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domingo, 17 de junho de 2012

A verdade sobre a ocupação na Líbia

Na segunda-feira (04.06) um fato chocou a Líbia, mas não foi noticiado pela imprensa ocidental porque não foi uma notícia aprovada pelo imperialismo: a tomada do Aeroporto Internacional de Trípoli pela Brigada Al-Awfea [“Legalista”], leal a Kadafi, que se supõe que tenha vindo da cidade de Tarhouna, uma das últimas fortalezas kadafistas a cair quando o país foi atacado pela artilharia aérea de EUA-OTAN. Os habitantes de Tarhouna são líbios negros que foram discriminados na Líbia na época do Rei Ídris, mas foram resgatados no governo da Jamahiriya. O novo aeroporto de Trípoli estava sendo construído antes da guerra de ocupação da Líbia por uma empresa brasileira. Seria o maior e mais moderno aeroporto do mundo, não fossem as bombas terroristas despejadas no país – e no aeroporto - pela OTAN-USA e seus aliados colonialistas. Segundo relatos de moradores, a Líbia hoje é um país mergulhado no caos: falta água, luz, medicamentos e alimentos. Algo impensável na época de Kadafi. Quando a OTAN e seus cúmplices (governos dos EUA, França, Inglaterra, Canadá, Arábia Saudita, Catar e outros asseclas) despejaram toneladas de armamentos de paraquedas, em todas as regiões da Líbia, estavam criando as condições necessárias para o caos agora instalado no país. Mas era este o objetivo, além de assassinar covardemente o líder Muamar Kadafi. O martirizado líder líbio construiu o maior rio artificial do mundo, estava construindo o melhor aeroporto do mundo, enquanto Obama mandou bombardear as estações adutoras de água do rio artificial e a construção do aeroporto. Bombardeou toda a infraestrutura do país para que hoje 8.000 soldados norte-americanos estejam ocupando todos os poços de petróleo da Líbia. Estão roubando petróleo da Líbia. EUA, França e Inglaterra, roubam o petróleo líbio e contabilizam como “despesas de guerra”. Afirmam que o povo líbio pediu para ser bombardeado e que agora precisa pagar os custos e despesas com a guerra de ocupação. A Brigada Al-Awfea declarou que a principal razão para a ação de invadir e tomar o Aeroporto Internacional de Trípoli foi protestar contra o misterioso desaparecimento de seu líder, coronel Abu Ajela Al-Habashi e chamar a atenção do mundo para o sofrimento do povo de Tarhouna e outros líbios negros, no período pós-Kadafi. Foguetes lança-granadas, alguns tanques e fogo de artilharia pesada foram usados para ocupar a entrada e as cercanias do aeroporto. Aviões internacionais foram impedidos de decolar. Os passageiros, inclusive os que já estavam embarcados prontos para decolar, receberam ordens, de homens armados, para desembarcar e retornar aos hotéis. Aos olhos da Brigada Al-Awfea, a tomada do aeroporto foi uma espécie de sátira política, carregada de simbolismo e, sobretudo, de legitimidade. A acusação que mais se faz contra a Brigada Al-Awfea é que prega e difunde estereótipos racistas que, cada dia mais, circulam na Líbia pós-Kadafi. Mesmo assim, a ação no aeroporto gerou pânico entre as autoridades líbias, que bracejam num oceano de confusões. Todas as chegadas internacionais foram desviadas para Mitiga, o aeroporto militar de Trípoli. Não é a primeira vez que elementos descontentes da classe mais baixa da população de Trípoli empreendem ações contra os símbolos usados para propaganda da infraestrutura líbia. Mas a ação da Brigada Al-Awfea contra o Aeroporto Internacional de Trípoli é, até agora, de longe, a mais ousada e temerária. A Líbia atual prepara-se para as eleições nacionais de uma assembleia constituinte, em julho de 2012. As eleições foram adiadas, previstas como estavam para 19 de junho. O atraso indica o estado de confusão e desorganização do Conselho Nacional de Transição. Depois das eleições, a assembleia terá de indicar um primeiro-ministro, um gabinete e uma autoridade constituinte, que redigirá uma nova Constituição para a Líbia. Depois, a Constituição – que se teme que venha a ser fortemente influenciada por grupos ligados à Al Qaeda – será submetida a referendo popular e, se aprovada, haverá eleições gerais num prazo de seis meses, contados a partir do referendo. As próximas eleições gerais estão sendo saudadas como as primeiras eleições livres e justas na história da Líbia. Mas a junta governista - que não governa - não sabe como controlar um país onde a maioria da população está armada e só teme os bombardeios da OTAN. O Partido Justiça e Desenvolvimento, braço político da Fraternidade Muçulmana é o partido maior e mais bem organizado. Outros partidos parecem ter expressão apenas regional, como o Partido Verdade e Democracia de Benghazi ou o Congresso Líbio Amazigh, que tem formação de base étnica. A democracia ocidental é um presente de grego de Obama para o povo líbio. Na época de Kadafi o governo era uma Jamahiriya (Poder Popular). Os habitantes se reuniam em Congressos e Comitês Populares, e decidiam os destinos do país. O Livro Verde ensina que dar uma carta em branco para um político é algo temerário e absurdo porque “a representação é uma impostura”. O poder popular deve ser exercido e não transferido a um representante. Na Jamahirya não havia políticos, mas os Congressos e Comitês Populares podiam destituir e eleger ministros e administradores públicos a qualquer momento. Kadafi dedicou sua vida à construção de um país que não se dobrava às potências ocidentais. Obama dedica sua vida a fortalecer o complexo militar, petrolífero e bancário norte-americano, que estão destruindo o mundo com consumismo exagerado e extinção dos recursos naturais. Durante a guerra de ocupação da Líbia por potências ocidentais criminosas, que assassinaram mais de 200.000 líbios, Kadafi recebeu convites de diversos países para se exilar, e jamais aceitou nem considerou essa possibilidade. Lutou até o final, como um verdadeiro guerreiro, seguindo o exemplo de Omar Moukhtar, e como ele foi martirizado. O advogado das causas populares, Barak Hussein Obama, foi eleito presidente e traiu seus eleitores ao cumprir fielmente a agenda dos banqueiros, indústrias bélica e petroleira, para se manter no poder e usufruir dos privilégios inerentes ao cargo. Kadafi preferia as tendas árabes aos hotéis luxuosos do ocidente. Por todos esses motivos, um Kadafi vale por 100 Obamas. Kadafi é a resistência dos pequenos povos e países submetidos ao terrorismo estatal do imperialismo e das potências colonialistas. Obama é o retrato de um político profissional de um país que sobrevive explorando, roubando e saqueando os pequenos povos e países do mundo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dias para abalar o mundo


O movimento contra Mubarak toma proporções de revolução e muda os rumos do Oriente Médio

A escalada do movimento contra o regime de Hosni Mubarak cresceu das proporções de uma manifestação nacional de protesto, no “dia de fúria” de 25 de janeiro, para a de uma autêntica revolução, a partir da sexta-feira 28 – mesmo se ainda está em aberto se ela será vitoriosa e no que isso resultará.

O momento crucial, a “Queda da Bastilha”, foi quando a multidão saiu das mesquitas (e, em menor quantidade, das igrejas coptas) do Cairo, convergiu para a ponte Kasr al-Nil e tomou-a aos policiais que a defendiam com gás lacrimogêneo, jatos d’água e cassetetes, obrigando-os a recuar e deixar o povo ocupar a Meydan Tahrir (Praça da Libertação). Quartéis da polícia foram incendiados, primeiro em Suez, depois em outras grandes cidades.

O medo da repressão foi vencido e a mobilização explodiu. O anúncio do Exército de que não atiraria nos manifestantes ajudou-a a culminar na “marcha dos milhões” de 1º de fevereiro, que fez jus ao nome. Segundo a Al-Jazira, 2 milhões de fato saíram às ruas no Cairo, meio milhão em Alexandria e números proporcionalmente impressionantes em outras grandes cidades, de Damieta, extremo norte, a Assuã, no sul. No Sinai, os beduínos expulsaram as forças da repressão, tomaram cidades na fronteira de Gaza e ameaçaram atacar o Canal de Suez. Com anuência de Israel, o Egito enviou tropas para controlar a região, desmilitarizada desde o tratado de paz de 1979.

Na hora zero da sexta-feira, o governo egípcio cortou completamente a internet, medida sem precedentes no mundo. Nos momentos mais críticos, inclusive o 1º de fevereiro, tirou do ar também a telefonia celular e os principais satélites de comunicações. Levou demasiado a sério a “revolução pelo Twitter” alardeada pela mídia ocidental. O blecaute digital paralisou os bancos e a economia – até cartões de crédito e caixas automáticos deixaram de funcionar –, mas não afetou os protestos, não cortou a cobertura jornalística e prejudicou a imagem do regime. Assim como outras medidas mais convencionais: toque de recolher, cassação da licença da Al-Jazira e perseguição a jornalistas.

A mais perigosa foi retirar a polícia das ruas, a partir da derrota da sexta-feira. Se o regime esperava causar caos e pânico e levar a população a recolher-se e implorar pela restauração da ordem, o tiro saiu pela culatra. Depois dos primeiros saques, dos quais parecem ter participado agentes provocadores, o povo organizou comitês, armou-se de paus e facas, ergueu barricadas e fez cordões humanos para proteger suas casas e seus tesouros nacionais, inclusive o Museu Nacional (onde peças foram danificadas), a Biblioteca de Alexandria e o Vale dos Reis. Mostrou ao governo que pode dispensá-lo.

Aparentemente, houve desentendimentos entre o governo, o aparelho repressivo e os diferentes ramos das Forças Armadas, bem como entre Mubarak e seus aliados nos EUA, Europa e Israel. Correram boatos de que o Exército desacatou ordens de disparar nos manifestantes. Soldados e oficiais foram vistos confraternizando com populares e dizendo estar a seu lado.

O secretário-geral do governista Partido Nacional Democrático (pateticamente expulso, em 1º de fevereiro, da Internacional Socialista), o poderoso empresário siderúrgico Ahmed Ezz, foi destituído, enquanto seus escritórios e indústrias eram saqueados. Já o baixo clero dos políticos e empresários governistas pareceu mais agarrado ao poder que o próprio ditador, acusando os manifestantes de serem desordeiros, fundamentalistas ou espiões de Israel.

Em 25 de janeiro, Hillary Clinton dizia que “o governo egípcio é estável e procura meios de responder aos interesses legítimos do seu povo”, mas, depois da sexta-feira, o discurso mudou. A Casa Branca pressionou Mubarak, que, no sábado, trocou o primeiro-ministro Ahmed Nazif (tecnocrata neoliberal identificado com a plutocracia e com uma política econômica impopular) pelo ministro da Aeronáutica e marechal-do-ar Ahmed Shafik. Nomeou o diretor de inteligência Omar Suleiman para a Vice-Presidência, vaga há 29 anos, sinalizando que Gamal Mubarak, filho de Hosni, até então tido como sucessor, foi deserdado – um golpe nos políticos do PND em proveito dos militares.

A reforma do gabinete não satisfez os manifestantes e a aliança de oposições (partidos laicos, Fraternidade Muçulmana, sindicatos, estudantes) liderada pelo recém-retornado Mohamed El-Baradei, que continuaram a exigir a renúncia de Hosni. No domingo, o presidente Barack Obama, depois de telefonar aos líderes de Israel, Arábia Saudita, Turquia e Reino Unido, cobrou publicamente o fim da repressão e uma “transição ordeira”, pouco depois que Hillary Clinton havia dito que as medidas da véspera não bastavam, eram “mero começo”.

A Casa Branca não conseguiu agradar nem a gregos nem a troianos. A oposição egípcia não se satisfez e conservadores dos EUA e de Israel condenaram a “traição” de Obama ao velho ditador, que sinalizaria a outros autocratas do Oriente Médio que não podiam confiar no apoio estadunidense. Eytan Gilboa, cientista político israelense entrevistado pelo site Ynet, disse que Obama “já virou as costas a Israel uma vez, apunhalou Mubarak pelas costas e é hora de desenvolver relações com novas potências”, Índia e China – como se fosse concebível criar lobbies sionistas em Nova Délhi e Pequim.

No Reino Unido, enquanto o primeiro-ministro conservador David Cameron pareceu afinado com a Casa Branca ao pedir “transição ordeira”, Tony Blair defendeu Mubarak, chamando-o de “imensamente corajoso, uma força para o bem”, e advertindo contra “o que poderia emergir de eleições apressadas”. No mundo árabe, Mahmoud Abbas e o rei saudita, Abdullah, também ofereceram seu apoio ao ditador cambaleante.

Outros entenderam melhor: o líder do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, no poder há 32 anos, anunciou reformas e prometeu não se recandidatar, enquanto na Jordânia o rei Abdullah II demitia o primeiro-ministro. Mas o próprio Mubarak resistiu a mais concessões até o dia da “marcha do milhão”, durante o qual os EUA enviaram um emissário especial para repetir o recado. Só ao fim dessa noite reapareceu na tevê para avisar que não voltaria a se candidatar, mas permaneceria no cargo até as eleições gerais em setembro.

O anúncio satisfez, segundo jornalistas, alguns manifestantes, ansiosos por voltar à vida normal, mas não às principais forças de oposição, incluindo El-Baradei e a Fraternidade Islâmica. E o governo, ou parte dele, reagiu violentamente. Em 2 de fevereiro, violentos militantes pró-Mubarak irromperam na Praça Tahrir sem ser detidos ou incomodados pelo Exército, enfrentaram com cavalos, camelos, chicotes, navalhas, pedras e coquetéis molotov os manifestantes da oposição e espancaram e prenderam jornalistas. Parte deles era de policiais à paisana ou membros do PND – 120 foram capturados por populares, que exibiram a jornalistas suas identificações – outros seriam populares pagos por empresários governistas, a 200 libras egípcias por cabeça (34 dólares), principalmente entre guias turísticos das pirâmides, que as manifestações deixaram sem trabalho.

Tática desastrosa: uniu a oposição em vias de se dispersar e dividiu o governo. O papel da Fraternidade Islâmica visivelmente cresceu. O primeiro-ministro Shafik ameaçou renunciar e fez um pedido de desculpas em público, EUA e Europa se pronunciaram condenando a prisão de jornalistas e pedindo transição “rápida”: não dá mais para esperar até setembro.

A lógica dos EUA é clara: quanto mais Mubarak resistir, mais antiocidental será o regime que o suceder. Mas o tipo de transição que os EUA gostariam de garantir já não é um sonho? Mais de uma vez, um ditador longamente apoiado por Washington e derrubado por um movimento popular foi sucedido por um regime democrático amigável para com o Ocidente – por exemplo, a queda de Ferdinand Marcos, em 1986, e de Mohamed Suharto, em 1998. Mas, neste caso, é improvável que qualquer governo democraticamente eleito seja tão dócil aos EUA e a Israel quanto Mubarak. E não é impossível que seja hostil.

No Irã, a insurreição do Egito recebeu apoio tanto do governo conservador de Mahmoud Ahmadinejad quanto de Mir-Hossein Mousavi, o principal líder da oposição tida (indevidamente) como liberal. Os primeiros veem no movimento do Cairo uma repetição da revolução islâmica do Irã de 1979 e, os segundos, da “onda verde” do Irã de 2009. Nos EUA e em Israel, uma divergência similar de interpretação opõe conservadores e liberais, ainda que os primeiros, ao contrário de seus similares iranianos, considerem aterradora a perspectiva.

Qual análise é a mais realista? Em favor dos liberais, diga-se que as manifestações foram iniciadas por estudantes aparentemente laicos, que não se ouvem palavras de ordem fundamentalistas nos protestos contra Mubarak, que neles participam tanto muçulmanos quanto cristãos coptas e que os líderes da Fraternidade Islâmica têm sido cautelosos. Só apoiaram os protestos depois de iniciados e têm participado da coalizão da oposição liderada pelo líder laico Mohamed El-Baradei sem parecer pretender um papel dominante.

Há muito “parece” nesse parágrafo, e não sem razão. O olhar dos observadores ocidentais, principalmente os jornalistas, tende a dar um peso desproporcional a líderes, intelectuais, blogueiros e tuiteiros que sabem se expressar em inglês – que frequentemente são oposicionistas sinceros e até radicais, mas tendem a ser mais ocidentalizados e liberais que as massas e não necessariamente representam seu sentimento.

Sob a superfície, outras correntes podem ser mais poderosas. Uma pesquisa da Pew Research (instituição presidida por Madeleine Albright, ex-secretária de Estado de Bill Clinton), conduzida em maio de 2010 e publicada em dezembro do mesmo ano em sete países islâmicos, mostrou que a maioria dos muçulmanos egípcios tende ao islamismo político.

Os egípcios estão divididos 48% a 49% entre os que consideram o atual papel do Islã na política grande ou pequeno. Dos 48% que o julgam já “grande”, 95% acham isso bom. Dos que acham pequeno, 80% não estão satisfeitos com o quadro. Noves fora, 85% consideram positiva a influência do Islã na política – bem mais do que, por exemplo, no Paquistão (68%), Líbano (58%) ou Turquia (38%) – e só 2% a julgam ruim, menos que em qualquer outro país pesquisado, o que inclui Indonésia, Nigéria e Jordânia. Nada menos de 82% apoiam a punição do adultério com apedrejamento, 77% a punição do roubo com açoite ou amputação de mãos, 84% a pena de morte para a apostasia e 54% a segregação de homens e mulheres no local de trabalho, porcentagens sempre em primeiro ou segundo lugar entre os países pesquisados.

São 59% os que preferem a democracia a qualquer outro tipo de governo – uma maioria, mas inferior à de outros países, exceto Paquistão. Só 20% aplaudem a Al-Qae-da e 19% o Hezbollah, mas 49% simpatizam com o Hamas, que historicamente surgiu da Fraternidade Islâmica, a qual venceu pelo menos metade das eleições das quais Mubarak permitiu que participasse.

Os egípcios parecem tender a uma democracia islâmica e não liberal, e vale lembrar que, com todas as limitações, o Irã tem eleições mais reais que o Egito ou qualquer país árabe, exceto o Líbano. As semelhanças com o Irã também incluem a presença de uma considerável mão de obra feminina, de um movimento trabalhista significativo (e em boa parte islâmico, ainda que moderado) e uma forte identidade nacional.

Por outro lado, o Egito difere do Irã por uma minoria não muçulmana grande e influente: os coptas representam pelo menos 10% da população, com uma representação mais que proporcional nas classes média e alta, inclusive os artesãos e comerciantes do “bazar”, cuja hostilidade à modernização e à concorrência do capital ocidental foi decisiva em Teerã. No Egito, essa camada é mais ocidentalizada e dependente do turismo.

O islamismo sunita, predominante no Egito, não é necessariamente mais moderado que o xiita do Irã – Osama bin Laden e o Taleban que o digam –, mas é mais plural e menos hierarquizado, o que dificulta a estruturação de um regime teocrático. Mas que não haja um “aiatolá Khomeini” é uma meia-verdade: embora não tenha autoridade formal sobre o Islã ou a Fraternidade Islâmica, o teólogo egípcio Yusuf al-Qaradawi, exilado no Catar desde 1961, foi em 2008 classificado pela revista Foreign Policy como o terceiro intelectual mais influente no mundo. Não é o único líder religioso relevante, mas sua voz se fez ouvir sobre a dos demais, ao condenar o regime Mubarak e declarar haram (religiosamente proibida) a repressão aos manifestantes. Tem uma audiência de 40 milhões na Al-Jazira, é hostil a Israel e foi proibido de pisar nos EUA e no Reino Unido por elogiar o “martírio” dos homens-bomba palestinos.

Não que seja o único: para a diplomacia e a inteligência de Israel, só o “círculo interno” de Mubarak está comprometido com a paz. Não confiam em El-Baradei, visto pela imprensa ocidental como a esperança laica e democrática. Sua gestão na Agência Internacional de Energia Atômica, de 1997 a 2009, lhe rendeu o Nobel da Paz de 2005, mas também uma série de atritos com o Estado judeu, que culminou em 2007, quando acusou Tel-Aviv de violar a lei internacional ao bombardear as instalações nucleares da Síria e Ehud Olmert pediu sua demissão. El-Baradei também atacou a invasão do Iraque, criticou os exageros do Ocidente quanto à suposta ameaça nuclear do Irã e os diferentes pesos e medidas aplicados a Israel, que se recusa a aderir ao tratado de não proliferação, e que ele apontou como a maior ameaça à paz no Oriente Médio.

Mesmo que o resultado não seja uma teocracia nem uma declaração de guerra a Israel, a queda de Mubarak – se for mais que a farsa de uma substituição por um Suleiman ou Shafik – mudará a face da região. Depois de romper com a Turquia, Israel perderá seu último apoio na região, ficando mais isolado do que nunca. Seus navios e submarinos não mais poderão passar por Suez e o gás natural deixará de ser fornecido a preços camaradas. Pode ser também o fim definitivo das negociações por um Estado palestino independente, deixando Israel à deriva, em uma rota suicida.

Fonte: Carta Capital

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Israel nega entrada de Noam Chomsky na Cisjordânia


No dia 15 de maio, o conhecido linguista, filósofo e ativista político estadunidense Noam Chomsky não pode entrar em Israel para dar uma conferência na universidade palestina de Birzeit , junto a Ramala. Depois de ter sido interrogado por mais de três horas, o acadêmico, que é judeu, teve o seu passaporte carimbado com a frase "entrada recusada". A porta-voz do Ministério do Interior israelense, Sabine Haddad, confirmou que a entrada de Chomsky foi recusada "por várias razões", mas não deu detalhes.

Chomsky é um dos maiores críticos de Israel no mundo acadêmico. Assume-se como socialista libertário e simpatizante do anarquismo, tendo publicado várias análises sobre as relações de conivência entre o poder e os meios de comunicação. Para ele, Israel e os EUA impedem a paz no Oriente Médio por não aceitarem a proposta de acordo da Liga Árabe.

Em março, ele recebeu, na Alemanha, o Prémio Eric Fromm 2010 pelo seu trabalho, convicções políticas e sua posição em defesa dos direitos dos pobres e oprimidos.

Fonte: icarabe

quinta-feira, 20 de maio de 2010

IRAN X "MUNDO CIVILIZADO"

Demonização da viagem de Lula ao Irã ancora-se em argumentos falaciosos e tendenciosos

por Luiz Eça*, no Correio da Cidadania
18-Mai-2010

Dificilmente a visita de um chefe de Estado a outro país causou tantas críticas quanto a que Lula está fazendo ao Irã.

Desde Hillary Clinton até deputados brasileiros, passando por Bernard Kouchner (ministro das Relações Exteriores da França), jornalistas nacionais , congressistas e colunistas americanos, entre outros, criticaram o nosso presidente de diversas maneiras.

A maioria considerou essa viagem uma aproximação, digamos, vil, com uma ditadura cruel que prende, mata e tortura opositores. Não se pode negar que estas afrontas aos direitos humanos têm acontecido no Irã, depois das manifestações de repúdio à eleição de Ahmadinejad.

Pelo menos episodicamente, o governo iraniano não ficou omisso. Está processando 12 indivíduos suspeitos de torturar até a morte 3 oposicionistas. Além disso, depois de repetidas denúncias sobre barbaridades cometidas na prisão de Kahizak, ordenou seu fechamento.

Claro, devia fazer muito mais, especialmente porque, ao que se sabe, as violências contra adversários continuam. No entanto, nesse quesito, EUA e Israel ficaram atrás, pois nesses países os violadores dos direitos humanos continuam livres e tranqüilos.

Ao reconhecer as torturas da gestão Bush, Obama declarou que seus autores não seriam punidos. Ele proibiu essas práticas, mas, infelizmente, parece que elas continuam. Só para ficar em exemplos recentes, ainda na primeira semana de maio, a Cruz Vermelha denunciou a existência no Afeganistão de uma prisão secreta para suspeitos na base aérea de Bagran. E 9 ex-prisioneiros, liberados por falta de provas, declararam que foram submetidos a abusos no local. Simon Hersh, o famoso repórter que denunciou My Lay e Abu Ghraib, revelou, em Genebra, na Conferência Global do Jornalismo Investigativo, que inimigos capturados na guerra do Afeganistão, em vários casos, foram executados no próprio campo de batalha pelo exército americano.

Quanto a Israel, as autoridades do emirado de Dubai (grande amigo dos EUA) continuam acusando o Mossad de ter executado um homem do Hamas em plena cidade árabe. Pediram até à Interpol a prisão de vários agentes e do chefe do serviço secreto israelense. Lembramos ainda o inquérito da ONU, presidido por um juiz judeu, que acusou o exército do governo de Telaviv de crimes de guerra e contra a humanidade no ataque a Gaza, o qual vitimou mais de 1.000 civis. Nem os judaicos, nem os oficiais das forças armadas receberam as devidas punições.

Apesar destes fatos criminosos de responsabilidade dos governos dos EUA e de Israel, ninguém jamais pensou em censurar Lula quando viajou para estes países.

Curiosamente, são eles que clamam com maior fúria por sanções ao Irã, que o forçassem a abandonar um programa de engenhos nucleares ainda não provado. Dizem que o enriquecimento do urânio demonstraria as intenções iranianas de produzir armas nucleares. O que seria uma catástrofe nas mãos de um “rogue state” (um estado entre delinqüente e irresponsável) que já prometera jogar Israel no mar.

Embora Ahmadinejad tenha declarado que fora mal entendido, que jamais pretendera atacar Israel, que a História é que acabaria com o regime sionista, por seu caráter racista – o ato de fundação afirma Israel como estado judaico -, a grande imprensa internacional e brasileira ignoraram suas explicações. Como também ignoraram que, na verdade, quem toca os tambores de guerra na região, comportando-se como autênticos ‘rogue states”, são os EUA – com menções ao célebre “todas as opções estão sobre a mesa” - e Israel, com sucessivas ameaças de ataque ao Irã.

Os exemplos são muitos. Novamente mencionaremos apenas os mais recentes.

Neste mês, Gary Samore, coordenador na Casa Branca do controle de armas de destruição em massa, informou à Reuters que seu governo havia pressionado Moscou a não entregar ao Irã o sistema antimíssil S-300, já contratado. “Deixamos claro aos russos que isso traria um impacto em nossas relações bilaterais significativo. Os russos entenderam que as conseqüências seriam severas”. E nós entendemos que o governo Obama está zelando para enfraquecer as defesas iranianas e, por conseqüência, tornar eventuais ataques ao país mais destrutivos. Nada mais bizarro da parte de um Prêmio Nobel da Paz

Na semana que passou, Moshe Ya´alon, vice-primeiro ministro de Israel, anunciou que suas forças aéreas estavam prontas para a guerra contra o Irã. Ya´alon, apesar do alto posto que ocupa num governo que se diz empenhado na paz com os palestinos, já os qualificou como um “câncer”.

Estes fatos não são levados em conta pelos críticos da viagem de Lula, que ajuntam a seus argumentos a consideração de que a amizade com o Irã está afastando o Brasil da comunidade internacional. A maioria dos nossos comentaristas e muitos políticos enchem a boca quando falam nessa “comunidade internacional”, sem perceber que este termo está sendo usado de maneira pelo menos incorreta, para não dizer arrogante e até racista, pois os 118 países não alinhados já se manifestaram contra as sanções. Será que estes 118, por serem asiáticos, africanos e latino-americanos, não integram a “comunidade internacional”? Será que dela só merecem fazer parte os europeus e norte-americanos, talvez, por coincidência, povos basicamente brancos? Aparentemente, eles esqueceram que os tempos dos impérios coloniais já se foram. E que agora países negros, amarelos e vermelhos são membros do mundo civilizado.

A última observação que essa peculiar “comunidade internacional” faz é que, dialogando com o Brasil e a Turquia, co-participante das conversações de paz em Teerã, estão fazendo o jogo dos aiatolás que visam ganhar tempo, adiar ao máximo as sanções contra seu país, até poderem concluir seus artefatos nucleares. Hillary Clinton acaba de telefonar para o presidente turco advertindo-o insistentemente desta falácia islâmica.

Parece um argumento pífio. Se todas as autoridades técnicas concordam que o Irã precisaria de ao menos 5 anos para produzir sua primeira bomba de destruição em massa, seria uma missão impossível para o governo de Teerã conseguir enrolar o mundo por um prazo tão avultado.

O Financial Times de 13 de maio considera que, ao tentar mediar um diálogo com o Irã, o Brasil “desafia a política externa dos EUA”. É verdade, essa política tem um norte hoje muito claro: impor sanções tão terríveis que isolem o Irã do comércio mundial e o levem a uma crise capaz de provocar a queda do regime dos aiatolás. E sua substituição por gente mais cordata.

Alega-se que Obama passou um ano estendo a mão a Ahmadinejad sem obter respostas. Não foi bem assim. Suas mãos estendidas tinham os punhos fechados, ameaçando socos, pois, desde junho de 2009, não houve uma única tentativa de aproximação concreta dos EUA, apenas retórica, coisa em que seu presidente é mestre, enquanto as ameaças, partidas especialmente da gaviã Hillary Clinton, foram constantes.

Não há dúvida de que o Irã vem praticando violências altamente reprováveis contra a oposição. Mas, como diria a filósofa Denise Charuto, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. As justas críticas às ações repressivas do governo dos aiatolás não o transformam em réu na presente crise nuclear. Até os opositores mais ardorosos de Ahmadinejad defendem o direito do país de ter um programa nuclear pacífico e condenam as sanções que os EUA e seguidores querem lhe impor.

Nesta semana, as coisas podem se encaminhar bem. Já se sabe que o Irã está disposto a fazer concessões às propostas dos chefes do governo do Brasil e da Turquia – de envio do urânio iraniano de baixo enriquecimento ao território turco, onde ficaria até ser trocado com o urânio enriquecido a 20 graus na França ou na Rússia.

Além disso, de Bruxelas, a agência DPA reportou que está sendo agendada uma reunião entre Catherine Ashton, chefe de Política Internacional da União Européia, e o chefe das negociações nucleares do Irã, Saeed Jalili, por iniciativa de Ahmed Davotaglu, ministro das Relações Exteriores da Turquia.

Há possibilidades de que a tão criticada viagem do presidente Lula a Teerã poderá representar um princípio da solução da crise.

*Luiz Eça é jornalista.


Fonte: Correio da Cidadania

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Irã, um contraponto


O ministro de Defesa de Israel, Ehud Barak, passará de terça (23) até domingo (28) nos EUA, acertando os últimos detalhes para uma operação contra o Irã.

Os poderosos do mundo já sinalizaram que, se e quando o programa nuclear iraniano atingir determinado estágio, haverá uma intervenção militar para afastar a real ou suposta ameaça a Israel, apoiada por alguns deles.

O que assistimos agora é só a sintonia fina, os derradeiros preparativos.

Em vias de conquistar a prenda almejada neste instante, Israel provavelmente fará alguma concessão quanto à péssima repercussão de seus genocídios de dez/2008 e jan/2009 na faixa de Gaza.

A condenação veemente da opinião pública mundial e da Organização das Nações Unidas não foi aplacada pelo anúncio de meras punições disciplinares que teriam sido aplicadas a dois comandantes militares por terem despejado fósforo branco na agência de refugiados da ONU em Gaza, deixando vários civis feridos e incendiando essa instalação humanitária.

Então, no seu encontro com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, presume-se que Barak vá oferecer algo de menos risível, para, pelo menos, salvar as aparências.

Depois que o Relatório Goldstone informou a todo o mundo civilizado, de forma irrefutável, que Israel é culpado de crimes de guerra contra os palestinos e, provavelmente, de crimes contra a humanidade, o estado judeu se vê obrigado a dar alguma resposta a esse clamor por justiça.

Ainda mais quando está prestes a ser desencadeada outra operação militar polêmica, com as outras nações ou fazendo o serviço sujo para Israel, ou cruzando os braços enquanto o estado judeu resolve ele próprio seu problema (não dá para sabermos exatamente que linha de ação será adotada desta vez).

Quanto ao governo de Mahmoud Ahmadinejad, ao contrário do de Saddam Hussein, Ahmadinejad não está isolado do mundo e tem muitos aliados poderosos, basta ver os acordos no campo energético e político com a China, índia, Paquistão, Japão, Venezuela, Brasil e Rússia. Basta ver a aproximação do Irã à SCO e à CSTO. O Irã tem sido geopoliticamente muito inteligente ao criar a sua própria grelha e aliar-se às potências emergentes, e para isso tem sabido utilizar muito bem o seu poderio energético (2º maiores jazidas do mundo de Petróleo e de Gás Natural). Claro que o regime iraniano não é nada de se louvar, pelo contrário, é condenável, mas os EUA, Israel e os demais países não estão preocupados com isso, estão preocupados com a manutenção do oligopólio da venda de Urânio. O Irã é obrigado a comprar Urãnio dos EUA, Alemanha, Holanda, França e Inglaterra por preços muito altos e por isso tem procurado tornar-se independente energicamente.


No entanto, seu péssimo currículo em direitos humanos, executando opositores sem justificativas que pessoas civilizadas pudessem aceitar e mantendo a ferro e fogo os valores medievais, facilitaram em muito o serviço para os inimigos. Do que mais precisaria a indústria cultural?


Não creio que os EUA estejam em situação de levar a cabo uma intervenção. A pressão das potências europeias é porque têm também interesses na questão do comércio do Urânio. Há vários países do Oriente Médio e arredores que pretendem fazer o mesmo que o Irã tem feito, por isso é tão importante para os países centrais barrarem o Irã antes que se acabe o oligopólio energético.

Sobre as alianças do Irã, não digo que os países emergentes irão tomar as dores do Irã, mas irão certamente salvaguardar seus próprios interesses, e isso passa por manter a posição atual do Irã. Estou falando de negócios muito chorudos e de posicionamentos estratégicos que são do interesse dos países emergentes para poderem fazer frente aos países centrais. O Irã foi o primeiro país que não fazia parte da URSS a ser convidado para ingressar na CSTO.

A grelha geopolítica atual é muito confusa e arma-se sobre interesses bastante obscuros e complexos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O visitante que veio da Pérsia


Postado originalmente em Boca no Trobone 2

Por Mauro Santayana, no Jornal do Brasil


A movimentação diplomática do Brasil, tendo à frente a personalidade peculiar de seu atual chefe de Estado, vem sendo criticada pela oposição e meios de comunicação, e de forma ainda mais contundente, quando se dispôs a receber o presidente do Irã. Houve passeatas, muito bem organizadas, com dísticos e faixas caras, contra o visitante. Não houve os mesmos protestos quando o presidente recebeu, há poucos dias, o presidente de Israel.

O presidente do Irã é alvo da ira geral do Ocidente porque, em seu confronto com Israel – única potência nuclear do Oriente Médio – nega o Holocausto. Ele se inclui entre os revisionistas, alguns alemães, outros ingleses, outros ainda da hierarquia da Igreja, que também negam a existência dos campos de extermínio, ou tentam diminuir o número de mortos, judeus e não judeus, nos campos de concentração. Os judeus, os comunistas, os ciganos e os eslavos foram as vítimas preferenciais dos nazistas, dizimados pelo trabalho forçado, pela fome e pelo gás.

Há farta documentação do que ocorreu entre 20 de janeiro de 1942, quando os nazistas decidiram, no encontro de Wannsee, programar a “solução final” para o problema judaico, e 17 de janeiro de 1945, quando os soviéticos ocuparam o campo de Auschwitz. Nos três anos, milhões de seres humanos foram chacinados pelos nazistas. O presidente Ahmadinejad sabe disso, mas, em sua luta contra Israel, nega-se a aceitar a História. Se foram 6 milhões, 600 mil, ou 60 mil, o crime é o mesmo. Não é o número de vítimas que nos deve espantar, e sim a presunção de superioridade racial de que se arrogavam os alemães para a prática do genocídio.

O mesmo sentimento de horror que nos leva ao confrangimento da alma, diante do que fizeram os alemães, nos atinge, quando assistimos ao que se passa na Palestina. Não há, diante das tragédias de nosso tempo, bons culpados e vítimas más. Há culpados e há vítimas. A maior oposição que se faz ao Estado de Israel, e com razões históricas, é o fato de que os palestinos tenham sido privados de sua terra, privados de água, submetidos ao bloqueio de comida e de remédios, além de cercados pelo muro e bombardeados. Os palestinos nunca fizeram progroms, como os eslavos, jamais mandaram queimar judeus – como os cristãos, em Basileia, e em outros lugares. Não os submeteram aos autos de fé, como os ibéricos, durante a Inquisição. Não os eliminaram nos campos poloneses. Não lhes cabe purgar os crimes do antissemitismo, quando eles também são semitas, tanto quanto os que lhes ocupam o solo.

Estabeleceu-se, pela força do convencimento dos meios mundiais de comunicação, que os palestinos são terroristas, e os israelenses, democratas. Não nos incluímos entre os que admiram o presidente do Irã. Algumas de suas declarações espantam pela falta de senso. Mas não lhe falta bom senso quando defende o direito de o Irã desenvolver pesquisas nucleares. Se os iranianos são ameaça a Israel, com seu projeto, os senhores da guerra de Israel, que já dispõem de artefatos nucleares, como orgulhosamente proclamam, e anunciam que irão, são ameaça ainda maior. Nada os faz com mais ou com menos direitos no mundo. Nem a fé religiosa, nem os hábitos cotidianos. A língua persa não é menos importante do que a hebraica, com sua rica literatura. Nem o presidente Ahmadinejad é menos chefe de Estado pelo fato de dispensar o uso da gravata.

O segredo do presidente Lula é a sua percepção de homem comum. Ele acha, e com razão, que uma boa conversa pode resolver os problemas, desde que haja boa-fé entre todos os interlocutores. Disso se deu conta Obama que pediu, pessoalmente, a Lula, durante o encontro do G-8, em Áquila, na Itália, no dia 9 de julho deste ano, que tentasse demover Ahmadinejad de desenvolver armas nucleares – conforme disse, no mesmo dia, à imprensa, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. Ao que parece, o New York Times não cobriu o encontro de Áquila.
Os opositores domésticos de Lula se esquecem disso. Os Estados Unidos que admiram não é o de Obama, mas o de Bush e Chenney. É difícil que o presidente consiga, no Oriente Médio, uma paz negada há mais de 60 anos. Mas, se ele conseguir negociações entre as partes envolvidas, mesmo com progressos limitados, será bom para o mundo. Não são todos os judeus de Israel que querem eliminar os palestinos e bombardear Teerã, e nem todos os muçulmanos desejam o fim de Israel. É contando com eles que Lula busca a paz.

Fonte: Vi o Mundo / JB