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quinta-feira, 11 de julho de 2013
Múmia Inca intacta apos 500 anos
Museu dos Andes exibiu em 2007 pela primeira vez menino e meninas sacrificados há 500 anos.
Ritual do império levava crianças nobres a morrer de frio no alto de montanhas.
Salta, Argentina - Além da donzela Llullaillaco (15), também foram encontrados o menino (7) e a menina do relâmpago (6): três crianças incas, que estavam sepultados em uma montanha árida e gelada há
500 anos como um sacrifício religioso. Perto da fronteira com o Chile, seus corpos congelados estão entre as múmias melhor preservadas já encontradas, ainda com sangue, orgãos internos são encontrados intactos como o coração, pulmões, apenas pele e características faciais foram pouco afetados.
Nenhum esforço especial foi feito para preservá-los. O frio eo ar seco e fino fez todo o trabalho. Eles congelaram até a morte enquanto dormiam, e 500 anos depois, ainda se parecia com crianças dormindo, e não múmias.
As crianças foram sacrificados como parte de um ritual religioso, conhecido como "capacocha", no qual são colocadas em uma dieta de ganho de peso durante um ano inteiro antes de seu sacrifício e, em seguida, eles foram drogados e deixados em cima do vulcão Llullaillaco.
Eles caminharam por centenas de quilômetros para cerimônias em Cuzco e foram levados até o cume do monte Llullaillaco (yoo-yeye-YAH-co), e, uma vez que eles estavam dormindo, colocadas em nichos subterrâneos, onde eles congelaram até a morte. Bonitas, saudáveis, as crianças fisicamente perfeitos foram sacrificados, e foi uma honra serem escolhidas. De acordo com as crenças incas, as crianças não morrem, mas se juntam aos seus ancestrais e vigiam suas aldeias a partir das montanhas como os anjos.
Uma das crianças, uma menina de 6 anos de idade, tinha sido atingida por um raio em algum momento depois que ela morreu, resultando em queimaduras no rosto, parte superior do corpo e do vestuário. Ela e o menino, que tinha 7 anos, tinham crânios levemente alongados, criado deliberadamente por envolvimentos na cabeça - um sinal de status social elevado, possivelmente até mesmo realeza.
Os cientistas trabalharam com os corpos em um laboratório especial, onde a temperatura do laboratório inteiro poderia cair para 0 graus, e as múmias nunca foram expostas a temperaturas mais elevadas por mais de 20 minutos a uma hora de tempo, para evitar o descongelamento.
Testes de DNA revelaram que as crianças eram independentes, e tomografias mostraram que eles estavam bem nutridos e não tinham ossos quebrados ou outros ferimentos. A "Donzela" aparentemente tinha sinusite, bem como uma doença pulmonar chamada bronquiolite obliterante, possivelmente o resultado de uma infecção.
"Há dois lados", disse Dr. Miremont. "O científico - podemos ler o passado das múmias e os objetos. O outro lado diz que essas pessoas vieram de uma cultura que sobreiveu, e um lugar santo na montanha. "
Alguns consideram a exposição como se estivessem numa igreja, disse Dr. Miremont.
"Para mim, é um museu, não é um lugar santo", disse ele. "O lugar santo é no topo da montanha."
As montanhas ao redor de Salta abrigam pelo menos 40 locais de sepultamento, outros sacrifícios rituais, mas o Dr. Miremont disse que o povo nativo que vivem nessas regiões não querem mais corpos retirados.
"Vamos respeitar os seus desejos," disse Dr. Miremont, acrescentando que três múmias foram suficientes. "Não é necessário quebrar túmulos mais. Gostaríamos de ter boas relações com o povo local."
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Legalização da maconha muda os debates internacional sobre drogas
Há uma semana atrás, os eleitores no Estado de Washington e Colorado votaram por grandes margens para acabar com a criminalidade de adultos que usam e portam uma quantidade de maconha para consumo pessoal. Esses votos históricos têm reverberado por todo o mundo e têm mudado os termos do debate na Guerra às Drogas. Os usuários já podem contar com as leis Washington I-502 e 64 do Colorado, leis estas que alterarão o debate internacional sobre as implicações de longo alcance sobre a legalização das drogas.
Em âmbito municipal, o Departamento de Polícia de Seattle emitiu uma mensagem afirmando que o simples cheiro de maconha, sozinho, detectadas por um oficial K-9 ou um oficial humano, não é mais "causa provável" para instigar uma investigação. Esse é um efeito direto sobre todos os consumidores de cannabis em Washington, que agora não podem ser coagidos a uma busca de drogas sob ameaça de cães farejadores. (Eles também parecem afirmar que a posse de uma onça de maconha ou um quilo de haxixe ou 2 litros de ¼ * óleo de haxixe é perfeitamente legal, mesmo na ausência de qualquer loja legal para comprá-los.)
Sob o ponto de vista jurídico, os promotores em três condados de Washington inocentaram as acusações de porte de maconha contra cerca de 250 pessoas. A maconha não é legal em Washington, até 06 de dezembro, mas os promotores notaram que iriam contra a vontade do povo e seria difícil de de um júri condenar alguém por porte de maconha. Assim, 250 pessoas foram imediatamente afetadas pela legalização. Pessoas que não serão mais encaradas como criminosas pelo uso de uma planta; condenados a, em cada aplicação de trabalho, ter de apresentar certificado de segurança, verificação de antecedentes, e diversos outros aborrecimentos evitáveis.
No nível estadual, o governador Chris Gregoire de Washington e John Hickenlooper governador do Colorado estão lutando para obter a orientação do Departamento de Justiça dos EUA sobre a forma como o governo federal vai cumprir a Lei de Substâncias Controladas em face do desafio ao estado aberto pela lei federal. A Iniciativa 502 define e distingue maconha de outras partes da planta cannabis. Propõe a legalização de pequenas quantidades de maconha produtos relacionados para a maioria dos adultos, de taxá-los, e designar a receita para a saúde e prevenção de abuso de substâncias e educação.
Em nível nacional, os representantes democratas do estado de Colorado, Diana DeGette, Ed Perlmutter, e Jared Polis, estão trabalhando em projetos de lei na Câmara dos Deputados para alterar as Lei de Substâncias Controladas para permitir que os estados possam definir as suas próprias políticas sobre a maconha. Mais uma vez, com dois estados em jogo, a necessidade de tal legislação é duas vezes mais óbvia e terá delegações de dois Estados "lutando por isso". Este é o início do desenrolar da Lei de Substâncias Controladas de Richard Nixon, emitida em 1970, que, ridiculamente,coloca maconha ao lado de drogas pesadas como heroína, LSD e PCP.
A nível internacional, os presidentes do México, Belize, Honduras e Costa Rica têm chamado a atenção da Organização dos Estados Americanos e das Nações Unidas para rever a proibição das drogas ao nível global. Os líderes latino-americanos questionam como eles podem continuar a ver os seus países dilacerados pela proibição do cultivo e tráfico de algo que poderia se tornar legal, uma vez que atinge dois estados americanos. Este é o início do questionamento sobre a Convenção Única de 1961 sobre Estupefacientes. Tratado que liga os EUA e o mundo à visão de Harry J. Anslinger de proibição global das drogas.
Este pode ser o início de uma nova concepção sobre a legalização e a moralização do uso da maconha. E uma proposta pela legalização da maconha em todo o mundo, em qualquer nível, mesmo que seja apenas um grama em casa, com a posse de uma licença. É o início da derrubada de dominós que terminará com a proibição da maconha mais rápido do que ninguém pensava ser possível. Sendo legal, as pessoas usuárias não serão criminosas, assim como não são criminosas as pessoas consumidoras de tabaco e álcool.
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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
A deusa nua da cidade

Oba!!! Bem vindos à primeira postagem de 2011!
Recentemente anunciei neste blog o lançamento do primeiro livro de um promissor talento literário ainda, infelizmente, desconhecido. Trata-se de Sete, livro de contos escrito por Orlando de Melo, um estimado e talentoso primo meu. Aliás, uma feliz coincidência. Pode parecer suspeito, mas o livro realmente é muito interessante, ou melhor, ouso dizer, o livro é de excelente qualidade literária.
Logo de início há um conto impactante, meio a Edgar Alan Poe, intitulado “A horda dos lobos da floresta negra”. Porém, não vou comentar todos os contos de imediato, e vou me ater apenas ao terceiro conto do livro, “A deusa nua da cidade. Fiquei extasiado com a leitura! Um conto curto e preciso; conciso e profundo.
Por meio de metáforas, o autor nos remete à sordidez e ao caos que a urbanidade proporciona. Na obra, Orlando de Melo parece nos dizer que a deusa nua é a própria cidade, que devora e é devorada. A cidade/sociedade devora sua gente, dissolvida na solidão e luxúria, e é por essa gente devorada, pela miséria social e pela decadência moral. A escrita do autor nos conduz - inebriantes e desejosos – através de sílabas poéticas, narrativas e metafóricas. Ao descrever seu personagem, impregna-o de pureza e lirismo ao precisar que ela “só vestiu seus olhos e foi andar nas ruas”. O movimento nervoso pode ser percebido em trechos nos quais, por exemplo, há referência ao metrô, descrito como “gigantescas serpentes metálicas”. A poesia contida na prece final, mesmo que pecando na métrica, está impregnada de paixão poética.
O conto “A deusa nua da cidade” é um pequeno exemplo e apenas um aperitivo para provar os instigantes textos que compões a obra “Sete”. Para tanto, basta apreciar com vontade o livro inteiro.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Maconhal caseiro

Imagine um guarda-roupas modelo antigo, de madeira de bálsamo, todo revestido por dentro com papel alumínio. A iluminação interna é forte, com lâmpadas que ficam permanentemente acesas (etapa de claro, para quem estudou botânica na escola). Na base do guarda-roupas, uma floreira com terra bem adubada e um vaporizador ligado permanentemente, para jogar bastante umidade lá dentro, enquanto as portas estiverem fechadas. Pronto, assim se faz um maconhal caseiro. Basta jogar sementes transgênicas no solo e, se tudo der certo, em 120 dias a Cannabis Sativa já estará em plena produção. Longe do morro, de testemunhas e de riscos! A colheita é feita retirando-se os topos, depois que a planta começa a perder as folhas grandes e amareladas. Tudo pode sem embalado e levado ao freezer. Para secar bastam 30 segundos no forno de microondas. Algumas pessoas fumam em cigarros, outras em cachimbos e, mais recentemente os jovens passaram a adotar os narguliés. São jarros com água e aromatizantes, ou álcool, que resfria, filtra e retira da fumaça as particulas sólidas. Além disso, disfarça o cheiro forte, o que é uma boa saída para quem mora em apartamentos baixos e quer evitar que o vizinho de cima sinta o odor forte da erva. E lembre-se: maconha é como um bom vinho tinto: melhora com o passar do tempo, porque vai perdendo o gosto de clorofila. Mas vale lembrar também que plantar, vender e fumar é crime, pelo menos por enquanto. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está aí na luta pela legalização, o que na modesta opinião do DoLaDoDeLá seria ótimo! Você tira poder do crime organizado, traz a indústria para a formalidade e usa os impostos para campanhas de conscientização.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Alimentação através dos tempos - parte 1

A alimentação é talvez a prática cultural mais singular levada a efeito pelo ser humano. É o que o distingue das demais espécies por meio da cultura. Como se alimenta, de que se alimenta, de que modo e com quem se alimenta, quem alimenta quem e muitas outras questões são atualmente levantadas por inúmeros investigadores das Ciências Humanas que desejam fazer abordagens mais aprofundadas do modo de vida de uma sociedade, já que a questão da alimentação é extremamente ampla e envolve inúmeros desencadeamentos pelos quais abrangem o âmbito da técnica, do comportamento, das crenças, da política, da economia, da sociabilidade, da economia, enfim, por todos os aspectos culturais inerentes ao homem. Portanto, percebemos que a alimentação é um fator importantíssimo para a humanidade, não tanto no sentido biológico, mas principalmente no sentido cultural do termo, e, desse modo, um campo de pesquisa vastíssimo para entender o modo de vida da humanidade ao longo da História.
Segundo os organizadores do livro “A história da Alimentação”, J. L. Flandrin e M. Montanari, a História deve abordar as estruturas do cotidiano. Assim, a História, juntamente com a Antropologia e secundadas pela Arqueologia, agindo através de uma abordagem interdisciplinar, fazem da história da alimentação um dos campos mais atuantes para o entendimento do cotidiano de diversas sociedades. Segundo aqueles autores, os hábitos e costumes cotidianos mudam no contexto da longa duração e a Nova História, com seus novos problemas e novas abordagens, teve uma postura diferenciada nestes últimos tempos em relação a este e a outros temas. Desse modo, a abordagem feita atualmente difere um pouco daquela feita na década de 1960 e final dos anos 70. Esta “nova história (...) pretende abarcar todos os aspectos da ação e do pensamento humano” (FLANDRIN, J-L. & MONTANARI, M., 1998, p. 22).
Alimentação através dos tempos - parte 2
Mireille Corbier é exemplo de pesquisadora cuja metodologia procura esta abordagem interdisciplinar e cujo objeto de pesquisa é a questão cultural, em todas as suas implicações (cf. LEACH: 1986). Diretora de pesquisa do Centre Nacional de Recherche Scientifique, Corbier produziu um texto muito interessante na obra compilada por Flandrin e Montanari, no qual a autora investiga os hábitos alimentares da Antiga sociedade romana. Pesquisadora no campo da História ela está, portanto, preocupada em investigar a complexidade de uma sociedade, no caso a Roma Antiga, observando seus hábitos alimentares e seu comportamento social: “Dize-me o que comes [e com quem comes,] e dir-te-ei quem és” (cf. BUSTAMANTE: 2003, p. 95). Corbier procura entender as diversas hierarquias sociais daquela sociedade a partir de seus hábitos e necessidades alimentares. A autora demonstra que os romanos foram adquirindo tais hábitos e necessidades conforme a expansão do território e os contatos culturais com outros povos. Temos, portanto, uma hierarquia dos alimentos que fora construída ao longo dos tempos. Os romanos, de simples “comedores de fava”, passaram a adquirir costumes cada vez mais diversificados e sofisticados. Daí, como afirma a autora, uma diferenciação social na ingestão dos alimentos: a comida do aristocrata não era a mesma do soldado, que não era a mesma do escravo, a qual era diferente da do camponês, etc., e mesmo no interior das próprias camadas sociais, os alimentos variavam entre si, dependendo da região, da ocasião, das oportunidades, e inúmeros outros fatores. Corbier descreve em seu texto todo o percurso feito pelos alimentos, do produtor ao consumidor. Neste aspecto, a autora enfatiza primeiramente a característica mediterrânea da alimentação romana, associada a cereais, vinho, óleo, legumes e frutas secas ou frescas, açúcar de frutas, mel, leite, queijo, carne e peixes (CORBIER: 1998, p. 219-220); a autora rejeita a idéia de que os romanos só comiam carne proveniente de sacrifícios e da caça, e mostra como que, com o tempo, a carne passou a fazer parte do cardápio romano.
Alimentação através dos tempos - parte 3

Outro ponto investigado por Corbier é o acesso aos alimentos no que diz respeito a “frumentária”, às doações e aos presentes, ao consumo de produção própria, ao mercado, ao gradativo abismo alimentar entre ricos e pobres com o passar dos tempos, à hierarquia social no comer, etc. Investiga também os modos de preparação; as qualidades, quantidades e partes; os temperos; o acesso desigual aos alimentos quentes; as infra-estruturas; os espaços e os lugares convivais. A pesquisadora afirma que o ideal de frugalidade era pouco respeitado; as proibições eram poucas, todavia, deveria haver moderação; às elites, por exemplo, era recomendável certo número de condutas, as quais restringiriam um pouco os excessos destas elites. As restrições aos soldados com relação aos pratos quentes eram dribladas pelo cozimento de seus próprios alimentos ou pela compra a vendedores ambulantes. O povo não tinha o banquete para as comensalidades domésticas e nem acesso a pratos quentes. Porém, em compensação a essas deficiências, freqüentava lugares onde podiam saborear os pratos (quentes) em companhia dos amigos: “Taberna e popina ilustram as possibilidades de uma desforra para recuperar o acesso aos valores dos quais o povo está excluído, principalmente a sociabilidade” (CORBIER: op.cit., p. 234). Os ricos, por sua vez, além de, não raramente, quebrarem as regras do ideal de frugalidade, muitas vezes eram vistos misturados a gentalha por prazer ou por necessidade. Como podemos perceber, segundo a autora, as práticas alimentares, muitas vezes, transgrediam as hierarquias sociais. Desse modo, a sociedade romana foi profundamente transformada pela importância crescente da moeda e pelo aumento espetacular das receitas, sendo que estas transformações foram percebidas na mudança em seus hábitos sociais, inclusive alimentares.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Alimentação através dos tempos - parte 4

O artigo de Mireille Corbier nos ajuda a debater, dentro do conceito de cultura sugerido por Edward Leach, a diversidade da sociedade romana, ajudando a compreendê-la. Os hábitos alimentares nos dizem muito sobre a cultura de uma sociedade. Desse modo, podemos fazer inferências a outras culturas e perceber ideologias, preconceitos, estranhamentos de uma sociedade em relação a outras nas diferenças alimentares. Um bom exemplo disto encontra-se na Odisséia de Homero, quando Odisseus astutamente embriaga o Ciclope, o qual, por ser bárbaro, não sabia misturar água ao vinho, e, desse modo, é ludibriado pelo herói (HOMERO, Odisséia IX, vv. 347-369).
Como foi anteriormente mencionado, a alimentação é questão básica que perpassa todos os modos de agir do homem no tempo. Uma questão tão importante para os gregos que, na mitologia, tratava-se de fator primordial para separar os homens dos deuses. Segundo Vernant, “os homens vão se alimentar de pão, vinho e carne ritualmente sacrificada, enquanto os deuses não se alimentam, ou melhor, eles absorvem um alimento de imortalidade, que lhes dá vitalidade interior, a qual, ao contrário da dos homens, jamais se esgota e desconhece o cansaço” (VERNANT, 2000, p. 33)
Assim, o tema tratado é de enorme pertinência para o estudo da cultura e da formação das sociedades a partir de seu cotidiano
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Viva o feijão!!!

Pesquisador conta como a feijoada surgiu na mesa de famílias cariocas
A feijoada não surgiu nas senzalas, como invenção dos escravos, que juntariam sobras de carnes não aproveitadas pelos “senhores” para preparar um prato mais encorpada. Tampouco começou a ser preparada por famílias de poucas posses que requentariam sobras de refeições anteriores para reforçar a alimentação. Ela foi criada para servir como comida para as elites do século 19, especialmente nas famílias cariocas mais ricas. Esta é a tese de um estudo feito pelo pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), Almir Chaiban El-Kareh sobre o prato que melhor simboliza a culinária nacional.
– Minha teoria é que a feijoada, como a conhecemos, surgiu nas famílias ricas, porque os miúdos eram valorizados pelas elites. Os ricos comiam refeições com feijão incrementado com diversas carnes e miúdos. Os pobres comiam feijão ralo, com pequenos pedaços de carne-seca ou toicinho – afirma Almir.
Almir baseou sua pesquisa em relatos de viajantes estrangeiros que visitaram o Brasil, em especial o Rio de Janeiro, ao longo do século 19. Um destes viajantes foi o pintor francês Jean-Baptiste Debret.
– Segundo Debret, os escravos comiam a mesma comida que os patrões. Alguns chegavam a comer juntos no mesmo recinto. Os patrões sentados à mesa e os escravos em esteiras no chão. Isso reforço minha tese de que os escravos não preparavam a própria comida – comenta o pesquisador.
Mas antes de cair no gosto das famílias ricas e se tornar o ingrediente principal da feijoadas, o feijão encontrava muita resistência entre as famílias mais ricas do Rio de Janeiro. Pouco depois da transferência da família real e de sua Corte para o Brasil, em 1808, os feijões ainda eram classificados como “comida de pobre”.
Debret
Almir diz que esta informação foi tirada dos relatos de Debret. Segundo o pintor francês, que chegou ao Brasil em 1816, as famílias ricas tinham como prato mais tradicional o cozido português, acompanhado de galinha, arroz e farinha de mandioca.
– O feijão ainda não aparecia na mesa das elites naquele momento – diz Almir, acrescentado que seu consumo era velado. – Debret escreveu que, na época, os pequenos comerciantes comiam feijão com um pedaço de carne-seca e farinha, regado com muita pimenta, mas escondidos de todos, no fundo das lojas.
No entanto, segundo o pesquisador, já por volta de 1830, todos os viajantes que escreveram relatos sobre o Brasil, atestaram que ricos e pobres comiam feijão, carne seca e toicinho todos os dias. Essa aceitação gradual do consumo de feijão pelas elites acabou por sobressair à incorporação dos hábitos europeus e transformou o cozido português numa segunda opção .
O interessante é que a invenção da feijoada e sua incorporação aos hábitos alimentares da população se deu em paralelo à permanência da família real portuguesa no Brasil, nas primeiras duas décadas do século 19.
A etiqueta à mesa foi uma das influências da estada da família real no Rio de Janeiro. As poucos, a sociedade carioca assimilou a etiqueta e as boas maneiras europeias, usando talheres. Porém, só mudou a forma de comer e não o conteúdo – a própria comida. No caso, a feijoada, que foi ganhando cada vez mais espaço na mesa do carioca e do brasileiro.
– A alimentação é o ponto de maiores resistências à mudança porque é um hábitos adquirido na infância. A elite mudou de roupa, copiando a moda francesa, mas não mudou de gosto alimentar. Essa foi a vitória da feijoada.
sábado, 21 de novembro de 2009
Lula, o filho do Brasil.

128 minutos. Este foi o tempo decorrido entre o nascimento de Luiz Inácio da Silva, em Caetés, subúrbio de Garanhuns, em Pernambuco, e o momento em que é aclamado como a maior liderança sindical do Brasil, em São Bernardo do Campo. 128 minutos cobrindo o período que vai de 1945 até 1980.
Com orçamento de 12 milhões de reais, Lula, o filho do Brasil é o filme mais caro da história do cinema brasileiro e será exibido em quase 400 salas no Brasil, a partir do dia 1º de janeiro de 2010.
O filme de Fábio Barreto, estrelado por Rui Ricardo Diaz, Gloria e Cleo Pires, reproduz na tela grande o mito do herói. Da extrema penúria do sertão pernambucano à periferia do cais do porto de Santos, em viagem de 13 dias e 13 noites em um pau-de-arara, e dessa viagem o nascimento de emblemática liderança operária. A matriarca, dona Lindu, vivida por Glória Pires, pontua a trajetória. Mulher sofrida, abandonada pelo marido, cheia de filhos pequenos, estrangeira na cidade grande. Como viúva de marido vivo, Lindu protege Lula e seus irmãos do mundo e do pai sempre bêbado, o agressivo Aristides. Ela é a âncora, o chão emocional e a única personagem que infunde valores ao filho. É recorrente seu conselho ao filho prenhe de futuro glorioso: "Se você tem que fazer, vá e faça; e se não pode fazer, espere e depois faça"; e também o não menos incisivo chamado à perseverança usando o curioso verbo: "Teime, meu filho. Teime".
Dona Lindu é quem tece os fios do destino. A bem da verdade, o nome do filme deveria ser Lindu, a filha do Brasil.
Fiel ao livro de Denise Paraná, o filme assume cores do épico. Não temos aqui Moisés abrindo o Mar Vermelho nem Jivago, em meio à revolução bolchevique de 1917, vivendo tórrido romance com Lara. Mas temos um Zé Ninguém brotando como xique-xique no sertão nordestino e guiado pelo bordão popular do "deixe a vida me levar, vida leva eu".
Toda pobreza quando bem evocada no cinema já traz um que de trágico – e daí é um pulo para o épico. No caso desse filme não vemos pobreza, encontramos penúria. Os personagens parecem destituídos de tudo. Cada pequeno dia vivido é uma vitória. Se dona Lindu é a heroína, o pai Aristides é o vilão. Vilão agressivo quando presente. E não faltam situações a nos levar ao mundo das emoções mais sentidas: o frangote que se interpõe entre a mãe e o pai quando este ameaça surrá-la; o ainda imberbe adolescente Luiz Inácio recebendo o diploma de torneiro mecânico do Senac; o casamento e o sonho da casa própria; a morte do primeiro filho e da mulher durante o parto; o acidente na metalúrgica que lhe custou o dedo mindinho; a assembléia com milhares de operários lotando o estádio de Vila Euclides e na falta de microfone a forma encontrada para se passar à multidão seu discurso; a liberdade da prisão, por algumas horas, para ir ao cemitério se despedir da mãe.
Rui Ricardo Diaz, o ator que vive Lula dos 18 anos 35 anos, merece todos os aplausos. Sua performance é cativante e, o melhor, é crível. O diretor, se quisesse, poderia se desencaminhar para o estilo lacrimogêneo – afinal, a história de Lula é em si mesma um roteiro, onde não faltam emoção e lágrimas, muitas lágrimas. Mas Fábio Barreto optou por uma obra contida. E acertou em cheio. É que não existe um personagem a ser construído nas telas, e sim uma história a ser contada na tela.
Canção antiga
Outros presidentes populares do Brasil, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, também tiveram sua história levada às telas. Nos dois casos o aspecto político era predominante. E um detalhe: os filmes foram produzidos após a morte dos personagens-títulos. Ou seja, os arquivos estavam fechados. No caso de Lula, os arquivos estão abertos, muito abertos. Lula, o filho do Brasil está mais para Dois filhos de Francisco, a obra de Breno Silveira que relata a saga dos irmãos Zezé Di Camargo e Luciano, lançado em 2005.
Vale destacar que esta não é a primeira empreitada do cinema de levar Lula para as telas. Não. No entreato temos os peões. As greves e Lula movem o filme Peões, dirigido por Eduardo Coutinho e lançado em 2004. Os depoimentos sobre os movimentos grevistas e sobre as vidas dos operários que participaram deles foram tomados às vésperas da eleição presidencial de 2002; na sua maioria, eles declaram sua paixão por Lula.
Entreatos é Lula. O filme de João Moreira Salles, realizado em um período de 40 dias, principalmente entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais de 2002, acompanha o futuro presidente em suas viagens e reuniões de campanha. Se em Peões já se vê, através de imagens de arquivo, um Lula humano, perspicaz, intuitivo, em Entreatos isto é escancarado. Se em Peões temos um Lula sindicalista, combativo, em Entreatos, também lançado em 2004, o que surge é o político articulado e amadurecido.
Agora chega a cinebiografia de Fábio Barreto lançando luz sobre a vida de Lula e passando pela narrativa linear do nascimento, infância, adolescência, maturidade. Neste sentido podemos considerar os três filmes como momentos de uma mesma personagem, fictícia por englobar vidas diferentes, mas real ao tratar do tema. Em um primeiro ato tem-se o primitivo e alienado, que em um segundo momento se revolta, combate e que por fim articula e é capaz de influir no seu próprio destino.
Se todos estavam alegres, felizes na longa espera para o início da projeção, aos 20 minutos do filme já percebíamos ondas de emoção tomando o imenso salão. E não havia pieguice. O que emocionava não era apenas o alto poder de convencimento de Rui Ricardo como Lula nem de Glória Pires, como Lindu. O que emocionava era ver nas telas o Brasil profundo, aquele país que sofre, no mais das vezes, calado; aquele país que tem bem pouca semelhança com a penitenciária paulista do Carandiru e com o bairro carioca Cidade de Deus. Assistíamos naquele ambiente – que apenas a magia do cinema pode evocar – a vitória dos que já nasciam marcados para o fracasso e a celebração do improvável sobre o provável. E nada disso foi notícia nos jornais.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Woodstock - 40 anos

Ao longo deste mês, muito se mostrará, escreverá e falará sobre o transcurso dos 40 anos de um dos acontecimentos mais emblemáticos e alentadores do século passado: o Festival de Música e Artes de Woodstock.
Temo, entretanto, que os enfoques da indústria cultural fiquem entre o nostálgico e o pitoresco, como inimiga que foi e é dos ideais que se corporificaram nesse magnífico evento. Depois da efeméride inescapável, o que ela quer mesmo é remeter Woodstock para o arquivo morto por mais 10 anos.
Então, torcendo para que outros veteranos do sonho também o façam, vou discorrer sobre a vitalidade de Woodstock e os caminhos que nos aponta hoje e agora para a construção de um mundo melhor.
Para começar, uma constatação óbvia: Woodstock foi uma moeda que caiu em pé. Os deuses de todos os povos e de todos os tempos parecem ter-se mobilizado para que tudo desse certo durante três dias mágicos, maravilhosos, que seriam para sempre lembrados como uma amostra da perfeição possível neste sofrido planeta.
Sem favor nenhum, posso afirmar que Woodstock foi o evento musical que mais influenciou as artes e os costumes na história da humanidade. E a conjunção de fatores que o transformou em marco e lenda dificilmente se repetirá.
Mas, não precisamos acreditar piamente na esnobada de Gilberto Gil: "quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou". Apenas, levar em conta o que houve de específico nesse festival. Outros sonhos virão, com certeza. A História não tem fim, queiram ou não os Fukuyamas agourentos.
"SOME FLOWERS IN YOUR HAIR"
Para começar, o Festival de Woodstock foi o ponto de chegada e a culminância de vários fenômenos e acontecimentos marcantes.
A escalada norte-americana no Vietnã, ao longo da década de 60, engendrara um movimento pacifista de crescente influência entre os jovens dos EUA, com direito a manifestações de protesto, queimas de cartas de recrutamento, choques com a polícia e a uma manifestação-monstro de cerco ao Pentágono.
Em 1965, um estudante de química chamado Owsley Stanley aprendeu como fabricar ácido lisérgico no porão de sua casa e logo inundou San Francisco com o LSD, impulsionando o surgimento da geração das flores, imortalizada pela bela canção de Scott McKenzie: “Se você vier para San Francisco,/ não se esqueça de colocar/ algumas flores no seu cabelo...”
Foi aí que o movimento hippie nasceu, aglutinando jovens que recusavam o american way of life e caíam na estrada, em busca de aventuras e novas experiências.
Em termos mais profundos, pode-se lembrar que era a fase em que a crescente mecanização da indústria mais e mais dispensava o uso da força física, demolindo algumas vigas-mestras da sociedade norte-americana, toda ela construída em cima do ascetismo puritano (a negação do prazer a fim de poupar energias para o trabalho). Na década de 60, o prazer reconquistava suas prerrogativas.
Grandes festivais de rock já haviam ocorrido em Monterey (1967) e na Ilha de Wight. Este último vinha se realizando desde 1968, embora o mais marcante e lembrado seja o de 1970, quando se deu uma das últimas apresentações de Jimi Hendrix.
Quanto a públicos expressivos, também não eram novidade: o festival inglês já reunira 250 mil pessoas.
Mas, foi no de Woodstock que a indústria cultural investiu pesado, pela primeira vez. É que, com algum atraso, os mercadores das artes se deram conta de que tinham um diamante bruto ao alcance das mãos. Prepararam-se, então, para explorar em grande estilo o evento seguinte.
Por último, vale notar que ainda se vivia a época dos compactos, em que eram singles e não elepês que corriam o mundo, com a repercussão dependendo, principalmente, da divulgação nas rádios.
Pouco se conhecia da segunda onda do rock (a primeira, nos anos 50, fora a dos pioneiros Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Bill Haley, etc.).
Muitos garotos, como eu, amavam os Beatles e os Rolling Stones. De resto, haviam escutado. “The House of Rising Sun” (Animals), “Sunny” (Johnny Rivers), “A Wither Shade of Pale” (Procol Harum) e quase nada mais.
Existia uma produção musical de grande qualidade represada, não atingindo circuitos mais amplos. Seria a irrupção dessa nova geração de importantes artistas ainda relativamente desconhecidos que asseguraria a surpresa e o enorme impacto causados pelo filme Woodstock e pelo álbum triplo com registros desse evento.
BRINCANDO NA CHUVA
Foram três dias de “paz, música e amor”, de 15 a 17 de agosto de 1969, levando 450 mil jovens até a fazenda do leiteiro Max Yasgur, a 80 quilômetros de Woodstock, estado de Nova York.
Logo no primeiro dia o festival foi declarado livre: quem não tinha comprado antecipadamente o ingresso, não precisou mais fazê-lo. Com isto, os promotores tiveram US$ 100 mil de prejuízo inicial, mas acabaram saindo no lucro: o filme lhes proporcionaria um retorno imediato de US$ 17 milhões.
O torrencial aguaceiro do segundo dia foi tirado de letra pela moçada, que aproveitou para relembrar a infância, chapinhando na lama. De início se tentou afastar a chuva com a força do pensamento positivo, todo mundo gritando “No rain! No rain!”. Depois, o jeito foi se amoldar a ela, brincando de tobogã e cantando. No álbum Woodstock há dois registros disto: no disco I, o improvisado “canto da chuva”; e no II, a multidão entoando em coro o refrão “deixa o sol brilhar!”, da peça Hair.
As boas vibrações não impediram a ocorrência de três mortes: uma overdose, um atropelamento por trator e um ataque de apendicite. O guitarrista e líder do The Who, Peter Townshend, não se limitou, como de hábito, a destruir o instrumento de trabalho no final apocalíptico de sua performance; levou a fúria para os bastidores, quebrando o pau com o líder hippie Abbie Hoffman.
O evento foi processado para o cinema por Michael Wadleigh, que fez uma magnífica edição de imagens e introduziu uma novidade: a bi ou tripartição da tela, oferecendo ao espectador tomadas simultâneas do mesmo grupo, de artistas isoladamente, do público, etc.
Há, além disto, nítido empenho em situar o evento sociologicamente, ao contrário do documentário sobre o Festival de Monterey, que se ateve quase exclusivamente à música. Daí a merecida reputação de Woodstock como o filme que inovou a arte de registrar espetáculos musicais.
NEM TUDO FOI MOSTRADO
Muitos artistas deixaram de ter um número exibido no filme e no álbum triplo. Ficaram de fora Melanie, Mountain e Butterfield Blues Band, com o consolo de aparecerem no segundo álbum Woodstock, duplo, que foi lançado algum tempo depois. O Jefferson Airplane não está no filme, mas sua “Volunteers” consta do álbum triplo e teve mais canções aproveitadas no álbum duplo.
A relação dos que lá estiveram mas ficaram de fora tanto do filme quanto dos álbuns é extensa: Janis Joplin, Grateful Dead, The Band, Blood Sweat & Tears, Creedence Clearwater Revival, Incredible String Band e Johnny Winter. Motivo: problemas contratuais.
[Agora, na onda do MP-3, tudo isso foi finalmente disponibilizado para os saudosistas dos velhos e bons tempos, bem como para os jovens que querem saber saber como era o som que os pais, tios e avós curtiram...]
Os cachês mais altos foram os de Jimi Hendrix (US$ 18 mil), Blood Sweat & Tears (US$ 15 mil), Joan Baez e Creedence Clearwater Revival (US$ 10 mil cada). Santana exibiu sua empolgante fusão de rock e sonoridades latinas, “Soul Sacrifice”, pela bagatela de 750 dólares.
O trovador John Sebastian tirou a sorte grande: não foi convidado, mas apareceu para dar uma olhada e acabou subindo ao palco quando a chuva recém-finda impedia a apresentação de bandas eletrificadas. Ganhou direito a constar do filme e do disco, além de receber mil dólares.
O Crosby, Stills, Nash & Young, que acabava de ser constituído, cativou a platéia com seu folk-rock contestador e obteve êxito instantâneo, lançando as bases da longa carreira de seus integrantes (pouco tempo como quarteto e muito mais como artistas-solo).
No extremo oposto, o Ten Years After foi a principal vítima da síndrome de Woodstock: nunca igualou os 11 esfuziantes minutos de “Goin’ Home”, que valeram para Alvin Lee a reputação de grande guitarrista.
Outra curiosidade: foi marcante a aparição de Arlo Guthrie (“Comin’ Into Los Angeles”), cuja trajetória acabaria sendo eclipsada pela de Bob Dylan. Os estilos vocais e temáticos eram semelhantes, tendo Dylan sido mais eficiente em afirmar-se como herdeiro da arte e da lenda de Woody Guthrie, o precursor dos mochileiros. Correndo na mesma faixa, ele sobrepujou o próprio filho de Woody.
A vertente negra do rock se destacou em duas performances memoráveis. Richie Havens, um talento que depois definharia, arrepiou a platéia com seu camisolão africano e a interpretação fulgurante de “Freedom”. E Jimi Hendrix, no auge de sua genialidade, puniu simbolicamente os militaristas com a implosão do hino nacional norte-americano.
Isto para não falar do herdeiro branco e britânico de Ray Charles, o chapadíssimo Joe Cocker, com sua voz poderosa e postura bizarra, sacudindo o corpo para a frente e para trás como um boneco de mola enquanto as mãos dedilhavam sem parar uma guitarra inexistente.
O rock erudito, que marcaria toda uma época, também se fez presente em Woodstock: o The Who interpretou uma compilação de faixas da ópera-rock Tommy, projetando mundialmente essa sua (para a época) extravagância: um álbum-duplo que, faixa a faixa, vai contando a história de um menino que flagra o adultério da mãe e o assassinato do pai, recebendo então a ordem de apagar aquele episódio da mente e nunca relatá-lo a ninguém. O trauma o torna cego, surdo e mudo, mas ele acaba se libertando e atingindo a iluminação.
SÍNTESE DA CONTRACULTURA
Com Woodstock ganhou repercussão ampla o movimento de paz e amor que fermentava na boêmia San Francisco desde meados daquela década, como um desdobramento lisérgico e roqueiro do antigo movimento beatnik
Suas características externas são ressaltadas no filme:
* o amor livre e a desinibição corporal, com o nudismo sendo amplamente praticado, de forma inocente e até singela;
* a convivência harmoniosa, sem nenhum resquício de preconceito, entre indivíduos de todas as raças, credos e orientações sexuais;
* o consumo explícito e justificado (por alguns entrevistados, como Jerry Garcia) das drogas que, no entender daquela geração, abriam as portas da percepção;
* o visual premeditadamente desarrumado do pessoal, com suas roupas coloridas, ponchos e cabeleiras imponentes;
* a substituição dos laços familiares por uma comunidade grupal (ou, como se dizia então, tribal);
* a volta à natureza e a redescoberta do lúdico (em vários momentos, veem-se marmanjos entregues a brincadeiras pueris, sem nenhum constrangimento);
* a profusão de crianças, pois os hippies mandavam às favas o planejamento familiar, os anticoncepcionais e os abortos, assumindo plenamente o amor e suas conseqüências;
* o solene desprezo pelas regras e valores dominantes na sociedade, que se evidencia até nas falas dos organizadores do festival, não ligando a mínima para os prejuízos que estavam ameaçados de sofrer.
De certa forma, este comportamento era inspirado por teóricos como Reich, Marcuse e Norman O. Brown, que vincularam o autoritarismo político à repressão instintiva, alegando que a liberdade era cerceada não só pelos mecanismos sociais que mantinham a estrutura de classes (visão da esquerda convencional), como também pelos condicionamentos que embotavam a imaginação e inibiam o desfrute pleno da sexualidade.
Essas teses inspiraram uma nova voga anarquista, que pregava o combate ao stablishment também no íntimo de cada pessoa. As drogas serviriam para o resgate de faculdades esquecidas devido ao desuso; e a liberalidade sexual, incluindo as práticas antes estigmatizadas como perversões (homossexualismo, sodomia, sexo oral, masturbação), seria a premissa de uma visão erótica do mundo, em substituição ao princípio da realidade freudiano.
BRASIL: COMUNIDADES E BICHOS-GRILOS
A influência de Woodstock em nosso país pode ser detectada na música (Raul Seixas, Made in Brazil, a última fase dos Mutantes), no teatro (Oficina, Tuca), na cinematografia (o chamado cinema marginal) e, sobretudo, nos costumes, com os bichos-grilos que percorriam as estradas como caronas, indo e vindo à meca de Arembepe (BA), além de criarem comunidades urbanas e rurais onde exercitavam um estilo alternativo de vida.
Essas tentativas, entretanto, esbarraram no ambiente repressivo dos anos de chumbo, o que levou, p. ex., a ser expulso do Brasil o elenco do Living Theatre de Julian Back, que supôs encontrar aqui seu paraíso tropical; e, em termos mais amplos, na própria impossibilidade de contingentes mais amplos, num país pobre como o nosso, garantirem indefinidamente seu sustento com artesanato, aulas de ioga e que tais.
A grande vitória da Geração Woodstock foi ter conseguido arrancar os Estados Unidos do Vietnã. E seu exemplo repercute até hoje no ativismo em defesa do meio ambiente e a favor de algumas causas justas.
Além disto, ela entronizou a imagem do jovem como centro do universo do consumo, em substituição ao modelo rígido do pai de família, daí derivando a descontração no vestir, no falar e no comportamento.
E ainda lançou alguns modismos que hoje estão em menor evidência, como o ioga, a macrobiótica, o ocultismo e a agricultura natural (sem defensivos e fertilizantes).
Não perduraria, entretanto, aquela militância política idealista e generosa: as gerações seguintes se desinteressaram de mudar o mundo, voltando a priorizar a ascensão profissional e social. O rock, depois de uma fase intensamente criativa e experimental, voltou aos caminhos seguros do marketing.
As drogas, ao invés de abrirem as portas da percepção, se tornaram instrumentos para a fuga à realidade e a ilusão de onipotência, cada vez mais pesadas, até que se chegou ao pesadelo do crack. E o amor livre degenerou em sexo casual, promiscuidade e Aids.
O sonho acabou? Talvez. Mas, quem o partilhou só lamenta que haja durado tão pouco e tenha sido substituído por uma realidade tão insossa.
Eu prefiro mesmo é a postura do inesquecível Raulzito: ele nunca deixou de acreditar que a roda da fortuna giraria de novo, trazendo de volta, desta vez para ficar, o paraíso-agora! que iluminou nossas vidas por um fugaz instante... e, mesmo assim, marcou-nos para sempre.
Oh, baby, a gente ainda nem começou!
Publicado em Náufrago da Utopia
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Lançamento Literário

O jornalista Altamiro Borges acaba de lançar o livro “A ditadura da mídia”. Faz parte da “Coleção Vermelho”.
“Não é uma obra acadêmica, mas uma peça de denúncia política”, avisa ele. “Não é neutra nem imparcial, mas visa desmascarar o nefasto poder da mídia hegemônica e formular propostas para a democratização dos meios de comunicação.”
O prefácio é do professor e pesquisador Venício A. de Lima, da Universidade de Brasília (UnB) e um dos maiores especialista no tema no país: “O precioso e oportuno ‘A ditadura da mídia’ oferece ao leitor, em linguagem simples e direta, não só um quadro atualizado sobre os grupos que disputam o controle da grande mídia no mundo e em nosso país, como também um roteiro justificado de metas que devem orientar as reivindicaçòes populares na 1* Conferência Nacional de Comunicação".
O jornalista Laurindo Lalo Leal Filho, ouvidor da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), faz um comentário: "O livro ‘A ditadura da mídia’ tem a justa pretensão de se tornar um instrumento de apoio para todos os que lutam pela construção de uma comunicação mais justa e equilibrada em nosso país”.
ver texto completo em: PROJETO PIG 2010
Hard times...

Aqui vai a reprodução de um trecho do texto de Celso Longaretti, publicado em seu blog "Náufragos da Utopia".
Segundo ele, nos anos 70 e 80 era dureza adquirir música devido às dificuldades e aos preços exorbitantes.
No entanto eu percebo que hoje, apesar da grande facilidade de acesso, ainda há certas barreiras que dificultam um acesso mais democrático às informações culturais: a qualidade do acesso (lenta, pelos padrões internacionais) e o preço do acesso (os preços no Brasil são caríssimos e a qualidade tecnica duvidosa.
Mas vamos a uma parte da historia do Celso, se quiser ler tudo acesse seu blog.
"Os jovens que, graças ao MP 3, conseguem encontrar e baixar, num abrir e fechar de olhos, todas as músicas do seu agrado, nem imaginam como penávamos para obter os discos que eram nossos objetos de desejo, três ou quatro décadas atrás.
Para os roqueiros, a busca era interminável. Além da grana escassa, mal crônico para a maioria de nós, havia as limitações do mercado brasileiro.
Tirando os carros-chefes como os Beatles e os Stones, contemplados com mais lançamentos, as demais bandas e artistas dependiam do sucesso ou não do primeiro LP que saía aqui.
Vendendo bem, as gravadoras iam lançando, aos poucos, as obras anteriores. Caso contrário, quanto muito, renovavam a aposta no disco seguinte, mas deixavam o passado pra lá. E roqueiro do meu tempo, quando gostava de uma banda, não descansava até conseguir toda sua discografia.
Então, quem cultuasse um Moody Blues ou um King Crimson, p. ex., tinha de esperar anos para que seus primeiros discos fossem finalmente disponibilizados no Brasil. Ou recorrer às raras lojas de importados".
terça-feira, 14 de julho de 2009
Crônica


Festa Brasileira com certeza!
No penúltimo fim de semana, convidado por amigos, subi até Petrópolis. Tínhamos combinado a um bom tempo em participar da baunerfest (ou algo falável assim, rs) - festa da cidade em honra aos descendentes dos imigrantes alemãs que ajudaram na colonização da região. Era essencialmente uma festa folclórica na qual desfiam grupos de rapazes e moças apresentando números de música e dança recheado de canções tradicionais da velha Alemanha.
Até aí morreu Neves, vocês diriam. Eram dois os amigos que eu acompanhava, Hermes e Dionísios. Ambos tinham peculiaridades interessantes. Aquele, careca, sempre de gorrinho, elegante, muito conhecedor da história da cidade e seu monumentos, tecendo comentários sobre a região, seus palacetes e a história dos poderosos que passaram pro eles relacionando-os à história do Brasil, obviamente. Este, professor de história, negro, dono de uma linda cabeleira rasta, irônico e observador.
A primeira decepção de Dionísios foi saber que a festa alemã não teria variedades múltiplas de cervejas. Ele pensou, como eu também pensei, que a festa, sendo típica da cultura alemã, apresentasse um festival de cerveja de todas as marcas e procedências. No entanto, só tinha chopp da Brahma... (No final da festa, nós descobrimos uma barraca escondida dentro da antiga fábrica da Bavária na qual vendiam-se vários tipos de Bohemias - preta, pilsen e a top de linha Bohemia Confraria, ótima!).
Quando chegou na cidade, sua cabeleira rasta chamou várias vezes a atenção, coisa comum em uma cidade com uma população negra relativamente menor que a média nacional. A gente já estava brincando sobre o carater germânico da festa, mas estávamos admirando também a composição meio mestiça de certos componentes dos grupos folclóricos, tinha até negros! Nesse momento, as pessoas que iam desfilar estavam misturadas, ainda formavam grupinhos de fofocas e não estavam formados ainda. Não sabíamos como se daria o desfile.
Tomamos uma latinha de Itaipava, comemos um salgadinho... bela manhã.
Ao começar o desfile, os grupos iam se apresentando da seguinte maneira: jovens formandos quadrilha de casais executando danças e piruetas, seguidos por uma banda de desfile e fanfarra.
Como professores de história não poderíamos deixar de reparar na composição étnica de todos os participantes do desfile. Notamos que havia uma certa "democracia racial" na distribuição dos componentes. Mas aprofundando o olhar, descobrimos que a suposta democracia tinha alguns senões...
A grande proporção de negros nas bandas (que pareciam orquestras!) era muito interessante, pois atendia a dois princípios implícito no fato. O primeiro de atender a demanda de uma parte da população miscigenada e típica de muitas partes do território brasileiro, com um grande proporção de negros e mulatos. Sendo uma festa patrocinada pela prefeitura não faria sentido segregar nenhum segmento da população. A primeira solução, então, é pô-los na banda e deixar os casais de dançarinos e malabaristas compostos só por brancos.
Até aí tudo bem. Não fazia muito sentido ver negros executando danças alemãs do século XVIII ao som de canções folclóricas! Ainda comentei que os brancos precisavam dos negros para executar (e muito bem!) suas músicas tradicionais. Tinha ainda umas meninas negras mais clarinhas (rs,rs) em alguns quartetos só de meninas.
Estávamos, é claro, envolvidos em história naquela cidade. Tudo nos remetiam ao século XIX, à família imperial e à escravidão. Hermes nos contava histórias sobre os diversos palácios e monumentos e seus respectivos moradores e homenageados.
A composição do desfile ia nos mostrando a diversas nuances da composição etnica engendrada na história da cidade (a colonização alemã) e na história do Brasil (a presença do negro pela escravidão e todos os seus desdobramentos referentes a alforrias e abolição).
O desfile esta muito democrático, pensávamos (apesar da segregação dos negros à parte musical), correspondia a uma demanda de parte da população da cidade e uma forma de inclusão da mesma numa festa que tem pretensão de tornar-se identidade municipal, devido ao caráter recente de sua realização (desde 1992, eu acho...).
Até que veio a última parte do desfile, um perfilar de pequenas charretes cobertas de flores, com lindas crianças louras sentadas em bancos de veludo. Os condutores e outros adultos que participavam do desfile em cima das charretes eram todos brancos, louros e ruivos. Excelente, divino, maravilhoso! Parecia a Áustria - que lindo!
Mas um pequeno detalhe punha de novo por terra 121 anos de abolição da escravidão - coisa contumaz!
As charretes eram puxadas por burricos e poneis muito bem tradadinhos. No entanto, estes doces animais eram puxados por meninos e rapazolas. Louríssimos? Não! Pretinhos e mulatos (tinha um até meio indígena com negro)! Com roupinha de servo e tudo!
Estava alí um retrato autêntico de uma tradição histórica. Ficamos indgnados na hora. Como pode uma prática de sujeição se perpetuar de tal maneira que fica ainda resquícios até hoje? Os organizadores não perceberam essa gafe? No entanto, agora, na calmaria das emoções, posso talvez entender a lógica da história: assim se deu a história da colonização na cidade.
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