CELEBRIDADES DO ESPORTE
O espetáculo e suas perversões
Por Muniz Sodré em 6/7/2010
Diante de uma prateleira de supermercado, a mulher, de aparência muito humilde, explica à outra por que não tinha torcido pela seleção brasileira: "Eu, aqui, me virando para comprar comida, e aquela turma de milionários correndo atrás de uma bola no campo..."
Em princípio, uma frase dessas, colhida ao acaso no instante fugaz de uma ida ao mercado, não justificaria um texto no Observatório de Imprensa. Se constasse de uma carta de leitor ou de qualquer uma das chamadas mídias sociais (Twitter, Facebook etc.), sim. Mas é possível tomá-la como pretexto para ser coerente com o pensamento de que, às vezes, é necessário complementar a informação de imprensa com o que se observa ao redor, na comunidade.
Essa "informação de imprensa" apareceu numa matéria na edição dominical (4/7) de O Globo, em que a repórter Carla Rocha discorre sobre as consequências da meteórica ascensão social de jogadores de futebol:
"Num dia, são jovens que passam fome em categorias de base, enfrentando privações na esperança de um lugar num grande clube; no outro, adultos para os quais a sorte brilhou, descortinando um mundo maravilhoso de carrões, mulheres lindíssimas e muito, muito dinheiro. Esse jato social, porém, está sujeito a turbulências, principalmente no campo emocional."
"Eles passam a se achar poderosos"
É certamente controversa a frase da mulher no supermercado. Jogadores de futebol partilham a condição de astros do espetáculo com cantores, atores de TV e cinema etc., muitos dos quais são meteóricos milionários. Isto não impede os consumidores, o grande público de aderir emocionalmente ao espetáculo. A frase em questão poderia, assim, ser interpretada como desabafo ou ressentimento frente à distância na distribuição de renda ou às desigualdades da sorte em matéria de condição social.
Mas é também admissível a hipótese de que a frase pertença, embora de modo não explícito, ao mesmo contexto crítico que gerou a reportagem de Carla Rocha, com o título "acesso rápido à fama deixa jogadores sem limites". Neste caso, ambos as personagens estão levantando a questão milenar da hybris, o excesso que tanto preocupava na Antiguidade grega o grande Sólon, para quem a abundância conduziria à hybris, e a hybris à ruína.
Não é bizantinismo ou pedantismo cultural invocar aqui o antigo grego, uma vez que essa questão atravessa a consciência do homem desde Sólon e a poesia trágica até hoje, até mesmo no mais comezinho dos assuntos. Já tivemos um presidente da República defenestrado do poder por motivos de hybris, por falta de limites.
Na verdade, não é nada comezinho o fato que lastreia a reportagem em pauta, já que o texto gira em torno do sumiço de Eliza Samudio, ex-amante de Bruno, goleiro do Flamengo. O fato tem a gravidade característica de toda suspeita de homicídio que, no caso, é levantada sobre o goleiro, já indiciado por tentativa de aborto, ameaça, cárcere privado e lesão corporal, nos termos de uma denúncia de agressão feita por Eliza no ano passado. Associados ao fato, relatam-se os casos de outros jogadores de futebol em quem a falta de limites se estende em casos de alcoolismo, drogas e violência.
"Eles passam a se achar poderosos", comenta o presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte. "Há um lapso muito grande, num prazo de tempo curto, entre a vida das dificuldades na infância e o status que esses jogadores conquistam graças ao esporte."
Modelagem ética
Claro, a mídia tem a sua parte na construção dessa imagem de onipotência de que se investe a celebridade futebolística. Mas a mídia aí não está sozinha, já que é coadjuvada nessa construção por parceiros não declarados, como políticos, dirigentes de clubes, marketing empresarial etc. De fato, a notícia de jornal não é simples "reflexo" automático de uma realidade singular, ou seja, a construção de um singular pela interpretação de um grupo profissional, como acentuam as análises construtivistas do jornalismo.
O acontecimento jornalístico ocorre sempre depois dos fatos, isto é, quando se produz o trabalho logotécnico de determinação das circunstâncias – apuração dos detalhes, realização de entrevistas, portanto mobilização de parcelas do público, que são também "atores" do acontecimento. Esses atores "extrafactuais" costumam isentar-se de responsabilidade social (há sempre um jovem na outra ponta do circuito comunicativo) e entrar de cabeça na louvação do espetáculo puro e simples. Não é nenhum moralismo cultural considerar que, embora vivamos inapelavelmente na sociedade do espetáculo, há aspectos da espetacularização capazes de suscitar o que há de pior no gênero humano.
Não é preciso ir muito longe nos exemplos nem rebuscar as razões da promiscuidade entre celebridades e criminosos, tão visível nas páginas da imprensa carioca. Basta fazer um pequeno playback mental para as imagens do descontrole emocional da seleção brasileira no segundo tempo do jogo com a Alemanha: os socos de Dunga no poste, o pisão desnecessário do jogador na perna do adversário etc. Há excesso de arrogância, hybris ou lá que outro nome se queira dar à falta de limites, à onipotência da exibição pública de um descontrole lastreado por dinheiro em demasia. Nesse horizonte, até mesmo a impunidade do homicídio se converte em expectativa.
Com ou sem ressentimento, a frase da mulher no supermercado traduz um certo sentimento comunitário de que talvez devam ser menos lenientes os juízos sociais (e midiáticos) em casos de quebra de modelagem ética desses célebres ou, quem sabe, mais severos os impostos sobre as fortunas. O espetáculo não deve ser nenhuma forma de morte do equilíbrio social.
Informações, curiosidades, comentários, pontos-de vista... Este é o nosso blog, vamos fazer ouvir a voz da minoria que não se resigna; a "minoria" ruidosa!
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sexta-feira, 9 de julho de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
IRAN X "MUNDO CIVILIZADO"
Acordo Brasil-Irã e a "inveja" da mídia
Reproduzo artigo de Leandro Fortes, publicado no blog “Brasília, eu vi”:
Em linhas gerais, Luís Fernando Veríssimo disse, em artigo recente, que as gerações futuras de historiadores terão enorme dificuldade para compreender a razão de, no presente que se apresenta, um presidente da República tão popular como Luiz Inácio Lula da Silva ser alvo de uma campanha permanente de oposição e desconstrução por parte da mídia brasileira. Em suma, Veríssimo colocou em perspectiva histórica uma questão que, distante no tempo, contará com a vantagem de poder ser discutida a frio, mas nem por isso deixará de ser, talvez, o ponto de análise mais intrigante da vida política do Brasil da primeira década do século XXI.
A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca, chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar a força histórica do momento e suas conseqüências para a consolidação daquilo que se anuncia, finalmente, como civilização brasileira.
O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado, fruto de uma incompreensão histórica que só pode ser justificada pelo distanciamento dos donos da mídia em relação ao mundo real, e da disponibilidade quase infinita de seus jornalistas para fazer, literalmente, qualquer trabalho que lhe mandarem os chefes e patrões, na vã esperança de um dia ser igual a eles.
Assim, enquanto a imprensa mundial se dedica a decodificar as engrenagens e circunstâncias que fizeram de Lula o mais importante líder mundial desse final de década, a imprensa brasileira se debate em como destituí-lo de toda glória, de reduzí-lo a um analfabeto funcional premiado pela sorte, a um manipulador de massas movido por programas de bolsas e incentivos, a um demagogo de fala mansa que esconde pretensões autoritárias disfarçadas, aqui e ali, de boas intenções populares. Tenta, portanto, converter a verdade atual em mentiras de registro, como se fosse possível enganar o futuro com notícias de jornal.
Destituídos de poder e credibilidade, os barões dessa mídia decadente e anciã se lançaram nessa missão suicida quando poderiam, simplesmente, ter se dedicado a fazer bom jornalismo, crítico e construtivo. Têm dinheiro e pessoal qualificado para tal. Ao invés disso, dedicaram-se a escrever para si mesmos, a se retroalimentar de preconceitos e maledicências, a pintarem o mundo a partir da imagem projetada pela classe média brasileira, uma gente quase que integralmente iletrada e apavorada, um exército de reginas duartes prestes a ter um ataque de nervos toda vez que um negro é admitido na universidade por meio de uma cota racial.
Ainda assim, paradoxalmente, uma massa beneficiada pelo crescimento econômico, mas escrava da própria indigência intelectual.
Reproduzo artigo de Leandro Fortes, publicado no blog “Brasília, eu vi”:
Em linhas gerais, Luís Fernando Veríssimo disse, em artigo recente, que as gerações futuras de historiadores terão enorme dificuldade para compreender a razão de, no presente que se apresenta, um presidente da República tão popular como Luiz Inácio Lula da Silva ser alvo de uma campanha permanente de oposição e desconstrução por parte da mídia brasileira. Em suma, Veríssimo colocou em perspectiva histórica uma questão que, distante no tempo, contará com a vantagem de poder ser discutida a frio, mas nem por isso deixará de ser, talvez, o ponto de análise mais intrigante da vida política do Brasil da primeira década do século XXI.
A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca, chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar a força histórica do momento e suas conseqüências para a consolidação daquilo que se anuncia, finalmente, como civilização brasileira.
O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado, fruto de uma incompreensão histórica que só pode ser justificada pelo distanciamento dos donos da mídia em relação ao mundo real, e da disponibilidade quase infinita de seus jornalistas para fazer, literalmente, qualquer trabalho que lhe mandarem os chefes e patrões, na vã esperança de um dia ser igual a eles.
Assim, enquanto a imprensa mundial se dedica a decodificar as engrenagens e circunstâncias que fizeram de Lula o mais importante líder mundial desse final de década, a imprensa brasileira se debate em como destituí-lo de toda glória, de reduzí-lo a um analfabeto funcional premiado pela sorte, a um manipulador de massas movido por programas de bolsas e incentivos, a um demagogo de fala mansa que esconde pretensões autoritárias disfarçadas, aqui e ali, de boas intenções populares. Tenta, portanto, converter a verdade atual em mentiras de registro, como se fosse possível enganar o futuro com notícias de jornal.
Destituídos de poder e credibilidade, os barões dessa mídia decadente e anciã se lançaram nessa missão suicida quando poderiam, simplesmente, ter se dedicado a fazer bom jornalismo, crítico e construtivo. Têm dinheiro e pessoal qualificado para tal. Ao invés disso, dedicaram-se a escrever para si mesmos, a se retroalimentar de preconceitos e maledicências, a pintarem o mundo a partir da imagem projetada pela classe média brasileira, uma gente quase que integralmente iletrada e apavorada, um exército de reginas duartes prestes a ter um ataque de nervos toda vez que um negro é admitido na universidade por meio de uma cota racial.
Ainda assim, paradoxalmente, uma massa beneficiada pelo crescimento econômico, mas escrava da própria indigência intelectual.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Adriano - Imperador do Brasil

Adriano, pela etimologia significa: “O que possui pele morena”. Pela história, associamos tal nome ao imperador que governou Roma entre 117 e 138. No Brasil, hoje, Adriano é um jogador de futebol que gerou espanto.
Chupado do Projeto PIG
Nos últimos dias um assunto extravasou do noticiário esportivo para a primeira página dos jornais e a chamada de abertura dos telejornais. Adriano, centroavante brasileiro de 27 anos, atleta com contrato milionário com a Internazionale de Milão, após três dias sumido, foi localizado na favela carioca de Vila Cruzeiro.
Quatro dias depois do sumiço, convocou uma coletiva à imprensa e afirmou que não encontrava mais motivação no futebol e que iria interromper suas atividades futebolísticas. Na entrevista, falando com calma e lucidez visíveis, declarou que fora negociado com o futebol europeu aos 19 anos de idade, que a fama e o dinheiro vieram muito rápido, causando um choque, que se sentia só no meio do futebol e dos famosos e que se sente mais feliz na favela onde nasceu e foi criado.
Sexta-feira santa! Uma procissão veio a público recriminá-lo, diagnosticá-lo como doente e recomendar seu tratamento: “o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos, e o banqueiro com um milhão”, diria Chico. Zagalo – visivelmente gagá – disse que Adriano precisava de tratamento, opinião endossada, com o bom humor de sempre, por Murici Ramalho. Parreira começou bem, falando da solidão em que pode se encontrar um jogador nessas condições, para emendar de forma catastrófica dizendo que por isso o sujeito caminhava para a bebida, as drogas e os falsos amigos. Pelé, com a sapiência que lhe é peculiar vaticinou: “isso depõe contra o país”, e viva Romário, que já dizia: “Pelé calado é um poeta”! Uma alma lúcida parece ter iluminado o treinador da Inter, José Mourinho, que afirmou: “é perfeito se você perde o jogador e reencontra o homem”.
Por que as declarações de Adriano incomodaram tanto? Sigo algumas pistas.
Vivemos numa época em que às classes dominantes interessa vender a ilusão de que há saída – individual – para a condição proletária em nosso país (miséria, vida na favela, precarização do trabalho e desemprego estrutural). Uma saída materializada no empreendedorismo, no estímulo à (re)qualificação profissional dos “pobres”, através das ONGs e dos poucos braços de políticas públicas focalizadas, que despertam a vocação para a música ou os esportes (carnaval, funk, rap e futebol ou basquetebol, tanto faz), e exemplificada pelo sucesso de alguns poucos cantores de pagode e jogadores de futebol. Quando um “ídolo” desfaz, com lucidez, o mito, é preciso patologizá-lo: está doente, depressivo, alcoólatra, viciado, etc.
Num momento em que a favela é oficialmente associada ao crime e seus moradores divididos, pelo discurso oficial, entre traficantes e coniventes/candidatos com o/ao tráfico, um exemplo de “sucesso” como Adriano afirmar de público que prefere a Vila Cruzeiro à Milão é extremamente perigoso. Trata-se de uma clara defesa da sociabilidade comunitária construída pela classe trabalhadora na favela, em contraposição ao simulacro de vida burguesa ao qual meia dúzia de pobres “afortunados” (pelo talento ou pela sorte) teve acesso quando elevados à categoria de “ídolos”. E desmascarar fantasias é algo extremamente perigoso. Clínica nele!
Os paparazzi já se cansaram de nos mostrar que Adriano é chegado a uma cerveja e já tomou alguns porres. Como eu e como muitos(as) de vocês que estão lendo este texto. O interessante é perceber que, para explicar sua opção pelo abandono do futebol, de Milão, e da fama, busquem justificativa nas drogas (não no álcool, droga legal, mas nas ilegais) e na sua suposta associação com traficantes. Aliás, estranho é que não questionem porque ele, Kaká, Ronaldinho, e tantos outros, tenham saído daqui tão magrinhos e hoje apresentem um físico tão “bombado”. Drogas? O problema são as vendidas na favela.
Sou flamenguista, única declaração de fé que faço sem maior vacilação. Assisti ao despontar de Adriano, como jogador de futebol, das arquibancadas do Maracanã. Xinguei aqueles ladrões travestidos de “dirigentes” que, de seus postos na Gávea, venderam aquela “promessa” entre tantas outras, como mercadoria que são, para o futebol europeu.
E é como torcedor e como homem (no sentido genérico de um ser social que busca se encontrar com sua humanidade) que me sinto feliz ao ouvir a entrevista de Adriano, que não se conformou com a fama, o sucesso, a riqueza, e busca, sabe-se lá onde – talvez em Vila Cruzeiro – a felicidade. Sejamos todos como Adriano, o lúcido!
(*) Marcelo Badaró Mattos é professor de História.
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Fonte: Fazendo Media
P.S: Felizmente, para a alegria da Nação Rubro-Negra, Adriano está de volta ao Mengão, e fazendo gol! Seja feliz, Imperador, no time mais popular do mundo!!!
quarta-feira, 11 de março de 2009
O negócio é fazer terror...
Já reparou como os apresentadores dos telejornais, principalmente os da Globo, apresentam as notícias ecônomicas com cara de enterro?
Ontem, como todos os dias, Willian Bonner dava destaque às noticias da crise como se o mundo estivesse acabando e à beira do abismo! Os últimos indicadores que acusavam um recuo no PIB brasileiro no último trimestre, parecia um desastre irreversível.
Não foi dito que, apesar do recuo nos números, o Brasil teve um crescimento real na sua economia, crescendo no ano passado 5,l%.
O aumento na Bolsa de Valores foi noticiado como acontecimento secundário. Em outro contexto seria destaque.
Na verdade, o que a mídia (principalmente a televisiva - acompanhada pelo povão) quer é fazer estardalhaço e sensacionalismo. Não interessa a ela elucidar o leitor/telespectador, mas confundí-lo e formar uma opnião deturpada, conforme seus interesses políticos e ideológicos.
Ontem, como todos os dias, Willian Bonner dava destaque às noticias da crise como se o mundo estivesse acabando e à beira do abismo! Os últimos indicadores que acusavam um recuo no PIB brasileiro no último trimestre, parecia um desastre irreversível.
Não foi dito que, apesar do recuo nos números, o Brasil teve um crescimento real na sua economia, crescendo no ano passado 5,l%.
O aumento na Bolsa de Valores foi noticiado como acontecimento secundário. Em outro contexto seria destaque.
Na verdade, o que a mídia (principalmente a televisiva - acompanhada pelo povão) quer é fazer estardalhaço e sensacionalismo. Não interessa a ela elucidar o leitor/telespectador, mas confundí-lo e formar uma opnião deturpada, conforme seus interesses políticos e ideológicos.
segunda-feira, 9 de março de 2009
A HOMENAGEM DA IGREJA AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Berna (Suiça) - Com alguns dias de antecedência, o arcebispo de Olinda e Recife prestou sua homenagem às mulheres brasileiras, representadas em duas gerações – mãe e filha. Excomungou a mãe por ter permitido à sua filha de nove anos abortar dois fetos gêmeos gerados no estupro cometido pelo padrasto. E o Vaticano completou a homenagem ratificando a decisão do arcebispo que inclui a excomunhão dos médicos praticantes do aborto.
As mulheres brasileiras deveriam colocar no altar das homenagens ao Dia Mundial da Mulher essa decisão clerical digna da Idade Média, quando as mulheres eram queimadas em praça pública suspeitas de feitiçaria, seja por olharem os homens de frente, seja por gozarem mais de uma vez, seja por gritarem de prazer no coito e não pedirem perdão e nem se benzerem por tanto fogo infernal, do qual não deixavam participar seu confessor.
A hipocrisia tem um limite, amplamente ultrapassado com esse ato de excomunhão, sem nenhum valor prático mas grande em significado. Contam que, pouco antes de morrer, Voltaire, o líder francês dos Anos Luzes, recebeu a visita de um padre desejoso de lhe dar a extrema-unção e redimir o ateu impenitentte num ato de contrição. O irônico e cínico Voltaire lhe perguntou – “vem da parte de quem ?” ao que o padre respondeu – “sou um representante de Deus”. Ao que Voltaire, mesmo nos seus últimos instantes, prontamente retrucou – “mostre suas credenciais ou saia deste quarto”.
Faz umas três semanas, na Itália, o pai de uma jovem mantida artificialmente em vida por 17 anos, autorizou que fossem desligados os aparelhos. A jovem tinha 23 anos quando foi vítima de um acidente de trânsito e, aos 40 anos, nunca mostrara nenhuma reação. O corpo mantinha suas funções mecânicas básicas mas o cérebro deixara de funcionar.
Silvio Berlusconi, o fanfarrão que dirige a Itália e que acaba de relançar as mílicias fascistas dos anos 30 de Mussolini, encarregadas da caça aos imigrantes ilegais, teve uma frase que emocionou os italianos – “é uma mulher que pode mesmo ter filhos!”. Quem senão ele poderia pensar na hipótese de fazer um filho, de se aproveitar do corpo de uma mulher em coma permanente ? Só mesmo num filme de Almodovar acontece esse gesto, que não chega a ser de necrofilia, porque a personagem fica grávida em coma.
Pois bem, quando a jovem morreu por ter sido desligado o aparelho que a mantinha em vida artificial, a Igreja católica promoveu vigílias e fez protestos com seus devotos contra o “assassinato” cometido. Não sei se houve também excomunhões. A pretexto do que ? Da defesa da vida, mas que vida ? a vida artificial mantida por tubos, máquina ligada, remédios, sofrimento que teria a jovem se seu cérebro já não tivesse se desligado ?
André Malraux fez uma profecia, que parece ser mais uma maldição que um vaticínio – “o próximo século será religioso ou não será!”. A religião que vai ganhando espaço no nosso planeta, não só no Brasil, é sinônimo de reacionarismo, de um tenebroso retorno às superstições, às crendices, ao irracional e isso envolve não só o catolicismo, hoje guiado por um Papa medieval, que poderá provocar mesmo um racha aqui na Europa, como o integrismo muçulmano, no qual a mulher não tem ainda a dignidade de ser humano, e no integrismo da religão judáica, insuportável para muitos israelenses que deixam Jerusalem para ir viver na atmosfera mais livre de Telavive.
O arcebispo de Olinda e Recife, nada a ver com o falecido dom Helder Câmara, queria que a menina de nove anos desse à luz, o que poderia provocar sua morte, para nascerem os gêmeos concebidos numa violação, que seriam órfáos de mãe e filhos de um estuprador na prisão. Onde a chamada piedade cristã, o amor, o respeito à dignidade humana ? Não se trata de um desvio sádico ?
Durante a guerra na ex-Iugoslávia, quando as tropas raivosas de sérvios invadiam a Bósnia muçulmana e vice-versa, descarregavam seu estresse de guerra, violando as mulheres dos seus inimigos. E como muitas ficaram grávidas, perguntaram aos dirigentes religiosos católicos ortodoxos e muçulmanos se poderiam abortar, sendo-lhes respondido que deveriam parir o fruto do crime de que tinham sido vítimas, amamentar e criar a descendência do seu violador.
As mulheres que, ainda ontem não tinham o direito de votar, que são apedrejadas em muitos países muçulmanos quando suspeitas de adultério, jogadas na rua quando morre seu marido indiano, que, há apenas trinta anos conseguiram, na França, o direito do ventre livre e de dispor do seu útero, ainda têm um bom caminho pela frente para poderem comemorar seu Dia mundial.
Milhões delas ainda são obrigadas a esconder seu corpo dentro da burca, milhares são enterradas vivas até o pescoço para serem apedrejadas ou presas por não cobrirem a cabeça e rosto com o chador, enquanto no nosso evoluído Ocidente são obrigadas a guardarem no seu ventre o fruto de estupros, violações ou prostituição sob pena de serem condenadas etenamente ao fogo do inferno.
Parodiando Marx, poderíamos dizer – mulheres de todo mundo, uní-vos contra a mentira e a enganação.
Veja mais em lingua de trapo
As mulheres brasileiras deveriam colocar no altar das homenagens ao Dia Mundial da Mulher essa decisão clerical digna da Idade Média, quando as mulheres eram queimadas em praça pública suspeitas de feitiçaria, seja por olharem os homens de frente, seja por gozarem mais de uma vez, seja por gritarem de prazer no coito e não pedirem perdão e nem se benzerem por tanto fogo infernal, do qual não deixavam participar seu confessor.
A hipocrisia tem um limite, amplamente ultrapassado com esse ato de excomunhão, sem nenhum valor prático mas grande em significado. Contam que, pouco antes de morrer, Voltaire, o líder francês dos Anos Luzes, recebeu a visita de um padre desejoso de lhe dar a extrema-unção e redimir o ateu impenitentte num ato de contrição. O irônico e cínico Voltaire lhe perguntou – “vem da parte de quem ?” ao que o padre respondeu – “sou um representante de Deus”. Ao que Voltaire, mesmo nos seus últimos instantes, prontamente retrucou – “mostre suas credenciais ou saia deste quarto”.
Faz umas três semanas, na Itália, o pai de uma jovem mantida artificialmente em vida por 17 anos, autorizou que fossem desligados os aparelhos. A jovem tinha 23 anos quando foi vítima de um acidente de trânsito e, aos 40 anos, nunca mostrara nenhuma reação. O corpo mantinha suas funções mecânicas básicas mas o cérebro deixara de funcionar.
Silvio Berlusconi, o fanfarrão que dirige a Itália e que acaba de relançar as mílicias fascistas dos anos 30 de Mussolini, encarregadas da caça aos imigrantes ilegais, teve uma frase que emocionou os italianos – “é uma mulher que pode mesmo ter filhos!”. Quem senão ele poderia pensar na hipótese de fazer um filho, de se aproveitar do corpo de uma mulher em coma permanente ? Só mesmo num filme de Almodovar acontece esse gesto, que não chega a ser de necrofilia, porque a personagem fica grávida em coma.
Pois bem, quando a jovem morreu por ter sido desligado o aparelho que a mantinha em vida artificial, a Igreja católica promoveu vigílias e fez protestos com seus devotos contra o “assassinato” cometido. Não sei se houve também excomunhões. A pretexto do que ? Da defesa da vida, mas que vida ? a vida artificial mantida por tubos, máquina ligada, remédios, sofrimento que teria a jovem se seu cérebro já não tivesse se desligado ?
André Malraux fez uma profecia, que parece ser mais uma maldição que um vaticínio – “o próximo século será religioso ou não será!”. A religião que vai ganhando espaço no nosso planeta, não só no Brasil, é sinônimo de reacionarismo, de um tenebroso retorno às superstições, às crendices, ao irracional e isso envolve não só o catolicismo, hoje guiado por um Papa medieval, que poderá provocar mesmo um racha aqui na Europa, como o integrismo muçulmano, no qual a mulher não tem ainda a dignidade de ser humano, e no integrismo da religão judáica, insuportável para muitos israelenses que deixam Jerusalem para ir viver na atmosfera mais livre de Telavive.
O arcebispo de Olinda e Recife, nada a ver com o falecido dom Helder Câmara, queria que a menina de nove anos desse à luz, o que poderia provocar sua morte, para nascerem os gêmeos concebidos numa violação, que seriam órfáos de mãe e filhos de um estuprador na prisão. Onde a chamada piedade cristã, o amor, o respeito à dignidade humana ? Não se trata de um desvio sádico ?
Durante a guerra na ex-Iugoslávia, quando as tropas raivosas de sérvios invadiam a Bósnia muçulmana e vice-versa, descarregavam seu estresse de guerra, violando as mulheres dos seus inimigos. E como muitas ficaram grávidas, perguntaram aos dirigentes religiosos católicos ortodoxos e muçulmanos se poderiam abortar, sendo-lhes respondido que deveriam parir o fruto do crime de que tinham sido vítimas, amamentar e criar a descendência do seu violador.
As mulheres que, ainda ontem não tinham o direito de votar, que são apedrejadas em muitos países muçulmanos quando suspeitas de adultério, jogadas na rua quando morre seu marido indiano, que, há apenas trinta anos conseguiram, na França, o direito do ventre livre e de dispor do seu útero, ainda têm um bom caminho pela frente para poderem comemorar seu Dia mundial.
Milhões delas ainda são obrigadas a esconder seu corpo dentro da burca, milhares são enterradas vivas até o pescoço para serem apedrejadas ou presas por não cobrirem a cabeça e rosto com o chador, enquanto no nosso evoluído Ocidente são obrigadas a guardarem no seu ventre o fruto de estupros, violações ou prostituição sob pena de serem condenadas etenamente ao fogo do inferno.
Parodiando Marx, poderíamos dizer – mulheres de todo mundo, uní-vos contra a mentira e a enganação.
Veja mais em lingua de trapo
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Crise? What crise?
Crise? Que crise?
O mundo globalizado parece atravessar uma crise financeira gigantesca, pelo menos é isto que nos informa de maneira dramática e desesperada os meios de comunicação. Na esteira desta crise, empresas anunciam demissões em massa – grandes empresas estão mandando gente embora aos borbotões. No Brasil a mídia escrita e televisiva anuncia com grande alarde o número da crise, justificando as demissões e criticando de maneira velada os investimentos “irresponsáveis” do governo na área social. No entanto, o que me parece (e eu não sou especialista no assunto e estou emitindo uma simples opinião) é que esta suposta crise é mais “psicológica” do que real. Os números da econômica, no Brasil, são bastante positivos: no último trimestre o país obteve um crescimento satisfatório da produção industrial com muitas empresas diversificando os investimentos. Setores como o automobilístico continuam crescendo como antes e outros setores continuam expandindo. Segmentos da classe C e D participam ativamente da economia ampliando o consumo e introduzindo novos itens no seu dia-a-dia. A inadimplência diminuiu e as compras a crédito (talvez reflexo do fator psicológico da “crise”) estão mais restritas.
Apesar disso, os jornais televisivos, principalmente, continuam falando em crise afetando todos os segmentos sociais e econômicos, até o Carnaval da Bahia! Pois bem, peguemos o exemplo das emissoras de TV, as que mais reclamam da “crise”: Nos últimos tempos as três maiores redes de televisão tiveram um faturamento recorde com anúncios (o que de fato as sustentam). O SBT de Sílvio Santos, que tem perdido espaço nos últimos anos, faturou com publicidade a fabulosa quantia de 700 milhões de reais. Isto não impediu que a emissora anunciasse o corte pela metade do salário de uma de suas maiores estrelas, Hebe Camargo (coitada da perua!). A Record, que vem crescendo bastante ultimamente, faturou nada menos que um bilhão e oitocentos milhões de reais. A Globo, com suas cinco emissoras – líder absoluta - faturou, pasmem!, 9,5 bilhões! Não parece que elas choram de barriga cheia? E as grandes corporações mundiais, anunciando cortes gigantescos de funcionários? Não parece desculpa para demitir em massa? A crise anunciada não parece desculpa para tubarões grandes engolirem tubarões médios e pequenos? Há algo de podre no reino da Dinamarca.
O mundo globalizado parece atravessar uma crise financeira gigantesca, pelo menos é isto que nos informa de maneira dramática e desesperada os meios de comunicação. Na esteira desta crise, empresas anunciam demissões em massa – grandes empresas estão mandando gente embora aos borbotões. No Brasil a mídia escrita e televisiva anuncia com grande alarde o número da crise, justificando as demissões e criticando de maneira velada os investimentos “irresponsáveis” do governo na área social. No entanto, o que me parece (e eu não sou especialista no assunto e estou emitindo uma simples opinião) é que esta suposta crise é mais “psicológica” do que real. Os números da econômica, no Brasil, são bastante positivos: no último trimestre o país obteve um crescimento satisfatório da produção industrial com muitas empresas diversificando os investimentos. Setores como o automobilístico continuam crescendo como antes e outros setores continuam expandindo. Segmentos da classe C e D participam ativamente da economia ampliando o consumo e introduzindo novos itens no seu dia-a-dia. A inadimplência diminuiu e as compras a crédito (talvez reflexo do fator psicológico da “crise”) estão mais restritas.
Apesar disso, os jornais televisivos, principalmente, continuam falando em crise afetando todos os segmentos sociais e econômicos, até o Carnaval da Bahia! Pois bem, peguemos o exemplo das emissoras de TV, as que mais reclamam da “crise”: Nos últimos tempos as três maiores redes de televisão tiveram um faturamento recorde com anúncios (o que de fato as sustentam). O SBT de Sílvio Santos, que tem perdido espaço nos últimos anos, faturou com publicidade a fabulosa quantia de 700 milhões de reais. Isto não impediu que a emissora anunciasse o corte pela metade do salário de uma de suas maiores estrelas, Hebe Camargo (coitada da perua!). A Record, que vem crescendo bastante ultimamente, faturou nada menos que um bilhão e oitocentos milhões de reais. A Globo, com suas cinco emissoras – líder absoluta - faturou, pasmem!, 9,5 bilhões! Não parece que elas choram de barriga cheia? E as grandes corporações mundiais, anunciando cortes gigantescos de funcionários? Não parece desculpa para demitir em massa? A crise anunciada não parece desculpa para tubarões grandes engolirem tubarões médios e pequenos? Há algo de podre no reino da Dinamarca.
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