Mostrando postagens com marcador mito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mito. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Criminalização da Pobreza e Processo de Desumanização dos Excluídos


Por Najla Passos
ANDES-SN

Todos os dias, a mídia convencional silencia o clamor por vida e dignidade que ecoa dos morros cariocas, dos assentamentos dos sem-terra, das aldeias indígenas da Amazônia, dos vários rincões de pobreza do país. Nas páginas dos jornais, nas telas da TV, pobreza e violência se confundem de forma visceral.

O fenômeno, batizado de "criminalização da pobreza", é recente, conforme afirmou o coordenador da Rede de Comunidades Contra a Violência, Maurício Campos, na mesa Mídia e Criminalização da Pobreza e dos Movimentos Sociais, durante o 15º Curso Anual do NPC, no Rio de Janeiro, de 11 a 15/11.

Entretanto, esse fenômeno faz parte de um processo tão antigo quanto a história da humanidade e, especialmente neste caso, do país. Fenômeno esse que desumaniza o outro, exclui o diferente, coisifica os de baixo e registra a história apenas do ponto de vista das classes hegemônicas. Sempre, é claro, com a ajuda definitiva dos aparelhos do Estado, incluindo aí o sistema educacional e, de forma cada vez mais definitiva e fundamental, a mídia.

Identidade nacional
Na mesa Cultura Brasileira e Identidade Nacional, o professor de Sociologia da Universidade de Campinas - Unicamp, Renato Ortiz, lembrou que a construção da identidade nacional é feita pelas idéias hegemônicas de cada época.

Não por acaso, o negro foi tão silenciado na literatura brasileira que se propunha a dar significado ao surgimento da nação brasileira.

Em O Guarani, de José de Alencar, tida como obra fundante da brasilidade, não havia personagens negros. A raça brasileira nascia de uma união entre o branco e o índio. Mas não o índio real, e sim um índio mitificado, cheio de sentimentos nobres e cristãos, que mais lembrava os dos cavaleiros medievais europeus.

"No século 19, auge da Teoria Evolucionista (de Darwin), acreditava-se que a mistura de uma raça superior (Branca) com duas inferiores (Negra e Indígena) resultaria em um ser ainda mais inferior. Então, o pensamento hegemônico excluiu o índio da construção da identidade da nova nação", ensinou Ortiz.

Prova disso é o fato que, quando Euclides da Cunha, um pouco mais tarde, já na virada do século, se baseia nos pensamentos feitos hegemônicos na sua época para julgar os sertanejos que combateram na revolta de Canudos, ele chega a afirmar, no clássico "Os Sertões", que a mestiçagem é um retrocesso e, o mestiço, quase sempre um desequilibrado.

"Como nas somas algébricas, as qualidades dos elementos que se justapõem, não se acrescentam, subtraem-se ou destroem-se segundo os caracteres positivos e negativos em presença. E o mestiço – mulato, mameluco ou cafuz -, menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores. Contrastando com a fecundidade que acaso possua, ele revela casos de hibridez moral extraordinários: espíritos fulgurantes, às vezes, mais frágeis, irrequietos, inconstantes, deslumbrando um momento e extinguindo-se prestes, feridos pela fatalidade das leis biológicas, chumbados ao plano inferior da raça menos favorecida", eterniza o mestre em uma das mais vigorosas obras do cânone brasileiro.

Assim, o processo do ocultamento do negro só virá a ser revertido bem mais tarde, nos Anos 30, quando se tornou impossível ignorar sua presença na formação da brasilidade. Os intelectuais do pensamento hegemônico, na esteira do clássico "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freire, criam, então, o mito da democracia racial, que propõe que, no Brasil, à revelia de quaisquer evidências históricas, brancos, negros e índios vivem de forma equilibrada e harmônica.

Feridas abertas da nação
Para a professora de História da Universidade Cândido Mendes - UCAM, Beatriz Vieira, tudo o que é silenciado pela cultura acaba gerando traumas que podem perpassar muitas gerações. "A escravidão é, provavelmente, um dos momentos mais traumáticos da nossa história. E sua abolição, em função da forma como foi concebida, deixando os negros abandonados e sem referência de pertencimento, gerou suicídios, exclusão social e uma onda de enorme repressão na virada do século".

Ainda de acordo com a pesquisadora, em nome da "civilidade", o escravo liberto era, por exemplo, proibido de circular no centro do Rio de Janeiro, a capital da recém instaurada República. "Os negros foram levados para subúrbios cada vez mais distantes. Chegou a ser editada uma lei que proibia os homens de andarem no centro do Rio sem portar terno e gravata. Um processo civilizatório equivocado, que tentava equiparar o Rio de Janeiro à Paris".

Foi justamente nessa época que o Brasil foi palco de expressivas revoltas dos chamados excluídos. "Vacina, Canudos, Contestado, os movimentos cangaceiros e messiânicos são processos de tentativa de libertação de grupos que não podiam mais ser considerados mercadoria, em função do fim da escravidão, mas também não eram consumidores, não eram cidadãos", lembra Beatriz.

Ela reforça que, após os Anos 30, a afirmação do mito da democracia racial e o ocultamento do racismo, em nome da unidade nacional, aprofundaram ainda mais o trauma da nação. O samba, o carnaval e o futebol foram inseridos no processo de construção nacional e o pensamento hegemônico passou a afirmar que a cultura negra era, sim, valorizada. "Mas, com isso, não se falava mais em racismo. A ditadura militar, inclusive, proibiu textualmente que se abordasse o assunto".

A voz do morro
A professora de Antropologia da Universidade Federal Fluminense - UFF, Adriana Facina, reforça que a discussão sobre cultura, no mundo atual, é importantíssima, justamente porque é extremamente politizada. "A cultura não é algo descolado do mercado, dos conflitos. É o coração disso tudo, de um mundo em que os movimentos de massa perderam força, que não se consegue mais articulá-los pelos métodos tradicionais".

Autora de estudos sobre o funk carioca, ela acrescenta que a construção da identidade nacional se deu com processos de exclusão, higienização e domesticação da cultura popular, abarcando, inclusive, construções de valores subjetivos, como, por exemplo, o que é considerado culturalmente feio, bonito, elevado ou lixo cultural.

"Criou-se normatizações para definir o que pode e o que não pode ser aceito. E o problema é que mesmo nós, intelectuais contra-hegemônicos, muitas vezes adotamos esses padrões de comportamento e deixamos de fora o que nos parece estranho, diferente. E isso pode gerar uma interpretação exclusivamente oficial do popular", alerta.

Para Adriana, não há como pensar a cultura nacional sem considerar o fenômeno da diáspora africana. "São muitas as expressões desse processo diaspórico pelo mundo, como o blues, o soul, o samba, o funk... O discurso de defesa da cultura popular pode se tornar muito opressivo se não considerar esses fenômenos transnacionais, até porque ele faz com que se perca o diálogo com os potenciais agentes de transformação social da nossa sociedade: os excluídos, os favelados, os pobres".

Criminalização e mídia
Retomando o pensamento de Maurício Campos, é preciso estar atento para o fato que, nesse processo de criminalização da pobreza e de construção do discurso opressor da defesa da cultura popular, a mídia exerce papel fundamental. Repeti-lo, portanto, é incorporar o pensamento hegemônico e silenciar as vozes que vêm dos excluídos, postando-se de costas para os tantos rincões miseráveis do país.

De acordo com ele, um dos mecanismos utilizado pela imprensa para convencer a população da necessidade de criminalizar os pobres e os movimentos sociais é identificá-los, individual e coletivamente, com atividades já socialmente definidas como criminosas: furtos, assaltos, seqüestros, tráfico de drogas.

Outra é a definição ideológica – e posteriormente criminal – de atividades características da população pobres como práticas criminosas: ocupação de terras e prédios públicos, trabalho ambulante, manifestações culturais como o funk, etc. Qualquer semelhança entre esses exemplos e as manchetes estampadas nos jornais não é mera coincidência.

Ainda conforme o coordenador da Rede de Comunidades Contra a Violência, a mídia se utiliza de vários artifícios para contribuir com a criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. E precisamos, sempre, estar atentos a eles.

O primeiro é a veiculação sistemática de notícias sobre crimes, associando-os exclusivamente às favelas, aos bairros pobres, aos assentamentos. Outro é privilegiar a versão oficial, normalmente da Polícia, em detrimento das demais.

"A mídia convencional não dá espaço para os pobres envolvidos se manifestarem. E como ensinaram os nazistas, a melhor forma de contar uma mentira e mostrar apenas um pedaço da verdade. Afinal, as drogas e as armas não são produzidas nas favelas, mas quando se fala em narcotráfico, é em favelas que todo mundo pensa automaticamente", denuncia.

Por fim, Maurício Campos lembra que a banalização e naturalização dos casos de violência e violação dos direitos humanos dos pobres e negros também contribuem para esse contexto, tornando o público cada vez mais imune ao seu apelo humanístico.

Fonte: ANDES-SN

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O "velho" e "chato" Simonal


Wilson Simonal sempre foi para mim um grande enigma. Nunca tinha ouvido sua música ( pelo menos achava que nunca tinha ouvido)e pensava se tratar da pior espécie de música brega ou de mau gosto. Quando perguntava a minha mãe, ela dizia que a música dele era legal e que ela cantava para mim e eu adorava...
Desconfia do bom gosto da minha mãe e ia na onda da Rita Lee e de toda a intelligentisia, para as quais o cantor era o pior exemplar da espécie humana. Afinal, Rita Lee dizia que ele era velho e chato na sua música "Arrombou a festa". Era, definitivamente, uma música ultaprassada.
Pior, era a antítese de um Chico Buarque, de um Caetano Veloso ou de um Geraldo Vandré (Depois eu descobri que Chico é Chico, Caetano é um vendido e deslumbrado e Geraldo Vandré e um... chato!).
Até que vieram os finais dos anos 90 e os filhinhos do Wilson se tornaram os darlings do meio artístico.
Aí eu pude sentir a força da música desse artista, sua voz e seu swing. Velha e chata é a Rita Lee! (Mentira, a Rita também é ótima! rs,rs).
Na verdade Simonal era um mulato famoso que andava em carrões e comia uma porção de loura. Isso ninguém perduou...

Com o filme Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, começou a reabilitação de Wilson Simonal. Não se conclui outra coisa, quando se lêem os artigos publicados em todo o Brasil. Em todos os jornais, os críticos mais parecem uma orquestra afinada para uma só composição, para um só samba de uma nota só. Em toda a mídia se repetem as saudações ao documentário, à sua imparcialidade etc. etc.

Na Folha de S.Paulo, no texto com o título épico "Simonal refaz saga do cantor", entre outras coisas se escreve:

"Aconteceu no final de 1971. Por suspeitar que estivesse sendo roubado, o cantor teria mandado bater no contador de sua empresa. Só que o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado. Não demora até que os jornais liguem as pontas – não necessariamente cobertos de verdade – e publiquem a manchete: `O cantor Wilson Simonal é informante dos órgãos de segurança do Estado´...

Mais que biografar a ascensão e queda meteóricas de um ídolo – e isso é feito de maneira empolgante –, o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito."

Preconceitos raciais e sociais

Observem que:

1. O cantor "teria mandado bater no contador". Teria mandado, em lugar de mandou.

2. "...o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado". Por acidente, ele foi parar no Dops.

3. "...o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito". Absolvê-lo... Não demora, a família entrará com processo na Anistia.

Por falar em anistia, artigo no Jornal do Commercio, do Recife, é mais explícito:

"A chance de anistia de Simonal – Filme conta história de cantor que morreu com fama de dedo-duro, mas foi mesmo uma vítima da intransigência."

No UAI, de Minas, a reabilitação continua:

"Nos dias de hoje, a maioria das pessoas que conhecem o assunto acredita na tese de que Wilson Simonal foi derrubado por uma rede de boatos, somada a preconceitos raciais e sociais que levavam, em muitos grupos, a um estado de desconforto frente ao sucesso do cantor. Simonal pende nitidamente para este lado."

Condenado ao ostracismo

No Jornal do Brasil, do Rio, o mesmo samba:

"Com um design e produção impecáveis, o trio de diretores Cláudio Manuel, Micael Langer e Calvito Leal tenta também trazer à tona a perseguição que o cantor sofreu, após a suspeita de que ele estava a serviço do Dops, na época da ditadura. Recheado de entrevistas, o filme tem o mérito de ser, em grande parte, imparcial. Mas faltam depoimentos e nomes de artistas que efetivamente promoveram o boicote... Numa montagem esperta, o papel de bicho-papão ficou só com os jornalistas do Pasquim que participam do filme: Sérgio Cabral, Ziraldo e Jaguar. Este último, em destaque, é colocado pela edição nos momentos antagônicos, em contraponto a considerações positivas sobre o cantor. Seria alguma forma de revanche? O público é quem decide."

Em O Globo, entre outras louvações, transcrevem-se as palavras de Nelson Motta, "Simonal virou um tabu, um leproso, um pária..." Mas o modo mais parcial vem do Guia da Semana, de São Paulo, em editorial (!):

"No início da década de 70, Simonal percebeu que estava sendo roubado por seu contador. De pavio curto, o cantor contratou um grupo para dar uma surra no traidor. Porém, o episódio envolveu agentes do Dops, e o obscuro fato fez com que se espalhasse a notícia de que o músico era informante do regime militar. Sem provas contra ou a favor do artista, Simonal foi condenado ao ostracismo, morrendo como um desconhecido em 2000."

Só falta absolver o cabo Anselmo

Parece ter desaparecido no espaço o texto de Mário Magalhães, quando era ombudsman na Folha de S.Paulo, em 30 de março de 2008:

"A verdade: em 1974, Simonal foi condenado por surra dada em um contador. No processo, levou como testemunha sua um detetive do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara. Ele assegurou que o cantor era informante do Dops. Outra testemunha de defesa, um oficial do 1º Exército, jurou que o réu colaborava com a unidade. O juiz sentenciou: Simonal era `colaborador das Forças Armadas e informante do Dops´. Em 1976, acórdão do Tribunal de Justiça do RJ reafirmou a condição de `colaborador do Dops´. Não foram inimigos que inventaram a parceria com o regime, exposta sem reservas pelos amigos de Simonal, que se dizia ameaçado por gente ligada `a ações subversivas´."

Pelo andar da carruagem, não demora vão fazer um documentário que absolva o cabo Anselmo. Com a repercussão em uma só nota de toda a imprensa. Como agora, no filme desta semana: Simonal, a reabilitação.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

"Nós tudo hoje é cidadão". Será?



13 de maio de 2009 - 121 anos de liberdade (?)

Mais de um século se passou após a promulgação da "Lei da Princesa", aquela que separou o "tempo do cativeiro" do "tempo da liberdade".
Mas será que muita coisa mudou daqueles tempos pra cá? Talvez sim, talvez não...
Vejamos: naquele tempo, quando o escravo resistia, seja em forma de fuga ou em forma de rebeldia, ele era capturado e, geralmente, punido com açoite. Hoje, quando o trabalhador (vamos chamar de trabalhador todo o conjunto de pobres esteja ele efetivamente empregado, subempregado, desempregado ou marginalizado) "resiste" ao sistema, ele é perseguido, discriminado, punido, preso ou simplesmente assassinado.
Espera-se dele gratidão, subserviência e humildade perante aos "bondosos" patrões, assim como se esperava submissão e obediência e gratidão do escravo pela "generosidade" dos senhores.

"Fui ver pretos na cidade
Que quisessem se alugar
Falei com essa humildade,
Negros, querem trabalhar?
Olharam-me de soslaio
e um deles, feio, cambaio
Respondeu-me arfando o peito:
- Negro não há mais não
Nós tudo é cidadão
o branco que vá pro eito".

Estes versos refletem as expectativas da sociedade quanto ao comportamento dos libertos após o 13 de maio. Esperava-se deles (feios e cambaios) a continuidade de seu estatudo anterior, ou seja, que mermanecessem escravos, submissos e obedientes.
Também traduz o mito criado a respeito dos ex-cativos e do negro em geral: insolentes e preguiçosos.
Trata-se, evidentemente, de um mito racista e preconceituoso para o qual as novas pesquisas historiográficas apontam outros caminhos e respostas, demonstrando a luta dos ex-escravos e seus descendentes para se afirmarem no mercado de trabalho e na sociedade.
No entanto, os versos também apontam para uma tomada de consciência: "Nós tudo é cidadão". Será?

sábado, 11 de abril de 2009

Miniconto de Celso Lungaretti


UM MINICONTO
O NOVÍSSIMO TESTAMENTO

Era Deus. E como Se enfadasse na eterna contemplação do Seu umbigo, criou o Céu e a Terra. Fez brotarem as plantas e nascerem os animais. E, à Sua imagem e semelhança, engendrou o homem. "Deveria ter tomado uma cervejinha antes de toda essa trabalheira", pensou Ele.

Mas, Sua criação estava imperfeita. De que lhe valia esse panaca pelado a coçar eternamente o saco? Precisava pôr um pouco de ação no Paraíso terreno, caso contrário teria de agüentar uma chatice infernal.

Se fosse um diretor de cinema estadunidense, produziria uns vilãos quaisquer que parecessem ameaçar o way of life da única nação que importa no mundo, botando Adam para caçá-los com requintes de extrema violência. "Negativo. Para Minha biografia ficar bem bíblica, é melhor que nada Me vincule à linhagem de Átila, Hitler ou George W. Bush."

Também Lhe passou pela cabeça duplicar Adão e ficar vendo menino brincar com menino. Mas, desistiu: "Isso começa num mero troca-troca, mas acaba virando parada de orgulho gay. E a Igreja que fundarão em Meu Nome vai falir de tanto pagar indenizações por assédio de menores..."

Então, só lhe restou criar o oposto, dando o pontapé inicial na dialética. "A Teologia da Libertação vai ficar me devendo essa."

Mas, sendo Uno, o Criador não suportou assistir à livre interação dos princípios masculino e feminino. Ficou com ciúmes dessa complementação perfeita, com Adão e Eva tendo a cada instante a alegria de descobrir amorosamente a si e ao outro.

"Vou acabar com essa bem-aventurança toda", decidiu Deus, ao distribuir as tarefas do dia para Satã.

Bastou uma maçã, e pronto! Homem e mulher nunca mais se deram tão bem nem foram tão felizes juntos.

E Deus, contemplando in seculo seculorum as disputas banais da força contra a intriga, foi ficando tão bobo como os espectadores das novelas da Globo.