à educação e ao crédito são as principais razões para explicar a alta no poder de consumo dos negros. De 1998 a 2008, a proporção de negros e pardos com ensino superior completo no total de adultos (25 anos ou mais) passou de 2,2% para 4,7%.

"As políticas públicas que vêm sendo desenvolvidas desde o final do governo FHC também contribuem para ajudar na inserção do negro no mercado de trabalho", diz Meirelles.

"Antes, havia mais negros na informalidade, com renda ainda menor. Hoje não há como falar sobre a nova classe média brasileira sem falar no negro."

A classe C negra deve ter disponível renda de R$ 187 bilhões neste ano -ou 43,8% da renda total prevista para a classe C (com renda de 3 a 10 mínimos).

Mas as empresas ainda estão longe de atender ao anseio desse consumidor. "Ter uma política de inclusão não significa somente ter um sabonete específico ou colocar o negro como garoto-propaganda. Isso é um avanço, mas é preciso entender os valores e a cultura negra."

Alcir Gomes Leite, diretor-executivo e sócio da DM9, diz que empresas e marcas estão "aprendendo" a olhar para a classe C independentemente de sua cor.

"Ainda existem erros absurdos de criar estereótipos para essa classe, que tem hábitos e um jeito próprio de ser. O Brasil é um país de classes C e D, acho estranho considerar que são nichos de mercado."

122 anos de 13 de maio... Parte II




DE CADA 4 TRABALHADORES LIBERTADOS NO PAÍS, 3 SÃO PRETOS OU PARDOS, DIZ ESTUDO DE ECONOMISTA DA UFRJ

por ANTÔNIO GOIS


Passados 122 anos desde a Lei Áurea, 3 em cada 4 trabalhadores libertados de situações análogas à escravidão hoje são pretos ou pardos.

É o que mostra um estudo do economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, feito a partir do cadastro de beneficiados pelo Bolsa Família incluídos no programa após ações de fiscalização que flagraram trabalhadores em situações que, para a ONU, são consideradas formas contemporâneas de escravidão.

São pessoas trabalhando em situações degradantes, com jornada exaustiva, dívidas com o empregador -que o impedem de largar o posto- e correndo riscos de serem mortas.

Paixão, que publica anualmente um Relatório de Desigualdades Raciais (ed. Garamond), diz que foi a primeira vez em que conseguiu investigar a cor ou raça desses trabalhadores, graças à inclusão do grupo no Bolsa Família.

Os autodeclarados pretos e pardos -que Paixão soma em seu estudo, classificando como negros- representavam 73% desse grupo, apesar de serem 51% da população total do Brasil. Tal como nas pesquisas do IBGE, é o próprio entrevistado que, a partir de cinco opções (branco, preto, pardo, amarelo ou indígena) define sua cor.

Para o economista, “a cor do escravo de ontem se reproduz nos dias de hoje. Os negros e índios, escravos do passado, continuam sendo alvo de situações em que são obrigados a trabalhar sem direito ao próprio salário. É como se a escravidão se mantivesse como memória”.

Pretos e pardos são maioria entre a população mais pobre. Segundo o IBGE, entre os brasileiros que se encontravam entre os 10% mais pobres, 74% se diziam pretos ou pardos.

Para Paixão, ainda que hoje a cor não seja o único fator a determinar que um trabalhador esteja numa condição análoga à escravidão, o dado sugere que ser preto ou pardo eleva consideravalmente a probabilidade.

Em tempo: em entrevista à Record News, nesta última terça-feira, a professora Flávia Piovesan, especialista em direitos humanos, contou que estudo do professor Paixão mostra que no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU), o Brasil está em 70º. lugar. Se o Brasil fosse só de brancos, o IDH pularia para o 30º. lugar. Se fosse só de negros, cairia para 104º. lugar. Não, nós não somos racistas.

A propósito, também como singela homenagem a Kamel, clique aqui para ler o post sobre o artigo de Maria Rita Kehl, no Estadão, em que ela associa a decisão do Supremo sobre a Anistia ao assassinato sob tortura de um motoboy, num quartel da PM de Serra, em SP.

terça-feira, 2 de março de 2010

Israel e seus vizinhos




Por Michael Neumann


Nos últimos anos, o sionismo e a ocupação têm sido criticados. A fala laudatória dos EUA pró-Israel não deve enganar ninguém: a maioria, em todo o mundo, está ouvindo também as críticas a Israel, e mais as críticas que a louvação. Mesmo aliados pressupostos eternos e inabaláveis de Israel sabem que é preciso por fim à ocupação da Palestina; a maioria dos israelenses também pensa assim.

Por mais que a maioria dos críticos mais azedos goste de pensar que não, o governo dos EUA – o braço executivo do governo, com certeza – já aprendeu que sim, é preciso por fim à ocupação da Palestina. Quanto à imensa ajuda que não para de chegar a Israel, é preciso considerar dois pontos. Primeiro, os EUA dão praticamente a mesma quantidade de dinheiro e de ajuda militar também aos Estados árabes e ao Paquistão – e vendem armamento de alta tecnologia aos Estados do Golfo. Segundo, a ajuda é parte de um patético esforço para subornar Israel e tentar que encontrem alguma espécie de acomodação razoável com o mundo árabe.

Para uns, a tentativa é patética, porque falsa. Essa visão é perversamente otimista e pressupõe um componente de fé curiosamente abundante na esquerda: a idéia de que os EUA sejam um colosso que poderia, num estalar de dedos, submeter todos os pigmeus que os cercam. Pense-se o que se pensar sobre o poder dos EUA em geral, essa idéia não se aplica ao relacionamento com Israel. Nem o poder de todo o mundo ocidental bastará para submeter Israel.

Israel não é apenas potência nuclear: é uma das principais potências nucleares do planeta. Ainda mais: é a única potência nuclear que brinca com a possibilidade de usar armas atômicas, mesmo que isso implique suicídio. Os estrategistas de Israel, talvez certos de contar com a aprovação divina, chamam a isso “opção Sansão”. Com um pouco de loucura e sorte, Israel pode, sim, detonar um muito assustador primeiro ataque nuclear contra qualquer potência da Terra. Não o fará, é claro, mas esse “é claro” depende de todos termos certeza de que nenhuma potência nuclear usará força militar para obrigar Israel a fazer seja lá o que for. No caso de Israel, nenhuma pressão implica suficiente pressão.
O que aconteceria, então, se os EUA fechassem a torneira da ajuda a Israel? Os que criticam Israel, inclusive alguns israelenses, mostram-se cada dia mais furiosos em sua exigência de que se feche, de vez, aquela torneira. Outra vez, o mesmo otimismo perverso.

Não há dúvidas de que Israel considera imensamente conveniente a ajuda que recebe dos EUA. Mas os EUA também consideram Israel imensamente conveniente. O establishment de defesa israelense não só produz, mas também desenvolve muitas capacidades que são vitalmente importantes para os EUA, dentre as quais os sistemas anti-mísseis, os robôs teleguiados (drones) e inúmeras soluções de ‘ciber-armas’. Por isso, sanções econômicas não funcionarão contra Israel. O país é dono de tecnologia abundantíssima e de armas e equipamento bélico que o mundo faria fila para comprar, praticamente a qualquer preço. Israel não é capaz apenas de sustentar-se financeiramente e economicamente; pode fazê-lo por vias comerciais catastróficas para o Ocidente e contra as quais o Ocidente nada poderia fazer.

Nada disso significa que o conflito Israel/Palestina seja insolúvel. Significa, isso sim, que a solução, seja qual for, não está em "nossas" mãos – dos que criticam, com certeza; mas tampouco está nas mãos das potências ocidentais.

A solução, seja qual for, terá de ser construída em contexto de real equilíbrio de poder no Oriente Médio. A possibilidade de que se alcance esse equilíbrio não é completamente inexistente ou obscura, mas envolve realidades que poucos desejam encarar.

Na melhor (!) das hipóteses, a possibilidade de paz, de fim do "terror" israelense/palestino, está nas mãos dos supostos terroristas, do Hizbollah e seus patrocinadores, entre os quais o Irã. É possível que o Hizbollah tenha poder suficiente para conseguir que os israelenses, como os brancos da África do Sul, sejam obrigados a ler nos muros e encontrem meio de conviver com o povo conquistado. Até a próxima guerra contra o Líbano, ninguém pode avaliar com certeza em que pé está essa correlação de forças.

Mas há outra possibilidade, mais assustadora. E só se converterá em menos assustadora se o Ocidente curvar-se ante o inevitável.

O mundo "árabe", como o Irã, com certeza sabe o quanto é esmagadora e perigosa a vantagem nuclear com que Israel conta. Mas esses países ainda não têm capacidade militar para enfrentar Israel, nem têm poder político para conseguir que outros países o enfrentem. O que acontecerá se se criarem os meios necessários para gerar esse poder político?

De fato, esses meios já estão disponíveis.

Hoje, o mundo – portanto, também o mundo "árabe" – sabe que o Ocidente jamais, nunca, em tempo algum, agirá contra Israel: todas as oportunidades para fazê-lo já vieram e já foram. Mais cedo ou mais tarde, o contexto empurrará cada um dos vizinhos a tentar, cada um, sua alternativa única ou individual. É alternativa cara, não apenas em dólares, mas também, muito provavelmente, em vidas humanas.

As nações árabes e o Irã acabarão por acionar seus direitos de não obedecer aos tratados de não-proliferação de armas nucleares. (São acordos escandalosos, em todos os casos, porque seu único efeito é proteger Israel contra qualquer competição, ao mesmo tempo em que garantem ao país uma carta branca na arena nuclear.) O mundo árabe, provavelmente com apoio de outras nações, poderá então investir num programa coletivo de pesquisa e desenvolvimento de usos da energia nuclear, com o objetivo declarado e explícito de construir tanto meios de defesa e segurança, como meios de uso civil da energia nuclear.

O simples anúncio desses planos – com os efeitos que terão sobre a moral israelense e a convicção do Ocidente – pode gerar resultados consideráveis, praticamente sem custo algum para ninguém. Se Israel persistir em sua obstinação, tratar-se-á de fazer andar os planos, aumentando sempre a pressão no sentido de que se encontre – ou se imponha – uma solução para o conflito Israel/Palestina.

É possível que essa idéia soe a muitos ouvidos como puro extremismo enlouquecido. De fato, o maior extremismo enlouquecido é deixar que Israel primeiro desenvolva e depois ostente suas bombas atômicas, ao mesmo tempo em que a mesma Israel amarra mãos e pés de suas vítimas potenciais. Para desatar essas amarras, basta voltar à política do equilíbrio de poderes que, por séculos, foi considerada a melhor garantia para a paz.

Hoje, essa idéia ainda soa como mera fantasia. Mas o mundo árabe, com apoio do mundo muçulmano não-árabe, andará na direção de implantar essa estratégia no reino das possibilidades reais. Coletivamente, aquelas nações têm toda a riqueza e as habilidades técnicas necessárias. Cada dia mais, todos se dão conta da imperiosa necessidade de por de lado as animosidades e trabalhar pela paz. Deve-se esperar que o mundo árabe, com apoio do mundo muçulmano não-árabe, canse-se, definitivamente, de ser tratado com violência e desprezo.

E qual o papel do ocidente, em tudo isso? Se for incapaz de qualquer participação mais ativa, basta que não se meta. Se insistir, haverá ranger de dentes, sangue, histeria, epilepsia moral. Talvez, depois, a loucura passe e o Ocidente consiga voltar a fazer o que fez tão bem, por tanto tempo: nada.

Tradução de Caia Fittipaldi. O artigo original, em inglês, pode ser lido em: http://www.counterpunch.org/neumann02222010.html
*Michael Neumann é professor de filosofia na Trent University em Ontario, Canadá. É autor de What's Left: Radical Politics and the Radical Psyche and The Case Against Israel e de “What is Anti-Semitism”, em The Politics of Anti-Semitism editado pela editora Counterpunch, NY. Recebe e-mails em mneumann@live.com
Fonte: Revista Fórum

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Alimentação através dos tempos - parte 1


A alimentação é talvez a prática cultural mais singular levada a efeito pelo ser humano. É o que o distingue das demais espécies por meio da cultura. Como se alimenta, de que se alimenta, de que modo e com quem se alimenta, quem alimenta quem e muitas outras questões são atualmente levantadas por inúmeros investigadores das Ciências Humanas que desejam fazer abordagens mais aprofundadas do modo de vida de uma sociedade, já que a questão da alimentação é extremamente ampla e envolve inúmeros desencadeamentos pelos quais abrangem o âmbito da técnica, do comportamento, das crenças, da política, da economia, da sociabilidade, da economia, enfim, por todos os aspectos culturais inerentes ao homem. Portanto, percebemos que a alimentação é um fator importantíssimo para a humanidade, não tanto no sentido biológico, mas principalmente no sentido cultural do termo, e, desse modo, um campo de pesquisa vastíssimo para entender o modo de vida da humanidade ao longo da História.
Segundo os organizadores do livro “A história da Alimentação”, J. L. Flandrin e M. Montanari, a História deve abordar as estruturas do cotidiano. Assim, a História, juntamente com a Antropologia e secundadas pela Arqueologia, agindo através de uma abordagem interdisciplinar, fazem da história da alimentação um dos campos mais atuantes para o entendimento do cotidiano de diversas sociedades. Segundo aqueles autores, os hábitos e costumes cotidianos mudam no contexto da longa duração e a Nova História, com seus novos problemas e novas abordagens, teve uma postura diferenciada nestes últimos tempos em relação a este e a outros temas. Desse modo, a abordagem feita atualmente difere um pouco daquela feita na década de 1960 e final dos anos 70. Esta “nova história (...) pretende abarcar todos os aspectos da ação e do pensamento humano” (FLANDRIN, J-L. & MONTANARI, M., 1998, p. 22).


Alimentação através dos tempos - parte 2


Mireille Corbier é exemplo de pesquisadora cuja metodologia procura esta abordagem interdisciplinar e cujo objeto de pesquisa é a questão cultural, em todas as suas implicações (cf. LEACH: 1986). Diretora de pesquisa do Centre Nacional de Recherche Scientifique, Corbier produziu um texto muito interessante na obra compilada por Flandrin e Montanari, no qual a autora investiga os hábitos alimentares da Antiga sociedade romana. Pesquisadora no campo da História ela está, portanto, preocupada em investigar a complexidade de uma sociedade, no caso a Roma Antiga, observando seus hábitos alimentares e seu comportamento social: “Dize-me o que comes [e com quem comes,] e dir-te-ei quem és” (cf. BUSTAMANTE: 2003, p. 95). Corbier procura entender as diversas hierarquias sociais daquela sociedade a partir de seus hábitos e necessidades alimentares. A autora demonstra que os romanos foram adquirindo tais hábitos e necessidades conforme a expansão do território e os contatos culturais com outros povos. Temos, portanto, uma hierarquia dos alimentos que fora construída ao longo dos tempos. Os romanos, de simples “comedores de fava”, passaram a adquirir costumes cada vez mais diversificados e sofisticados. Daí, como afirma a autora, uma diferenciação social na ingestão dos alimentos: a comida do aristocrata não era a mesma do soldado, que não era a mesma do escravo, a qual era diferente da do camponês, etc., e mesmo no interior das próprias camadas sociais, os alimentos variavam entre si, dependendo da região, da ocasião, das oportunidades, e inúmeros outros fatores. Corbier descreve em seu texto todo o percurso feito pelos alimentos, do produtor ao consumidor. Neste aspecto, a autora enfatiza primeiramente a característica mediterrânea da alimentação romana, associada a cereais, vinho, óleo, legumes e frutas secas ou frescas, açúcar de frutas, mel, leite, queijo, carne e peixes (CORBIER: 1998, p. 219-220); a autora rejeita a idéia de que os romanos só comiam carne proveniente de sacrifícios e da caça, e mostra como que, com o tempo, a carne passou a fazer parte do cardápio romano.

Alimentação através dos tempos - parte 3


Outro ponto investigado por Corbier é o acesso aos alimentos no que diz respeito a “frumentária”, às doações e aos presentes, ao consumo de produção própria, ao mercado, ao gradativo abismo alimentar entre ricos e pobres com o passar dos tempos, à hierarquia social no comer, etc. Investiga também os modos de preparação; as qualidades, quantidades e partes; os temperos; o acesso desigual aos alimentos quentes; as infra-estruturas; os espaços e os lugares convivais. A pesquisadora afirma que o ideal de frugalidade era pouco respeitado; as proibições eram poucas, todavia, deveria haver moderação; às elites, por exemplo, era recomendável certo número de condutas, as quais restringiriam um pouco os excessos destas elites. As restrições aos soldados com relação aos pratos quentes eram dribladas pelo cozimento de seus próprios alimentos ou pela compra a vendedores ambulantes. O povo não tinha o banquete para as comensalidades domésticas e nem acesso a pratos quentes. Porém, em compensação a essas deficiências, freqüentava lugares onde podiam saborear os pratos (quentes) em companhia dos amigos: “Taberna e popina ilustram as possibilidades de uma desforra para recuperar o acesso aos valores dos quais o povo está excluído, principalmente a sociabilidade” (CORBIER: op.cit., p. 234). Os ricos, por sua vez, além de, não raramente, quebrarem as regras do ideal de frugalidade, muitas vezes eram vistos misturados a gentalha por prazer ou por necessidade. Como podemos perceber, segundo a autora, as práticas alimentares, muitas vezes, transgrediam as hierarquias sociais. Desse modo, a sociedade romana foi profundamente transformada pela importância crescente da moeda e pelo aumento espetacular das receitas, sendo que estas transformações foram percebidas na mudança em seus hábitos sociais, inclusive alimentares.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Alimentação através dos tempos - parte 4


O artigo de Mireille Corbier nos ajuda a debater, dentro do conceito de cultura sugerido por Edward Leach, a diversidade da sociedade romana, ajudando a compreendê-la. Os hábitos alimentares nos dizem muito sobre a cultura de uma sociedade. Desse modo, podemos fazer inferências a outras culturas e perceber ideologias, preconceitos, estranhamentos de uma sociedade em relação a outras nas diferenças alimentares. Um bom exemplo disto encontra-se na Odisséia de Homero, quando Odisseus astutamente embriaga o Ciclope, o qual, por ser bárbaro, não sabia misturar água ao vinho, e, desse modo, é ludibriado pelo herói (HOMERO, Odisséia IX, vv. 347-369).
Como foi anteriormente mencionado, a alimentação é questão básica que perpassa todos os modos de agir do homem no tempo. Uma questão tão importante para os gregos que, na mitologia, tratava-se de fator primordial para separar os homens dos deuses. Segundo Vernant, “os homens vão se alimentar de pão, vinho e carne ritualmente sacrificada, enquanto os deuses não se alimentam, ou melhor, eles absorvem um alimento de imortalidade, que lhes dá vitalidade interior, a qual, ao contrário da dos homens, jamais se esgota e desconhece o cansaço” (VERNANT, 2000, p. 33)
Assim, o tema tratado é de enorme pertinência para o estudo da cultura e da formação das sociedades a partir de seu cotidiano

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

AVATAR


A Liberdade é azul

Por André Leite

Marinheiros chegam a uma desconhecida colonização com a missão de explorar as riquezas do local e nativa se apaixona por um dos oficiais, que se revolta, após descobrir as reais intenções na tripulação... Pocahontas? Não;Avatar!

O filme não assume suas referências, mas nem precisava; eles não estavam brincando quando diziam que estávamos entrando num novo universo. O que vemos é de cair o queixo, pois o visual é magnífico e todo criado por computação, desde as plantas até o povo do planeta, causando um delírio visual de cores, formas e tipos, como os animais alados, mas parecidos com um antigo personagem do desenho animado dos Herculoides e os elefantes com a cabeça de tubarão-martelo. Veja em 3D, por favor, senão metade da brincadeira perderá a graça.

Mas e a história? Tenha a santa paciência! Depois de ter visto tudo isso, você ainda quer uma história? Avatar faz parte daquele tipo de produto nos quais as cenas são mero pretexto para originar grandes batalhas, voos descomunais e tudo mais que os olhares conseguirem captar. Quer um conselho? Vá ver o filme como quem fosse para um grande parque de diversões.

P.S. - Não concordo com o André. "Avatar" tem uma boa história, embora um pouco piegas (como todo produto hollywoodiano). Mostra o quanto a ganância capitalista do homem branco é burra, não enxergando a verdadeira riqueza contida na natureza. Mostra também que toda tecnologia humana é atrasada e nefasta. O homem moderno não consegue transpor sua própria mediocridade, impedindo-o de interagir com a Natureza e o Cosmo - como os "atrasados" povos da floresta já fazem a séculos!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pense no Haiti...

Os pecados do Haiti
por Eduardo Galeano

'Loteria', de Yordan Dabady.

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

'Cavalheiro bem apessoado', de Pierre Louis Riche.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilómetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

'A reunião', de Aland Estime.

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

'Lavadeiras', Watson Etienne. A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolíver, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete nave e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um génio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perdã por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Tempo e a História...

“Ciência dos homens”, dissemos. É ainda vago demais. É preciso acrescentar: “dos homens, no tempo”. O historiador não apenas pensa “humano”. A atmosfera em que seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração. Decerto, dificilmente imagina-se que uma ciência, qualquer que seja, possa abstrair do tempo. Entretanto, para muitas dentre elas, que, por convenção, o desintegram em fragmentos artificialmente homogêneos, ele representa apenas uma medida. Realidade concreta e viva, submetida à irreversibilidade de seu impulso, o tempo da história, ao contrário, é o próprio plasma em que se engastam os fenômenos e como o lugar de sua inteligibilidade. O número dos segundos, anos ou séculos que um corpo radioativo exige para se transformar em outros corpos é, para a atomística, um dado fundamental. Mas que está ou aquela dessas metamorfoses tenha ocorrido a mil anos, ontem ou hoje ou que deva se produzir amanhã, sem dúvida tal consideração interessaria ao geólogo, porque a geologia é, à sua maneira, uma disciplina histórica; ela deixa o físico frio como gelo. Nenhum historiador, em contrapartida, se contentará em constatar que César levou oito anos para conquistar a Gália e que foram necessários quinze anos a Lutero para que, do ortodoxo noviço de Erfurt, saísse o reformador de Wittenberg. Importa-lhe muito mais atribuir à conquista da Gália seu exato lugar cronológico nas vicissitudes das sociedades européias; e, sem absolutamente negar o que uma crise espiritual como a de irmão Martinho continha de eterno, só julgará ter prestado contas disso depois de ter fixado, com precisão, seu momento na curva dos destinos tanto do homem que foi seu herói como da civilização que teve como atmosfera.

(Marc Bloch, Apologia da História ou o ofício de historiador)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O visitante que veio da Pérsia


Postado originalmente em Boca no Trobone 2

Por Mauro Santayana, no Jornal do Brasil


A movimentação diplomática do Brasil, tendo à frente a personalidade peculiar de seu atual chefe de Estado, vem sendo criticada pela oposição e meios de comunicação, e de forma ainda mais contundente, quando se dispôs a receber o presidente do Irã. Houve passeatas, muito bem organizadas, com dísticos e faixas caras, contra o visitante. Não houve os mesmos protestos quando o presidente recebeu, há poucos dias, o presidente de Israel.

O presidente do Irã é alvo da ira geral do Ocidente porque, em seu confronto com Israel – única potência nuclear do Oriente Médio – nega o Holocausto. Ele se inclui entre os revisionistas, alguns alemães, outros ingleses, outros ainda da hierarquia da Igreja, que também negam a existência dos campos de extermínio, ou tentam diminuir o número de mortos, judeus e não judeus, nos campos de concentração. Os judeus, os comunistas, os ciganos e os eslavos foram as vítimas preferenciais dos nazistas, dizimados pelo trabalho forçado, pela fome e pelo gás.

Há farta documentação do que ocorreu entre 20 de janeiro de 1942, quando os nazistas decidiram, no encontro de Wannsee, programar a “solução final” para o problema judaico, e 17 de janeiro de 1945, quando os soviéticos ocuparam o campo de Auschwitz. Nos três anos, milhões de seres humanos foram chacinados pelos nazistas. O presidente Ahmadinejad sabe disso, mas, em sua luta contra Israel, nega-se a aceitar a História. Se foram 6 milhões, 600 mil, ou 60 mil, o crime é o mesmo. Não é o número de vítimas que nos deve espantar, e sim a presunção de superioridade racial de que se arrogavam os alemães para a prática do genocídio.

O mesmo sentimento de horror que nos leva ao confrangimento da alma, diante do que fizeram os alemães, nos atinge, quando assistimos ao que se passa na Palestina. Não há, diante das tragédias de nosso tempo, bons culpados e vítimas más. Há culpados e há vítimas. A maior oposição que se faz ao Estado de Israel, e com razões históricas, é o fato de que os palestinos tenham sido privados de sua terra, privados de água, submetidos ao bloqueio de comida e de remédios, além de cercados pelo muro e bombardeados. Os palestinos nunca fizeram progroms, como os eslavos, jamais mandaram queimar judeus – como os cristãos, em Basileia, e em outros lugares. Não os submeteram aos autos de fé, como os ibéricos, durante a Inquisição. Não os eliminaram nos campos poloneses. Não lhes cabe purgar os crimes do antissemitismo, quando eles também são semitas, tanto quanto os que lhes ocupam o solo.

Estabeleceu-se, pela força do convencimento dos meios mundiais de comunicação, que os palestinos são terroristas, e os israelenses, democratas. Não nos incluímos entre os que admiram o presidente do Irã. Algumas de suas declarações espantam pela falta de senso. Mas não lhe falta bom senso quando defende o direito de o Irã desenvolver pesquisas nucleares. Se os iranianos são ameaça a Israel, com seu projeto, os senhores da guerra de Israel, que já dispõem de artefatos nucleares, como orgulhosamente proclamam, e anunciam que irão, são ameaça ainda maior. Nada os faz com mais ou com menos direitos no mundo. Nem a fé religiosa, nem os hábitos cotidianos. A língua persa não é menos importante do que a hebraica, com sua rica literatura. Nem o presidente Ahmadinejad é menos chefe de Estado pelo fato de dispensar o uso da gravata.

O segredo do presidente Lula é a sua percepção de homem comum. Ele acha, e com razão, que uma boa conversa pode resolver os problemas, desde que haja boa-fé entre todos os interlocutores. Disso se deu conta Obama que pediu, pessoalmente, a Lula, durante o encontro do G-8, em Áquila, na Itália, no dia 9 de julho deste ano, que tentasse demover Ahmadinejad de desenvolver armas nucleares – conforme disse, no mesmo dia, à imprensa, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. Ao que parece, o New York Times não cobriu o encontro de Áquila.
Os opositores domésticos de Lula se esquecem disso. Os Estados Unidos que admiram não é o de Obama, mas o de Bush e Chenney. É difícil que o presidente consiga, no Oriente Médio, uma paz negada há mais de 60 anos. Mas, se ele conseguir negociações entre as partes envolvidas, mesmo com progressos limitados, será bom para o mundo. Não são todos os judeus de Israel que querem eliminar os palestinos e bombardear Teerã, e nem todos os muçulmanos desejam o fim de Israel. É contando com eles que Lula busca a paz.

Fonte: Vi o Mundo / JB