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quinta-feira, 11 de julho de 2013
CIA não decifra Djavan
LINHA DO EQUADOR –
Duas unidades da CIA entraram em colapso na tarde de ontem após sucessivas tentativas de quebrar o código das correspondências eletrônicas entre Djavan e Gilberto Gil. “Logramos êxito em compreender códigos nazistas, letras do Luiz Melodia e peças do Gerald Thomas. Conseguimos encontrar sentido no que dizem Tiago Leifert e Luciana Gimenez. Num esforço sem precedentes, deciframos até mesmo colunas do Merval Pereira. Mas a conversa entre o Sr. Djavan e o Sr. Gil utiliza um aparelho linguístico sofisticado demais”, revelou o espião James Michelin.
Intrigado com o que chamou de “questão de segurança nacional”, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se apressou na contratação de seis mil espiões cubanos. “Parece que há um jovem gênio em Havana que invadiu os computadores da Nasa, encontrou as usinas de enriquecimento de urânio norte-coreanas e, pasmem, decifrou os versos Açaí/ guardiã/ Zum de besouro/ um imã/ Branca é a tez da manhã“, comemorou.
Animado com o aquecimento do mercado de espionagem, o governador Sérgio Cabral abriu uma licitação para empresas interessadas em bisbilhotar o Rio de Janeiro. Minutos depois, um homem misterioso realizou o IPO da empresa CIAX na Bovespa.
Procurados pelo piauí Herald, Gil e Djavan disseram estar ocupados trocando emails sobre as últimas colunas de Caetano Veloso no Globo.
Read more: http://www.humorpolitico.com.br/satira/cia-nao-consegue-decodificar-correspondencia-de-djavan/#ixzz2YlMil5NT
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domingo, 24 de junho de 2012
Golpe no Paraguai
O GOLPE PARAGUAIO
Laerte Braga
O golpe sumário dado pelo Parlamento do Paraguai contra o presidente Fernando Lugo tem a marca registrada da classe dominante naquele país. Latifundiários associados a multinacionais, Forças Armadas corrompidas e cooptadas por interesses de grandes corporações, bancos e os donos da terra.
O Paraguai jamais se recuperou da guerra contra o Brasil, a Argentina e o Uruguai (1864/1870). O conflito foi estimulado pela Inglaterra, então maior potência do mundo, em defesa de seus interesses econômicos.
O Paraguai era o país mais industrializado e socialmente desenvolvido da América Latina. Não dependia de países da Europa, tinha uma indústria têxtil competitiva e era um dos grandes exportadores de mate, além de exportar manufaturados em ferro fundido (Fundición de Hierro Ybycui) e outros manufaturados para países vizinhos e Europa, concorrendo com o império britânico.
O capital para a guerra foi dos ingleses e, em meio ao conflito é que, praticamente, se construíram as forças armadas brasileiras, inteiramente despreparadas para um confronto de tal envergadura. Nos primeiros anos da guerra os soldados brasileiros passavam fome e os armamentos eram mínimos, insuficientes para o genocídio que viria mais à frente. Foi a consequência inicial da avidez do governo imperial brasileiro de aceitar as libras inglesas.
Os países que formaram a chamada Tríplice Aliança, numa selvageria sem tamanho, mataram 70% da população paraguaia e até hoje a maioria acentuada entre os que nascem naquele país é de homens.
De lá para cá o Paraguai tem sido governado por ditadores, numa sucessão de golpes de estados e o breve período “democrático” que se seguiu à deposição do último general, Alfredo Stroessner (morreu exilado no Brasil; era capacho da ditadura militar brasileira), encerra-se agora com a deposição branca de Fernando Lugo. Um ex-bispo católico, conhecido como o “bispo dos pobres”. O mandato de Lugo terminaria no próximo ano. O vice-presidente é do Partido Liberal, aquele jogo político de amigos e inimigos cordiais, onde os donos se revezam no poder.
O pretexto para a deposição de Lugo foi um massacre de trabalhadores rurais sem terra, numa região próxima à fronteira com o Brasil. Morreram manifestantes e integrantes das forças de repressão. De lá para cá Lugo enfrenta um inferno.
Latifundiários brasileiros, a classe dominante paraguaia – subordinada a interesses do Brasil e de corporações internacionais – se uniram contra Lugo e o apoio de empresas como a MONSANTO, a DOW CHEMICAL. o silêncio formal e proposital dos EUA, todos esses ingredientes foram misturados e transformados em golpe de estado.
Tal e qual aconteceu em Honduras contra Manoel Zelaya. A nova “fórmula” para golpes de estado na América Latina. A farsa democrática, o rito constitucional transformado em instrumento golpista na falta de pudor da classe dominante. No caso do Paraguai, como no de Honduras, miquinhos amestrados do capitalismo internacional.
A elite paraguaia jamais permitiu ao longo desses anos todos, desde 1870, que o país se colocasse de pé novamente. Tem sido um apêndice de interesses políticos e econômicos de corporações estrangeiras e do sub-imperialismo brasileiro. Carregam as malas dos donos enquanto submetem os trabalhadores a um regime desumano e cruel que não mudou e nem vai mudar enquanto não houver resistência efetiva e nas ruas contra esse tipo de procedimento, contra essa subserviência corrupta e golpista.
E cumplicidade de governos vizinhos. Mesmo que por omissão, ou fingir que faz alguma coisa.
E necessária a consciência dos governos de países como o Brasil que situações de golpe são inaceitáveis. Que a integração latino americana é fundamental e se faz com democracia e participação popular.
Fernando Lugo cometeu erros. O maior deles o de acreditar que era possível governar o país com grupos da direita. As políticas de conciliação onde a elite é implacável e medieval, as forças armadas são agentes – em sua maioria esmagadora – de interesses contrários aos nacionais e as forças populares sistematicamente encurraladas pela violência e barbárie.
Ou se percebe que o golpe contra Lugo é um golpe contra toda a América Latina, ou breve situações semelhantes em outros países. Por trás de tudo isso, em maior ou menor escala, mas de forma direta os EUA e o que significam no mundo de hoje.
No que o presidente do Irã, Mahamoud Ahmadinejad chama de colonizadores. No ano 2000 o economista César Benjamin, numa palestra na cidade mineira de Juiz de Fora espantou os ouvintes ao dizer que “o século XIX foi o dos grandes impérios colonizadores, o século XX o do fim do colonialismo, o século XXI vai assistir a um novo ciclo de colonização de países periféricos às grandes potências”.
A previsão está se confirmando.
O secretário geral da UNASUL, Ali Rodriguez disse em entrevista a vários jornalistas que “o Paraguai pode estar em meio a golpe de Estado devido à rapidez do julgamento político do presidente do país, Fernando Lugo” e mostrou-se preocupado com um possível “processo de violência; tudo indica que uma decisão já foi tomada e que pela rapidez com a qual os eventos estão acontecendo, poderíamos estar perante um golpe de Estado”.
Basta que países como o Brasil e a Argentina, por exemplo, asfixiem econômica e politicamente o novo governo para que ele não se sustente. Depende da vontade política de um e outro de manter a democracia no Paraguai, mesmo frágil, de pé.
A classe dominante paraguaia nunca deu muita importância a isso, pois sempre consegue espaço para se acomodar e continuar a transformação do país em uma espécie de vagão a reboque principalmente do Brasil. Desde o fim da guerra, em 1870 tem sido assim.
Fernando Lugo foi acusado, entre as farsas várias, de humilhar as forças armadas (existem, ou são esbirros do capitalismo?) e colocar-se ao lado dos trabalhadores sem terra.
É o velho e boçal latifúndio que no Paraguai é a força econômica mais poderosa.
Os protestos populares acontecem próximo ao Parlamento, mas já com forças policiais prontas para massacrar e impedir qualquer reação.
É preciso ir às ruas em toda a América Latina e é fundamental asfixiar essa elite que cheira a esgoto.
Se o governo brasileiro quiser não tem golpe que sobreviva. O problema é querer. A preocupação hoje, no entanto, é de “consenso possível” (um fracasso na RIO+20) e as eleições de outubro.
A mídia de mercado – fétida também – no Brasil já desestimula qualquer atitude mais forte do governo. Afirma que Lugo declarou que aceitará o “julgamento político”. É mais uma das muitas e constantes mentiras padrão da imprensa-de-mercado.
O golpe no Paraguai fere o arremedo de democracia que sub-existe no Brasil e outros países com o consentimento dos “poderes moderadores”. As elites políticas e econômicas são as mesmas, arcaicas, podres e totalitárias. Quando querem colocam as garras de fora.
Foi o que fizeram com Lugo. O que querem fazer com Chávez. Com Evo Morales e outros tantos.
E no fim de tudo atribuir a culpa ao Irã.
http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/06/o-golpe-paraguaio.html
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
BYE BYE TUCANOS

Requiescat in Pace [Descanse em paz]
Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz !
por José Luís Fiori*
Foi no dia 5 de fevereiro de 1998 que o ex-primeiro-ministro inglês, Tony Blair, anunciou, em Washington, junto com o presidente Bill Clinton, a decisão de convocar uma reunião internacional para discutir e atualizar a social-democracia, criando um movimento que foi chamado de "terceira via" ou “governança progressiva”. Naquele momento, brilhava a estrela do novo líder inglês, que recém havia sido empossado e conseguiu reunir, sucessivamente, em Florença, Washington e Londres, Bill Clinton, Lionel Jospin, Gerhard Schröder, Massimo D´Alema, Fernando H. Cardoso, Ricardo Lagos, entre outros governantes e intelectuais ligados de uma forma ou outra à social-democracia européia, ou ao partido democrata norte-americano.
O projeto comum era construir um novo programa que adequasse a velha social-democracia às novas idéias e políticas neoliberais, hegemônicas nas últimas décadas do século XX. O resultado foi uma geléia ideológica, com propostas extremamente vagas e imprecisas, que mal encobriam o seu núcleo duro voltado para a abertura, desregulação e desestatização das economias nacionais, e para um "prologement vaguement social de la révolution thatcheriste", como caracterizou na época, a revista francesa, Nouvelle Observateur.
Goste-se ou não, as idéias e os partidos socialistas e social-democratas deram uma contribuição decisiva à história do século XX, em particular à criação do “estado do bem-estar social”, depois da II Guerra Mundial. Mas na década de 80, a social-democracia perdeu fôlego político, e acabou perdendo a sua própria identidade ideológica, asfixiada pela grande “restauração” liberal conservadora, de Margerth Thatcher e Ronald Reagan. Isto aconteceu na Espanha, de Felipe Gonzalez, na França, de François Mitterand, na Itália, de Bettino Craxi, e também na Grécia, de Andreas Papandreu. Nos anos 90, entretanto, este movimento adquiriu outra densidade e importância, com a vitória democrata, de Bill Clinton, nos EUA, e do trabalhismo de Tony Blair, na Inglaterra.
Na América Latina, a história foi um pouco diferente, porque as novas políticas neoliberais apareceram – nos anos 80 - associadas à renegociação da dívida externa do continente, como se fossem apenas um problema de política econômica. E foi só no Chile e no Brasil, que a proposta da “terceira via” teve uma repercussão importante, durante a década de 90. No caso do Chile, com a formação da aliança entre socialistas e democrata-cristãos, e, em particular, durante o governo de Ricardo Lagos (1990-1996), que aderiu pessoalmente ao projeto liderado pelos anglo-saxões. E, no caso do Brasil, com a formação do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), e com a participação ativa do presidente Fernando H. Cardoso (1995-2002), na formulação das idéias e nas reuniões do movimento, ao lado de Tony Blair e Bill Clinton.
A “terceira via” teve uma vida muito curta. Talvez, por causa da superficialidade e artificialidade das suas idéias, talvez, porque seus líderes mais importantes acabaram sendo derrotadas nas urnas, ou passaram para a história como grandes fracassos ou blefes político-ideológicos. Como no caso do iniciador do movimento, o ex-primeiro-ministro Tony Blair, que foi afastado da liderança trabalhista em 2007, e se transformou no inimigo numero um da imprensa e da maioria da opinião publica inglesa, sob acusação de ter mentido para justificar a entrada do seu país na Guerra do Iraque, além de ter acobertado casos de tortura, por parte de suas tropas.
Tony Blair foi substituído por Gordon Brown, outro ideólogo da “terceira via” que acabou sofrendo uma das derrotas eleitorais mais arrasadoras da história do trabalhismo inglês. Bill Clinton também não conseguiu fazer seu sucessor, e passou para a história, como símbolo do expansionismo imperial americano, da década de 1990, a despeito de sua retórica “globalista” e democrática. Os demais participantes europeus do movimento também tiveram finais inglórios, como foi o caso de Lionel Jospin, Massimo D´Alema e Gerhard Schröder, e hoje ninguém mais fala ou lembra, na Europa ou nos Estados Unidos, do projeto da “terceira via”. Mas este factóide anglo-americano teve uma sobrevida, e só será enterrado definitivamente, em 2010, na América Latina. Primeiro, no Chile, depois da derrota eleitoral da “Concertacion” de Ricardo Lagos. E depois, no Brasil, com a provável derrota do partido social-democrata, de Fernando H. Cardoso, nas eleições presidências deste ano. Nos dois casos, o que mais chama a atenção não é a derrota em si mesma, é a anorexia ideológica dos dois últimos herdeiros da “terceira via”. Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz !
*José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Fonte: Carta Maior
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domingo, 8 de agosto de 2010
Santos do pau-oco, os verdadeiros terroristas!

Os rapazes da foto tem origem nas chamadas boas famílias de classe média, branca, cristã, protestante e que tiveram acesso a boas escolas e à academia militar da força aérea estadunidense. Qualquer mãe gostaria de ter como genro um rapaz destes - não é assim que se diz?
Entretanto, se tratam de perigosos terroristas. Minutos depois de posar para esta fotografia histórica, eles movimentaram uma fabulosa máquina de morte e destruição que matou na hora cerca de 140 mil pessoas (98% de civis) em Hiroshima, no dia 6 de agosto de 1945, há 65 anos.
O do centro, fumando cachimbo, é o piloto Paul Tibbets do avião B-29, o Enola Gay, que acionou o mecanismo que liberou a bomba nuclear sobre a cidade japonesa, e que a destruiu minutos depois, deixando-a contaminada com a letal poeira atômica, carninogênica e teratogênica.
Que diferença há entre esse pessoal cristão e os muçulmanos ortodoxos do talibã, por exemplo?
Muita diferença. Os talibãs - "fanáticos", como gosta de frisar a imprensa ocidental - lutam pela sua terra, pela sua cultura, pela sua crença religiosa e não invadem o país de ninguém.
Esses sete rapazinhos brancos lutavam pelo quê mesmo? Ah, sim, diziam-se guardiães da civilização ocidental, da sociedade de consumo e do capital e - claro - de um Deus branco, misericordioso e que prega o amor entre os mansos e humildes de coração.
Foto: AP/Força Aérea dos EUA
Fonte: Diário Gauche
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Israel: novo massacre humanitário?

Os capítulos da história são tão claros, quanto dramáticos. Primeiro os judeus obtêm a aprovação da ONU para a construção do Estado de Israel. Para isso expulsam milhões de palestinos que ocupavam a região. Em seguida, aliados aos EUA, impedem que o mesmo direito, reconhecido igualmente pela ONU, seja estendido aos palestinos, com a construção de um Estado soberano tal qual goza Israel.
Depois, ocupação dos territórios palestinos, militarmente, seguida da instalação de assentamentos com judeus chegados especialmente dos países do leste europeu, recortando os territórios palestinos.
Não contentes com esse esquartejamento dos territórios palestinos, veio a construção de muros que dividem esses territórios, buscando não apenas tornar inviável a vida e a sustentabilidade econômica da Palestina, mas humilhar a população que lá resiste.
Há um ano e meio, o massacre de Gaza. A maior densidade populacional do mundo, cercada e afogada na sua possibilidade de sobrevivência, é atacada de forma brutal pelas tropas israelenses, com as ordens de que “não há inocentes em Gaza”, provocando dezenas de milhares de mortos na população civil, em um dos piores massacres que o mundo conheceu nos últimos tempos.
Não contente com isso, Israel continua cercando Gaza. Um ano e meio depois nem foi iniciado o processo de reconstrução, apesar dos recursos recolhidos pela comunidade internacional, porque a população continua cercada da mesma maneira que antes do massacre de dezembro 2008/janeiro 2009. As epidemias se propagam, enquanto remédios e comida apodrecem no deserto, do lado de fora de Gaza, cercada como se fosse um campo de concentração pelas tropas do holocausto contemporâneo.
Periodicamente navios tentavam levar comida e remédios à população de Gaza, chegando por mar, de forma pacífica, mas sistematicamente eram atacados pelas tropas israelenses. Desta vez a maior comitiva internacional de paz, com cerca de 750 pessoas de vários países, se aproximou de Gaza para tentar romper o bloqueio cruel que Israel mantêm sobre a população palestina. Foi atacada pelas tropas israelenses, provocando pelo menos 19 mortos e várias de dezenas de feridos.
Quem representa perigo para a paz na região e para a paz mundial? O Irã ou Israel? Quem perpetra massacres após massacres contra a indefesa população palestina? Quem impede que a decisão da ONU seja colocada em prática, senão Israel e os EUA, bloqueando a única via de solução política e pacifica para a região – o reconhecimento do direito palestino de ter seu Estado? Quem comete os piores massacres no mundo de hoje, senão aqueles que foram vítimas do holocausto no século passado e que se transformaram de vítimas em verdugos?
Fonte: Blog do Emir Sader
terça-feira, 2 de março de 2010
Israel e seus vizinhos

Por Michael Neumann
Nos últimos anos, o sionismo e a ocupação têm sido criticados. A fala laudatória dos EUA pró-Israel não deve enganar ninguém: a maioria, em todo o mundo, está ouvindo também as críticas a Israel, e mais as críticas que a louvação. Mesmo aliados pressupostos eternos e inabaláveis de Israel sabem que é preciso por fim à ocupação da Palestina; a maioria dos israelenses também pensa assim.
Por mais que a maioria dos críticos mais azedos goste de pensar que não, o governo dos EUA – o braço executivo do governo, com certeza – já aprendeu que sim, é preciso por fim à ocupação da Palestina. Quanto à imensa ajuda que não para de chegar a Israel, é preciso considerar dois pontos. Primeiro, os EUA dão praticamente a mesma quantidade de dinheiro e de ajuda militar também aos Estados árabes e ao Paquistão – e vendem armamento de alta tecnologia aos Estados do Golfo. Segundo, a ajuda é parte de um patético esforço para subornar Israel e tentar que encontrem alguma espécie de acomodação razoável com o mundo árabe.
Para uns, a tentativa é patética, porque falsa. Essa visão é perversamente otimista e pressupõe um componente de fé curiosamente abundante na esquerda: a idéia de que os EUA sejam um colosso que poderia, num estalar de dedos, submeter todos os pigmeus que os cercam. Pense-se o que se pensar sobre o poder dos EUA em geral, essa idéia não se aplica ao relacionamento com Israel. Nem o poder de todo o mundo ocidental bastará para submeter Israel.
Israel não é apenas potência nuclear: é uma das principais potências nucleares do planeta. Ainda mais: é a única potência nuclear que brinca com a possibilidade de usar armas atômicas, mesmo que isso implique suicídio. Os estrategistas de Israel, talvez certos de contar com a aprovação divina, chamam a isso “opção Sansão”. Com um pouco de loucura e sorte, Israel pode, sim, detonar um muito assustador primeiro ataque nuclear contra qualquer potência da Terra. Não o fará, é claro, mas esse “é claro” depende de todos termos certeza de que nenhuma potência nuclear usará força militar para obrigar Israel a fazer seja lá o que for. No caso de Israel, nenhuma pressão implica suficiente pressão.
O que aconteceria, então, se os EUA fechassem a torneira da ajuda a Israel? Os que criticam Israel, inclusive alguns israelenses, mostram-se cada dia mais furiosos em sua exigência de que se feche, de vez, aquela torneira. Outra vez, o mesmo otimismo perverso.
Não há dúvidas de que Israel considera imensamente conveniente a ajuda que recebe dos EUA. Mas os EUA também consideram Israel imensamente conveniente. O establishment de defesa israelense não só produz, mas também desenvolve muitas capacidades que são vitalmente importantes para os EUA, dentre as quais os sistemas anti-mísseis, os robôs teleguiados (drones) e inúmeras soluções de ‘ciber-armas’. Por isso, sanções econômicas não funcionarão contra Israel. O país é dono de tecnologia abundantíssima e de armas e equipamento bélico que o mundo faria fila para comprar, praticamente a qualquer preço. Israel não é capaz apenas de sustentar-se financeiramente e economicamente; pode fazê-lo por vias comerciais catastróficas para o Ocidente e contra as quais o Ocidente nada poderia fazer.
Nada disso significa que o conflito Israel/Palestina seja insolúvel. Significa, isso sim, que a solução, seja qual for, não está em "nossas" mãos – dos que criticam, com certeza; mas tampouco está nas mãos das potências ocidentais.
A solução, seja qual for, terá de ser construída em contexto de real equilíbrio de poder no Oriente Médio. A possibilidade de que se alcance esse equilíbrio não é completamente inexistente ou obscura, mas envolve realidades que poucos desejam encarar.
Na melhor (!) das hipóteses, a possibilidade de paz, de fim do "terror" israelense/palestino, está nas mãos dos supostos terroristas, do Hizbollah e seus patrocinadores, entre os quais o Irã. É possível que o Hizbollah tenha poder suficiente para conseguir que os israelenses, como os brancos da África do Sul, sejam obrigados a ler nos muros e encontrem meio de conviver com o povo conquistado. Até a próxima guerra contra o Líbano, ninguém pode avaliar com certeza em que pé está essa correlação de forças.
Mas há outra possibilidade, mais assustadora. E só se converterá em menos assustadora se o Ocidente curvar-se ante o inevitável.
O mundo "árabe", como o Irã, com certeza sabe o quanto é esmagadora e perigosa a vantagem nuclear com que Israel conta. Mas esses países ainda não têm capacidade militar para enfrentar Israel, nem têm poder político para conseguir que outros países o enfrentem. O que acontecerá se se criarem os meios necessários para gerar esse poder político?
De fato, esses meios já estão disponíveis.
Hoje, o mundo – portanto, também o mundo "árabe" – sabe que o Ocidente jamais, nunca, em tempo algum, agirá contra Israel: todas as oportunidades para fazê-lo já vieram e já foram. Mais cedo ou mais tarde, o contexto empurrará cada um dos vizinhos a tentar, cada um, sua alternativa única ou individual. É alternativa cara, não apenas em dólares, mas também, muito provavelmente, em vidas humanas.
As nações árabes e o Irã acabarão por acionar seus direitos de não obedecer aos tratados de não-proliferação de armas nucleares. (São acordos escandalosos, em todos os casos, porque seu único efeito é proteger Israel contra qualquer competição, ao mesmo tempo em que garantem ao país uma carta branca na arena nuclear.) O mundo árabe, provavelmente com apoio de outras nações, poderá então investir num programa coletivo de pesquisa e desenvolvimento de usos da energia nuclear, com o objetivo declarado e explícito de construir tanto meios de defesa e segurança, como meios de uso civil da energia nuclear.
O simples anúncio desses planos – com os efeitos que terão sobre a moral israelense e a convicção do Ocidente – pode gerar resultados consideráveis, praticamente sem custo algum para ninguém. Se Israel persistir em sua obstinação, tratar-se-á de fazer andar os planos, aumentando sempre a pressão no sentido de que se encontre – ou se imponha – uma solução para o conflito Israel/Palestina.
É possível que essa idéia soe a muitos ouvidos como puro extremismo enlouquecido. De fato, o maior extremismo enlouquecido é deixar que Israel primeiro desenvolva e depois ostente suas bombas atômicas, ao mesmo tempo em que a mesma Israel amarra mãos e pés de suas vítimas potenciais. Para desatar essas amarras, basta voltar à política do equilíbrio de poderes que, por séculos, foi considerada a melhor garantia para a paz.
Hoje, essa idéia ainda soa como mera fantasia. Mas o mundo árabe, com apoio do mundo muçulmano não-árabe, andará na direção de implantar essa estratégia no reino das possibilidades reais. Coletivamente, aquelas nações têm toda a riqueza e as habilidades técnicas necessárias. Cada dia mais, todos se dão conta da imperiosa necessidade de por de lado as animosidades e trabalhar pela paz. Deve-se esperar que o mundo árabe, com apoio do mundo muçulmano não-árabe, canse-se, definitivamente, de ser tratado com violência e desprezo.
E qual o papel do ocidente, em tudo isso? Se for incapaz de qualquer participação mais ativa, basta que não se meta. Se insistir, haverá ranger de dentes, sangue, histeria, epilepsia moral. Talvez, depois, a loucura passe e o Ocidente consiga voltar a fazer o que fez tão bem, por tanto tempo: nada.
Tradução de Caia Fittipaldi. O artigo original, em inglês, pode ser lido em: http://www.counterpunch.org/neumann02222010.html
*Michael Neumann é professor de filosofia na Trent University em Ontario, Canadá. É autor de What's Left: Radical Politics and the Radical Psyche and The Case Against Israel e de “What is Anti-Semitism”, em The Politics of Anti-Semitism editado pela editora Counterpunch, NY. Recebe e-mails em mneumann@live.com
Fonte: Revista Fórum
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Irã, um contraponto

O ministro de Defesa de Israel, Ehud Barak, passará de terça (23) até domingo (28) nos EUA, acertando os últimos detalhes para uma operação contra o Irã.
Os poderosos do mundo já sinalizaram que, se e quando o programa nuclear iraniano atingir determinado estágio, haverá uma intervenção militar para afastar a real ou suposta ameaça a Israel, apoiada por alguns deles.
O que assistimos agora é só a sintonia fina, os derradeiros preparativos.
Em vias de conquistar a prenda almejada neste instante, Israel provavelmente fará alguma concessão quanto à péssima repercussão de seus genocídios de dez/2008 e jan/2009 na faixa de Gaza.
A condenação veemente da opinião pública mundial e da Organização das Nações Unidas não foi aplacada pelo anúncio de meras punições disciplinares que teriam sido aplicadas a dois comandantes militares por terem despejado fósforo branco na agência de refugiados da ONU em Gaza, deixando vários civis feridos e incendiando essa instalação humanitária.
Então, no seu encontro com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, presume-se que Barak vá oferecer algo de menos risível, para, pelo menos, salvar as aparências.
Depois que o Relatório Goldstone informou a todo o mundo civilizado, de forma irrefutável, que Israel é culpado de crimes de guerra contra os palestinos e, provavelmente, de crimes contra a humanidade, o estado judeu se vê obrigado a dar alguma resposta a esse clamor por justiça.
Ainda mais quando está prestes a ser desencadeada outra operação militar polêmica, com as outras nações ou fazendo o serviço sujo para Israel, ou cruzando os braços enquanto o estado judeu resolve ele próprio seu problema (não dá para sabermos exatamente que linha de ação será adotada desta vez).
Quanto ao governo de Mahmoud Ahmadinejad, ao contrário do de Saddam Hussein, Ahmadinejad não está isolado do mundo e tem muitos aliados poderosos, basta ver os acordos no campo energético e político com a China, índia, Paquistão, Japão, Venezuela, Brasil e Rússia. Basta ver a aproximação do Irã à SCO e à CSTO. O Irã tem sido geopoliticamente muito inteligente ao criar a sua própria grelha e aliar-se às potências emergentes, e para isso tem sabido utilizar muito bem o seu poderio energético (2º maiores jazidas do mundo de Petróleo e de Gás Natural). Claro que o regime iraniano não é nada de se louvar, pelo contrário, é condenável, mas os EUA, Israel e os demais países não estão preocupados com isso, estão preocupados com a manutenção do oligopólio da venda de Urânio. O Irã é obrigado a comprar Urãnio dos EUA, Alemanha, Holanda, França e Inglaterra por preços muito altos e por isso tem procurado tornar-se independente energicamente.
No entanto, seu péssimo currículo em direitos humanos, executando opositores sem justificativas que pessoas civilizadas pudessem aceitar e mantendo a ferro e fogo os valores medievais, facilitaram em muito o serviço para os inimigos. Do que mais precisaria a indústria cultural?
Não creio que os EUA estejam em situação de levar a cabo uma intervenção. A pressão das potências europeias é porque têm também interesses na questão do comércio do Urânio. Há vários países do Oriente Médio e arredores que pretendem fazer o mesmo que o Irã tem feito, por isso é tão importante para os países centrais barrarem o Irã antes que se acabe o oligopólio energético.
Sobre as alianças do Irã, não digo que os países emergentes irão tomar as dores do Irã, mas irão certamente salvaguardar seus próprios interesses, e isso passa por manter a posição atual do Irã. Estou falando de negócios muito chorudos e de posicionamentos estratégicos que são do interesse dos países emergentes para poderem fazer frente aos países centrais. O Irã foi o primeiro país que não fazia parte da URSS a ser convidado para ingressar na CSTO.
A grelha geopolítica atual é muito confusa e arma-se sobre interesses bastante obscuros e complexos.
sábado, 10 de outubro de 2009
Obama é o cara?

Publicado no OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA
A imprensa americana reagiu com surpresa ao anúncio da entrega do Prêmio Nobel da Paz ao presidente Barack Obama. Colunistas foram rápidos em publicar artigos online classificando o prêmio de prematuro.
"O trabalho de Obama no Oriente Médio é sensato, mas ainda não produziu resultados. E certamente não se compara aos intensos esforços de Bill Clinton com suas negociações pela paz no Oriente Médio em 2000. Da mesma forma, os esforços de Obama pelo desarmamento nuclear são importantes, mas são basicamente uma aspiração. Todo o trabalho duro ainda está por vir", escreveu Nicholas Kristof, no site do New York Times.
No Washington Post, David Ignatius afirma que o Nobel concedido ao presidente parece meio ridículo. "Mesmo se você for um fã [de Obama], você tem que admitir que ele ainda não fez muito pela paz". O colunista destaca, entretanto, que o prêmio valida a estratégia tomada pela Casa Branca desde o primeiro dia de Obama no poder: a idéia de que os maiores problemas dos EUA com o resto do mundo vêm do "antiamericanismo" e de que a falta de popularidade do país no exterior é um grande problema de segurança nacional. O governo se concentrou, então, em posicionar Obama como o oposto de George W. Bush, ressaltando o fim da tortura, a ordem para o fechamento de Guantánamo, a data para a saída do Iraque, as negociações sobre as mudanças climáticas. A Europa, e os juízes do Nobel, parecem ter gostado do discurso, diz Ignatius. "É por isso que ele foi homenageado: por reconectar os EUA ao mundo e nos tornar populares novamente".
"Ele ganhou! Pelo que?", questiona a correspondente-chefe da Associated Press na Casa Branca, Jennifer Loven. "O comitê do Nobel citou como seu principal feito ‘um novo clima na política internacional’. O presidente se tornou ‘o principal porta-voz do mundo’, afirmou o comitê". Jennifer ressalta que, para um dos mais jovens presidentes americanos, no poder há tão pouco tempo – são menos de nove meses –, o prêmio é uma tremenda honra, mas lembra que ele "parece ser mais pela promessa representada por Obama do que por sua atuação".
Nancy Gibbs, da Time, concorda. "A última coisa de que Barack Obama precisa neste momento de sua administração e da nossa política é um prêmio por uma promessa", escreveu no site da revista. No Twitter, a editora e blogueira Ana Marie Cox afirmou que, "aparentemente, o Nobel agora é dado a qualquer um que não seja George Bush". Com informações de Greg Mitchell [Editor & Publisher, 9/10/09] e Garance Franke-Ruta [Washington Post, 9/10/09].
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Hollywood enganjada!!!


Texto publicado em "Observatório da Imprensa"
Quando o cinema vai à guerra
Por Lilia Diniz em 7/10/2009
Ditadores e democratas exploraram o potencial mobilizador das telas de cinema desde o seu surgimento, mas durante a Segunda Guerra Mundial, a sétima arte uniu-se aos aparelhos de Estado e foi à luta. O Observatório da Imprensa veiculado terça-feira (06/10) pela TV Brasil exibiu o segundo episódio da série de quatro programas especiais sobre os 70 anos do início do conflito, intitulado "Hollywood de Uniforme".
Desde a ascensão dos regimes fascistas ao poder até o último disparo, centenas de filmes foram produzidos tanto pelos países Aliados, quanto pelas potências do Eixo. De todos os centros de produção cinematográfica, Hollywood foi o mais emblemático. Abrigou imigrantes e refugiados e foi o responsável clássicos, como "Casablanca". E mesmo após os tratados de paz, a guerra continuou presente e foi tema de filmes inesquecíveis, como "A lista de Schindler".
No editorial que abriu o programa, Alberto Dines explicou que o cinema de Hollywood enfrentou o nazismo antes mesmo do início da guerra. Desde a chegada de Hitler ao poder, em 1933, artistas e intelectuais deixaram em massa a Alemanha e se refugiaram em diversos países. "A Alemanha enxotou os seus escritores e artistas. Hollywood, a capital da fantasia, a fábrica do sonho americano, os acolheu de braços abertos e com eles construiu um formidável auditório mundial", disse.
Dines explicou que este centro de produção cinematográfica foi construído por imigrantes que logo perceberam o perigo do nazismo. "A 2ª guerra mundial foi uma guerra total e graças ao cinema, principalmente graças a Hollywood, a retaguarda não ficou distante das frentes de combate. Todos eram soldados", avaliou.
O fascínio das massas
O cinema foi intensamente usado como arma de propaganda política pelo regime nazista. Na década de 1930, Leni Riefenstahl foi escolhida para realizar uma série de filmes para exaltar a superioridade ariana. As imponentes cenas dos documentários "Triunfo da Vontade" e "Olympia", que retratam uma Alemanha organizada e próspera dos anos antes da guerra, foram exibidas repetidamente pelo regime totalitário. "Ela queria ser atriz em Hollywood. Não conseguiu, mas tornou-se a cineasta de Hitler, subordinada diretamente ao Führer", explicou. Leni Riefenstahl não era nazista, mas era "fascinada pela estética das massas". Neste mesmo período, o Reich produziu alguns filmes antisemitas como "Judeu Süss" e "O Judeu Errante".
Mesmo antes do início oficial da guerra, com a invasão da Polônia pela Alemanha em setembro de 1939, Hollywood já voltava-se contra o nazismo. Desde 1937, a Warner Bros. produzia filmes abertamente anti-hitleristas. Luiz Carlos Merten destacou que por força da depressão, outros estúdios preferiam fazer comédias escapistas e musicais, mas a Warner sempre teve uma acentuada preocupação social. "Eles produziam filmes de gângster, eles produziam um ciclo de prisões, um ciclo de filmes sociais, de diretores como Marvin Leroy, Michael Curtiz. E foi a Warner o estúdio que primeiro começou a se preocupar com essa coisa". Outro centro de produção que desde cedo alertou o mundo para o perigo do nazismo foi a United Artists, um estúdio de artistas do qual Charles Chaplin era um dos fundadores.
Alerta ainda antes da guerra
Uma produção deste período deixou o Fürer especialmente furioso: "Confissões de um Espião Nazista". Dines destacou que mesmo com os protestos de Hitler, o filme foi exibido porque "nos Estados Unidos o cinema não era censurado pelo governo". Houve grande polêmica durante o processo de aprovação do roteiro. O crítico de cinema Ely Azeredo explicou que o sistema de censura interna dos estúdios de Hollywood dificultou a exibição dão filme.
"Joseph Brin que era o manda-chuva desse código de produção, procurou aconselhar a Warner de que eles poderiam perder o mercado na Europa com um filme dessa natureza e ponderava que Hitler criou um bem estar para o povo alemão. Enfim, colocando a Alemanha a ombrear com outras nações industriais. E que seria um erro comercial para a própria Warner. Ele falou, falou, mas os irmãos Warner bateram na mesa e disseram: ‘o filme vai’". Já em 1939, a Warner produziu "Sargento York", ambientado na Primeira Guerra Mundial. O personagem principal, interpretado por Garry Cooper, era um pacifista. "Ele tinha aquela decisão de não usar armas, de não combater. Sendo pacifista, ele acaba durante a guerra usando a arma, matando alguns semelhantes, e se convencendo de que em certas ocasiões, para salvar, outras vidas, é preciso matar", disse Ely Azeredo.
Na linha de frente da guerra aberta de Hollywood contra a suástica, estavam refugiados alemães e austríacos, como Fritz Lang, Otto Preminger, Robert Siodmak, Douglas Sirk, Michael Curtiz e Fred Zinneman. "Outro grande nome deste período é Billy Wilder", disse Dines. Seu filme "Cinco Covas para o Egito" tinha como tema a guerra no deserto. "Os aliados acabavam de desembarcar no norte da África. Era preciso comemorar as primeiras vitórias contra os nazistas desde a queda da França. O marechal Rommel havia sido abatido pelos ingleses e Billy Wilder escolhe para personificá-lo um dos maiores cineastas alemães, Erich von Stroheim",explicou Dines. De tanto interpretar nazistas, o ator acabou se transformando em um protótipo do militar alemão.
A contribuição dos refugiados
"Houve um momento em que toda aquela gente, todos aqueles refugiados, que tinham ido da Alemanha, da França todos aqueles diretores, roteiristas, fotógrafos etc, todos em Holywood começaram um trabalho de conscientização, que estava ocorrendo realmente, uma coisa incrível, horrível na Europa. E essa consciência foi se acentuando. O papel desses imigrantes europeus, foi determinante, foi muito forte", explicou Luiz Carlos Merten. Grandes diretores de Holywood fizeram documentários sobre o conflito, John Ford, por exemplo, que fez um filme registrando a batalha de Midlleway.
E entre os refugiados franceses, o preferido de Ely Azeredo é Jean Renoir, que fez um filme sobre a resistência da Noruega. "Em relação aos alemães, em filme pequeno de poucas ambições. Mas ele fez nos Estados Unidos em filme maravilhoso chamado ‘Amor à terra’. Um filme passado entre agricultores sobre o sul dos Estados Unidos, extremamente realista", avaliou o crítico de cinema. Para Azeredo, o cinema americano é um cinema de emigração, nunca é um cinema "All American".
O riso contra a barbárie
Impressionado com a Noite dos Cristais, quando em 1938 uma série de ataques destruiu sinagogas e lojas de judeus na Alemanha, Charles Chaplin decidiu produzir um filme ridicularizando Hitler. Em 1940, estreou "O Grande Ditador". O filme foi censurado em diversos países, inclusive no Brasil. Chaplin vive dois personagens no longa-metragem: um barbeiro judeu e o ditador Hynkel. Dines destacou que a semelhanças entre os bigodes de Chaplin e Hitler não foi casual. "No inicio da carreira como agente provocador, Hitler queria no rosto algo que o tornasse imediatamente reconhecido. Escolheu o bigodinho de Charlie Chaplin, o comediante mais famoso no mundo", disse.
O jornalista destacou que Hitler viu o filme duas vezes e ficou furioso, pois os Estados Unidos e a Alemanha ainda mantinham relações diplomáticas. "O ditador considerou o filme como uma agressão, as alusões eram diretas demais: Hitler era Adenoid Hynkel, Göring era Herring, arenque, Goebbels era Garbish (em inglês, lixo). Ao contrário de "Tempos Modernos", Chaplin usou e abusou do som e da palavra falada. Há dois discursos: um deles do ditador Hynkel, uma sátira em alemão caricatural imitando as falas delirantes e histéricas do Führer. O outro (naturalmente em inglês) é pronunciado através do rádio pelo barbeiro judeu, fingindo que é o ditador. Dirigido à sua amada Hannah que, na realidade, era a então mulher de Chaplin, a rebelde Paulette Goddard. Um dos textos mais bonitos do cinema, seis minutos de amor à humanidade, de fé e esperança num mundo sem guerras", avaliou.
You must remember this
Em 1942, estreou aquele que seria considerado como o filme mais emblemático da Segunda Guerra Mundial: "Casablanca". Protagonizado por Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, o clássico da Warner Passado na cidade marroquina em poder dos franceses colaboracionistas mostra o dilema da personagem de Bergman dividida entre duas paixões. "A Suécia era neutra, mas a sueca Ingrid Bergman jamais vacilou em apoiar a causa anti-nazista", disse Dines. A produção do filme foi conturbada.
O roteiro era aprovado apenas na noite anterior às filmagens. "A história é toda implausível, escrita diariamente, a produção do filme inteiramente louca", comentou o crítico de cinema Sérgio Augusto. O final foi decidido pelo diretor Michael Curtiz durante a filmagem da última cena. Inesperadamente, o casal de protagonistas não termina junto. "Só o fato de o casal não ficar unido, haver uma renúncia isso já era uma grande novidade em Hollywood na época", disse Luiz Carlos Merten. O crítico de cinema explicou que o filme é carregado de códigos.
A produção de Hollywood não atingia apenas aos adultos. Ainda crianças no período da guerra, os escritores Luis Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar contaram suas impressões para Dines. "Eu fiquei tão entusiasmado com aquilo que, nos meus brinquedos solitários, comecei a matar japoneses e alemães. Tanto, que até chegaram a me levar ao médico porque eu estava excitado demais com a guerra". Um filme que marcou Scliar foi "Passagem para Marselha", protagonizado por Humphrey Bogart, sobre a resistência dos franceses contra o nazismo. "Tem uma cena em que um jovem adolescente atingido por balas alemães morre gritando ‘vive la France e que a gente chorava. Aqueles filmes tinham uma grande capacidade de mobilizar o nosso sentimento, que era um sentimento nacionalista", relembrou.
A mobilização dos artistas
Artistas foram convocados para participar do esforço de guerra. Grandes nomes pegaram em armas e lutaram nos campos de batalha, como Clark Gable. Outro, fizeram parte do esforço de guerra holywoodiano, como Marlene Dietrich e Carmem Miranda. John Wayne, por exemplo, virou herói de guerra na memória dos espectadores, sem ter dado um único disparo durante a guerra, como contou o escritor Ruy Castro. Sérgio Augusto comentou a idéia das Cantinas de Holywood, que uniam oficiais, soldados e artistas em uma cavalariça alugada por Bete Davis. A iniciativa virou um filme: "Um sonho de Holywood". Os atores lavavam pratos e serviam os soldados para transmitir a idéia de união. Em uma cena do filme, ao saber que estava dançando com a atriz Joan Crawford, um soldado desmaia.
***
Hollywood de uniforme
Alberto Dines # editorial do programa n. 523, no ar 06/10/2009
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.
Adolf Hitler começou a guerra através do rádio e quem o enfrentou antes de todos foi o cinema de Hollywood. Os nazistas apostaram na delirante doutrinação da nação germânica certos da sua superioridade: sozinha conquistaria o mundo. Os nazistas não contaram com o mundo, não contaram com a humanidade e sua infinita capacidade de produzir aproximações.
Empenhados em expulsar os indesejáveis, os nazistas esqueceram-se da capacidade de resistência dos refugiados. O Nobel de Literatura Thomas Mann, um dos primeiros a deixar a Alemanha depois da ascensão de Hitler, disse que "os nazistas queimaram os livros que não saberiam escrever". A Alemanha enxotou os seus escritores e artistas. Hollywood, a capital da fantasia, a fábrica do sonho americano, os acolheu de braços abertos e com eles construiu um formidável auditório mundial.
Hollywood foi construída por uma comunidade de imigrantes e estes imigrantes perceberam o perigo antes dos estadistas. O representante da Warner na Alemanha, Joe Kaufmann, foi morto por vândalos nazistas no pogrom da Noite dos Cristais, em 1938. No ano seguinte, Jack Warner começava a produzir filmes antinazistas que culminaram com Casablanca, inesquecível combinação de romance e idealismo político.
A mesma Noite de Cristais levou Charlie Chaplin a transformar o adorável vagabundo chamado Carlitos, num militante humanitário. Hitler era um cinéfilo, assistiu-o, ficou furioso, nada podia fazer apesar do seu poderio militar. Seus histéricos discursos no rádio não chegavam ao mundo, ao contrário do discurso final de Chaplin, transformado num hino internacional da paz.
A Segunda Guerra Mundial foi uma guerra total e, graças ao cinema, principalmente graças a Hollywood, a retaguarda não ficou distante das frentes de combate. Todos eram soldados. Hollywood não permitiu que os campos de extermínio, a solução final e o holocausto fossem encobertos pelas comemorações da vitória. Neste momento, o cinema bélico deu lugar ao cinema-atrocidade.
Esta outra guerra talvez nunca saia de cartaz.
domingo, 5 de abril de 2009
Obama é o cara! Será que é mesmo?

Parece-me, sinceramente, que o título que o Kennedy Alencar deu para o seu artigo foi, digamos assim, uma espécie de salvaguarda para não aborrecer aos seus patrões. Um protetor de fiofó, eu diria. Afinal de contas, convenhamos, Obama ainda nada fez, ou, na melhor das hipóteses, sequer teve tempo para mostrar, concretamente, tudo aquilo que prometeu em campanha e, que aparentemente ele está disposto a fazer. Poderíamos até dizer, então, que ele ainda estaria na fase da "espuma", termo este bastante recorrente nas análises dos agourentos de plantão.
Ao contrário de Obama, Lula muito já fez, como o próprio Kennedy reconhece e faz ressaltar em seu artigo. (mas os destaques são por minha conta)
Devemos, então, perguntar ao Kennedy Alencar:
- Por que o Obama é o cara?
Obama é o cara
04/04/2009
O encontro do G-20 em Londres foi muito positivo para o Brasil, um dos países que mais brigaram para que o G-8 fosse ampliado e passasse a dar ouvidos a economias emergentes antes ignoradas.
O G-20 reúne as 20 maiores economias --responsáveis por cerca de 80% da produção planetária. O G-8 é o grupo dos sete países mais industrializados mais a Rússia, uma potência militar de peso.
É inegável o mérito da política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no sentido de pressionar os países mais ricos a levar em conta o que pensam as nações em desenvolvimento e as mais pobres.
Lula abandonou a retórica do coitadinho. Mesmo sofrendo críticas internas de mania de grandeza, agiu como líder de um país de peso, com concessões aos mais pobres e críticas aos mais ricos.
Os exemplos são muitos. Há a missão brasileira no Haiti a serviço da ONU (Organização das Nações Unidas). O Brasil estreitou laços com países africanos e árabes. Assumiu posições ousadas nas negociações da emperrada rodada Doha. Não adotou tom imperialista com a Bolívia. Mediou com maturidade o esquerdismo infantil de Hugo Chávez, mas também soube reconhecer méritos do governo venezuelano e apontar equívocos dos EUA.
Juntando tudo isso, não é pouca coisa.
Os elogios de Barack Obama a Lula foram reconhecimento da maior importância que o Brasil ganhou nos últimos anos.
No Brasil, as leituras do vídeo em que Obama chama Lula de "meu chapa" foram do ufanismo ao desprezo. Ora, o homem mais poderoso do planeta, um craque em marketing como Lula, sabe muito bem o peso das palavras e das imagens.
Para Obama, Lula "é o cara" que será um parceiro importante para a política externa de Washington na América Latina e nos grandes fóruns mundiais, como ONU e G-20.
Corretamente, bastante já foi dito sobre Obama ser o primeiro presidente americano a não se relacionar com o resto do mundo com aquele ar de imperador romano. Os sinais cordiais para as nações islâmicas, a abertura para se relacionar com Cuba e o evidente gesto de apreço por Lula mostram que ele pode, sim, liderar uma mudança positiva no planeta.
Dá esperança de que um outro mundo é realmente possível. E vale a pena torcer por isso, sem ingenuidade e ciente de que grandes transformações podem levar tempo. Mais: os desafios do presidente americano são enormes, da crise econômica mundial a duas guerras complicadas. Apesar do necessário ceticismo em relação à capacidade de uma pessoa fazer a diferença, Obama é o cara certo no lugar certo na hora certa.
fonte: Língua de Trapo
segunda-feira, 23 de março de 2009
BOAS VIZINHANÇAS! "mas non tropo"

No jogo da aproximação entre o Brasil e os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, entraram em cena importantes elementos simbólicos para a construção de uma geografia cultural que enfatizasse o poder norte-americano abaixo da linha do equador. O caminho entre as Américas deveria ser uma avenida de mão dupla: os brasileiros tinham de ser convencidos de que o american way of life (estilo americano de vida) era o ideal da democracia, e os americanos acreditariam nos brasileiros como inofensivos “amantes do samba e das mulatas”. A Política da Boa Vizinhança do presidente Franklin Delano Roosevelt buscava uma solidariedade hemisférica, definida no contexto da Segunda Guerra e nos termos dos interesses norte-americanos. Visava garantir a posição estratégica dos aliados no Cone Sul frente às forças do Eixo. Afirmavam-se, assim, os símbolos de uma cultura que se internacionalizava, contando-se para tal com todos os recursos da mídia disponíveis na época – cinema, imprensa e publicidade –, no seu papel de divulgar valores e criar modas. É nesse contexto que locações, temas e talentos latino-americanos ganham espaço até então inédito nas produções hollywoodianas. Carmem Miranda foi exemplo disso. Ademais, a atuação do desenhista Walt Disney ao retratar as várias localidades da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, etc.) em seus longa-metragens que mesclavam cenas reais com animação, mostra como o intercâmbio cultural e a representação do “outro” como nação – até então desconhecida em termos de valores culturais – eram uma das estratégias mais poderosas dos norte-americanos nesse período. Essas “estratégias” serviram para mostrar como a cultura brasileira foi aos poucos incorporando elementos socioculturais dos Estados Unidos, algo que não se restringiu e nem se esgotou nesse período de guerras, mas permaneceu, ampliou-se e hoje está cada vez mais presente na sociedade, nos costumes, nos hábitos e nos valores, não só do Brasil, mas do mundo em quase sua totalidade. Desse modo, é importantíssimo reavaliar sempre este tema para que possamos adentrar o mundo do século XXI, o qual é cada vez mais marcado pelo intercâmbio de culturas e valores entre as nações, com um mínimo de consciência e participação ativa, já que estamos sendo inseridos voluntária ou compulsoriamente nele através do uso da tecnologia e informação disseminadas.
quinta-feira, 12 de março de 2009
ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM?
Os recentes acontecimentos na Alemanha e EUA envolvendo matança em série sem motivo aparente seguida pelo suicídio do assassino nos mostram como a nossa sociedade está caminhando para a infelicidade coletiva. A competição desenfreada, as cobranças sociais, as discriminações e ódio às alteridades estão construindo indivíduos sem possibilidade de diálogos e extremamente desajustados com o ambiente social em seu entorno.
É assim que caminharemos para o futuro? Formando indivíduos frustrados por não se enquadrarem nos padrões impostos pela ordem mundial? Uma ordem que menospreza aqueles que não encontram seu lugar na padronização vigente.
Enquanto isso, a indústria armamentista, os psicanalistas de plantão, as agências de notícias, os sedentos de notícias sensacionalistas e os especialistas e palpiteiros de todas as espécies faturam com mais estas tragédias.
Não, não está nada fora da ordem mundial!
É assim que caminharemos para o futuro? Formando indivíduos frustrados por não se enquadrarem nos padrões impostos pela ordem mundial? Uma ordem que menospreza aqueles que não encontram seu lugar na padronização vigente.
Enquanto isso, a indústria armamentista, os psicanalistas de plantão, as agências de notícias, os sedentos de notícias sensacionalistas e os especialistas e palpiteiros de todas as espécies faturam com mais estas tragédias.
Não, não está nada fora da ordem mundial!
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
UM DIA DE CÃO
(Dog Day Aftermoon) EUA, 1973 Direção: Sidney Lumet
Tarde quente no Broocklyn. Três homens resolvem assaltar um banco. Um deles, antes mesmo de começar o assalto, cai fora. São todos “perdedores”, segundo o estilo de vida americano. Sal (John Cazale) é psicologicamente perturbado. Sonny (Al Pacino) quer apenas satisfazer o capricho de seu verdadeiro amor. Ambos não se enquadram naquilo que a sociedade espera deles. O assalto, atrapalhado e mal planejado, acaba se transformando em espetáculo midiático A efervescência política está quente naquele EUA da época do Vietnã. Sonny parece ser o herói que desafia o sistema. “Porque está assaltando um banco?, pergunta o repórter de TV. “Para arrumar dinheiro”, responde Sonny. “Não poderia arrumar um emprego?”, insiste o repórter. “Trabalhar em quê? Caixa de banco? Viver na miséria?”. O público assistente vai ao delírio e apóia a causa de Sonny. porém, eles estão cercados – não há saída. A vida privada se torna um circo e fica claro que ninguém que desafia a moral e a propriedade privada sai ileso. O elemento desajustado é eliminado.
Oscar de roteiro original, o filme, baseado numa história real, oferece um ótimo desempenho de Al Pacino e John Cazale e uma direção impecável de Sidney Lumet.
Tarde quente no Broocklyn. Três homens resolvem assaltar um banco. Um deles, antes mesmo de começar o assalto, cai fora. São todos “perdedores”, segundo o estilo de vida americano. Sal (John Cazale) é psicologicamente perturbado. Sonny (Al Pacino) quer apenas satisfazer o capricho de seu verdadeiro amor. Ambos não se enquadram naquilo que a sociedade espera deles. O assalto, atrapalhado e mal planejado, acaba se transformando em espetáculo midiático A efervescência política está quente naquele EUA da época do Vietnã. Sonny parece ser o herói que desafia o sistema. “Porque está assaltando um banco?, pergunta o repórter de TV. “Para arrumar dinheiro”, responde Sonny. “Não poderia arrumar um emprego?”, insiste o repórter. “Trabalhar em quê? Caixa de banco? Viver na miséria?”. O público assistente vai ao delírio e apóia a causa de Sonny. porém, eles estão cercados – não há saída. A vida privada se torna um circo e fica claro que ninguém que desafia a moral e a propriedade privada sai ileso. O elemento desajustado é eliminado.
Oscar de roteiro original, o filme, baseado numa história real, oferece um ótimo desempenho de Al Pacino e John Cazale e uma direção impecável de Sidney Lumet.
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