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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Orwell estava certo, Huxley também...





Published on Monday, December 27, 2010 by TruthDig.com

2011: A Brave New Dystopia

by Chris Hedges


As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Brave New World. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.

Temos sido gradualmente desempoderados por um estado corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Brave New World para 1984. O estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.

[...]

Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão. Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.

“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.

O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O estado corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.

O estado corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Brave New World, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.

O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.

Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , seja no noticiário noturno ou nos programas como “Oprah”, nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.

Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.

[...]

A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Brave New World de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.

O estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.

Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.

A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.

Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.

“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.

O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.

Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR. A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.

“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.

Fonte: Viomundo

Encontro de Natal

- Vai graxa aí patrão?
Ele olhou para os sapatos empoeirados e respondeu: - Vai sim. Em seguida, pensou na dureza da vida de engraxate, agora que todo mundo só calça tênis. O menino, franzino, não tinha mais do que oito anos e, em vez de boné, usava um gorro de papai Noel. Foi quando o "patrão" perguntou:
- Onde você mora?
- Na rua.
- Você não tem casa?
- Tinha, mas minha vó mandou a gente embora.
- Por quê?
- Porque minha mãe falou que o vô era meu pai. Aí a vó disse que ela tava louca e pôs a gente para fora de casa... Minha mãe é aquela ali, ó. (Aponta para uma mulher maltrapilha sentada na calçada, do outro lado da rua).
- Qual é o nome dela?
- Nazaré.
- E você tem ou não tem pai?
- Tenho. Tô aqui esperando ele chegar.
- Onde ele mora?
- Em Mirassol. Esse ano ganhou indulto de Natal. Ele disse que vai trazer uma bola de presente para mim, para a gente jogar futebol.
(o Terminal Barra Funda, em São Paulo, é onde param os ônibus que vem dos presídios do interior do estado)
- Poxa, que legal! É a primeira vez que ele sai de lá?
- É.
- Há quanto tempo ele está preso?
- Desde que eu nasci.
- E o que foi que ele fez?
- Ele matou meu vô.
- Por quê?
- Porque ele disse que o vô "estrupô" minha mãe.
- Ah... E você sabe o que é isso?
- Não. Mas meu pai me disse que minha mãe não é louca e que ficou daquele jeito por causa dos remédios que deram para ela no posto. É que tentaram envenenar ela...
- É mesmo?
- É, minha tia me falou. Quando ela saiu do hospital tava assim. Ela quase não fala mais, quando fala diz que eu tenho dois pais: o papai do céu e o papai do chão. Aí ela ri, depois ela chora, aí começa a bater nela... A gente tem que segurar, para ela não se machucar.
- Quanto custou o sapato?
- Nada.
- Como assim?
- Você não viu que hoje eu sou o papai Noel?
- Ah, entendi, o gorro...
- Sabia que hoje é dia mais feliz da minha vida?
- Não, por quê?
- Porque é meu aniversário e vou encontrar meu pai.
- E como chama seu pai?
- José.
O "patrão" se despediu e, enquanto caminhava apressado, sem olhar para trás, chorou. Um choro que não era dele, mas da dor representada pela doce e alegre figura do pequeno filho de Nazaré.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Lei Áurea, 122. Conheça o escravo de hoje


por Leonardo Sakamoto


Há exatos 122 anos, era declarada ilegal a propriedade de um ser humano sobre outro no Brasil.

Contudo, a Lei Áurea – curta, grossa e lacônica – não previu nenhuma forma de inserir milhões de recém-libertos como cidadãos do pais, muitos menos alguma compensação pelos anos de cárcere para que pudessem começar uma vida independente. Para substituir os escravos, veio a imigração de mão-de-obra estrangeira, agora assalariada. Os fazendeiros não precisavam mais comprar trabalhadores, podiam apenas pagar-lhes o mínimo necessário à subsistência. Ou nem isso.

Enquanto isso, o trabalho escravo moderno deu lugar a formas contemporâneas de escravidão, em que trata-se o trabalhador como animal, explora-se sua força física aos limites da exaustão e cria-se maneiras de prendê-lo à terra, seja por dívidas ilegais, seja por qualquer outra forma. Para isso, são usadas ameaças e violência como estratégias de convencimento. No passado, sentiram isso na pele imigrantes europeus nos cafezais do Sudeste e migrantes nordestinos nos seringais do Norte. Ainda hoje, são vitimas da escravidão contemporânea milhares de trabalhadores pobres em fazendas de gado, soja, algodão, milho, arroz, cana-de-açúcar, carvoarias, oficinas de costura, pátios de obras de hidrelétricas.

Qual o perfil desse escravo de hoje? Desde 1995, quando o governo federal criou os grupos móveis de fiscalização que verificam denunciam e libertam trabalhadores, 37.205 foram oficialmente retirados dessas condições. Se considerarmos os trabalhadores rurais resgatados entre 2003 e 2009 (descontando o trabalho escravo urbano e o voltado para exploração sexual), temos Maranhão, Pará, Bahia e Mato Grosso do Sul como principais fontes de escravos; uma maioria de homens (95%); a ausência de formação – 40% analfabetos e 28% apenas com a 4ª série incompleta; 63% entre 18 e 34 anos – ou seja, no auge de sua força física, podendo entregá-la aos empregadores.

Saem de regiões pobres para procurar empregos em outros lugares fugindo da pobreza e da falta de oportunidades melhores. A fronteira agrícola amazônica tem sido, historicamente, Pará à frente, o principal destino desses trabalhadores. O município de São Félix do Xingu (PA) é campeão no número de casos de fiscalização desse crime. A fazenda e usina Pagrisa, em Ulianópolis (PA), foi palco da maior libertação até agora com 1.064 pessoas resgatadas. Mas resgates já foram realizados do Rio Grande do Sul a Roraima, passando por São Paulo e Rio de Janeiro, mostrando que o problema é nacional.

Vamos dar um passo atrás e ver e ver de onde vem essa herança maldita. Em 1850, o governo brasileiro finalmente adota ações eficazes para coibir o tráfico transatlântico de escravos após pressão inglesa. Nos anos seguintes, foram tomadas medidas que libertaram crianças e sexagenários. O que, na verdade, serviu apenas como distrações para postergar o fim da escravidão. Os escravos que conseguiam chegar aos 60 anos já não tinham condições de trabalho e eram um “estorvo” financeiro para muitos fazendeiros que os sustentavam. Já os filhos dos escravos não possuíam autonomia para viver sozinhos. Muitos, até completarem 18 anos, foram tutelados (e explorados) pelos proprietários de seus pais.

Mas, por mais que fosse postergada, com o fim do tráfico transatlântico, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição total?

Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não cedê-las como era feito até então. O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de capital para a ampliação de seus domínios – ainda mais com os excedentes que deixaram de ser invertidos com o fim do tráfico. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição.

As legislações que se sucederam a ela e trataram do assunto apenas reafirmaram medidas para garantir a existência de um contingente reserva de mão-de-obra sem acesso à terra, mantendo baixo o nível de remuneração e de condições de trabalho. Com a Lei de 1850 estava formatada uma nova estrutura – em substituição àquela que seria extinta em maio de 1888 – para sujeitar os trabalhadores.

O fim da escravidão não representou a melhoria na qualidade de vida de muitos trabalhadores rurais, uma vez que o desenvolvimento de um número considerável de empreendimentos continuou a se alimentar de formas de exploração semelhantes ao período da escravidão como forma de garantir uma margem de lucro maior ao empreendimento ou mesmo lhe dar competitividade para a concorrência no mercado. Governo e sociedade têm obtido vitórias no combate a esse crime, atacando o tripé que o sustenta (impunidade, ganância e pobreza). Mas sua erradicação ainda é um sonho distante.

Para além dos efeitos da Lei Áurea que completa 122 anos, trabalhadores rurais do Brasil ainda vivem atualmente sob a ameaça do cativeiro. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.

Fonte: Blog do Sakamoto

122 anos de 13 de maio... Parte II




DE CADA 4 TRABALHADORES LIBERTADOS NO PAÍS, 3 SÃO PRETOS OU PARDOS, DIZ ESTUDO DE ECONOMISTA DA UFRJ

por ANTÔNIO GOIS


Passados 122 anos desde a Lei Áurea, 3 em cada 4 trabalhadores libertados de situações análogas à escravidão hoje são pretos ou pardos.

É o que mostra um estudo do economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, feito a partir do cadastro de beneficiados pelo Bolsa Família incluídos no programa após ações de fiscalização que flagraram trabalhadores em situações que, para a ONU, são consideradas formas contemporâneas de escravidão.

São pessoas trabalhando em situações degradantes, com jornada exaustiva, dívidas com o empregador -que o impedem de largar o posto- e correndo riscos de serem mortas.

Paixão, que publica anualmente um Relatório de Desigualdades Raciais (ed. Garamond), diz que foi a primeira vez em que conseguiu investigar a cor ou raça desses trabalhadores, graças à inclusão do grupo no Bolsa Família.

Os autodeclarados pretos e pardos -que Paixão soma em seu estudo, classificando como negros- representavam 73% desse grupo, apesar de serem 51% da população total do Brasil. Tal como nas pesquisas do IBGE, é o próprio entrevistado que, a partir de cinco opções (branco, preto, pardo, amarelo ou indígena) define sua cor.

Para o economista, “a cor do escravo de ontem se reproduz nos dias de hoje. Os negros e índios, escravos do passado, continuam sendo alvo de situações em que são obrigados a trabalhar sem direito ao próprio salário. É como se a escravidão se mantivesse como memória”.

Pretos e pardos são maioria entre a população mais pobre. Segundo o IBGE, entre os brasileiros que se encontravam entre os 10% mais pobres, 74% se diziam pretos ou pardos.

Para Paixão, ainda que hoje a cor não seja o único fator a determinar que um trabalhador esteja numa condição análoga à escravidão, o dado sugere que ser preto ou pardo eleva consideravalmente a probabilidade.

Em tempo: em entrevista à Record News, nesta última terça-feira, a professora Flávia Piovesan, especialista em direitos humanos, contou que estudo do professor Paixão mostra que no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU), o Brasil está em 70º. lugar. Se o Brasil fosse só de brancos, o IDH pularia para o 30º. lugar. Se fosse só de negros, cairia para 104º. lugar. Não, nós não somos racistas.

A propósito, também como singela homenagem a Kamel, clique aqui para ler o post sobre o artigo de Maria Rita Kehl, no Estadão, em que ela associa a decisão do Supremo sobre a Anistia ao assassinato sob tortura de um motoboy, num quartel da PM de Serra, em SP.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pense no Haiti...

Os pecados do Haiti
por Eduardo Galeano

'Loteria', de Yordan Dabady.

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

'Cavalheiro bem apessoado', de Pierre Louis Riche.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilómetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

'A reunião', de Aland Estime.

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

'Lavadeiras', Watson Etienne. A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolíver, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete nave e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um génio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perdã por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Viva o feijão!!!


Pesquisador conta como a feijoada surgiu na mesa de famílias cariocas

A feijoada não surgiu nas senzalas, como invenção dos escravos, que juntariam sobras de carnes não aproveitadas pelos “senhores” para preparar um prato mais encorpada. Tampouco começou a ser preparada por famílias de poucas posses que requentariam sobras de refeições anteriores para reforçar a alimentação. Ela foi criada para servir como comida para as elites do século 19, especialmente nas famílias cariocas mais ricas. Esta é a tese de um estudo feito pelo pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), Almir Chaiban El-Kareh sobre o prato que melhor simboliza a culinária nacional.

– Minha teoria é que a feijoada, como a conhecemos, surgiu nas famílias ricas, porque os miúdos eram valorizados pelas elites. Os ricos comiam refeições com feijão incrementado com diversas carnes e miúdos. Os pobres comiam feijão ralo, com pequenos pedaços de carne-seca ou toicinho – afirma Almir.

Almir baseou sua pesquisa em relatos de viajantes estrangeiros que visitaram o Brasil, em especial o Rio de Janeiro, ao longo do século 19. Um destes viajantes foi o pintor francês Jean-Baptiste Debret.

– Segundo Debret, os escravos comiam a mesma comida que os patrões. Alguns chegavam a comer juntos no mesmo recinto. Os patrões sentados à mesa e os escravos em esteiras no chão. Isso reforço minha tese de que os escravos não preparavam a própria comida – comenta o pesquisador.

Mas antes de cair no gosto das famílias ricas e se tornar o ingrediente principal da feijoadas, o feijão encontrava muita resistência entre as famílias mais ricas do Rio de Janeiro. Pouco depois da transferência da família real e de sua Corte para o Brasil, em 1808, os feijões ainda eram classificados como “comida de pobre”.

Debret

Almir diz que esta informação foi tirada dos relatos de Debret. Segundo o pintor francês, que chegou ao Brasil em 1816, as famílias ricas tinham como prato mais tradicional o cozido português, acompanhado de galinha, arroz e farinha de mandioca.

– O feijão ainda não aparecia na mesa das elites naquele momento – diz Almir, acrescentado que seu consumo era velado. – Debret escreveu que, na época, os pequenos comerciantes comiam feijão com um pedaço de carne-seca e farinha, regado com muita pimenta, mas escondidos de todos, no fundo das lojas.

No entanto, segundo o pesquisador, já por volta de 1830, todos os viajantes que escreveram relatos sobre o Brasil, atestaram que ricos e pobres comiam feijão, carne seca e toicinho todos os dias. Essa aceitação gradual do consumo de feijão pelas elites acabou por sobressair à incorporação dos hábitos europeus e transformou o cozido português numa segunda opção .

O interessante é que a invenção da feijoada e sua incorporação aos hábitos alimentares da população se deu em paralelo à permanência da família real portuguesa no Brasil, nas primeiras duas décadas do século 19.

A etiqueta à mesa foi uma das influências da estada da família real no Rio de Janeiro. As poucos, a sociedade carioca assimilou a etiqueta e as boas maneiras europeias, usando talheres. Porém, só mudou a forma de comer e não o conteúdo – a própria comida. No caso, a feijoada, que foi ganhando cada vez mais espaço na mesa do carioca e do brasileiro.

– A alimentação é o ponto de maiores resistências à mudança porque é um hábitos adquirido na infância. A elite mudou de roupa, copiando a moda francesa, mas não mudou de gosto alimentar. Essa foi a vitória da feijoada.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Caminhos para se pensar uma História do Trabalho no Brasil





A História do Trabalho no Brasil suscita diversas questões para entendermos as agências dos indivíduos e os caminhos traçados pela historiografia para interpretar e procurar entender o comportamento do indivíduo no mundo do trabalho.
No entanto, a historiografia mais tradicional parece ter deixado escapar temas por não serem considerados relevantes para os autores. Assim, a História do Trabalho no Brasil tem dificuldades em estabelecer relações trabalhistas em economias não-exportadoras, não-fabris ou não-urbanas, por exemplo. Desse modo, com respeito à historiografia do período colonial, novos estudos têm apontado para as relações de trabalho nas propriedades rurais não ligadas diretamente à economia agro-exportadora, mas à economia de subsistência e àquela voltada para o mercado interno; atentando, por exemplo, para o número de escravos empregados nestas economias em comparação com o número empregado na agricultura de plantantion.
Diversos trabalhos historiográficos apontam para a importância do tráfico de escravos na economia, já que a reprodução em cativeiro não era satisfatória para atender às demandas, sendo o emprego da mão-de-obra escrava primordial em todos os setores produtivos e em todos os serviços. Desse modo, o sistema escravista “criou” diversas profissões, tanto nas cidades como no campo.
Embora alguns trabalhos mais tradicionalistas afirmem que os escravos das plantations eram diferentes dos escravos urbanos – aqueles qualificados para assumir funções especializadas dentro do plantel, enquanto estes seriam executores de múltiplas funções, sem uma especialidade específica e, portanto, mais “ecléticos” – concordamos com Kátia Mattoso que “a especialização é determinada segundo as necessidades do mercado ou da boa vontade do senhor”; leia-se “boa vontade” como um tratamento mais justo ou uma remuneração (nos casos de “ganho”) mais compensadora. Assim, a demanda (e a especialização) viria de acordo com a conjuntura e a concorrência.
Os trabalhos cotejados destacam as diversas hierarquias e gradações, tanto econômicas e políticas quanto étnicas e culturais, no mundo do trabalho e nas relações cotidianas entre africanos e crioulos, cativos e libertos. Conrad destaca as diversas categorias e funções criadas e recriadas no sistema escravista e constata que essa diversidade de funções poderia ser executada por qualquer modalidade de trabalhador; cativo ou liberto, africano ou crioulo.
Assim, a presença de escravos no ambiente fabril questiona a tese segundo a qual haveria incompatibilidade entre trabalho escravo e atividade industrial. Kátia Mattoso chama a atenção para o mito de caráter eminentemente “eclético” do escravo da cidade, o qual estaria apto para qualquer “ganho” que não exigisse nenhuma especialidade, enquanto o escravo do campo seria mais especializado por executar funções específicas. Os “cantos” – local de ajuntamento de diversos segmentos profissionais - estudados por João Reis na Bahia, o monopólio de algum tipo de “ganho” por uma determinada etnia – como os carregadores de café no Rio de Janeiro, função quase que exclusivamente exercida por escravos minas - e, ainda, o monopólio do comércio de gêneros alimentícios exercidos pelas africanas quitandeiras põem por terra essa teoria e demonstra o auto grau de especialização, para os padrões da época, dos escravos e libertos ganhadores das cidades.
Desse modo, a historiografia sobre a escravidão pode rever diversas postulações e pensar novas perspectivas para entender o mundo do trabalho no contexto da escravatura.
Os estudos da pós-abolição, no que diz respeito ao mundo do trabalho, dimensionam em excesso o caráter da mudança e da entrada de um novo tipo de trabalhador: o imigrante. A partir de então, segundo esses estudos, a História do Trabalho no Brasil pode ser contada, pois, já temos a figura do operário e da classe trabalhadora. Essa História pode ser avaliada a partir do imaginário sobre o que seria a classe trabalhadora, construído pelos meios acadêmicos.
Outras dimensões estão sendo re-elaboradas pela historiografia. A relação do trabalhador com o Estado, suas percepções políticas, suas interações e conflitos com outros agentes; enfim, as esperanças, expectativas, respostas, reações, estímulos, percepções, vivências – tudo relacionado à experiência política (e cultural) do trabalhador em ralação à sociedade do seu tempo. Assim, diversos estudos têm refletido em torno de conceitos, categorias e instituições como a fábrica, o sindicato, o populismo, o trabalhismo, cultura política, sindicalismo, greve, cidadania, etc.
Novas abordagens, portanto, têm suscitado questionamentos que vão além de preocupações com rupturas nitidamente demarcadas ou determinações que subordinam as ações individuais e coletivas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Crônica




Festa Brasileira com certeza!

No penúltimo fim de semana, convidado por amigos, subi até Petrópolis. Tínhamos combinado a um bom tempo em participar da baunerfest (ou algo falável assim, rs) - festa da cidade em honra aos descendentes dos imigrantes alemãs que ajudaram na colonização da região. Era essencialmente uma festa folclórica na qual desfiam grupos de rapazes e moças apresentando números de música e dança recheado de canções tradicionais da velha Alemanha.
Até aí morreu Neves, vocês diriam. Eram dois os amigos que eu acompanhava, Hermes e Dionísios. Ambos tinham peculiaridades interessantes. Aquele, careca, sempre de gorrinho, elegante, muito conhecedor da história da cidade e seu monumentos, tecendo comentários sobre a região, seus palacetes e a história dos poderosos que passaram pro eles relacionando-os à história do Brasil, obviamente. Este, professor de história, negro, dono de uma linda cabeleira rasta, irônico e observador.
A primeira decepção de Dionísios foi saber que a festa alemã não teria variedades múltiplas de cervejas. Ele pensou, como eu também pensei, que a festa, sendo típica da cultura alemã, apresentasse um festival de cerveja de todas as marcas e procedências. No entanto, só tinha chopp da Brahma... (No final da festa, nós descobrimos uma barraca escondida dentro da antiga fábrica da Bavária na qual vendiam-se vários tipos de Bohemias - preta, pilsen e a top de linha Bohemia Confraria, ótima!).
Quando chegou na cidade, sua cabeleira rasta chamou várias vezes a atenção, coisa comum em uma cidade com uma população negra relativamente menor que a média nacional. A gente já estava brincando sobre o carater germânico da festa, mas estávamos admirando também a composição meio mestiça de certos componentes dos grupos folclóricos, tinha até negros! Nesse momento, as pessoas que iam desfilar estavam misturadas, ainda formavam grupinhos de fofocas e não estavam formados ainda. Não sabíamos como se daria o desfile.
Tomamos uma latinha de Itaipava, comemos um salgadinho... bela manhã.
Ao começar o desfile, os grupos iam se apresentando da seguinte maneira: jovens formandos quadrilha de casais executando danças e piruetas, seguidos por uma banda de desfile e fanfarra.
Como professores de história não poderíamos deixar de reparar na composição étnica de todos os participantes do desfile. Notamos que havia uma certa "democracia racial" na distribuição dos componentes. Mas aprofundando o olhar, descobrimos que a suposta democracia tinha alguns senões...
A grande proporção de negros nas bandas (que pareciam orquestras!) era muito interessante, pois atendia a dois princípios implícito no fato. O primeiro de atender a demanda de uma parte da população miscigenada e típica de muitas partes do território brasileiro, com um grande proporção de negros e mulatos. Sendo uma festa patrocinada pela prefeitura não faria sentido segregar nenhum segmento da população. A primeira solução, então, é pô-los na banda e deixar os casais de dançarinos e malabaristas compostos só por brancos.
Até aí tudo bem. Não fazia muito sentido ver negros executando danças alemãs do século XVIII ao som de canções folclóricas! Ainda comentei que os brancos precisavam dos negros para executar (e muito bem!) suas músicas tradicionais. Tinha ainda umas meninas negras mais clarinhas (rs,rs) em alguns quartetos só de meninas.
Estávamos, é claro, envolvidos em história naquela cidade. Tudo nos remetiam ao século XIX, à família imperial e à escravidão. Hermes nos contava histórias sobre os diversos palácios e monumentos e seus respectivos moradores e homenageados.
A composição do desfile ia nos mostrando a diversas nuances da composição etnica engendrada na história da cidade (a colonização alemã) e na história do Brasil (a presença do negro pela escravidão e todos os seus desdobramentos referentes a alforrias e abolição).
O desfile esta muito democrático, pensávamos (apesar da segregação dos negros à parte musical), correspondia a uma demanda de parte da população da cidade e uma forma de inclusão da mesma numa festa que tem pretensão de tornar-se identidade municipal, devido ao caráter recente de sua realização (desde 1992, eu acho...).
Até que veio a última parte do desfile, um perfilar de pequenas charretes cobertas de flores, com lindas crianças louras sentadas em bancos de veludo. Os condutores e outros adultos que participavam do desfile em cima das charretes eram todos brancos, louros e ruivos. Excelente, divino, maravilhoso! Parecia a Áustria - que lindo!
Mas um pequeno detalhe punha de novo por terra 121 anos de abolição da escravidão - coisa contumaz!
As charretes eram puxadas por burricos e poneis muito bem tradadinhos. No entanto, estes doces animais eram puxados por meninos e rapazolas. Louríssimos? Não! Pretinhos e mulatos (tinha um até meio indígena com negro)! Com roupinha de servo e tudo!
Estava alí um retrato autêntico de uma tradição histórica. Ficamos indgnados na hora. Como pode uma prática de sujeição se perpetuar de tal maneira que fica ainda resquícios até hoje? Os organizadores não perceberam essa gafe? No entanto, agora, na calmaria das emoções, posso talvez entender a lógica da história: assim se deu a história da colonização na cidade.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

"Nós tudo hoje é cidadão". Será?



13 de maio de 2009 - 121 anos de liberdade (?)

Mais de um século se passou após a promulgação da "Lei da Princesa", aquela que separou o "tempo do cativeiro" do "tempo da liberdade".
Mas será que muita coisa mudou daqueles tempos pra cá? Talvez sim, talvez não...
Vejamos: naquele tempo, quando o escravo resistia, seja em forma de fuga ou em forma de rebeldia, ele era capturado e, geralmente, punido com açoite. Hoje, quando o trabalhador (vamos chamar de trabalhador todo o conjunto de pobres esteja ele efetivamente empregado, subempregado, desempregado ou marginalizado) "resiste" ao sistema, ele é perseguido, discriminado, punido, preso ou simplesmente assassinado.
Espera-se dele gratidão, subserviência e humildade perante aos "bondosos" patrões, assim como se esperava submissão e obediência e gratidão do escravo pela "generosidade" dos senhores.

"Fui ver pretos na cidade
Que quisessem se alugar
Falei com essa humildade,
Negros, querem trabalhar?
Olharam-me de soslaio
e um deles, feio, cambaio
Respondeu-me arfando o peito:
- Negro não há mais não
Nós tudo é cidadão
o branco que vá pro eito".

Estes versos refletem as expectativas da sociedade quanto ao comportamento dos libertos após o 13 de maio. Esperava-se deles (feios e cambaios) a continuidade de seu estatudo anterior, ou seja, que mermanecessem escravos, submissos e obedientes.
Também traduz o mito criado a respeito dos ex-cativos e do negro em geral: insolentes e preguiçosos.
Trata-se, evidentemente, de um mito racista e preconceituoso para o qual as novas pesquisas historiográficas apontam outros caminhos e respostas, demonstrando a luta dos ex-escravos e seus descendentes para se afirmarem no mercado de trabalho e na sociedade.
No entanto, os versos também apontam para uma tomada de consciência: "Nós tudo é cidadão". Será?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Feitores do Século XXI


A escravidão no Brasil parece que não terminou no final do século retrasado...
Práticas comuns do século XIX ainda são vistas direcionadas contra as pessoas humildes, o povo em geral.
A polícia e congêneres que a princípio deveriam cuidar da segurança e bem-estar da população, não perdem tempo e oportunidade de açoitar os desavisados.
Como nos tempos da escravidão, o castigo era praticado por escravos e libertos contra pessoas de sua própria cor e condição social.
Agentes ferroviários dando chicotada nos usuários (clientes que pagam pelo serviço e deveriam ser tratados com dignidade)!
Isto demonstra o descaso que as empresas privadas, concessionárias de serviço de utilidade pública, tratam seus usuários, justamente as pessoas que dão lucro à empresa. Na semana passada tivemos provas do descaso destas empresas com a diminuição do número de barcas circulando justamente no horário de pico. Passageiro indignados desejosos de voltar para casa após um dia estafante de trabalho simplesmente não encontraram embarcações suficientes para todos.
Está na hora das autoridades públicas reverem a concessão e o monopólio dessas empresas. Transporte deveria ser um serviço totalmente público!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

APOCALYPTO

(APOCALYPTO) EUA, 2007 – Direção: Mel Gibson

A história da escravidão foi marcada por assassinatos e violência extremados. Diversos documentos, textuais ou não, contemporâneos à escravidão ou posteriores, explicitam o grau de violência desta funesta instituição. Como quaisquer textos, os relatos são carregados de subjetividades e intenções e, portanto, suscetíveis a julgamentos de valores, pressupostos ideológicos etc. Verificamos em textos, como, por exemplo, o filme de Mel Gibson Apocalíptico aspectos interessantes no que diz respeitos às intenções do autor ao produzir tais relatos. No filme observamos a predominância de uma visão protestante (apesar do diretor ser católico, porém produzindo numa sociedade predominantemente protestante) acerca do processo de captura e escravização do homem. Em Apocalypto, o processo de escravização é de tal barbarismo que já denotaria uma “sociedade podre por dentro”, ou seja, uma sociedade cujos deuses e costumes não estariam de acordo com os preceitos cristãos.
No processo de produção imediata do escravo, o processo de aprisionamento e captura é de uma violência chocante, os cativos são acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e arrastados pelo caminho. O aprisionamento, desse modo, é produto da guerra, forma legitimada de trocas não-equivalentes, e, portanto, direcionada contra o elemento estrangeiro. O filme recebeu crítica negativa por este aspecto violento de retratar indígenas aprisionando indígenas, mas, convenhamos, quando e em qual lugar a escravização do homem pelo homem foi um processo brando? È interessante notar a violência explicitada nos documentos, principalmente os textos abolicionistas, ao relatar a trajetória dos africanos nos negreiros. Durante o percurso nos tumbeiros, os textos nos contam sobre os percalços da viagem, o sofrimento e as mortes. A trajetória dos indígenas no filme também é marcada por angústia e aflição. No entanto, as perdas de vidas devem ser ponderadas na medida em que os escravos eram mercadorias valiosas e, portanto, os mercadores deviam ter alguma preocupação com a preservação de vidas. No filme, por exemplo, a morte de um prisioneiro (homem) causou constrangimento entre os captores.
O tráfico negreiro trouxe às Américas uma proporção maior de homens do que de mulheres. Este fato se deve ao objetivo principal do tráfico, o qual seria o emprego de elementos masculinos principalmente na lavoura exportadora. As mulheres e crianças, mesmo empregadas em menor proporção, eram bastante aproveitadas. Neste aspecto, o filme nos mostra que, na escravização entre os indígenas (pelo menos naquele contexto), o objetivo principal era o aprisionamento de homens para sacrificar aos deuses (motivações político-religiosas) ou empregá-los nas minas (motivações econômicas). As mulheres eram capturadas para o uso econômico e para o casamento, enquanto as crianças eram descartadas.
Apocalypto têm aspectos bastante interessantes como a preocupação com a linguagem, os personagens falam os dialetos locais (para isso houve uma preocupação na produção em pesquisar tais dialetos) e a concepção do tempo circular (o mundo para nossos antepassados ameríndios era concebido como uma seqüencia infinita de ciclos contínuos – o que acontecia era uma repetição do que já havia acontecido antes, já estava previsto pelos deuses e não havia como escapar ao destino traçado por eles, ao contrário de nossa concepção de tempo, linear e descontínuo). A presença do oráculo, a menina encontrada no caminho, é o primeiro indício de uma mudança brusca. No final, insinua-se que o pior estava por vir.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Minha vida de cachoro

Os leitores devem estar curiosos a respeito do suposto “trabalho escravo” ao qual fui submetido a pouco tempo atrás. Antes de mais nada, devo esclarecer que o termo “trabalho escravo” foi um tanto exagerado de minha parte. Trabalho escravo hoje em dia é sinônimo de trabalho forçado não renumerado, mas, historicamente, uma coisa não é necessariamente sinônima da outra. Vejamos: o trabalho compulsório instituído no Brasil por mais de trezentos anos era forçado, sem dúvida, mas nem sempre não renumerado. Havia uma categoria de escravos que ganhavam pelos seus serviços. É claro que nem sempre, aliás, raramente, eles desfrutavam plenamente da remuneração pelo seu trabalho; uma boa parte, ou tudo, ia para o bolso de seus senhores, porém havia possibilidade dos escravos juntarem pecúlio, o qual era empregado para a compra de sua alforria.
Estes tipos de escravos eram conhecidos como “escravos de ganho”. Tratava-se de uma prestação de serviço por parte do cativo no qual ele tinha licença de seu senhor para prestar serviço para outrem em troca de pagamento pelo mesmo. Muitas vezes o dono do escravo alugava seus serviços para um concessionário por um tempo determinado ou permanente. Havia ainda os escravos de “ganho” que vendiam mercadorias diversas (frutas, legumes, quitutes, bugigangas) em bancas estáticas ou de porta em porta, ou saíam oferecendo seus serviços para quem quisesse ou precisasse (pedreiros, carpinteiros, ourives, funileiros). É importante esclarecer que muitas vezes o senhor ou senhora dona do escravo dependia totalmente do “ganho” do seu escravo para sua subsistência (ao contrário da imagem que muitos têm a respeito da escravidão no Brasil, a maioria dos senhores de escravos não eram milionários detentores de centenas de cativos, mas pessoas pobres donos de um ou dois escravos).
Dito isto, vou contar a história de minha experiência como “escravo de ganho” na semana passada. Precisando descolar um “qualquer” para passar o Carnaval, aceitei um serviço num pequeno restaurante. A princípio achei que ia servir as mesas e atender os fregueses no balcão, moleza, pensei. Já na entrevista o senhor, digo, dono me avisou que o serviço era pesado: ao chegar, às 10 horas da manhã, tinha que “soltar” o arroz das panelas; imediatamente após fazer isto, passava para a pia do balcão para começar a lavar a louça durante o almoço (os pratos, talheres e copos tinham que ser repostos enquanto o almoço era servido). Após a correria do almoço, o qual durava de 11 horas da manhã a 14 horas da tarde, deveria deixar o balcão impecavelmente limpo e passar para a cozinha para lavar o que restava da louça e as panelas. Ele me levou até a cozinha e constatei que a mesma era incrivelmente limpa (coisa incomum para um restaurante cujo menu invariavelmente era composto por frituras). Bem, continuou o dono, após lavar as louças e panelas, tinha que limpar o fogão, as paredes, as prateleiras, a dispensa, o chão. Depois, limpar o banheiro e o resto do restaurante.
Bem, até aí morreu Neves. Não há nada demais nesse tipo de serviço. Os trabalhadores das minas, dos garimpos, os cortadores de cana-de-açúcar, os trabalhadores da construção civil e outros tantos sofrem muito mais em suas labutas. O que eu não contava era com o tipo de patrões que ia lidar. Era um casal. Ele ficava na frente do restaurante servindo as mesas e recebendo as contas. Ela, na cozinha atendendo aos pedidos. Eu ficaria na louça na hora do almoço. Só que o movimento era intenso nesta hora e ele não dava conta de atender aos clientes. Assim, ao mesmo tempo em que eu tinha que dar conta da louça, tinha que auxiliá-lo no atendimento. Então, era um tal de parar para servir um refrigerante aqui, fazer um suco ali, pegar um gelo acolá... E tudo isso levando bronca de que eu era muito lerdo!
Um detalhe importante: ela, a senhora, digo, a patroa, sofria de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) em alto grau! Ele a acompanhava (talvez por medo da mulher). Tudo para eles tinha que ser impecável em matéria de ordem e limpeza. O arroz que eu soltava pela manha (ô arroz papa!) não podia ficar um bolinho sequer. Tinha que ir até o fundo da panela e soltar tudo que tivesse agarrado. E tudo a toque de caixa! “Rápido, rápido, ta demorando muito!”, vociferava a bruaca. Na hora do almoço meu sufoco aumentava. Havia três panos (todos impecavelmente limpos): um para a pia, que devia ficar impreterivelmente seca mesmo durante a lavagem, um para eu enxugar as mãos e um terceiro para eu secar os pratos e talheres. Tinha que recolher os pratos que o patrão trazia das mesas e punha em cima do balcão (no segundo dia já tinha que eu mesmo ir recolher os pratos das mesas), retirar o resto da comida raspando o prato na lata de lixo, lavar os pratos, copos e talheres, por para escorrer, secar e entregar de volta para a bruxa que ficava o tempo todo cobrando: “me dê mais pratos, mais pratos!” (ah, tinha pratos grandes e pequenos). Bem, a todo tempo tinha que interromper este ciclo para servir uma ou outra solicitação de suco, refresco, refrigerante ou algo para a cozinha. A cada interrupção tinha que secar as mãos. A esponja que eu lavava os pratos tinha que ser lavada para retirar a gordura e lavar os copos. Não preciso dizer que eu me atrapalhava todo e tudo se acumulava. Os patrões não poupavam reprimendas na frente de todos.
Quando a hora do almoço estava para terminar, os pratos e talheres que sobravam não podiam mais ser lavados na pia da frente. Tinha que ser recolhidos para a cozinha. A pia da frente tinha que ser muito bem limpa para lavar os copos que sobravam (bobagem, pois, na hora do sufoco do almoço os copos eram lavados juntos com os pratos e talheres). Após lavar os copos, passava-se para o balcão (o pano da pia tinha que ser constantemente lavado e torcido). Havia um ritual que tinha que ser seguido à risca. O pano tinha que ser ESFREGADO no balcão, nas laterais, nas paredes, por todos os lugares onde tivesse passado algum resquício de comida. Tudo isso muito rápido e muito bem feito (como nada ficava “bem feito” eu tinha que repetir as tarefas sempre, e, como tinha que repetir, nunca fazia com a rapidez apropriada).
Após esse martírio, começava meu verdadeiro suplício: iniciava a limpeza na cozinha. Primeiramente a louça que sobrava do almoço. Depois os vasilhames de plásticos onde ficavam as carnes guardadas (as que comportavam frango e empanados tinham que ter atenção especial, além de lavados com detergente tinha que ser usado um produto para tirar o cheiro de ovo e de frango) e as panelas. Estas tinham que ser ARIADAS com palha de aço (e tinham que brilhar como novas!). O fogão, as paredes, a fritadeira, as prateleiras tudo muito bem limpo, ora com esponja e detergente, ora com pano e detergente ou pano com outro produto mais forte. Não preciso dizer que o tempo todo ela dizia que eu estava muito lento e que não ia dar tempo de dar conta de tudo! A cada término de tarefa a patroa me lembrava de como deveria guardar e tudo tinha uma ordem e um lugar certo para cada coisa. Ai de mim se eu esquecia uma seqüência ou pusesse alguma coisa fora do lugar. Bem, resumindo, a cozinha era estreitíssima, quente e ela ainda fumava o tempo todo! Tudo que eu fazia tinha que ser perfeitamente executado. Os panos de chão, de prato e toalhas tinham que ficar alvíssimos para o outro dia. Quando eu conseguia terminar tudo do jeito que eles queriam, já era noite.
Ora, eu fui (muito mal) pago por essas tarefas e você pode perguntar: quando essa situação pode ser comparada à escravidão? Na humilhação, na pressão psicológica, na opressão do trabalho. Muitos escravos (acredito que a maioria) deviam ouvir o tempo todo que não passavam de trastes imprestáveis, preguiçosos, incompetentes (eles não me diziam isso explicitamente, mas era como se exprimissem tais adjetivos). Meu vexame era para mim insuportável. Minhas mãos doíam, meus dedos ficaram todos esfolados Pensava como os pobres cativos suportavam uma vida inteira de humilhação e sofrimento e compreendia, mais do que nunca, a reação de alguns ao resistirem a esta existência madrasta simplesmente se vingando de seus algozes. No terceiro dia não suportei e dei um chute nos patrões. Joguei a toalha.