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domingo, 17 de junho de 2012

A verdade sobre a ocupação na Líbia

Na segunda-feira (04.06) um fato chocou a Líbia, mas não foi noticiado pela imprensa ocidental porque não foi uma notícia aprovada pelo imperialismo: a tomada do Aeroporto Internacional de Trípoli pela Brigada Al-Awfea [“Legalista”], leal a Kadafi, que se supõe que tenha vindo da cidade de Tarhouna, uma das últimas fortalezas kadafistas a cair quando o país foi atacado pela artilharia aérea de EUA-OTAN. Os habitantes de Tarhouna são líbios negros que foram discriminados na Líbia na época do Rei Ídris, mas foram resgatados no governo da Jamahiriya. O novo aeroporto de Trípoli estava sendo construído antes da guerra de ocupação da Líbia por uma empresa brasileira. Seria o maior e mais moderno aeroporto do mundo, não fossem as bombas terroristas despejadas no país – e no aeroporto - pela OTAN-USA e seus aliados colonialistas. Segundo relatos de moradores, a Líbia hoje é um país mergulhado no caos: falta água, luz, medicamentos e alimentos. Algo impensável na época de Kadafi. Quando a OTAN e seus cúmplices (governos dos EUA, França, Inglaterra, Canadá, Arábia Saudita, Catar e outros asseclas) despejaram toneladas de armamentos de paraquedas, em todas as regiões da Líbia, estavam criando as condições necessárias para o caos agora instalado no país. Mas era este o objetivo, além de assassinar covardemente o líder Muamar Kadafi. O martirizado líder líbio construiu o maior rio artificial do mundo, estava construindo o melhor aeroporto do mundo, enquanto Obama mandou bombardear as estações adutoras de água do rio artificial e a construção do aeroporto. Bombardeou toda a infraestrutura do país para que hoje 8.000 soldados norte-americanos estejam ocupando todos os poços de petróleo da Líbia. Estão roubando petróleo da Líbia. EUA, França e Inglaterra, roubam o petróleo líbio e contabilizam como “despesas de guerra”. Afirmam que o povo líbio pediu para ser bombardeado e que agora precisa pagar os custos e despesas com a guerra de ocupação. A Brigada Al-Awfea declarou que a principal razão para a ação de invadir e tomar o Aeroporto Internacional de Trípoli foi protestar contra o misterioso desaparecimento de seu líder, coronel Abu Ajela Al-Habashi e chamar a atenção do mundo para o sofrimento do povo de Tarhouna e outros líbios negros, no período pós-Kadafi. Foguetes lança-granadas, alguns tanques e fogo de artilharia pesada foram usados para ocupar a entrada e as cercanias do aeroporto. Aviões internacionais foram impedidos de decolar. Os passageiros, inclusive os que já estavam embarcados prontos para decolar, receberam ordens, de homens armados, para desembarcar e retornar aos hotéis. Aos olhos da Brigada Al-Awfea, a tomada do aeroporto foi uma espécie de sátira política, carregada de simbolismo e, sobretudo, de legitimidade. A acusação que mais se faz contra a Brigada Al-Awfea é que prega e difunde estereótipos racistas que, cada dia mais, circulam na Líbia pós-Kadafi. Mesmo assim, a ação no aeroporto gerou pânico entre as autoridades líbias, que bracejam num oceano de confusões. Todas as chegadas internacionais foram desviadas para Mitiga, o aeroporto militar de Trípoli. Não é a primeira vez que elementos descontentes da classe mais baixa da população de Trípoli empreendem ações contra os símbolos usados para propaganda da infraestrutura líbia. Mas a ação da Brigada Al-Awfea contra o Aeroporto Internacional de Trípoli é, até agora, de longe, a mais ousada e temerária. A Líbia atual prepara-se para as eleições nacionais de uma assembleia constituinte, em julho de 2012. As eleições foram adiadas, previstas como estavam para 19 de junho. O atraso indica o estado de confusão e desorganização do Conselho Nacional de Transição. Depois das eleições, a assembleia terá de indicar um primeiro-ministro, um gabinete e uma autoridade constituinte, que redigirá uma nova Constituição para a Líbia. Depois, a Constituição – que se teme que venha a ser fortemente influenciada por grupos ligados à Al Qaeda – será submetida a referendo popular e, se aprovada, haverá eleições gerais num prazo de seis meses, contados a partir do referendo. As próximas eleições gerais estão sendo saudadas como as primeiras eleições livres e justas na história da Líbia. Mas a junta governista - que não governa - não sabe como controlar um país onde a maioria da população está armada e só teme os bombardeios da OTAN. O Partido Justiça e Desenvolvimento, braço político da Fraternidade Muçulmana é o partido maior e mais bem organizado. Outros partidos parecem ter expressão apenas regional, como o Partido Verdade e Democracia de Benghazi ou o Congresso Líbio Amazigh, que tem formação de base étnica. A democracia ocidental é um presente de grego de Obama para o povo líbio. Na época de Kadafi o governo era uma Jamahiriya (Poder Popular). Os habitantes se reuniam em Congressos e Comitês Populares, e decidiam os destinos do país. O Livro Verde ensina que dar uma carta em branco para um político é algo temerário e absurdo porque “a representação é uma impostura”. O poder popular deve ser exercido e não transferido a um representante. Na Jamahirya não havia políticos, mas os Congressos e Comitês Populares podiam destituir e eleger ministros e administradores públicos a qualquer momento. Kadafi dedicou sua vida à construção de um país que não se dobrava às potências ocidentais. Obama dedica sua vida a fortalecer o complexo militar, petrolífero e bancário norte-americano, que estão destruindo o mundo com consumismo exagerado e extinção dos recursos naturais. Durante a guerra de ocupação da Líbia por potências ocidentais criminosas, que assassinaram mais de 200.000 líbios, Kadafi recebeu convites de diversos países para se exilar, e jamais aceitou nem considerou essa possibilidade. Lutou até o final, como um verdadeiro guerreiro, seguindo o exemplo de Omar Moukhtar, e como ele foi martirizado. O advogado das causas populares, Barak Hussein Obama, foi eleito presidente e traiu seus eleitores ao cumprir fielmente a agenda dos banqueiros, indústrias bélica e petroleira, para se manter no poder e usufruir dos privilégios inerentes ao cargo. Kadafi preferia as tendas árabes aos hotéis luxuosos do ocidente. Por todos esses motivos, um Kadafi vale por 100 Obamas. Kadafi é a resistência dos pequenos povos e países submetidos ao terrorismo estatal do imperialismo e das potências colonialistas. Obama é o retrato de um político profissional de um país que sobrevive explorando, roubando e saqueando os pequenos povos e países do mundo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Internet tem janela para controle cultural e político




A entrevista com o sociólogo Sergio Amadeu [foto] foi feita pelo Rodrigo Vianna, do Escrevinhador – e disseminada em lista pelo Castor Filho:


Você poderia explicar o que é o Plano Nacional de Banda Larga e qual a sua importância?

O Plano Nacional de Banda Larga é um conjunto de ações do governo para levar a internet com velocidade razoável para todo território nacional. Hoje grande parte do nosso território tem acesso apenas à conexão discada. Isto impede que se faça uma série de coisas: acesso à prestação de serviços online, acesso à multimídia…

Portanto o Plano Nacional tenta levar as redes de alta velocidade a todos municípios, a todas periferias das grandes cidades porque as empresas operadoras de telefonia, responsáveis pela banda larga, não fizeram isso até hoje. Nada impedia que essas operadoras levassem banda larga para o nordeste ou mesmo para a Cidade Tiradentes. Há mil restrições em locais onde não é rentável ter banda larga. Aí vem a questão: a banda larga que foi implementada no Brasil é cara e de baixa qualidade, muito instável.

O Plano Nacional de Banda Larga amplia a rede de banda larga fazendo parcerias também com pequenos empreendedores, com empresas estatais e retomando a Telebrás – não como a empresa estatal que era mas como um gestor do sistema. Este será mais amplo em relação ao gerado pelas privatizações, que é um sistema de grande operadoras que querem uma alta taxa de remuneração e por isso deixam abandonadas as regiões carentes.

O Plano Nacional de Banda Larga no fundo é o reconhecimento de que a Anatel não conseguiu que a empresas operadoras, simplesmente por medidas regulatórias, expandissem a banda larga. Até porque a banda larga, ao contrário da telefonia fixa, não tem metas de universalização. Então as operadoras cobram o que querem e não são obrigadas a cobrir todo o território. Já o reconhecimento de que elas não estão dando conta dessa necessidade urgente do nosso país, fez com que o governo retomasse a Telebrás pra criar uma competição justa e importante com essas operadoras. E elas vão ter baixar preço, vão ter que ampliar sua malha.

E que deficiências você vê no projeto do governo?

O que o governo está propondo ainda não é o ideal porque ele está trabalhando com 512k de velocidade, isso é completamente insuficiente. Em relação ao custo, não sabemos ao certo mas deve ser em torno de 15 ou 25 reais, que não é o ideal para a realidade socioeconômica brasileira.

Acho que a gente tem que observar que as operadoras fracassaram nesse modelo só do mercado, nada impede ou impedia que colocassem banda larga em todo o lugar então o que o governo está fazendo é uma ação competitiva também que é necessária ao modelo de privatização que houve.

Se você tirar todos os impostos do custo de banda larga hoje, você ainda tem um dos serviços mais caros do mundo. O argumento das operadoras é que são muito tributadas, podem até ser mas não é esse o problema. O problema é que eles tem um modelo de remuneração absurdo, eles querem controlar o tráfego da rede. É uma coisa muito absurda, um dos dirigentes dessas operadoras dizia “olha vocês não podem navegar no horário que vocês querem, vocês tem que navegar no horário que tem menos tráfego”. Ora, eu pago caro e ele ainda quer dizer que horário eu devo usar.

Se deixarem que as forças de mercado atuem livremente nós estamos perdidos, nós não vamos conseguir ter atendidas as necessidades informacionais da sociedade. É básico isso. E por isso que o plano é bem interessante apesar de que espero que ele melhore, que o governo reconheça a necessidade de preços mais baixos e banda mais alta.

A retomada da Telebrás é o ponto do plano que está sendo mais atacado.

Claro, porque as operadoras queriam receber o dinheiro, queriam tirar o imposto e manter praticamente os preços que elas praticam. Ou seja, o governo daria bilhões para elas fazerem no modelo absurdo, de desrespeito ao consumidor que elas vêm praticando.

Então seguindo a lógica de vários outros países extremamente modernos, como a Holanda, o governo montou uma empresa que vai articular a competição. Daí é obvio que as operadoras disseram “não, isso é incorreto”. Incorreto para o modelo de privatização que houve no Brasil que premiou essas empresas sem exigir padrão de qualidade e baixo preço.

A Telebrás será uma empresa de gerenciamento e de articulação. Tem vários pequenos provedores de conexão que ficam sufocados por essas grandes empresas. Com a Telebrás , eles poderão competir com as grandes. Isso é bom. A Telebrás poderá ajudar também as prefeituras que desejarem abrir o sinal, já que hoje as que fazem isso são altamente taxadas pelas operadoras. Então elas sufocam as possibilidades de uso coletivo, de um programa social e de direito humano à comunicação que é dar o sinal de rede gratuitamente.

Das grandes operadoras, quantas são que dominam o mercado nacionalmente?

Elas estão se fundindo, hoje talvez sejam quatro no máximo. É um mercado oligopolizado, ou seja, poucos ofertantes de serviço. Isso é um problema. E eles tem muito dinheiro.

O processo de convergência de digital, ou seja de tudo ir pras redes digitais, gera uma economia de rede mais forte. Ou seja as empresas vão se coligar, é uma tendência mundial. E o capital é concentrador, enquanto houver capitalismo vai ser concentrador. Só uma operadora em São Paulo fatura mais que todo setor de radiodifusão no Brasil, que deve ter faturado 18 bilhões. Só uma operadora fatura mais, ou seja, tem muito mais poder econômico.

Quais obstáculos estão postos para a implementação do Plano Nacional de Banda Larga?

A Dilma ganhando, eu acho que fica tudo bem mas se ela perder, o plano vai ser feito do jeito que as operadoras querem. E para eles é uma briga econômica. Tomara que dê certo mas vai ter que dar porque isso é estratégico. As empresas já estão percebendo isso. Vai ter que ter, não tem jeito.

O que significa a democratização do acesso à internet? Como as pessoas se beneficiam disto?

Eu acho, apesar de ser bastante controverso, que as pessoas ganharam mais poder comunicativo. A internet, por ser uma rede distribuída, dá mais condições das pessoas se comunicarem, muito mais que no período antes da internet. O telefone não permitia que eu mandasse uma informação que pudesse ser vista por milhares de pessoas, hoje você tem pontos na rede que tem capacidade de dialogar com muitas pessoas. Então ela aumentou o poder comunicativo, sem dúvida nenhuma.

Por outro lado, ela reduziu este mesmo poder de grandes grupos. A Globo é muito mais poderosa que um blogueiro, não tem cabimento achar que não. Mas ela começa a enfrentar movimentos e críticas, ela começa a enfrentar ondas na rede. Como foi o #dilmafactsbyfolha . A Folha atua como um partido politico, não só ela mas principalmente. Então ela faz combinações com as campanhas de José Serra e Geraldo Alckmin, ela coloca as manchetes de acordo com a campanha…E ela fez uma manchete completamente descabida e aí gerou um reação. Ninguém sabe exatamente com quem começou mas se você for ver foi de uma pessoa comum indignada e as pessoas acharam legal e começaram a falar, a tirar sarro da Folha. A manchete era “Dilma erra e dá prejuízo de 1 bilhão para consumidor” e o pessoal começou a colocar toda a culpa do que acontecia na Dilma. Isso gerou uma desmoralização da Folha de S.Paulo e isso não tende a diminuir. Esta retirada de poder dos grupos é importante. Agora isso quer dizer que vai acabar a empresa jornalistica? Claro que não. Só que essas empresas, se elas forem querer atuar achando que tem o poder que tinha antes, elas vão de dar mal. Elas terão que conviver com a rede. Então acho que isso beneficia muito a nossa sociedade.

A mídia de massas era importante por um lado porque fiscalizava os governos mas quando ela queria atuar de modo classista contra interesses populares e democráticos, ela atua com a maior tranquilidade. Então hoje você tem um jogo mais complexo. E eu acho isso extremamente positivo, teremos uma diversidade maior de atores. Isso é o que está acontecendo hoje.

Quais são os obstáculos que estão postos e quais iniciativas de cerceamento da liberdade na internet?

Existem governos, como o da China, e grupos de pessoas ou políticos conservadores que querem transformar os protocolos, o controle que é dado tecnicamente na internet em controle político e cultural.

É difícil a gente falar isso: a rede amplia a liberdade de expressão, amplia a capacidade de interação entre as pessoas, ela é uma rede que permite a liberdade nesse sentido. Mas ela é uma rede também de controle. Ela é uma rede cibernética: de comunicação e controle.

Atualmente você pega um grupo como o Google que conseguiu atrair a atenção e interesse das pessoas, que passaram a entregar as suas informações voluntariamente, porque era legal usar o Gmail,o Youtube, o Orkut, as aplicações, o mecanismo de busca…É uma empresa que não obrigou ninguém a passar tanta informação para eles mas eles são um repositório de informações jamais alcançado por alguém história da humanidade.

Nunca tivemos uma situação onde pudessemos falar tanto e nunca fomos tão controlados. É uma aparente contradição mas não é. A própria rede para ser dispersa, tem que ser extremamente controlada. Mas na hora que eu transformo esse controle tecnológico, que é tipico da cibernética, em controle cultural e começo a dizer que deve passar por determinados lugares, que tem que definir o comportamento político cultural das pessoas. Daí eu tenho algo extremamente grave. Então nós estamos com um grande problema hoje. E uma das grandes expressões desse problema de transformação do controle tecnológico em controle político se dá em torno da neutralidade da rede.

Você pode explicar o conceito de neutralidade da rede?

A internet ela pode ser entendida como uma rede lógica, uma rede de informações. Para usarmos a internet, utilizamos a infraestrutura de telecomunicações, ou seja, os controles do que a gente chama de camada física da rede. Essas operadoras de telecom querem controlar o fluxo de informações que passa por seus cabos.

A internet até hoje não funcionou assim porque uma camada era neutra em relação às outras. Daí o termo neutralidade da rede. Ou seja, até hoje não era permitida a discriminação dos pacotes [de informação], seja por origem, destino, conteúdo…

Agora essas operadoras dizem “não, nós estamos com um problema: as pessoas tão baixando vídeo e compete com um tráfego importante de dados. Os vídeos tem que pagar para andar na minha rede”. É como se fossem pedágios virtuais nesse sentido. E elas querem assim: se o blog do Sergio Amadeu não tiver acordo com uma operadora americana, não vão abrir o blog com a mesma velocidade do MSN, que tem um acordo.

Então nós vamos implantar estradas pedagiadas, vamos implantar as regras de mercado dentro do ciberespaço. O ciberespaço sempre permitiu ação do mercado mas ele não é o mercado, ele é o espaço comum, onde todos eram tratados de maneira equânime. E as operadoras com essa tentativa de restrição, estão interferindo diretamente no meu interesse, na minha liberdade de me comunicar.

Isso coloca em risco a criatividade da rede. Se eu criar uma nova aplicação, o que vai acontecer? Uma operadora pode dizer “não sei o que é isso, não vou deixar passar”. O Twitter poderia não existir, o Youtube…Pois todo mundo que quiser criar algo vai ter que ser sócio deles, senão não vai poder caminhar nas redes. Isso é uma aberração.

Defender a neutralidade na rede, é defender a liberdade de expressão, de criação, de invenção. E é uma das coisas mais importantes no mundo da internet hoje.

Que iniciativas existem nesse sentido?

Nos EUA, a Justiça deu ganho de causa à empresa Conquest que alegava poder privilegiar determinados pacotes de informação em detrimento a outros em sua rede. E a FCC, a Anatel deles, está contra essa decisão e tem ações legais no parlamento americano para aprovar projetos que garantam a neutralidade na rede, contra a discriminação dos pacotes.

No Brasil colocamos no Marco Civil da Internet que um dos princípios da internet no Brasil é a neutralidade na rede. Isso colocaria, ao menos no nosso território, uma situação difícil para operadoras que começassem a interferir nos pacotes. É um movimento no qual a gente tenta aprovar leis em todos os países importantes do mundo pra garantir a neutralidade da rede.

Porque isso não depende de cada país já que o acesso não tem fronteiras, certo?

Essa questão é bem interessante. O que a gente quer fazer em cada país é garantir que a internet continue livre e não fazer uma lei para dizer “meu país é diferente”. Então é um espírito de uma parte da opinião pública mundial que luta por isso. Olha que interessante: a internet é transnacional mas se os EUA aplicarem o processo de quebrar a neutralidade, eles vão impor essa lógica no mundo inteiro pois é la que estão os maiores provedores de conteúdo e as principais redes sociais.

Então, na verdade, temos que lutar com leis contra o poder de oligopólio desse controladores das redes físicas. A rede física é que controla os cabos, satélites, cabos submarinos…Esses caras são oligopólios no mundo, é mais fácil a gente convencer o governo americano a fazer algo do que a convencermos uma operadora dessa. Porque eu não posso elegê-los, eu não posso controlá-los. Eles não se guiam por preceitos democráticos, é a ditadura do capital. Então é muito grave, daí estranhamente para defender a liberdade transnacional, a gente recorre às leis nacionais. Dizendo “neste pedaço da terra, o fluxo é livre, naquele também, naquele também” e se esses países forem os mais importantes, a gente venceu a batalha.

E qual o interesse das operadoras em fazer isso? Tem a ver com o interesse da indústria fonográfica em barrar o download de músicas, por exemplo?

O interesse maior é eles ganharem mais dinheiro, é cobrar. E aí tem a indústria do copyright, que pensa “bom, se eles puderem controlar a rede, eu faço um acordo com eles pra não passar protocolo bitorrent pela rede deles e aí eu acabo com a pirataria”. É ilusão dos caras isso. Mas o principal interesse das operadores é aumentar seu controle, eles pegam o controle técnico que tem – os computadores sabem que pacotes estão passando – e aí eles ganham mais dinheiro.

E para ganhar mais dinheiro eles destroem a liberdade de expressão, de criação. Eles passam a ter um controle grande porque se eu inventar a Web 3D, vou ter fazer um acordo com ele porque se não eles podem barrar meu conteúdo. Vamos ter cercas digitais e eles só abrem a porteira mediante pagamento ou acordo. Isso é um controle gigantesco sobre a criatividade.

No mundo, as operadoras estão se concentrando – vão ser de 10 a 12 grandes operadoras, que tem mais poder que estados. E é um poder sobre a comunicação e então a gente tem que superar essa nossa dependência desse tipo de companhia – não sei ainda qual seria a solução mas a situação atual é grave. Essas empresas são estratégicas do ponto de vista do direito a comunicação hoje e elas tem que ter o controle social.

Quem são as grandes empresas de telecom? Quem são esses grupos que controlam o mercado?

Tem algumas empresas grandes dos EUA, a AT&T, Conquest, Verizon…Alguns grupos europeus como a Telefônica, a Vodafone e algumas alemãs. Tem duas grande chinesas, muito grandes. Mas o que está acontecendo é que essas empresas estão se coligando, então o grande perigo é essa enorme concentração. É um setor estratégico, eles tem toda a infraestrutura da rede. Por exemplo, como é que a China faz: eles não deixam que alguns IPs sejam lidos, o fluxo de alta velocidade vem e ao entrar na China, tem um computador que filtra. É o chamado grande firewall chinês, a grande barreira.

É possível haver uma regulação a nível mundial? Alguma instância de decisão?

Não, acima dos Estados Nacionais tem acordos. Seria uma boa ideia a gente tentar fazer um acordo em defesa da liberdade na internet mas é muito difícil. No momento nós temos que ganhar a opinião pública em cada país. Porque aí as sociedades em cada local brigam. Na Espanha tem uma briga forte em defesa da neutralidade da rede. Na França infelizmente a gente perdeu para o Sarkozy, que criou lei absurdas. Mas a gente tem um movimento mundial.

Você pode explicar sobre a lei aprovada na França e que foi debatida no parlamento de vários países europeus?

A grande iniciativa hoje é chamada “three strikes”, são as três batidas. Eles identificam que você está baixando, por exemplo, um arquivo de música. Então ele violam a sua privacidade para ver que tipo de arquivo você está baixando. Se for um arquivo protegido pelo copyright, ou melhor dizendo cerceado pelo copyright, eles te mandam um aviso “você está violando a lei” – é a primeira batida. Se você continuar, eles te mandam um segundo aviso e na terceira vez eles cortam a sua conexão, em geral por um ano.

Qual o problema disso? Pense na minha casa que tem três pessoas usando a internet, só eu baixei a música. Na hora que me desconectam, são prejudicadas outras pessoas que não tem nada a ver com isso. Quer dizer, é uma lei inexequível. Tanto é que na França ela foi aprovada há mais de um ano mas não foi aplicada.

A grande questão em relação ao IP [Internet Protocol, número de identificação de um computador na rede] é a seguinte: para você navegar na internet você tem que ter um número de IP, então é muito fácil identificar o IP, a máquina e a região em que está. O grande problema é você individualizar o IP, ou seja, vincular um IP a uma identidade civil. Daí toda aquela navegação, tudo o que aquele IP fez pode ser rastreado por outros e não só autoridades. Basta que eu sabia que o IP xis é do Sergio Amadeu. Eu acabo seguindo o rastro digital. Então é uma coisa bem complicada do ponto de vista da privacidade.

Fonte: Viomundo

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

BYE BYE TUCANOS





Requiescat in Pace [Descanse em paz]

Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz !

por José Luís Fiori*


Foi no dia 5 de fevereiro de 1998 que o ex-primeiro-ministro inglês, Tony Blair, anunciou, em Washington, junto com o presidente Bill Clinton, a decisão de convocar uma reunião internacional para discutir e atualizar a social-democracia, criando um movimento que foi chamado de "terceira via" ou “governança progressiva”. Naquele momento, brilhava a estrela do novo líder inglês, que recém havia sido empossado e conseguiu reunir, sucessivamente, em Florença, Washington e Londres, Bill Clinton, Lionel Jospin, Gerhard Schröder, Massimo D´Alema, Fernando H. Cardoso, Ricardo Lagos, entre outros governantes e intelectuais ligados de uma forma ou outra à social-democracia européia, ou ao partido democrata norte-americano.

O projeto comum era construir um novo programa que adequasse a velha social-democracia às novas idéias e políticas neoliberais, hegemônicas nas últimas décadas do século XX. O resultado foi uma geléia ideológica, com propostas extremamente vagas e imprecisas, que mal encobriam o seu núcleo duro voltado para a abertura, desregulação e desestatização das economias nacionais, e para um "prologement vaguement social de la révolution thatcheriste", como caracterizou na época, a revista francesa, Nouvelle Observateur.

Goste-se ou não, as idéias e os partidos socialistas e social-democratas deram uma contribuição decisiva à história do século XX, em particular à criação do “estado do bem-estar social”, depois da II Guerra Mundial. Mas na década de 80, a social-democracia perdeu fôlego político, e acabou perdendo a sua própria identidade ideológica, asfixiada pela grande “restauração” liberal conservadora, de Margerth Thatcher e Ronald Reagan. Isto aconteceu na Espanha, de Felipe Gonzalez, na França, de François Mitterand, na Itália, de Bettino Craxi, e também na Grécia, de Andreas Papandreu. Nos anos 90, entretanto, este movimento adquiriu outra densidade e importância, com a vitória democrata, de Bill Clinton, nos EUA, e do trabalhismo de Tony Blair, na Inglaterra.

Na América Latina, a história foi um pouco diferente, porque as novas políticas neoliberais apareceram – nos anos 80 - associadas à renegociação da dívida externa do continente, como se fossem apenas um problema de política econômica. E foi só no Chile e no Brasil, que a proposta da “terceira via” teve uma repercussão importante, durante a década de 90. No caso do Chile, com a formação da aliança entre socialistas e democrata-cristãos, e, em particular, durante o governo de Ricardo Lagos (1990-1996), que aderiu pessoalmente ao projeto liderado pelos anglo-saxões. E, no caso do Brasil, com a formação do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), e com a participação ativa do presidente Fernando H. Cardoso (1995-2002), na formulação das idéias e nas reuniões do movimento, ao lado de Tony Blair e Bill Clinton.

A “terceira via” teve uma vida muito curta. Talvez, por causa da superficialidade e artificialidade das suas idéias, talvez, porque seus líderes mais importantes acabaram sendo derrotadas nas urnas, ou passaram para a história como grandes fracassos ou blefes político-ideológicos. Como no caso do iniciador do movimento, o ex-primeiro-ministro Tony Blair, que foi afastado da liderança trabalhista em 2007, e se transformou no inimigo numero um da imprensa e da maioria da opinião publica inglesa, sob acusação de ter mentido para justificar a entrada do seu país na Guerra do Iraque, além de ter acobertado casos de tortura, por parte de suas tropas.

Tony Blair foi substituído por Gordon Brown, outro ideólogo da “terceira via” que acabou sofrendo uma das derrotas eleitorais mais arrasadoras da história do trabalhismo inglês. Bill Clinton também não conseguiu fazer seu sucessor, e passou para a história, como símbolo do expansionismo imperial americano, da década de 1990, a despeito de sua retórica “globalista” e democrática. Os demais participantes europeus do movimento também tiveram finais inglórios, como foi o caso de Lionel Jospin, Massimo D´Alema e Gerhard Schröder, e hoje ninguém mais fala ou lembra, na Europa ou nos Estados Unidos, do projeto da “terceira via”. Mas este factóide anglo-americano teve uma sobrevida, e só será enterrado definitivamente, em 2010, na América Latina. Primeiro, no Chile, depois da derrota eleitoral da “Concertacion” de Ricardo Lagos. E depois, no Brasil, com a provável derrota do partido social-democrata, de Fernando H. Cardoso, nas eleições presidências deste ano. Nos dois casos, o que mais chama a atenção não é a derrota em si mesma, é a anorexia ideológica dos dois últimos herdeiros da “terceira via”. Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz !

*José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fonte: Carta Maior

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Um espectro ronda a Europa (além da crise): a luta de classes

O epicentro da crise internacional do capitalismo se deslocou para o centro, mais especificamente a Europa. O salvamento dos bancos feito pelo Estado está custando caro e ninguém tem saídas plausíveis senão a radical austeridade fiscal que vai contra a luta histórica dos trabalhadores e seus ganhos defensivos. Os déficits fiscais das economias do centro apontam em média para transbordar o 100% do PIB em dívida. Mas então, o que fazer? Vou fazer um breve apontamento sobre a atual crise européia a fim de solucionar alguns mal entendidos não apenas na ala do FMI, mas também de parte da esquerda.





A crise européia que já se escancarou na periferia (Grécia, Espanha, Portugal, Itália) tem como sua salvaguarda a França e, em especial, a Alemanha. O salvamento diante do “estado de emergência fiscal” visa à relação existente entre os déficits fiscais de grande parte dos países da zona do euro e os bancos franceses e alemães. Por mais que seu início se dê na Grécia, como apontamos, sua crise é um sintoma que emerge diante das profundas dificuldades bancárias que sustentam o euro. A questão é: o establishment europeu – Conselho Europeu, Comissão Européia e Banco Central Europeu – estão fazendo uma grande pressão sobre as economias periféricas impondo políticas de austeridade, redução salarial e da dívida pública a fim de ajudar a zona do euro a sair da recessão. Entretanto, essa estratégia é errônea. Tudo se passa como se problema fosse a falta de disciplina fiscal. Não existe uma exagero fiscal destes países tão grande. Todos eles têm os gastos e empregos públicos abaixo do UE-15 além do nível de salários que é bem menor do que em países como a França.





O grande segredo ocultado pelos veículos da mídia é que o problema da eurozona não está na periferia e sim no centro, mais especificamente na Alemanha. A economia alemã está em baixa durante muitos anos. Seus salários não tem aumentado durante os últimos quinze anos, conseqüência da medidas antisindicais de baixos salários tomada pelos governos de Gerhard Schoeder e Angela Merkel. Esse processo foi facilitado pelo ampla disponibilidade de trabalhadores procedentes da antiga Alemanha do Leste e os imigrante provindos do Leste Europeu. Assim, nos últimos quinze anos a inversões alemãs tem sido escassas (menores que nos países periféricos) e seu crescimento econômico foi lento (muito mais lento que os países periféricos). Além disso, a baixa na rendas do trabalho na Alemanha tem criando um grande problema de falta de demanda, conseqüência da falta de crescimento da massa salarial. Dessa forma, o crescimento econômico alemão foi baseado não no aumento da demanda interna e sim com o crescimento das exportações e a conseqüente acumulação de euros nos bancos alemães. E o que os bancos alemães fizeram com tanto euros? Uma delas é emprestá-lo para os países do mediterrâneo. Esse fluxo ajudou, por exemplo, os bancos espanhóis a estabelecer o complexo bancário-industrial-imobiliário que foi o motor da economia espanhola. Não é a toa que grande parte da dívida dos países da periferia é propriedade dos bancos alemães (e franceses).





Mas então, o que fazer? Como disse recentemente Boaventura de Sousa Santos, numa virada que parece deixar a pós-modernidade democrática como seu paradigma último, a luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os atores sociais estão perplexos e paralisados. Concordo plenamente. A esquerda européia ainda tem a dificuldade de não ter outros instrumentos de transformação social que apontem para um horizonte qualitativamente diferente de organização social senão os partidos sectários instalados, por exemplo, na Grécia.





Já apontamos em outros textos que a solução que esta sendo gestada no centro do capitalismo diante da crise é a superexploração do trabalho. Típica dos países dependentes agora a superexploração se torna a resposta do capital para atual crise também nos países de centro. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. Sua crescente organizção de trabalho horizontalizada inviabiliza a atuação de sindicatos verticais. Bem, essa saída da crise tem como dificuldade ainda maior para a esquerda sua impotencia, principalmente diante de sua tragédia reformista pós-11 de setembro. Os antigos instrumentos de luta histórica estão esgotados e agora nao fazem parte da solução, e sim do problema. Além disso, a resistência apenas dentro das economias nacionais é fraca demais diante da profundidade da crise. Assim, ou a resistência é européia ou não perderá na sua força. Diante dessas dificuldades organizacionais e estratégicas para a esquerda, uma virada a direita não pode nos assustar.



Fernando Marcelino

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Europa está implodindo?

por Immanuel Wallerstein, no Esquerda.Net

A Europa teve os seus opositores desde o início da longa senda para a unificação. Houve muitos que a acharam impossível. E houve muitos que a consideraram indesejável. Ainda assim, temos de dizer que, no longo e sinuoso caminho que seguiu desde 1945, o projeto de unificação européia teve um notável sucesso. Afinal, a Europa fora dilacerada por conflitos nacionalistas durante pelo menos 500 anos, conflitos que culminaram na horrenda Segunda Guerra Mundial. E a vingança parecia ser o sentimento dominante. Em 2010, o que hoje se chama União Européia (UE) alberga uma moeda única, o euro, usada em 16 países. Tem também uma zona de 25 membros, chamada Schengen, que permite uma forma de livre circulação, sem vistos. Tem uma burocracia central, um tribunal de direitos humanos, e está a caminho de ter um presidente e um ministro de Relações Exteriores.
Não se deveria exagerar a força destas estruturas, mas não se deveria também subestimar até que ponto tudo isto representou, para o bem ou para o mal, a superação da resistência nacionalista por toda a Europa, especialmente em alguns dos estados mais fortes. Contudo, também acontece que neste momento, em certos aspectos importantes, a Europa parece prestes a implodir. As palavras-chave desta implosão são “Grécia” e “Bélgica”.
A Grécia, como todo o mundo sabe, atravessa uma crise severa da sua dívida soberana. A Moody declarou que os títulos gregos estatais são lixo (junk bonds). O primeiro-ministro George Papandreou disse, muito relutantemente, que teria provavelmente de buscar o Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter um empréstimo, um empréstimo que implica as habituais condições que exigem formas específicas de reestruturação neoliberal. Esta idéia é muito impopular na Grécia – um ataque à soberania grega, ao orgulho grego, e especialmente aos bolsos gregos. Também foi acolhida com desânimo em muitos estados europeus, que consideram que a ajuda à Grécia deveria vir, em primeiro lugar, dos outros membros da UE.
A explicação deste cenário é bastante simples. A Grécia tem um grande déficit orçamentário. Como o país é parte da zona euro, não pode desvalorizar a moeda para aliviar o problema. Por isso, precisa de ajuda financeira. O país maior e mais rico da Europa, a Alemanha, tem sido muito relutante, para não dizer pior, em dar essa ajuda. O povo alemão opõe-se fortemente a ajudar a Grécia, basicamente por um reflexo protecionista num momento de tensão europeia. Teme também que a Grécia seja o primeiro de uma fila de outros (Portugal, Espanha, Irlanda, e Itália) que façam pedidos semelhantes se a Grécia obtiver essa ajuda.
O povo alemão parece desejar que todos os problemas desapareçam, ou pelo menos que a Grécia de alguma forma seja expulsa da zona euro. Para além do fato de isto ser legalmente impossível, o país que mais sofreria as conseqüências disto, depois da Grécia, seria certamente a Alemanha, cuja riqueza econômica é amplamente baseada no forte mercado exportador que possui no interior da zona euro. Assim, de momento, parecemos estar num impasse. E os abutres do mercado pairam sobre os países da zona euro que estão em dificuldades com sua dívida soberana.
No meio disto, a agora perene crise belga voltou a manifestar-se de forma particularmente aguda. A Bélgica, como país, chegou à existência como resultado de políticas pan-europeias. O colapso do império Habsburgo de Carlos V resultou na partição dos chamados Países Baixos da Borgonha nas Províncias Unidas no Norte e nos Países Baixos Austríacos no Sul. As Guerras Napoleonicas levaram a que as duas partes se unissem de novo no restaurado Reino dos Países Baixos. E os conflitos europeus de 1830 levaram mais uma vez à divisão das duas partes, com a criação da Bélgica, mais ou menos no que outrora tinham sido os Países Baixos Austríacos, com um rei importado de fora.
A Bélgica sempre foi um composto de “Flamengos” de fala holandesa e de “Valões” de língua francesa, em grande parte, mas imperfeitamente localizados em dois diferentes setores geográficos (o norte e o sul da Bélgica). Há também uma pequena zona de fala alemã.
Até 1945, os valões eram os mais ricos e educados, e controlavam as principais instituições do país. O nacionalismo flamengo nasceu como a voz dos desfavorecidos lutando pelos seus direitos políticos, econômicos e lingüísticos. Depois de 1945, a economia belga sofreu uma mudança estrutural. As áreas dos valões perderam e as áreas flamengas ganharam força. A política belga, em conseqüência, tornou-se uma luta infindável dos flamengos para obter mais direitos políticos – devolução de poderes, com muitos tendo o objetivo final de dissolver a Bélgica em dois países.
Pouco a pouco, os flamengos foram obtendo mais e mais. Hoje, a Bélgica, como país, tem uma monarquia comum, um ministro das Relações Exteriores comum e muito pouco mais. A questão problemática neste acordo é que a Bélgica é hoje um estado confederado, com três, não duas, regiões – Flandres, Valônia, e Bruxelas (a capital).
Bruxelas não é só a capital da Bélgica. É a capital da Europa, a sede da Comissão Europeia. Bruxelas é também uma cidade bilíngüe. E os flamengos insistem em torná-la menos. O problema é que, mesmo que houvesse um acordo para a dissolução da Bélgica, não haveria uma forma fácil de chegar a acordo sobre o destino de Bruxelas.
A última negociação foi tão intratável que o Le Soir, o principal jornal de língua francesa, proclamou que “a Bélgica morreu em 22 de Abril de 2010″. O principal editorialista perguntou: “Este país ainda faz sentido?” No momento, o rei está tentando, talvez em vão, recriar o governo. Pode ser forçado a convocar novas eleições, sem muitas esperanças de que estas produzam um parlamento realmente diferente. Em 1 de julho, a Bélgica assume a presidência rotativa, de seis meses, da UE, e não é certo que haja um primeiro-ministro belga que a presida.
O problema grego é o problema da propagação. Não haverá uma réplica das dificuldades – se é que isso já não acontece – noutros países da Europa? Será que o euro pode sobreviver? O problema belga apresenta contudo, um ainda maior problema de propagação. Se a Bélgica se divide, e ambas as partes serão então membros da UE, não haverá outros estados pensando em dividir-se? Afinal, existem importantes movimentos secessionistas ou quase secessionistas em muitos países da UE. A crise belga pode facilmente tornar-se a crise da Europa.
Das duas ameaças de implosão, aquela simbolizada pela Grécia é a mais fácil de resolver. Basicamente, é necessário que a Alemanha compreenda que as suas necessidades são melhor preenchidas pelo protecionismo europeu que pelo protecionismo alemão.
A crise belga coloca uma questão muito mais fundamental. Se a Europa estivesse disposta, imediatamente, a avançar para um verdadeiro estado federativo, poderia acomodar a explosão de qualquer dos seus estados existentes. Mas, até agora, não se mostrou disposta a isso. E as dificuldades econômicas mundiais coletivas reforçaram em muito os estreitos elementos nacionalistas em virtualmente todo país europeu, como demonstraram todas as recentes eleições. Sem uma forte federação européia, seria extremamente difícil que a Europa sobrevivesse a uma corrente de divisões. No meio da destruição política, a Europa poderia ir pelo cano abaixo.
Há uma certa Schadenfreude (alegria mordaz) entre os políticos americanos acerca das dificuldades européias. Porém, o que pode salvar a Europa da implosão é precisamente a sempre crescente ameaça de implosão dos Estados Unidos. A Europa e os Estados Unidos estão numa gangorra, na qual enquanto um sobe, o outro desce. Que resultado isto vai ter nos próximos dois a cinco anos é tudo menos claro.

Fonte: Viomundo / Esquerda.net

quinta-feira, 13 de maio de 2010

122 anos de 13 de maio - parte I




Renda de negros cresce 222% em 8 anos


Os consumidores negros e pardos devem fechar 2010 com uma renda de R$ 546 bilhões no bolso, o que equivale a 40% do total previsto para todas as famílias (negras e não negras) do país, de R$ 1,38 trilhão.

Isso significa que, a cada R$ 10 disponíveis para o consumo neste ano no Brasil, R$ 4 estarão em poder de trabalhadores negros e pardos (com ou sem carteira assinada). No total da população, eles representam 51%. Em 1998, eram 45%.

As projeções da renda disponível neste ano foram feitas pelo Data Popular, instituto de pesquisas e consultoria, a partir dos rendimentos das famílias da Pnad de 2008, última disponível pelo IBGE.

Os valores foram atualizados para 2010 e consideram a inflação medida pelo IPCA no período, os reajustes concedidos ao salário mínimo nos últimos dois anos e a previsão de crescimento do país de 5% neste ano.

Em 2002, a massa de renda total de negros e pardos foi de R$ 170 bilhões. Se confirmada a previsão deste ano (R$ 546 bilhões), o crescimento será de 222% em relação àquele ano.

O resultado chama a atenção porque o salário de um negro ainda é cerca da metade do de um branco. Mesmo assim, a massa de renda dos negros já representa 40% do total.

O que explica essa aparente contradição é que no total de rendimentos das famílias não entram somente salários. No cálculo estão todas as fontes de receita -como trabalhos avulsos (bicos) e temporários.

A disparidade salarial obrigou as famílias negras a estimularem também o trabalho de crianças e adolescentes para complementar a renda.

"Em uma família branca, que, em geral, é menos numerosa, é comum encontrar só o pai como gerador de renda", diz Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto. "Na família negra, os filhos trabalham. Se não for assim, não terão como pagar a faculdade e melhorar de vida."

O aumento de emprego formal e o maior acesso à educação e ao crédito são as principais razões para explicar a alta no poder de consumo dos negros. De 1998 a 2008, a proporção de negros e pardos com ensino superior completo no total de adultos (25 anos ou mais) passou de 2,2% para 4,7%.

"As políticas públicas que vêm sendo desenvolvidas desde o final do governo FHC também contribuem para ajudar na inserção do negro no mercado de trabalho", diz Meirelles.

"Antes, havia mais negros na informalidade, com renda ainda menor. Hoje não há como falar sobre a nova classe média brasileira sem falar no negro."

A classe C negra deve ter disponível renda de R$ 187 bilhões neste ano -ou 43,8% da renda total prevista para a classe C (com renda de 3 a 10 mínimos).

Mas as empresas ainda estão longe de atender ao anseio desse consumidor. "Ter uma política de inclusão não significa somente ter um sabonete específico ou colocar o negro como garoto-propaganda. Isso é um avanço, mas é preciso entender os valores e a cultura negra."

Alcir Gomes Leite, diretor-executivo e sócio da DM9, diz que empresas e marcas estão "aprendendo" a olhar para a classe C independentemente de sua cor.

"Ainda existem erros absurdos de criar estereótipos para essa classe, que tem hábitos e um jeito próprio de ser. O Brasil é um país de classes C e D, acho estranho considerar que são nichos de mercado."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Alimentação através dos tempos - parte 2


Mireille Corbier é exemplo de pesquisadora cuja metodologia procura esta abordagem interdisciplinar e cujo objeto de pesquisa é a questão cultural, em todas as suas implicações (cf. LEACH: 1986). Diretora de pesquisa do Centre Nacional de Recherche Scientifique, Corbier produziu um texto muito interessante na obra compilada por Flandrin e Montanari, no qual a autora investiga os hábitos alimentares da Antiga sociedade romana. Pesquisadora no campo da História ela está, portanto, preocupada em investigar a complexidade de uma sociedade, no caso a Roma Antiga, observando seus hábitos alimentares e seu comportamento social: “Dize-me o que comes [e com quem comes,] e dir-te-ei quem és” (cf. BUSTAMANTE: 2003, p. 95). Corbier procura entender as diversas hierarquias sociais daquela sociedade a partir de seus hábitos e necessidades alimentares. A autora demonstra que os romanos foram adquirindo tais hábitos e necessidades conforme a expansão do território e os contatos culturais com outros povos. Temos, portanto, uma hierarquia dos alimentos que fora construída ao longo dos tempos. Os romanos, de simples “comedores de fava”, passaram a adquirir costumes cada vez mais diversificados e sofisticados. Daí, como afirma a autora, uma diferenciação social na ingestão dos alimentos: a comida do aristocrata não era a mesma do soldado, que não era a mesma do escravo, a qual era diferente da do camponês, etc., e mesmo no interior das próprias camadas sociais, os alimentos variavam entre si, dependendo da região, da ocasião, das oportunidades, e inúmeros outros fatores. Corbier descreve em seu texto todo o percurso feito pelos alimentos, do produtor ao consumidor. Neste aspecto, a autora enfatiza primeiramente a característica mediterrânea da alimentação romana, associada a cereais, vinho, óleo, legumes e frutas secas ou frescas, açúcar de frutas, mel, leite, queijo, carne e peixes (CORBIER: 1998, p. 219-220); a autora rejeita a idéia de que os romanos só comiam carne proveniente de sacrifícios e da caça, e mostra como que, com o tempo, a carne passou a fazer parte do cardápio romano.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Alimentação através dos tempos - parte 4


O artigo de Mireille Corbier nos ajuda a debater, dentro do conceito de cultura sugerido por Edward Leach, a diversidade da sociedade romana, ajudando a compreendê-la. Os hábitos alimentares nos dizem muito sobre a cultura de uma sociedade. Desse modo, podemos fazer inferências a outras culturas e perceber ideologias, preconceitos, estranhamentos de uma sociedade em relação a outras nas diferenças alimentares. Um bom exemplo disto encontra-se na Odisséia de Homero, quando Odisseus astutamente embriaga o Ciclope, o qual, por ser bárbaro, não sabia misturar água ao vinho, e, desse modo, é ludibriado pelo herói (HOMERO, Odisséia IX, vv. 347-369).
Como foi anteriormente mencionado, a alimentação é questão básica que perpassa todos os modos de agir do homem no tempo. Uma questão tão importante para os gregos que, na mitologia, tratava-se de fator primordial para separar os homens dos deuses. Segundo Vernant, “os homens vão se alimentar de pão, vinho e carne ritualmente sacrificada, enquanto os deuses não se alimentam, ou melhor, eles absorvem um alimento de imortalidade, que lhes dá vitalidade interior, a qual, ao contrário da dos homens, jamais se esgota e desconhece o cansaço” (VERNANT, 2000, p. 33)
Assim, o tema tratado é de enorme pertinência para o estudo da cultura e da formação das sociedades a partir de seu cotidiano

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

IMPRESSIONANTE O QUE UM TORNEIRO**MECÂNICO** PODE FAZER PELO BRASIL


BALANÇO BRASIL 2009

O ex-presidente FHC mandou um recado esta semana pela televisão ao Senhor
Lula da Silva para que trabalhasse mais, mentisse menos e não pensasse em
terceiro mandato. Com base em dados publicados pela imprensa, tomo a
liberdade de fazer um pequeno balanço comparativo dos oito anos do governo
FHC com os sete anos do governo LULA. Balanços comparativos são previstos na
Lei das Sociedades Anônimas (art. 176):

DADOS DO GOVERNO FHC X DADOS DO GOVERNO LULA

RISCO BRASIL
FHC - 2.700 PONTOS
LULA - 200 PONTOS

SALÁRIO MÍNIMO
FHC - 78 DÓLARES
LULA - 280 DÓLARES (janeiro 2010)

DÓLAR
FHC - R$ 3,00
LULA - R$ 1,78 (dezembro 2009)

DIVIDA FMI
FHC - Triplicou
LULA - PAGOU

INDUSTRIA NAVAL
FHC - NÃO MEXEU
LULA - RECONSTRUIU

UNIVERSIDADES NOVAS
FHC - NENHUMA
LULA - 10

EXTENSÕES UNIVERSITÁRIAS
FHC - NENHUMA
LULA - 45

ESCOLAS TÉCNICAS
FHC - NENHUMA
LULA - 214

VALORES E RESERVAS DO TESOURO NACIONAL
FHC - 185 BILHÕES DE DÓLARES NEGATIVOS
LULA - 230 bilhões de dólares

CRÉDITOS PARA O POVO - PIB
FHC - 14%
LULA - 34%

ESTRADAS DE FERRO
FHC - NENHUMA
LULA - 03 (EM ANDAMENTO)

ESTRADAS RODOVIÁRIAS
FHC - 90% DANIFICADAS
LULA - 30% RECUPERADAS

INDUSTRIA AUTOMOBILIÍSTICA
FHC - EM BAIXA 20%
LULA - EM ALTA 30%

CRISES INTERNACIONAIS
FHC - 04 ARRASANDO O PAÍS
LULA - NENHUMA PELAS RESERVAS ACUMULADAS

CÂMBIO FIXO:
FHC - ESTOURANDO O TESOURO NACIONAL
LULA - FLUTUTANTE: COM LIGEIRAS INTERVENÇÕES DO BANCO CENTRAL

TAXA DE JUROS SELIC
FHC - 27%
LULA - 8,75%

MOBILIDADE SOCIAL
FHC - 2 MILHÕES DE PESSOAS SAÍRAM DA LINHA DE POBREZA
LULA - 23 MILHÕES DE PESSOAS SAÍRAM DA LINHA DE POBREZA

EMPREGOS
FHC - 780 MIL EMPREGOS
LULA - 11 MILHÕES DE EMPREGOS

INVESTIMENTOS EM INFRAESTRURA
FHC - NENHUM
LULA - 504 BILHÕES DE REAIS PREVISTOS ATÉ 2010

POLICIA FEDERAL
FHC - 80 PRISÕES
LULA - Mais de cinco mil prisões

ROMBO NO ESTADO BRASILEIRO
FHC - 30 BILHÕES (ou mais) NAS PRIVATIZAÇÕES
LULA - Nenhum

MERCADO INTERNACIONAL
FHC - SEM CRÉDITO PARA COMPRAR UMA CAIXA DE FÓSFORO
LULA - INVESTIMENT GREAT

ECONOMIA INTERNA
FHC - ESTAGNAÇÃO TOTAL COM DESINFLAÇÃO INERCIAL
LULA - INCLUSÃO DE CONSUMIDORES E SURGIMENTO DE INVESTIDORES

REFORMAS POLITICA, ADMINISTRATIVA, TRIBUTÁRIA
FHC - NENHUMA
LULA - NENHUMA



Obs.: O Presidente e mais alguns aliados, conseguiram ainda dois do maiores
Eventos Esportivos do planeta, ou seja o Campeonato Mundial de Futebol 2014
(Copa do Mundo) e os Jogos Olímpicos para 2016... tudo isso, deverá gerar
Investimentos da ordem de U$170 bilhões, ainda a Geração de Emprego e Renda
cerca de 2 milhões de novos empregos.*
*

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Que horror! Os pobres estão consumindo!

O Globo publicou hoje, em tom de censura, que as medidas do governo diminuindo os impostos têm aumentado o consumo e fazendo desaparecer os produtos das prateleiras.
Esse jornaleco (e a sua irmã televisiva) não perde tempo e oportunidade de falar mal do governo Lula. Em vez de louvar o empremento na economia e a entrada de diversos estratos sociais no mercado, e criticar a indústria que não promoveu um planejamento adequado, eles reclamam como velhas resmunguentas.
E olha só o que está faltando! Ar condicionado, sorvete, ventilador...
Esses produtos faltariam de qualquer maneira, com ou sem incentivo!
Avisa ao O Globo que está sobrando calor.

Olha só um trecho:

RIO - A combinação de crédito farto e temperaturas elevadas fez com que diversos produtos sumissem das prateleiras. No Rio, já falta de ar-condicionado e ventilador a sorvete e refrigerantes, além de alguns modelos de automóveis. A indústria informa que, em alguns setores, está trabalhando na capacidade máxima e antecipando entregas que só seriam feitas em janeiro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

20 anos da Queda do Muro - uma análise sóbria


Para não ficarmos só com a opnião nada isenta do jornalismo da Globo, Folha de São Paulo, Veja e afins (o chamado P.I.G), vejamos a brilhante análise dessa data histórica.

No vigésimo aniversário de 1989 os ideólogos, políticos e a mídia do
capitalismo mundial desejam reforçar na consciência popular que os
eventos daquele tumultuoso ano significam apenas uma coisa: a “derrota
final” do marxismo, do “comunismo” e do próprio socialismo, enterrados
para sempre sob o entulho do Muro de Berlim. Eles também significam a
vitória final do capitalismo, que “encerrou a história” de acordo com
Francis Fukuyama, e estabeleceram esse sistema como o único modelo
possível de organização da produção e gestão da sociedade.



Um paradigma econômico, que aboliria até mesmo os ciclos de
crescimento e queda do capitalismo, estabelecera uma escada dourada que
levaria a uma existência cada vez mais humana, justa e civilizada. A
crise econômica da primeira metade dessa década, acompanhada pelas
guerras do Iraque e Afeganistão, afetou severamente esse prognóstico. A
atual e devastadora “grande recessão” o desacreditou totalmente. Além
disso, foi o marxismo – como os membros e apoiadores do Partido
Socialista e de seu jornal – que previu isso. Mas nós deveríamos ter
sido relegados às margens, destinados a nunca mais exercermos qualquer
influência.

O resultado dos momentosos eventos de 1989 foi de fato uma
‘revolução’, mas uma contra-revolução social, que resultou no final na
liquidação do que restava das economias planejadas da Rússia e Leste
Europeu. Mas esse movimento, que varreu um país a outro, não começou
com esse objetivo, especialmente por parte das massas. Nem os
capitalistas – através de seus representantes como a primeira-ministra
britânica Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand
– esperavam ou, no início, saudaram de todo o coração os movimentos de
massas que acompanharam o colapso dos regimes stalinistas.

O brutal órgão do capital financeiro americano, o Wall Street
Journal, comentando a competição entre o capitalismo e os regimes
“comunistas” do Leste Europeu, declarou simplesmente no início de 1990:
“Nós ganhamos”. Um não menos exultante Independent (8 de janeiro de
1990) falava da “confiança de que – como sistema – o capitalismo é um
vencedor”. A impressão dada desde então é que os adivinhos olímpicos do
capitalismo previram os eventos de 1989. Mas o Financial Times – o
porta-voz do capital financeiro na época e agora – escreveu: “A
Alemanha Oriental ainda não possui nenhum movimento de massas no
horizonte, a liderança da Tchecoslováquia não pode permitir o
questionamento da fonte de sua legitimidade na invasão soviética de
1968, a Hungria enfrenta dissidentes, mas ainda não é um proletariado
em ascensão. A Bulgária introduzirá reformas ao estilo soviético, mas
sem o caos ou a democracia imatura soviética, a Romênia e a Albânia
estão encerradas em aço”. Isso foi escrito por John Lloyd, que antes
era do New Statesman, não três décadas antes, mas em 14 de outubro de
1989, menos de um mês antes do colapso do Muro de Berlim!



Entendendo o stalinismo
Mitigando esse “lapso” nas “perspectivas”, o finado Hugo Young
escreveu no jornal The Guardian (29 de dezembro de 1989) que “ninguém
jamais previu” os momentosos eventos daquele ano. Isso não é verdade.
Foi precisamente o teórico marxista Leon Trotsky, com seus métodos
“antediluvianos”, que mais de meio século atrás previu a inevitável
revolta da classe trabalhadora contra o stalinismo (naquela época
confinado à “União Soviética”). Ele previu um movimento de massas para
derrubar os usurpadores burocráticos que controlavam o estado e uma
revolução política para estabelecer a democracia dos trabalhadores. Mas
ele também escreveu nos anos 1930, em sua obra monumental, A Revolução
Traída, que uma ala da burocracia poderia presidir um retorno ao
capitalismo.

Essa idéia não foi tirada da cabeça de Trotsky mas se baseou em uma
meticulosa análise das contradições do desgoverno stalinista e das
forças que ele inevitavelmente iria conjurar. Karl Marx pontuou que a
chave para a História era o desenvolvimento das forças produtivas –
ciência, técnica e a organização do trabalho. Ele também disse que
nenhum sistema desaparece sem esgotar todas as possibilidades latentes
dentro dele. O capitalismo, um sistema econômico baseado na produção
pelo lucro – o trabalho não pago da classe trabalhadora – como sua
razão de ser, ao invés da necessidade social, enfrenta um ciclo de
crescimento e queda, que até Gordon Brown agora é forçado a reconhecer.
Mas, como Trotsky analisou, o stalinismo – por razões diferentes do
capitalismo – ao exercer uma camisa de força burocrática, se tornaria
um freio absoluto ao desenvolvimento econômico da sociedade em uma
certa etapa.

No período que vai provavelmente até o fim dos anos 1970, apesar das
monstruosidades de Stalin e do regime que ele presidiu – os processos
de expurgo, o trabalho escravo dos gulags – a indústria e a sociedade
se desenvolveram. Nesta etapa, apesar dos custos colossais do
desgoverno burocrático, o stalinismo jogou um papel relativamente
progressista. Há algumas analogias com o capitalismo em sua ascensão no
século 19 até 1914, quando ele se tornou uma barreira ao progresso,
como mostraram os horrores da primeira guerra mundial. Face à
estagnação, regressão e até desintegração, que é o que ocorreu nos
estados stalinistas – especialmente na Rússia a partir do final dos
anos 1970 – os regimes foram de um expediente a outro. Eles se moveram
da centralização à descentralização, e depois para a recentralização,
em vãs tentativas de escapar do beco sem saída burocrático.

Os métodos do governo burocrático, do comandismo, poderiam ter algum
efeito quando a tarefa na Rússia era copiar as técnicas industriais do
Ocidente, desenvolver uma infraestrutura industrial etc., e quando o
nível cultural da massa da classe trabalhadora e do campesinato ainda
era baixo. Mas nos anos 1970 a Rússia se tornou altamente
industrializada e, mesmo que algumas afirmações de sucesso fossem
exageradas, um rival industrial dos EUA. Em uma etapa, ela produziu
mais cientistas e técnicos do que até mesmo os EUA. Mas a própria
criação de uma força de trabalho culturalmente mais avançada –
altamente educada em alguns sentidos – fez com que o governo da cúpula
entrasse em colisão com as necessidades da industria e da sociedade. Os
preços para milhões de mercadorias, por exemplo, eram fixados
burocraticamente nos ministérios centrais em Moscou, enquanto o regime
se tornava cada vez mais um obstáculo. O descontentamento das massas
cresceu e se refletiu não apenas nas tentativas de revolução política
na Hungria em 1956, Polônia, Tchecoslováquia em 1968 etc., mas também
na Rússia. As greves de 1962 em Novocherkassk, por exemplo, mostraram o
perigo que ameaçava a continuidade do governo da burocracia.



Levantando a tampa
Foi essa situação que Mikhail Gorbachev, que chegou ao poder na
União Soviética representando uma ala mais ‘liberal’ da burocracia,
empenhou-se em mitigar através da perestroika (reestruturando a
política e a economia) e da glasnost (abertura). Nos relatos históricos
subsequentes, Gorbachev tornou-se a figura que presidiu o retorno ao
capitalismo na Rússia e a liquidação da antiga URSS. Contudo, ele não
começou com essa intenção. Como todas as classes ou elites dominantes,
e na tradição dos antigos dirigentes burocráticos, de Stalin em diante,
sentindo os murmúrios e descontentamento em massa vindos de baixo,
Gorbachev tentou desesperadamente introduzir reformas como um meio de
impedir a revolução. Inevitavelmente, uma minúscula abertura da panela
de pressão produz o resultado da revolta em massas que ela pretendia
evitar.

Ao comentar 1989, os representantes capitalistas abandonaram sua
hesitação usual de até mesmo proferir a palavra “revolução”. Isso
contrasta com sua descrição – repetida ad nauseam, especialmente na
recente biografia de Trotsky por Robert Service – da Revolução de
Outubro na Rússia de 1917 como um “golpe”. Ao descrever 1989 como uma
revolução, eles estão pelo menos meio corretos. Houve o início de uma
revolução – para ser mais preciso, elementos de uma revolução política
– na Alemanha Oriental, Romênia, Tchecoslováquia, China com os eventos
da Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), e mesmo na própria Rússia,
embora com um movimento de massas que não alcançou as mesmas alturas.
Em todos esses países houve inicialmente uma inquestionável expressão
por reformas democráticas dentro do sistema, uma aceitação implícita da
continuidade da economia planificada. Esse movimento varreu os países
com uma tremenda velocidade, como fogo na pradaria. Um cartaz em Praga
na época dizia: “Polônia – 10 anos. Hungria – 10 meses. Alemanha
Oriental – 10 semanas. Tchecoslováquia – 10 dias. Romênia! 10 horas”.

Além disso, os métodos usados para derrubar os regimes stalinistas
foram manifestações em massa e greves gerais – não os métodos usuais da
contra-revolução burguesa – com demandas que tinham como objetivo
reduzir ou abolir os privilégios da burocracia. Em uma das muitas
reportagens do Militant (predecessor do The Socialist) antes do colapso
do regime stalinista na Alemanha Oriental, a demanda por democracia era
evidente. Em 24 de outubro, nós reportamos: “Alguns milhares de jovens
marchavam pelas ruas. Eles foram bloqueados por fileiras policiais, com
os braços entrelaçados. Os jovens marcharam até eles e começaram a
cantar: ‘Vocês são a polícia do povo. Nós somos o povo. Quem vocês
estão protegendo?’ Eles cantaram a Internacional e então começaram uma
canção das lutas contra o fascismo chamada ‘A Frente Unida dos
Trabalhadores’. Suas palavras tiveram um particular efeito sobre a
polícia: ‘Vocês também pertencem à frente unida dos trabalhadores, pois
vocês também são trabalhadores’. A polícia simplesmente ficou parada e
foi varrida de lado enquanto os jovens iam adiante. Nos bares, tropas
de soldados discutiam abertamente com os trabalhadores e jovens. Um
grupo discutia a perspectiva do regimento receber ordens de atirar nos
manifestantes. Um conscrito exclamou: ‘Eles podem ordenar, mas nós
nunca atiraremos no povo. Se eles fizerem isso vamos voltar as armas
contra os oficiais’.”

Na Rússia apareceram cartazes: ‘Não o povo para o socialismo, mas o
socialismo para o povo; abaixo os privilégios especiais para políticos
e burocratas, os servos do povo devem ter de ficar nas filas”. Nesta
etapa, uma pesquisa de opinião na Rússia mostrou que apenas 3% votariam
em um partido capitalista nas eleições multipartidárias. Os
representantes sérios do capitalismo temiam que as demandas por uma
revolução política tomariam precedência sobre o sentimento
pro-capitalista que sem dúvida existia em algumas camadas. Um, talvez
dois milhões de trabalhadores estavam nas ruas de Beijing, com meio
milhão saudando Gorbachev em maio. Depois da sangrenta supressão da
Tiananmen, o antigo primeiro-ministro conservador britânico Edward
Heath apareceu na TV ao lado de Henry Kissinger, o notório braço
direito do presidente Nixon nos bombardeios do Vietnã e do Camboja.
Heath declarou: “Os estudantes e trabalhadores chineses não estavam
atrás do tipo de democracia que defendemos... eles estavam cantando a
Internacional”. Kissinger queixou-se de era “uma pena” que o movimento
de massas tivesse manchado o fim da carreira do líder chinês Deng
Xiao-Ping.

Para o registro, ambos se opunham ao derramamento de sangue. Mas
mais importante para eles era a manutenção das relações comerciais com
a burocracia chinesa. De forma nauseante, o deputado trabalhista de
direita Gerald Kaufman – famoso recentemente pelo seu envolvimento nos
escândalos das despesas indevidas de deputados – então porta-voz
trabalhista de assuntos internacionais, declarou: “Pode-se entender que
o governo chinês quisesse retomar o controle da praça, embora ele tenha
ido exageradamente longe demais para isso”.



Alarme no Ocidente
Thatcher também expressou alarme com os eventos no Leste Europeu,
especialmente com a perspectiva da reunificação alemã após o colapso do
Muro de Berlim. Documentos recentemente contrabandeados da Rússia e
publicados no The Times em setembro mencionam que Thatcher “dois meses
antes da queda do muro… disse ao presidente Gorbachev que nem a
Grã-Bretanha nem a Europa Ocidental queriam a reunificação da Alemanha
e deixou claro que ela queria que o líder soviético fizesse o que
pudesse para detê-la”. Ela declarou: “Não queremos uma Alemanha unida…
Isso levaria a uma mudança nas fronteiras do pós-guerra, e não podemos
permitir isso porque tal acontecimento minaria a estabilidade de toda a
situação internacional e colocaria em risco nossa segurança”.

Em uma reunião com Gorbachev ela insistiu que a gravação fosse
desligada. Infelizmente para ela, foram feitas notas de seus
comentários. Ele não se importava com o que estava acontecendo na
Polônia, onde o Partido Comunista foi derrotado na primeira eleição
aberta no Leste Europeu desde a tomada stalinista, “apenas algumas das
mudanças na Europa Oriental”. Incrivelmente, especialmente com as
subsequentes declarações belicosas do presidente dos EUA George Bush
pai sobre o Pacto de Varsóvia, ela queria que ele “continuasse
existindo”. Ela expressou especialmente sua “profunda preocupação” com
o que acontecia na Alemanha Oriental.

Mitterrand também estava alarmado com a perspectiva da reunificação
alemã e até mesmo considerou uma aliança militar com a Rússia para
“impedi-la”. Ele estava preparado para camuflar isso como “uso conjunto
dos exércitos para combater desastres naturais”, usado, de fato, como
um alerta casa as massas da Alemanha Oriental fossem longe demais. De
um lado, a posição de Thatcher e Mitterrand expressavam o medo de um
capitalismo alemão fortalecido, mas também de que as repercussões
destes eventos pudessem acionar um incontrolável movimento de massas na
Europa Ocidental e outros lugares. Um dos conselheiros de Mitterrand,
Jacques Attali, até mesmo disse que ele “iria viver em Marte se a
unificação [alemã] ocorresse”. Thatcher escreveu em suas memórias: “Se
há um exemplo no qual a política externa que eu conduzi encontrou um
fracasso explícito, foi minha política sobre a reunificação alemã”.

Gorbachev e seu séquito do Kremlin, embora lisonjeados com os
louvores dirigidos a eles por círculos capitalistas ocidentais, estavam
em pânico com o ritmo e a sequência dos eventos na Europa Oriental.
Gorbachev ingenuamente acreditava que com concessões parciais e a
recusa de sustentar os dinossauros stalinistas na Alemanha Oriental
(ele pensava que Erich Honecker, o intransigente autocrata deste país,
era um ‘idiota”), as massas seriam gratas e satisfeitas. Gorbachev não
tinha intenções, no início, de ‘liberalizar’ o stalinismo da
existência. Ele certamente não tinha intenções declaradas de
desencadear o capitalismo. Mas, como o resto dos regimes stalinistas,
ele foi arrastado pelos eventos. Não foram apenas Honecker, os
Ceaucescus na Romênia, as gangues stalinistas dirigentes na Bulgária e
em outros lugares que foram derrubados. Eventualmente, os movimentos no
Leste Europeu – na “periferia” do stalinismo – se espalharam para o
coração russo. O resultado final foi o retorno ao capitalismo na Europa
Oriental e na própria Rússia.



A restauração capitalista era inevitável?
Esse resultado era inevitável? Não há “inevitabilidade” na história
se, quando as condições para a revolução estiverem maduras, o “fator
subjetivo” estiver presente na forma de uma direção e partidos
revolucionários testados e temperados. Isso claramente faltava em todos
os estados stalinistas, especialmente na própria Rússia. Havia uma
repulsa generalizada com o governo desenfreado da burocracia, e também
demandas para reduzir os privilégios e a corrupção em larga escala.
Havia um anseio e uma busca das massas pelo programa da democracia dos
trabalhadores em todos os estados. Além disso, os eventos estavam sendo
feitos nas ruas, nas fábricas e nos locais de trabalho. Anteriormente,
os marxistas esperavam e acreditavam que era possível, logo após uma
revolta em massa, mesmo com um número limitado de quadros marxistas, a
criação de um partido de massas. Então, com a direção necessária, isso
poderia ajudar as massas a implementarem as tarefas da revolução
política: mantendo a economia planificada mas renovando-a com base na
democracia dos trabalhadores. Mas eles trabalhavam em sua maioria no
escuro, sem raízes ou uma presença real nos estados stalinistas. Dado a
presença de “estados fortes” de caráter totalitário no período que
levou direto aos eventos de 1989, um trabalho de massas sério era
problemático.

A situação era um pouco diferente na Polônia, onde pronunciadas
tendências pró-capitalistas estavam evidentes por todos os anos 1980,
especialmente após o fracasso do movimento Solidariedade de 1980-81.
Naquela época, os elementos de uma revolução política existiam até
mesmo no programa do Solidariedade, embora sob a direção de Lech Walesa
ele estivesse sob o signo da religião, da Igreja Católica. Já
coexistindo ao lado desses elementos havia sentimentos
pró-capitalistas. O esmagamento militar do movimento Solidariedade em
1981 foi realizado não pelo Partido “Comunista” Polonês – cuja
autoridade já tinha evaporado completamente – mas pelo regime
militar-bonapartista stalinista do General Jaruzelski. Isso, aliado ao
crescimento econômico do capitalismo dos ano 1980, empurrou para o
último plano a esperança da democracia dos trabalhadores e da
manutenção da economia planificada. O sentimento das massas se voltou
para outras alternativas, especialmente o retorno ao capitalismo,
revelado durante as visitas de Thatcher e Bush à Polônia em 1988. Eles
receberam uma enorme saudação nas ruas de Varsóvia, com as massas,
ingenuamente como foi revelado, esperando melhores resultados, em
termos de maiores padrões de vida, do que os do desacreditado modelo
stalinista desabando ao seu redor.

Esse processo não foi tão pronunciado em outros lugares, certamente
não na Rússia. Lá, a esperança de uma revolução política não se
extinguiu inteiramente entre os marxistas da Rússia e
internacionalmente, mesmo com os eventos na Polônia. Afinal, a revolta
do povo húngaro em 1956 foi acompanhado pela criação de conselhos de
trabalhadores no modelo da Revolução Russa. Isso depois que as massas
foram mantidas na noite escura dos 20 anos do terror fascista de
Horthy, seguidos pelos dez anos do terror stalinista. Não havia uma
tendência dominante pró-retorno ao capitalismo em 1956. O mesmo era
verdade na Polônia no mesmo ano, em 1970 e 1980-81. Em 1968 na
Tchecoslováquia havia forças que defendiam o retorno ao capitalismo,
mas elas estavam em minoria, com a esmagadora maioria das massas
buscando as idéias de democracia dos trabalhadores, resumidas na frase
do primeiro-ministro Alexander Dubcek, “Socialismo com face humana”.

O esmagamento da “Primavera” tchecoslovaca de 1968 – antes que
pudesse florescer no verão de uma revolução política – desferiu um
golpe pesado na perspectiva de uma democracia dos trabalhadores como
uma saída do impasse do stalinismo moribundo. A História não fica
parada; a agonia de morte do stalinismo por mais de uma década,
combinada com os aparentes fogos de artifício econômicos do boom
capitalista mundial dos anos 1980, geraram a ilusão de que o sistema
“do outro lado do muro”, o capitalismo ocidental, oferecia um modelo
melhor para o progresso do que o sistema frustrante da Europa Oriental
e da Rússia.


Por que a resistência limitada?
Uma das questões mais perturbadoras que confrontam os marxistas
desde então foi a pouca resistência aparente entre as massas da
população quando a Rússia tomou passos na direção do capitalismo.
Contudo, uma resposta a esse enigma pode ser encontrada na história do
stalinismo, especialmente nas diferentes fases pelas quais ele passou.
Em particular, os processos de expurgo organizados por Stalin em
1936-38 representaram um ponto de inflexão decisivo. Ao aniquilar os
últimos remanescentes do Partido Bolchevique – destruindo até
capituladores como Zinoviev e Kamenev – Stalin esperava anular a
memória da classe trabalhadora da URSS. Até então, duas gerações ainda
estavam ligadas à Revolução Russa e seus ganhos, na forma da
nacionalização das forças produtivas e de um plano de produção.

Além disso, havia um apoio generalizado entre as camadas
desenvolvidas da classe trabalhadora internacional para as vantagens e
principais conquistas da Revolução Russa. Isso apesar do fato de que,
já na Rússia nos anos 1930, como Trotsky pontuou, havia uma crítica
generalizada do regime burocrático presidido por Stalin. O advento da
revolução espanhola também teve um efeito eletrizante na Rússia, ao
gerar esperanças do triunfo da revolução mundial e agitar a memória do
que aconteceu na Rússia duas décadas antes. Stalin, portanto, conduziu
uma “guerra civil unilateral” para destruir os últimos vestígios do
Partido Bolchevique. Mas os expurgos foram muito mais longe do que
isso. Ele também usou a situação – no processo vilificando Trotsky e a
Oposição de Esquerda Internacional como agentes da contra-revolução
estrangeira na URSS – para eliminar na burocracia todas as
reminiscências ligadas à memória da revolução. Não foram apenas os
Oposicionistas de Esquerda que foram assassinados, mas centenas de
milhares de trabalhadores e camponeses, incluindo setores
significativos da burocracia. Por meio desses métodos bárbaros, Stalin
construiu uma máquina burocrática que não estava ligada de nenhuma
maneira com o período heróico da Revolução de Outubro. Pessoas como
Nikita Khrushchev, Yuri Andropov e o outros que dominaram o estado nas
próximas décadas não participaram da clandestinidade bolchevique ou na
revolução de Outubro e, em certo sentido, “não tinham história”,
certamente não a rica história revolucionária da Rússia. Todos os
elementos críticos dentro da classe trabalhadora também foram
eliminados nesta etapa.

Apesar dos monstruosos crimes do stalinismo – incluindo a execução
dos altos comandantes militares do Exército Vermelho, o que facilitou a
invasão de Hitler em 1941 – as vantagens da economia planificada ainda
eram presentes. Além disso, o capitalismo estava assolado por crises,
com o desemprego em massa da grande depressão dos anos 1930. Como
Trotsky pontuou, havia uma oposição de massas ao stalinismo, mas a mão
da classe trabalhadora absteve-se de derrubar o regime por uma
combinação de fatores. Não menor era o medo de que um movimento contra
Stalin e a burocracia abriria as portas para a contra-revolução
capitalista. Ao mesmo tempo, a indústria e a sociedade em termos
bastante gerais – e em certa medida os padrões de vida das massas –
continuavam avançando apesar da burocracia.

A morte de Stalin, contudo, levou às revelações de Khrushchev no 20º
congresso do Partido Comunista da União Soviética e ao chamado
“degelo”. Khrushchev denunciou Stalin e alguns de seus crimes, mas, na
realidade, apenas doses “admissíveis” de algumas verdades foram
permitidas. Mesmo essas verdades parciais misturadas com mentiras não
tocavam nos mitos e falsificações stalinistas. Khrushchev temia ir
longe demais e os líderes stalinistas russos como Leonid Brejnev, que
derrubaram Khrushchev, proibiram quaisquer novas “revelações” reais dos
crimes de Stalin e das causas do próprio stalinismo. Depois, eles até
mesmo aceitaram sua reabilitação parcial. Portanto, à medida que o
sistema começou a se despedaçar, não existia na Rússia nenhuma
alternativa marxista real, sem falar de uma consciência de massas
desenvolvida que apresentasse um programa de democracia dos
trabalhadores.

Teria sido inteiramente possível na época do colapso do stalinismo,
desde o final dos anos 1980, apresentar um quadro claro das razões dos
expurgos, os processos, as causas do stalinismo e a alternativa a esse
sistema desacreditado. Mas, ironicamente, os expurgos e a máquina
repressora dizimaram qualquer “fator subjetivo” que pudesse se
desenvolver e jogar um papel decisivo. Contudo, seria um erro concluir
que não havia elementos na Rússia que buscassem um programa de
democracia dos trabalhadores. Mas estes eram muito fracos para conter a
atração do ocidente capitalista, especialmente para uma nova geração
completamente despreparada, seduzida pela aparente abundância dos bens
de consumo que foram levados a acreditar que estavam lá para quem
quisesse.



Capitalismo gangster
O retorno do capitalismo barrou qualquer tentativa de investigar
honestamente as raízes e razões do stalinismo, na preparação para a
restauração da economia planificada com base na democracia dos
trabalhadores. Os poucos que tentavam eram esmagados por uma onda da
maliciosa propaganda anticomunista dos chamados jornais “democráticos”
a serviço da burguesia emergente. Eles eram o espelho burguês da escola
stalinista de falsificação. O totalitarismo stalinista, diziam, surgiu
do caráter “criminoso” do bolchevismo; a revolução russa foi um “golpe”
etc.

O que se seguiu foi uma orgia de propaganda capitalista que inundou
a Rússia pós-1989, acompanhada pelas promessas do que o então chanceler
alemão Helmut Kohl previu “paisagens florescentes” em um mundo
pós-stalinista. Na estrada do retorno ao capitalismo, as massas nestes
estados eventualmente chegariam aos padrões de vida alemães, se não
americanos. “Passando por Bangladesh”, replicava o pequeno bando de
marxistas na Europa Oriental. No melhor, o que se poderia esperar para
a classe trabalhadora da Rússia e Leste Europeu, dizíamos, era talvez
que ela afundaria nos padrões de vida latino-americanos. Isso, temos
que confessar hoje, era uma perspectiva desesperadamente otimista. A
Rússia experimentou um colapso sem precedentes em suas forças
produtivas que excedia em alcance e profundidade a grande depressão dos
anos 1930.

Entre 1989-98 quase metade (45%) de sua produção foi perdida. Isso
foi acompanhado por uma desintegração sem precedentes em toda a antiga
URSS nos elementos básicos de uma sociedade “civilizada”, com as taxas
de homicídio e crimes dobrando. Em meados dos anos 1990 a taxa de
assassinatos era de mais de 30 por 100.000 pessoas, contra um ou dois
na Europa Ocidental. Apenas dois países na época tinham taxas mais
altas: África do Sul e Colômbia. Mesmo no Brasil e México, com alta
criminalidade, os dados eram 50% mais baixos do que a Rússia. A taxa de
homicídios dos EUA, o mais alto no mundo “desenvolvido”, de 6-7 por
100.000, não era nada em comparação. Em 2000, um terço da população
russa vivia abaixo da linha da pobreza oficialmente definida. A
desigualdade triplicou.

A taxa de homicídios foi um produto e um sintoma do irrefreável
capitalismo gangster. Ex-membros da Liga da Juventude Comunista, como o
proprietário do Chelsea Futebol Clube, Roman Abramovitch, apoderaram-se
da parte lucrativa das antigas empresas estatais – como as do petróleo
– para si mesmos. Um tiroteio ao estilo dos gangsteres de Chicago nos
anos 20 a uma escala nacional ou mesmo continental ocorreu entre os
diferentes grupos sobre a divisão do bolo estatal. A economia russa foi
efetivamente partida ao meio por causa da destruição forjada pelo
retorno ao capitalismo. As rendas reais nos anos 1990 afundaram em 40%.
Em meados do fim dos 1990 mais de 44 milhões das 148 milhões de pessoas
da Rússia viviam na pobreza – definida como menos de 32 dólares por
mês. Três quartos da população viviam com menos de 100 dólares por mês.
Os suicídios dobraram e as mortos por excesso de álcool triplicaram em
meados dos 1990. A mortalidade infantil caiu a níveis de terceiro mundo
enquanto a taxa de natalidade colapsou. Em meros cinco anos de
“reforma”, a expectativa de vida das mulheres caiu em dois anos para
72, e em quatro anos para 58 entre homens. Incrivelmente, para os
homens isso era mais baixo do que há um século antes! Se a taxa de
homicídios tivesse continuado, a população russa teria colapsado em um
milhão por ano, caindo para 123 milhões, um colapso demográfico não
visto desde a segunda guerra mundial, quando a Rússia perdeu de 25 a 30
milhões de pessoas. No fim de 1998 pelo menos dois milhões de crianças
russas estavam órfãs – mais do que em 1945. Apenas 650.000 viviam em
orfanatos, enquanto o resto dessas infelizes crianças não tinham lar!

A nova burguesia, no que foi descrito como um infernal e irrefreável
saqueio, de fato roubou tudo o que podia agarrar. Ela saqueou a riqueza
e os recursos naturais da nação, vendeu o ouro, os diamantes o petróleo
e o gás estatais. Os horrores da revolução industrial – o nascimento do
capitalismo moderno – descrito graficamente no Capital de Marx – não
foram nada comparados com os monstruosos crimes com que a nova
burguesia russa celebrou sua entrada no mundo. Esse inferno na Terra
diminuiu um pouco no fim dos anos 1990 com o crescimento da renda
nacional abastecido principalmente pela exportação de petróleo e gás,
amparado no boom capitalista mundial que agora chegou ao fim.
Politicamente, o caos dos anos 1990 foi substituído pela “ordem” de
Vladimir Putin e Dmitri Medvedev. Mas a Rússia ainda não alcançou, na
produção manufatureira pelo menos, o nível de 1989-90. Essa é um
devastador veredicto ao “renascimento” do capitalismo na Rússia.
Comparada com a criança saudável e robusta da revolução industrial no
nascimento do capitalismo, a Rússia moderna ainda está lutando para
respirar, sem falar de caminhar e correr. As massas de todos os
ex-estados stalinistas carregam um terrível fardo com o retorno do
capitalismo.



Consequências de longo alcance
A classe trabalhadora internacional também pagou um preço pesado. O
colapso desencadeado em 1989 não foi apenas do aparato stalinista mas,
com ele, das economias planificadas, o principal ganho herdado da
própria Revolução Russa. A contra-revolução social que fez a roda da
história voltar atrás nestes estados também mudou decisivamente as
relações mundiais por um período. Sozinho entre os marxistas, o Comitê
por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) reconheceu o que esse
reverso representava. Foi uma derrota histórica para a classe
trabalhadora. Antes disso um modelo alternativo para a gestão da
economia – apesar das monstruosas distorções do stalinismo – existia na
Rússia, Leste Europeu e, em certo sentido, também a China. Isso agora
era eliminado. Fidel Castro comparou o fim destes estados como
equivalente ao ‘sol sendo apagado’. Para os marxistas, essas sociedades
não representavam o sol. Mas elas, pelo menos em sua forma econômica,
representavam uma alternativa que, com base na democracia dos
trabalhadores, poderia levar a sociedade adiante.

Embora reconhecendo o que tinha ocorrido, também mostramos que essa
derrota não era da escala dos anos 1930, quando Hitler, Mussolini e
Franco esmagaram as organizações dos trabalhadores, lançando assim as
bases para a catástrofe da 2ª Guerra Mundial. A derrota do fim dos anos
1980 foi mais de caráter ideológico que permitiu aos ideólogos
capitalistas ridicularizar qualquer projeto socialista futuro.

Entretanto, embora o colapso do stalinismo fosse em grande parte um
golpe ideológico na classe trabalhadora internacional, ele também teve
sérias repercussões materiais. Isso levou ao completo colapso político
dos líderes das organizações de trabalhadores, que abandonaram o
socialismo mesmo como um objetivo histórico, e abraçaram as idéias
capitalistas de uma forma ou outra. Não apenas na Grã-Bretanha, com o
advento do Novo Trabalhismo, mas internacionalmente os antigos partidos
de trabalhadores implodiram em formações capitalistas. Eles apenas
diferiam dos partidos abertamente burgueses da mesma forma que os
partidos capitalistas liberais ‘radicais’ diferiam no passado e ainda
diferem nos EUA, na forma dos Democratas e Republicanos – diferentes
lados da mesma moeda capitalista. Nos sindicatos, as direções em sua
maioria abandonaram qualquer idéia de uma alternativa ao capitalismo.
Eles portanto procuravam se acomodar ao sistema, barganhando entre o
trabalho e o capital, ao invés de oferecer um desafio fundamental.

Se você aceita o capitalismo, você aceita sua lógica, suas leis,
especialmente a busca dos patrões em maximizar a lucro em nome dos
capitalistas em detrimento da classe trabalhadora. Isso vai de mãos
dadas com a “parceria social”. Isso pode levar ao “sindicalismo
empresarial”, que limita qualquer movimento militante da classe
trabalhadora para obter mais do que os patrões supostamente podem dar.
De fato, o desenvolvimento dos líderes sindicais domesticados,
acomodando-se aos limites do sistema, junto com o abandono de qualquer
objetivo histórico do socialismo pelos líderes das organizações dos
trabalhadores, encorajou enormemente a confiança e o poder dos
capitalistas. Isso facilitou – sem qualquer resistência real dos
líderes sindicais – uma massiva disparidade de renda em uma escala não
vista desde antes da primeira guerra mundial. O capitalismo desenfreado
não foi contido pelos líderes sindicais. Pelo contrário, isso deu a
eles pleno alcance para que espremessem impiedosamente a classe
trabalhadora a fim de obterem um maior rendimento – com uma fatia cada
vez menor indo para os salários – tudo no altar de um capitalismo
reanimado.



Teste para a esquerda
Os eventos de 1989 e suas consequências foram testes para os
marxistas e aqueles que afirmavam estarem na posição trotskista. Com a
exceção do CIT, a reação da maioria das organizações marxistas deixou a
desejar, para dizer o mínimo. Os morenistas na América Latina (a Liga
Internacional dos Trabalhadores, LIT) procurou enterrar suas cabeças na
areia, recusando-se a reconhecer que o capitalismo tinha sido
restaurado. Eles apenas mudaram de posição os eventos os acertaram na
cabeça e não era mais possivel negar a realidade. Os “capitalistas de
estado” – a direção da Tendência Socialista Internacional (IST, em
inglês), incluindo o SWP britânico – acreditavam que a Rússia e o Leste
Europeu não eram estados operários deformados, mas capitalismos de
estado. O retorno do capitalismo não foi considerado uma derrota, mas
um “movimento lateral”. Na Alemanha Oriental, o IST apoiou a
reunificação da Alemanha em uma base capitalista. Essa abordagem foi
acompanhada pela desastrosa teoria de que nada tinha mudado
fundamentalmente no mundo e que, portanto, os anos 1990 eram favoráveis
ao marxismo por serem “os anos 1930 em câmera lenta”.

Ao outro lado, os partidários do Secretariado Unificado da Quarta
Internacional também tiraram conclusões pessimistas. Seu principal
teórico, Ernest Mandel, confessou a Tariq Ali pouco antes de morrer que
o “projeto socialista” estava fora da agenda por pelo menos 50 anos!

Todos os que previram o aumento colossal do ciclo de vida do
capitalismo, junto com o enterro do socialismo por gerações, foram
respondidos na teoria com os argumentos e idéias apresentados pelo
genuíno marxismo nas últimas duas décadas. Mas o impacto dos eventos
tem sido a maior resposta aos céticos, especialmente a atual e
devastadora crise mundial do capitalismo. A intervenção econômica dos
governos capitalistas mundialmente conseguiu evitar uma repetição
imediata, talvez apenas temporária, da depressão mundial dos anos 1930.
Ao mesmo tempo, a consciência da classe trabalhadora sobre a gravidade
da situação ainda não alcançou a situação objetiva. Isso restaurou
parcialmente a confiança anteriormente despedaçada dos porta-vozes do
capitalismo mundial, que temiam que levantes em massa desafiando as
próprias bases de seu sistema se desenvolvessem em conseqüência da
crise.

Em geral, o pensamento humano é muito conservador; a consciência da
classe trabalhadora sempre esteve atrás dos eventos. Isso é reforçado
quando a classe trabalhadora não possui organizações de massas que
podem agir como um ponto de referência na luta contra o capitalismo. A
direita, mesmo a extrema-direita, parece ter sido a principal grande
beneficiária política desta crise. Isso não é único ou excepcional na
primeira fase de uma crise econômica. Algo similar também se
desenvolveu em alguns países nos anos 1930, como pontuou recentemente o
comentarista político britânico Seumus Milne no The Guardian. Contudo,
ele foi muito generalizante ao dar a impressão de que isso era a reação
imediata em todos os países. A crise de 1930 também testemunhou uma
radicalização política entre a classe trabalhadora numa extensão muito
maior do que se desenvolveu até agora nesta crise.

É verdade que houve o fortalecimento dos nazistas na Alemanha, como
resultado da crise dos anos 1930. Mas também a revolução espanhola
começou a se desdobrar e as massas entraram em ação, tardia mas
decisivamente na França de 1931 em diante. O fato que estava presente,
embora de forma imperfeita, nos anos 1930 e ainda não está hoje, eram
partidos e organizações comunistas e socialistas de massas da classe
trabalhadora que, formalmente pelo menos, se opunham ao capitalismo.
Mesmo nos EUA durante a crise de 1929-33, embora a classe trabalhadora
estivesse paralisada sindicalmente, setores significativos foram
radicalizados politicamente e mesmo o Partido Comunista, por exemplo,
engordou com novos membros. Isso ainda não aconteceu em uma escala
significativa, em grande parte resultado da ausência de partidos de
massa, ainda que pequenos, da classe trabalhadora, cuja criação
continua sendo uma tarefa urgente para os socialistas, marxistas e do
movimento dos trabalhadores. Contudo, mesmo então, embora as tentativas
de criar tais organizações já tenham sido esboçadas, sem um firme
núcleo marxista que forneça a espinha teórica para essas formações,
muitos destes novos acontecimentos podem tropeçar, alguns abortarem e
até mesmo colapsar. Não obstante, permanece uma tarefa fundamental
criar a base de tais formações no próximo período.

1989 foi um ponto de inflexão em geral e também para o marxismo.
Como a mais otimista mas também a mais realista tendência dentro do
movimento dos trabalhadores, reconhecemos que o que ocorreu foi um
retrocesso significativo para o movimento dos trabalhadores. Mas não
perdemos a cabeça. O colapso do stalinismo não eliminou as contradições
inerentes do capitalismo. É verdade, o sistema recebeu um estímulo,
reforçando o processo de globalização através do fornecimento de mão de
obra barata, como a nova fonte de exploração, até de super-exploração,
do capitalismo. Mas a própria fraqueza do movimento dos trabalhadores
encorajou a confiança, de fato a presunçosa arrogância da classe
dominante, que excedeu a si mesma nas economias bolhas das últimas duas
décadas. O húbris foi seguido pela nemesis desta crise. A paisagem do
capitalismo mundial não é de forma alguma “florescente”, mas está
empestado de milhões de trabalhadores desempregados descartadas e com o
crescimento do exército dos pobres.

A classe trabalhadora está se movendo e respondendo. O marxismo,
relegado pelos ideólogos capitalistas à marginalidade, ao enfrentar
diretamente essa situação demonstrou sua viabilidade neste difícil
período. Mas não é apenas em períodos de derrota que suas vantagens são
mostradas através de uma análise sóbria. Seu programa e políticas,
através do Partido Socialista e do CIT, neste novo período de crescente
mobilização das massas contra o capitalismo, também mostrará sua
validade. 1989 não enterrou o socialismo ou o marxismo. Ele ofuscou
temporariamente a visão da classe trabalhadora, que está agora sendo
esclarecida com a atual crise e a incapacidade deste sistema de
resolver mesmo as exigências básicas da massa dos povos do planeta.

Peter Taaffe, Secretário Geral do Partido Socialista (CIT na Inglaterra &
Gales) - 26 de outubro de 2009