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domingo, 17 de junho de 2012

A verdade sobre a ocupação na Líbia

Na segunda-feira (04.06) um fato chocou a Líbia, mas não foi noticiado pela imprensa ocidental porque não foi uma notícia aprovada pelo imperialismo: a tomada do Aeroporto Internacional de Trípoli pela Brigada Al-Awfea [“Legalista”], leal a Kadafi, que se supõe que tenha vindo da cidade de Tarhouna, uma das últimas fortalezas kadafistas a cair quando o país foi atacado pela artilharia aérea de EUA-OTAN. Os habitantes de Tarhouna são líbios negros que foram discriminados na Líbia na época do Rei Ídris, mas foram resgatados no governo da Jamahiriya. O novo aeroporto de Trípoli estava sendo construído antes da guerra de ocupação da Líbia por uma empresa brasileira. Seria o maior e mais moderno aeroporto do mundo, não fossem as bombas terroristas despejadas no país – e no aeroporto - pela OTAN-USA e seus aliados colonialistas. Segundo relatos de moradores, a Líbia hoje é um país mergulhado no caos: falta água, luz, medicamentos e alimentos. Algo impensável na época de Kadafi. Quando a OTAN e seus cúmplices (governos dos EUA, França, Inglaterra, Canadá, Arábia Saudita, Catar e outros asseclas) despejaram toneladas de armamentos de paraquedas, em todas as regiões da Líbia, estavam criando as condições necessárias para o caos agora instalado no país. Mas era este o objetivo, além de assassinar covardemente o líder Muamar Kadafi. O martirizado líder líbio construiu o maior rio artificial do mundo, estava construindo o melhor aeroporto do mundo, enquanto Obama mandou bombardear as estações adutoras de água do rio artificial e a construção do aeroporto. Bombardeou toda a infraestrutura do país para que hoje 8.000 soldados norte-americanos estejam ocupando todos os poços de petróleo da Líbia. Estão roubando petróleo da Líbia. EUA, França e Inglaterra, roubam o petróleo líbio e contabilizam como “despesas de guerra”. Afirmam que o povo líbio pediu para ser bombardeado e que agora precisa pagar os custos e despesas com a guerra de ocupação. A Brigada Al-Awfea declarou que a principal razão para a ação de invadir e tomar o Aeroporto Internacional de Trípoli foi protestar contra o misterioso desaparecimento de seu líder, coronel Abu Ajela Al-Habashi e chamar a atenção do mundo para o sofrimento do povo de Tarhouna e outros líbios negros, no período pós-Kadafi. Foguetes lança-granadas, alguns tanques e fogo de artilharia pesada foram usados para ocupar a entrada e as cercanias do aeroporto. Aviões internacionais foram impedidos de decolar. Os passageiros, inclusive os que já estavam embarcados prontos para decolar, receberam ordens, de homens armados, para desembarcar e retornar aos hotéis. Aos olhos da Brigada Al-Awfea, a tomada do aeroporto foi uma espécie de sátira política, carregada de simbolismo e, sobretudo, de legitimidade. A acusação que mais se faz contra a Brigada Al-Awfea é que prega e difunde estereótipos racistas que, cada dia mais, circulam na Líbia pós-Kadafi. Mesmo assim, a ação no aeroporto gerou pânico entre as autoridades líbias, que bracejam num oceano de confusões. Todas as chegadas internacionais foram desviadas para Mitiga, o aeroporto militar de Trípoli. Não é a primeira vez que elementos descontentes da classe mais baixa da população de Trípoli empreendem ações contra os símbolos usados para propaganda da infraestrutura líbia. Mas a ação da Brigada Al-Awfea contra o Aeroporto Internacional de Trípoli é, até agora, de longe, a mais ousada e temerária. A Líbia atual prepara-se para as eleições nacionais de uma assembleia constituinte, em julho de 2012. As eleições foram adiadas, previstas como estavam para 19 de junho. O atraso indica o estado de confusão e desorganização do Conselho Nacional de Transição. Depois das eleições, a assembleia terá de indicar um primeiro-ministro, um gabinete e uma autoridade constituinte, que redigirá uma nova Constituição para a Líbia. Depois, a Constituição – que se teme que venha a ser fortemente influenciada por grupos ligados à Al Qaeda – será submetida a referendo popular e, se aprovada, haverá eleições gerais num prazo de seis meses, contados a partir do referendo. As próximas eleições gerais estão sendo saudadas como as primeiras eleições livres e justas na história da Líbia. Mas a junta governista - que não governa - não sabe como controlar um país onde a maioria da população está armada e só teme os bombardeios da OTAN. O Partido Justiça e Desenvolvimento, braço político da Fraternidade Muçulmana é o partido maior e mais bem organizado. Outros partidos parecem ter expressão apenas regional, como o Partido Verdade e Democracia de Benghazi ou o Congresso Líbio Amazigh, que tem formação de base étnica. A democracia ocidental é um presente de grego de Obama para o povo líbio. Na época de Kadafi o governo era uma Jamahiriya (Poder Popular). Os habitantes se reuniam em Congressos e Comitês Populares, e decidiam os destinos do país. O Livro Verde ensina que dar uma carta em branco para um político é algo temerário e absurdo porque “a representação é uma impostura”. O poder popular deve ser exercido e não transferido a um representante. Na Jamahirya não havia políticos, mas os Congressos e Comitês Populares podiam destituir e eleger ministros e administradores públicos a qualquer momento. Kadafi dedicou sua vida à construção de um país que não se dobrava às potências ocidentais. Obama dedica sua vida a fortalecer o complexo militar, petrolífero e bancário norte-americano, que estão destruindo o mundo com consumismo exagerado e extinção dos recursos naturais. Durante a guerra de ocupação da Líbia por potências ocidentais criminosas, que assassinaram mais de 200.000 líbios, Kadafi recebeu convites de diversos países para se exilar, e jamais aceitou nem considerou essa possibilidade. Lutou até o final, como um verdadeiro guerreiro, seguindo o exemplo de Omar Moukhtar, e como ele foi martirizado. O advogado das causas populares, Barak Hussein Obama, foi eleito presidente e traiu seus eleitores ao cumprir fielmente a agenda dos banqueiros, indústrias bélica e petroleira, para se manter no poder e usufruir dos privilégios inerentes ao cargo. Kadafi preferia as tendas árabes aos hotéis luxuosos do ocidente. Por todos esses motivos, um Kadafi vale por 100 Obamas. Kadafi é a resistência dos pequenos povos e países submetidos ao terrorismo estatal do imperialismo e das potências colonialistas. Obama é o retrato de um político profissional de um país que sobrevive explorando, roubando e saqueando os pequenos povos e países do mundo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Emiliano Zapata



Zapata nasceu no pequeno estado mexicano de Morelos, no vilarejo de San Miguel Anenecuilco. Naquele tempo o México era dominado pela ditadura de Porfirio Díaz, que ascendeu ao poder em 1876. A família de Zapata, apesar de não ser rica, mantinha-se independente. Nunca foi realmente ameaçada de pobreza, evitando a peonagem e mantendo sua própria terra (ranchero). Apesar de não ser indígena puro (tinha ancestrais espanhóis e era considerado, por isso, mestiço), Zapata rapidamente se envolveu nas lutas dos indígenas do estado de Morelos.
Por muitos anos Zapata manteve-se firme em campanha pelos direitos dos habitantes do vilarejo, primeiro através da recuperação de antigos títulos de propriedade, e depois pela pressão por atitudes sobre o governo de Morelos. Finalmente, desanimado com a falta de ações do governo e com os privilégios dados aos ricos fazendeiros, Zapata começou a fazer uso da força armada, simplesmente se apossando das terras em disputa.
Em 1910, as agitações finalmente decantaram na formação de bandos guerrilheiros. Zapata rapidamente assumiu um papel importante, tornando-se o general de um exército formado em Morelos. Porfirio Díaz foi derrubado por Madero em 1911, em grande parte devido as rebeliões promovidas pelos peões. Zapata liderava os camponeses do sul e Pancho Villa liderava-os no norte. Madero havia prometido a reforma agrária e eleições para presidente, contudo boa parte dessas promessas ficou no papel. Insatisfeito com as atitudes de Madero, Zapata não pode suportar a indicação para governador de um simpatizante dos grandes proprietários e mobilizou novamente seu exército de libertação.
Madero foi logo destituído por Victoriano Huerta, um antigo general porfirista, que deu anistia a Díaz e controlou as frentes indígenas em luta pela reforma agrária. A reação dos camponeses a esse governante aumentou consideravelmente as forças armadas de Zapata. A oposição a Huerta se consolidou com a entrada em cena de Venustiano Carranza, que liderou uma facção constitucionalista (o Exército Constitucionalista) que se aliou tanto a Villa quanto a Zapata. As forças unidas dos três se mostraram suficientes para derrubar Huerta, em julho de 1914.
Em 9 de abril de 1919 o general Jesús Guajardo convidou Zapata para um encontro, fingindo simpatizar com a causa zapatista. Quando Zapata o encontrou, entretanto, Guajardo disparou diversas vezes contra ele; a seguir, entregou o corpo do chefe revolucionário em troca da recompensa oferecida.
Após a morte de Emiliano Zapata, o Exército de Libertação do Sul começou a desintegrar-se, desaparecendo depois que uma rebelião comandada por Obregón depôs Carranza. As conquistas de Zapata no estado de Morelos foram aos poucos desaparecendo.
O legado de Zapata permanece vivo ainda hoje, particularmente entre os grupos revolucionários do sul do México. Disse ele uma vez: "É melhor morrer de pé do que viver de joelhos".

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dias para abalar o mundo


O movimento contra Mubarak toma proporções de revolução e muda os rumos do Oriente Médio

A escalada do movimento contra o regime de Hosni Mubarak cresceu das proporções de uma manifestação nacional de protesto, no “dia de fúria” de 25 de janeiro, para a de uma autêntica revolução, a partir da sexta-feira 28 – mesmo se ainda está em aberto se ela será vitoriosa e no que isso resultará.

O momento crucial, a “Queda da Bastilha”, foi quando a multidão saiu das mesquitas (e, em menor quantidade, das igrejas coptas) do Cairo, convergiu para a ponte Kasr al-Nil e tomou-a aos policiais que a defendiam com gás lacrimogêneo, jatos d’água e cassetetes, obrigando-os a recuar e deixar o povo ocupar a Meydan Tahrir (Praça da Libertação). Quartéis da polícia foram incendiados, primeiro em Suez, depois em outras grandes cidades.

O medo da repressão foi vencido e a mobilização explodiu. O anúncio do Exército de que não atiraria nos manifestantes ajudou-a a culminar na “marcha dos milhões” de 1º de fevereiro, que fez jus ao nome. Segundo a Al-Jazira, 2 milhões de fato saíram às ruas no Cairo, meio milhão em Alexandria e números proporcionalmente impressionantes em outras grandes cidades, de Damieta, extremo norte, a Assuã, no sul. No Sinai, os beduínos expulsaram as forças da repressão, tomaram cidades na fronteira de Gaza e ameaçaram atacar o Canal de Suez. Com anuência de Israel, o Egito enviou tropas para controlar a região, desmilitarizada desde o tratado de paz de 1979.

Na hora zero da sexta-feira, o governo egípcio cortou completamente a internet, medida sem precedentes no mundo. Nos momentos mais críticos, inclusive o 1º de fevereiro, tirou do ar também a telefonia celular e os principais satélites de comunicações. Levou demasiado a sério a “revolução pelo Twitter” alardeada pela mídia ocidental. O blecaute digital paralisou os bancos e a economia – até cartões de crédito e caixas automáticos deixaram de funcionar –, mas não afetou os protestos, não cortou a cobertura jornalística e prejudicou a imagem do regime. Assim como outras medidas mais convencionais: toque de recolher, cassação da licença da Al-Jazira e perseguição a jornalistas.

A mais perigosa foi retirar a polícia das ruas, a partir da derrota da sexta-feira. Se o regime esperava causar caos e pânico e levar a população a recolher-se e implorar pela restauração da ordem, o tiro saiu pela culatra. Depois dos primeiros saques, dos quais parecem ter participado agentes provocadores, o povo organizou comitês, armou-se de paus e facas, ergueu barricadas e fez cordões humanos para proteger suas casas e seus tesouros nacionais, inclusive o Museu Nacional (onde peças foram danificadas), a Biblioteca de Alexandria e o Vale dos Reis. Mostrou ao governo que pode dispensá-lo.

Aparentemente, houve desentendimentos entre o governo, o aparelho repressivo e os diferentes ramos das Forças Armadas, bem como entre Mubarak e seus aliados nos EUA, Europa e Israel. Correram boatos de que o Exército desacatou ordens de disparar nos manifestantes. Soldados e oficiais foram vistos confraternizando com populares e dizendo estar a seu lado.

O secretário-geral do governista Partido Nacional Democrático (pateticamente expulso, em 1º de fevereiro, da Internacional Socialista), o poderoso empresário siderúrgico Ahmed Ezz, foi destituído, enquanto seus escritórios e indústrias eram saqueados. Já o baixo clero dos políticos e empresários governistas pareceu mais agarrado ao poder que o próprio ditador, acusando os manifestantes de serem desordeiros, fundamentalistas ou espiões de Israel.

Em 25 de janeiro, Hillary Clinton dizia que “o governo egípcio é estável e procura meios de responder aos interesses legítimos do seu povo”, mas, depois da sexta-feira, o discurso mudou. A Casa Branca pressionou Mubarak, que, no sábado, trocou o primeiro-ministro Ahmed Nazif (tecnocrata neoliberal identificado com a plutocracia e com uma política econômica impopular) pelo ministro da Aeronáutica e marechal-do-ar Ahmed Shafik. Nomeou o diretor de inteligência Omar Suleiman para a Vice-Presidência, vaga há 29 anos, sinalizando que Gamal Mubarak, filho de Hosni, até então tido como sucessor, foi deserdado – um golpe nos políticos do PND em proveito dos militares.

A reforma do gabinete não satisfez os manifestantes e a aliança de oposições (partidos laicos, Fraternidade Muçulmana, sindicatos, estudantes) liderada pelo recém-retornado Mohamed El-Baradei, que continuaram a exigir a renúncia de Hosni. No domingo, o presidente Barack Obama, depois de telefonar aos líderes de Israel, Arábia Saudita, Turquia e Reino Unido, cobrou publicamente o fim da repressão e uma “transição ordeira”, pouco depois que Hillary Clinton havia dito que as medidas da véspera não bastavam, eram “mero começo”.

A Casa Branca não conseguiu agradar nem a gregos nem a troianos. A oposição egípcia não se satisfez e conservadores dos EUA e de Israel condenaram a “traição” de Obama ao velho ditador, que sinalizaria a outros autocratas do Oriente Médio que não podiam confiar no apoio estadunidense. Eytan Gilboa, cientista político israelense entrevistado pelo site Ynet, disse que Obama “já virou as costas a Israel uma vez, apunhalou Mubarak pelas costas e é hora de desenvolver relações com novas potências”, Índia e China – como se fosse concebível criar lobbies sionistas em Nova Délhi e Pequim.

No Reino Unido, enquanto o primeiro-ministro conservador David Cameron pareceu afinado com a Casa Branca ao pedir “transição ordeira”, Tony Blair defendeu Mubarak, chamando-o de “imensamente corajoso, uma força para o bem”, e advertindo contra “o que poderia emergir de eleições apressadas”. No mundo árabe, Mahmoud Abbas e o rei saudita, Abdullah, também ofereceram seu apoio ao ditador cambaleante.

Outros entenderam melhor: o líder do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, no poder há 32 anos, anunciou reformas e prometeu não se recandidatar, enquanto na Jordânia o rei Abdullah II demitia o primeiro-ministro. Mas o próprio Mubarak resistiu a mais concessões até o dia da “marcha do milhão”, durante o qual os EUA enviaram um emissário especial para repetir o recado. Só ao fim dessa noite reapareceu na tevê para avisar que não voltaria a se candidatar, mas permaneceria no cargo até as eleições gerais em setembro.

O anúncio satisfez, segundo jornalistas, alguns manifestantes, ansiosos por voltar à vida normal, mas não às principais forças de oposição, incluindo El-Baradei e a Fraternidade Islâmica. E o governo, ou parte dele, reagiu violentamente. Em 2 de fevereiro, violentos militantes pró-Mubarak irromperam na Praça Tahrir sem ser detidos ou incomodados pelo Exército, enfrentaram com cavalos, camelos, chicotes, navalhas, pedras e coquetéis molotov os manifestantes da oposição e espancaram e prenderam jornalistas. Parte deles era de policiais à paisana ou membros do PND – 120 foram capturados por populares, que exibiram a jornalistas suas identificações – outros seriam populares pagos por empresários governistas, a 200 libras egípcias por cabeça (34 dólares), principalmente entre guias turísticos das pirâmides, que as manifestações deixaram sem trabalho.

Tática desastrosa: uniu a oposição em vias de se dispersar e dividiu o governo. O papel da Fraternidade Islâmica visivelmente cresceu. O primeiro-ministro Shafik ameaçou renunciar e fez um pedido de desculpas em público, EUA e Europa se pronunciaram condenando a prisão de jornalistas e pedindo transição “rápida”: não dá mais para esperar até setembro.

A lógica dos EUA é clara: quanto mais Mubarak resistir, mais antiocidental será o regime que o suceder. Mas o tipo de transição que os EUA gostariam de garantir já não é um sonho? Mais de uma vez, um ditador longamente apoiado por Washington e derrubado por um movimento popular foi sucedido por um regime democrático amigável para com o Ocidente – por exemplo, a queda de Ferdinand Marcos, em 1986, e de Mohamed Suharto, em 1998. Mas, neste caso, é improvável que qualquer governo democraticamente eleito seja tão dócil aos EUA e a Israel quanto Mubarak. E não é impossível que seja hostil.

No Irã, a insurreição do Egito recebeu apoio tanto do governo conservador de Mahmoud Ahmadinejad quanto de Mir-Hossein Mousavi, o principal líder da oposição tida (indevidamente) como liberal. Os primeiros veem no movimento do Cairo uma repetição da revolução islâmica do Irã de 1979 e, os segundos, da “onda verde” do Irã de 2009. Nos EUA e em Israel, uma divergência similar de interpretação opõe conservadores e liberais, ainda que os primeiros, ao contrário de seus similares iranianos, considerem aterradora a perspectiva.

Qual análise é a mais realista? Em favor dos liberais, diga-se que as manifestações foram iniciadas por estudantes aparentemente laicos, que não se ouvem palavras de ordem fundamentalistas nos protestos contra Mubarak, que neles participam tanto muçulmanos quanto cristãos coptas e que os líderes da Fraternidade Islâmica têm sido cautelosos. Só apoiaram os protestos depois de iniciados e têm participado da coalizão da oposição liderada pelo líder laico Mohamed El-Baradei sem parecer pretender um papel dominante.

Há muito “parece” nesse parágrafo, e não sem razão. O olhar dos observadores ocidentais, principalmente os jornalistas, tende a dar um peso desproporcional a líderes, intelectuais, blogueiros e tuiteiros que sabem se expressar em inglês – que frequentemente são oposicionistas sinceros e até radicais, mas tendem a ser mais ocidentalizados e liberais que as massas e não necessariamente representam seu sentimento.

Sob a superfície, outras correntes podem ser mais poderosas. Uma pesquisa da Pew Research (instituição presidida por Madeleine Albright, ex-secretária de Estado de Bill Clinton), conduzida em maio de 2010 e publicada em dezembro do mesmo ano em sete países islâmicos, mostrou que a maioria dos muçulmanos egípcios tende ao islamismo político.

Os egípcios estão divididos 48% a 49% entre os que consideram o atual papel do Islã na política grande ou pequeno. Dos 48% que o julgam já “grande”, 95% acham isso bom. Dos que acham pequeno, 80% não estão satisfeitos com o quadro. Noves fora, 85% consideram positiva a influência do Islã na política – bem mais do que, por exemplo, no Paquistão (68%), Líbano (58%) ou Turquia (38%) – e só 2% a julgam ruim, menos que em qualquer outro país pesquisado, o que inclui Indonésia, Nigéria e Jordânia. Nada menos de 82% apoiam a punição do adultério com apedrejamento, 77% a punição do roubo com açoite ou amputação de mãos, 84% a pena de morte para a apostasia e 54% a segregação de homens e mulheres no local de trabalho, porcentagens sempre em primeiro ou segundo lugar entre os países pesquisados.

São 59% os que preferem a democracia a qualquer outro tipo de governo – uma maioria, mas inferior à de outros países, exceto Paquistão. Só 20% aplaudem a Al-Qae-da e 19% o Hezbollah, mas 49% simpatizam com o Hamas, que historicamente surgiu da Fraternidade Islâmica, a qual venceu pelo menos metade das eleições das quais Mubarak permitiu que participasse.

Os egípcios parecem tender a uma democracia islâmica e não liberal, e vale lembrar que, com todas as limitações, o Irã tem eleições mais reais que o Egito ou qualquer país árabe, exceto o Líbano. As semelhanças com o Irã também incluem a presença de uma considerável mão de obra feminina, de um movimento trabalhista significativo (e em boa parte islâmico, ainda que moderado) e uma forte identidade nacional.

Por outro lado, o Egito difere do Irã por uma minoria não muçulmana grande e influente: os coptas representam pelo menos 10% da população, com uma representação mais que proporcional nas classes média e alta, inclusive os artesãos e comerciantes do “bazar”, cuja hostilidade à modernização e à concorrência do capital ocidental foi decisiva em Teerã. No Egito, essa camada é mais ocidentalizada e dependente do turismo.

O islamismo sunita, predominante no Egito, não é necessariamente mais moderado que o xiita do Irã – Osama bin Laden e o Taleban que o digam –, mas é mais plural e menos hierarquizado, o que dificulta a estruturação de um regime teocrático. Mas que não haja um “aiatolá Khomeini” é uma meia-verdade: embora não tenha autoridade formal sobre o Islã ou a Fraternidade Islâmica, o teólogo egípcio Yusuf al-Qaradawi, exilado no Catar desde 1961, foi em 2008 classificado pela revista Foreign Policy como o terceiro intelectual mais influente no mundo. Não é o único líder religioso relevante, mas sua voz se fez ouvir sobre a dos demais, ao condenar o regime Mubarak e declarar haram (religiosamente proibida) a repressão aos manifestantes. Tem uma audiência de 40 milhões na Al-Jazira, é hostil a Israel e foi proibido de pisar nos EUA e no Reino Unido por elogiar o “martírio” dos homens-bomba palestinos.

Não que seja o único: para a diplomacia e a inteligência de Israel, só o “círculo interno” de Mubarak está comprometido com a paz. Não confiam em El-Baradei, visto pela imprensa ocidental como a esperança laica e democrática. Sua gestão na Agência Internacional de Energia Atômica, de 1997 a 2009, lhe rendeu o Nobel da Paz de 2005, mas também uma série de atritos com o Estado judeu, que culminou em 2007, quando acusou Tel-Aviv de violar a lei internacional ao bombardear as instalações nucleares da Síria e Ehud Olmert pediu sua demissão. El-Baradei também atacou a invasão do Iraque, criticou os exageros do Ocidente quanto à suposta ameaça nuclear do Irã e os diferentes pesos e medidas aplicados a Israel, que se recusa a aderir ao tratado de não proliferação, e que ele apontou como a maior ameaça à paz no Oriente Médio.

Mesmo que o resultado não seja uma teocracia nem uma declaração de guerra a Israel, a queda de Mubarak – se for mais que a farsa de uma substituição por um Suleiman ou Shafik – mudará a face da região. Depois de romper com a Turquia, Israel perderá seu último apoio na região, ficando mais isolado do que nunca. Seus navios e submarinos não mais poderão passar por Suez e o gás natural deixará de ser fornecido a preços camaradas. Pode ser também o fim definitivo das negociações por um Estado palestino independente, deixando Israel à deriva, em uma rota suicida.

Fonte: Carta Capital

terça-feira, 4 de maio de 2010

PRIMEIRO DE MAIO

por Rafael Huguenin

É possível compreender certas características de um povo por meio da observação de suas comemorações populares. Ou seja, ao observarmos como a população se comporta em certas datas simbólicas específicas, podemos compreender certas traços essenciais de sua natureza e do seu estado de espírito em determinado momento. São significativas, neste sentido, as comemorações do dia primeiro de maio pelo mundo. Em alguns países, por um lado, esta data é marcada por protestos, marchas, reivindicações e confronto. Já em outros países, por outro lado, a data é comemorada com festas, shows de artistas populares e diversão.

Ainda que seja cada vez mais comum esvaziar o caráter simbólico de certas datas, reduzindo-as a meros feriados, nos quais, em meio ao lazer e à diversão, pouco se pensa no que as datas em questão se propõem a homenagear, faz-se necessário pensá-las com veemência. Ou seja, devemos relembrar o que as datas comemoram e utilizá-las como ponto de partida para uma reflexão. Sendo assim, no dia primeiro de maio, data na qual se comemora o dia do trabalhador, devemos empregar pelo menos alguns minutos de nosso dia de feriado na reflexão sobre aquilo a que este dia se consagra. Pois bem, por que se comemora o dia do trabalho em primeiro de maio?

A instituição do primeiro de maio como o “dia do trabalhador” remonta aos fatos que ocorreram ao longo dos primeiros dias de maio de 1886 na cidade de Chicago, nos EUA. Reunidos em manifestação, milhares de trabalhadores reivindicavam a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias. Dois anos antes, a FOTLU (Federation of Organized Trades and Labor Unions of United States and Canada), uma federação que congregava diversas organizações sindicais dos EUA e do Canadá, emitiu uma resolução que instituía o dia primeiro de maio de 1886 como uma data a partir da qual jornadas de trabalho acima de oito horas não seriam mais toleradasi. Quando esta data chegou, ocorreram comícios e protestos nas principais cidades norte americanas. O centro de todo este movimento era a cidade de Chicago, cidade a partir da qual se coordenava uma greve geral.

No dia três de maio, a polícia de Chicago reprimiu com violência exagerada uma manifestação pacífica dos trabalhadores ainda em greve, resultando na morte de seis trabalhadores e diversos feridos. Indignados com este ato, que reprimiu com bestialidade um movimento até então pacífico, os trabalhadores foram novamente às ruas no dia seguinte, dia quatro de maio. Concentrados na praça Haymarket, os manifestantes protestavam pacificamente quando a polícia decidiu dispersar a multidão. Os ânimos se exaltaram. O povo, revoltado, reagiu. E o caos tomou conta do lugarii. Uma bomba foi atirada em direção às forças de repressão, resultando na morte imediata de dois policiais. Cinco outros morreram depois, vários deles vítimas de balas disparadas por seus próprios companheiros. Doze trabalhadores foram mortos e diversos foram feridos. Este acontecimento tornou-se conhecido como a Revolta de Haymarketiii. Em 1889, a Segunda Internacional Socialista, em homenagem aos mártires de Chicago, declara o dia primeiro de maio como o dia internacional do trabalho, dia no qual serão feitas reivindicações e marchas de trabalhadores organizados.

No Brasil, até pouco antes do início da era de Getúlio Vargas (1930-1945), o movimento operário, incipiente no país ainda pouco industrializado, celebrava o primeiro de maio como uma data de protestos e reivindicações. Ao longo do governo de Getúlio Vargas, no entanto, sob a égide ideológica de seu trabalhismo, o dia primeiro de maio se transforma gradualmente em um dia destinado a comemorar não exatamente o trabalhador e sua luta, mas simplesmente o trabalho. Apesar de sutil, esta mudança altera significativamente o caráter e a postura assumida pelos trabalhadores no primeiro de maio. Se, antes, era um dia comemorado com passeatas, protestos, reivindicações e até mesmo confrontos, depois passou gradualmente a ser um dia comemorado com festas populares, shows de artistas famosos ou simplesmente com o puro ócio. Esta tendência prossegue ainda em nossos dias, conforme ilustram a celebrações realizadas nas principais capitais do país.

Temos hoje, felizmente, a liberdade ao menos de escolher o que vamos fazer em nossos feriados. Gozamos até mesmo da liberdade de não pensarmos naquilo que o feriado se propõe a homenagear. Mas não convém esquecer que, se hoje temos certas conquistas, como a jornada de trabalho de oito horas e até mesmo feriados, devemos isso a certas pessoas que abriram mão de suas individualidades e colocaram suas vidas em risco nas ruas, nas barricadas e nos confrontos com a repressão. Devemos honrar os que lutaram – e os que continuam lutando – para que hoje possamos gozar até mesmo da liberdade de ignorá-los. Por isso, ainda que no Brasil, hoje, ao contrário do que ocorre nas principais cidades do mundo, o dia do trabalhador seja comemorado sobretudo por meio da diversão, não devemos esquecer o exemplo dos trabalhadores de Chicago que, pelo menos naquele primeiro de maio, não foram às ruas para dançar, mas para lutar.

NOTAS

i)Ver, a esse respeito, o texto intitulado "How May Day Became a Workers' Holiday". The Guide to Life, The Universe and Everything. Eis o trecho desta resolução: "(It is) Resolved ... that eight hours shall constitute a legal day's labor from and after May 1, 1886, and that we recommend to labor organizations throughout this district that they so direct their laws so as to conform to this resolution by the time named."

ii)Esta frase faz uma referência a um verso da música Reprecaos da banda paulista Vírus 27, faixa da coletânea Ataque Sonoro, lançada em 1985. Aliás, seria interessante realizar um estudo sobre os aspectos políticos presentes na letras e atitudes das bandas punks de São Paulo no início da década de oitenta, comparando-as com as letras e atitudes de outras bandas e artistas do mesmo período histórico.

iii)O verbete em língua inglesa sobre a Revolta de Haymarket da Wikipédia é bem detalhado, possuindo diversas referências bibliográficas.


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Rafael Huguenin
http://www.rafaelhuguenin.com

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pense no Haiti...

Os pecados do Haiti
por Eduardo Galeano

'Loteria', de Yordan Dabady.

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

'Cavalheiro bem apessoado', de Pierre Louis Riche.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilómetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

'A reunião', de Aland Estime.

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

'Lavadeiras', Watson Etienne. A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolíver, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete nave e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um génio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perdã por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Battisti


“CARTA ABERTA”
AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR
LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA
PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
SUPREMO MAGISTRADO DA NAÇÃO BRASILEIRA
AO POVO BRASILEIRO

*“Trinta anos mudam muitas coisas na vida dos homens, e às vezes fazem uma
vida toda”. (O homem em revolta - Albert Camus)*

Se olharmos um pouco nosso passado a partir de um ponto de vista histórico,
quantos entre nós, podem sinceramente dizer que nunca desejou afirmar a
própria humanidade, de desenvolvê-la em todos os seus aspectos em uma ampla
liberdade. Poucos. Pouquíssimos são os homens e mulheres de minha geração
que não sonharam com um mundo diferente, mais justo.

Entretanto, frequentemente, por pura curiosidade ou circunstâncias, somente
alguns decidiram lançar-se na luta, sacrificando a própria vida.

A minha história pessoal é notoriamente bastante conhecida para voltar de
novo sobre as relações da escolha que me levou à luta armada. Apenas sei que
éramos milhares, e que alguns morreram, outros estão presos, e muito
exilados.

Sabíamos que podia acabar assim. Quantos foram os exemplos de revolução que
faliram e que a história já nos havia revelado? Ainda assim, recomeçamos,
erramos e até perdemos. Não tudo! Os sonhos continuam!

Muitas conquistas sociais que hoje os italianos estão usufruindo foram
conquistadas graças ao sangue derramado por esses companheiros da utopia. Eu
sou fruto desses anos 70, assim como muitos outros aqui no Brasil, inclusive
muitos companheiros que hoje são responsáveis pelos destinos do povo
brasileiro. Eu na verdade não perdi nada, porque não lutei por algo que
podia levar comigo. Mas agora, detido aqui no Brasil não posso aceitar a
humilhação de ser tratado de criminoso comum.

Por isso, frente à surpreendente obstinação de alguns ministros do STF que
não querem ver o que era realmente a Itália dos anos 70, que me negam a
intenção de meus atos; que fecharam os olhos frente à total falta de provas
técnicas de minha culpabilidade referente aos quatro homicídios a mim
atribuídos; não reconhecem a revelia do meu julgamento; a prescrição e quem
sabem qual outro impedimento à extradição.

Além de tudo, é surpreendente e absurdo, que a Itália tenha me condenado por
ativismo político e no Brasil alguns poucos teimam em me extraditar com base
em envolvimento em crime comum. É um absurdo, principalmente por ter
recebido do Governo Brasileiro a condição de refugiado, decisão à qual serei
eternamente grato.

E frente ao fato das enormes dificuldades de ganhar essa batalha contra o
poderoso governo italiano, o qual usou de todos os argumentos, ferramentas e
armas, não me resta outra alternativa a não ser desde agora entrar em “GREVE
DE FOME TOTAL”, com o objetivo de que me sejam concedidos os direitos
estabelecidos no estatuto do refugiado e preso político. Espero com isso
impedir, num último ato de desespero, esta extradição, que para mim equivale
a uma pena de morte.

*Sempre lutei pela vida*, mas se é para morrer, eu estou pronto, mas, nunca
pela mão dos meus carrascos. Aqui neste país, no Brasil, continuarei minha
luta até o fim, e, embora cansado, jamais vou desistir de lutar pela
verdade. A verdade que alguns insistem em não querer ver, e este é o pior
dos cegos, aquele que não quer ver.

Findo esta carta, agradecendo aos companheiros que desde o início da minha
luta jamais me abandonaram e da mesma forma agradeço àqueles que chegaram de
última hora, mas, que têm a mesma importância daqueles que estão ao meu lado
desde o princípio de tudo. A vocês os meus sinceros agradecimentos. E como
última sugestão eu recomendo que vocês continuem lutando pelos seus ideais,
pelas suas convicções. Vale a pena!

Espero que o legado daqueles que tombaram no front da batalha não fique em
vão. Podemos até perder uma batalha, mas tenho convicção de que a vitória
nesta guerra está reservada aos que lutam pela generosa causa da justiça e
da liberdade.

P.S - Como última sugestão eu recomendo que vocês continuem lutando pelos seus
ideais, pelas suas convicções. Vale a pena!*

*Por Cesare Battisti*

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

20 anos da Queda do Muro - uma análise sóbria


Para não ficarmos só com a opnião nada isenta do jornalismo da Globo, Folha de São Paulo, Veja e afins (o chamado P.I.G), vejamos a brilhante análise dessa data histórica.

No vigésimo aniversário de 1989 os ideólogos, políticos e a mídia do
capitalismo mundial desejam reforçar na consciência popular que os
eventos daquele tumultuoso ano significam apenas uma coisa: a “derrota
final” do marxismo, do “comunismo” e do próprio socialismo, enterrados
para sempre sob o entulho do Muro de Berlim. Eles também significam a
vitória final do capitalismo, que “encerrou a história” de acordo com
Francis Fukuyama, e estabeleceram esse sistema como o único modelo
possível de organização da produção e gestão da sociedade.



Um paradigma econômico, que aboliria até mesmo os ciclos de
crescimento e queda do capitalismo, estabelecera uma escada dourada que
levaria a uma existência cada vez mais humana, justa e civilizada. A
crise econômica da primeira metade dessa década, acompanhada pelas
guerras do Iraque e Afeganistão, afetou severamente esse prognóstico. A
atual e devastadora “grande recessão” o desacreditou totalmente. Além
disso, foi o marxismo – como os membros e apoiadores do Partido
Socialista e de seu jornal – que previu isso. Mas nós deveríamos ter
sido relegados às margens, destinados a nunca mais exercermos qualquer
influência.

O resultado dos momentosos eventos de 1989 foi de fato uma
‘revolução’, mas uma contra-revolução social, que resultou no final na
liquidação do que restava das economias planejadas da Rússia e Leste
Europeu. Mas esse movimento, que varreu um país a outro, não começou
com esse objetivo, especialmente por parte das massas. Nem os
capitalistas – através de seus representantes como a primeira-ministra
britânica Margaret Thatcher e o presidente francês François Mitterrand
– esperavam ou, no início, saudaram de todo o coração os movimentos de
massas que acompanharam o colapso dos regimes stalinistas.

O brutal órgão do capital financeiro americano, o Wall Street
Journal, comentando a competição entre o capitalismo e os regimes
“comunistas” do Leste Europeu, declarou simplesmente no início de 1990:
“Nós ganhamos”. Um não menos exultante Independent (8 de janeiro de
1990) falava da “confiança de que – como sistema – o capitalismo é um
vencedor”. A impressão dada desde então é que os adivinhos olímpicos do
capitalismo previram os eventos de 1989. Mas o Financial Times – o
porta-voz do capital financeiro na época e agora – escreveu: “A
Alemanha Oriental ainda não possui nenhum movimento de massas no
horizonte, a liderança da Tchecoslováquia não pode permitir o
questionamento da fonte de sua legitimidade na invasão soviética de
1968, a Hungria enfrenta dissidentes, mas ainda não é um proletariado
em ascensão. A Bulgária introduzirá reformas ao estilo soviético, mas
sem o caos ou a democracia imatura soviética, a Romênia e a Albânia
estão encerradas em aço”. Isso foi escrito por John Lloyd, que antes
era do New Statesman, não três décadas antes, mas em 14 de outubro de
1989, menos de um mês antes do colapso do Muro de Berlim!



Entendendo o stalinismo
Mitigando esse “lapso” nas “perspectivas”, o finado Hugo Young
escreveu no jornal The Guardian (29 de dezembro de 1989) que “ninguém
jamais previu” os momentosos eventos daquele ano. Isso não é verdade.
Foi precisamente o teórico marxista Leon Trotsky, com seus métodos
“antediluvianos”, que mais de meio século atrás previu a inevitável
revolta da classe trabalhadora contra o stalinismo (naquela época
confinado à “União Soviética”). Ele previu um movimento de massas para
derrubar os usurpadores burocráticos que controlavam o estado e uma
revolução política para estabelecer a democracia dos trabalhadores. Mas
ele também escreveu nos anos 1930, em sua obra monumental, A Revolução
Traída, que uma ala da burocracia poderia presidir um retorno ao
capitalismo.

Essa idéia não foi tirada da cabeça de Trotsky mas se baseou em uma
meticulosa análise das contradições do desgoverno stalinista e das
forças que ele inevitavelmente iria conjurar. Karl Marx pontuou que a
chave para a História era o desenvolvimento das forças produtivas –
ciência, técnica e a organização do trabalho. Ele também disse que
nenhum sistema desaparece sem esgotar todas as possibilidades latentes
dentro dele. O capitalismo, um sistema econômico baseado na produção
pelo lucro – o trabalho não pago da classe trabalhadora – como sua
razão de ser, ao invés da necessidade social, enfrenta um ciclo de
crescimento e queda, que até Gordon Brown agora é forçado a reconhecer.
Mas, como Trotsky analisou, o stalinismo – por razões diferentes do
capitalismo – ao exercer uma camisa de força burocrática, se tornaria
um freio absoluto ao desenvolvimento econômico da sociedade em uma
certa etapa.

No período que vai provavelmente até o fim dos anos 1970, apesar das
monstruosidades de Stalin e do regime que ele presidiu – os processos
de expurgo, o trabalho escravo dos gulags – a indústria e a sociedade
se desenvolveram. Nesta etapa, apesar dos custos colossais do
desgoverno burocrático, o stalinismo jogou um papel relativamente
progressista. Há algumas analogias com o capitalismo em sua ascensão no
século 19 até 1914, quando ele se tornou uma barreira ao progresso,
como mostraram os horrores da primeira guerra mundial. Face à
estagnação, regressão e até desintegração, que é o que ocorreu nos
estados stalinistas – especialmente na Rússia a partir do final dos
anos 1970 – os regimes foram de um expediente a outro. Eles se moveram
da centralização à descentralização, e depois para a recentralização,
em vãs tentativas de escapar do beco sem saída burocrático.

Os métodos do governo burocrático, do comandismo, poderiam ter algum
efeito quando a tarefa na Rússia era copiar as técnicas industriais do
Ocidente, desenvolver uma infraestrutura industrial etc., e quando o
nível cultural da massa da classe trabalhadora e do campesinato ainda
era baixo. Mas nos anos 1970 a Rússia se tornou altamente
industrializada e, mesmo que algumas afirmações de sucesso fossem
exageradas, um rival industrial dos EUA. Em uma etapa, ela produziu
mais cientistas e técnicos do que até mesmo os EUA. Mas a própria
criação de uma força de trabalho culturalmente mais avançada –
altamente educada em alguns sentidos – fez com que o governo da cúpula
entrasse em colisão com as necessidades da industria e da sociedade. Os
preços para milhões de mercadorias, por exemplo, eram fixados
burocraticamente nos ministérios centrais em Moscou, enquanto o regime
se tornava cada vez mais um obstáculo. O descontentamento das massas
cresceu e se refletiu não apenas nas tentativas de revolução política
na Hungria em 1956, Polônia, Tchecoslováquia em 1968 etc., mas também
na Rússia. As greves de 1962 em Novocherkassk, por exemplo, mostraram o
perigo que ameaçava a continuidade do governo da burocracia.



Levantando a tampa
Foi essa situação que Mikhail Gorbachev, que chegou ao poder na
União Soviética representando uma ala mais ‘liberal’ da burocracia,
empenhou-se em mitigar através da perestroika (reestruturando a
política e a economia) e da glasnost (abertura). Nos relatos históricos
subsequentes, Gorbachev tornou-se a figura que presidiu o retorno ao
capitalismo na Rússia e a liquidação da antiga URSS. Contudo, ele não
começou com essa intenção. Como todas as classes ou elites dominantes,
e na tradição dos antigos dirigentes burocráticos, de Stalin em diante,
sentindo os murmúrios e descontentamento em massa vindos de baixo,
Gorbachev tentou desesperadamente introduzir reformas como um meio de
impedir a revolução. Inevitavelmente, uma minúscula abertura da panela
de pressão produz o resultado da revolta em massas que ela pretendia
evitar.

Ao comentar 1989, os representantes capitalistas abandonaram sua
hesitação usual de até mesmo proferir a palavra “revolução”. Isso
contrasta com sua descrição – repetida ad nauseam, especialmente na
recente biografia de Trotsky por Robert Service – da Revolução de
Outubro na Rússia de 1917 como um “golpe”. Ao descrever 1989 como uma
revolução, eles estão pelo menos meio corretos. Houve o início de uma
revolução – para ser mais preciso, elementos de uma revolução política
– na Alemanha Oriental, Romênia, Tchecoslováquia, China com os eventos
da Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), e mesmo na própria Rússia,
embora com um movimento de massas que não alcançou as mesmas alturas.
Em todos esses países houve inicialmente uma inquestionável expressão
por reformas democráticas dentro do sistema, uma aceitação implícita da
continuidade da economia planificada. Esse movimento varreu os países
com uma tremenda velocidade, como fogo na pradaria. Um cartaz em Praga
na época dizia: “Polônia – 10 anos. Hungria – 10 meses. Alemanha
Oriental – 10 semanas. Tchecoslováquia – 10 dias. Romênia! 10 horas”.

Além disso, os métodos usados para derrubar os regimes stalinistas
foram manifestações em massa e greves gerais – não os métodos usuais da
contra-revolução burguesa – com demandas que tinham como objetivo
reduzir ou abolir os privilégios da burocracia. Em uma das muitas
reportagens do Militant (predecessor do The Socialist) antes do colapso
do regime stalinista na Alemanha Oriental, a demanda por democracia era
evidente. Em 24 de outubro, nós reportamos: “Alguns milhares de jovens
marchavam pelas ruas. Eles foram bloqueados por fileiras policiais, com
os braços entrelaçados. Os jovens marcharam até eles e começaram a
cantar: ‘Vocês são a polícia do povo. Nós somos o povo. Quem vocês
estão protegendo?’ Eles cantaram a Internacional e então começaram uma
canção das lutas contra o fascismo chamada ‘A Frente Unida dos
Trabalhadores’. Suas palavras tiveram um particular efeito sobre a
polícia: ‘Vocês também pertencem à frente unida dos trabalhadores, pois
vocês também são trabalhadores’. A polícia simplesmente ficou parada e
foi varrida de lado enquanto os jovens iam adiante. Nos bares, tropas
de soldados discutiam abertamente com os trabalhadores e jovens. Um
grupo discutia a perspectiva do regimento receber ordens de atirar nos
manifestantes. Um conscrito exclamou: ‘Eles podem ordenar, mas nós
nunca atiraremos no povo. Se eles fizerem isso vamos voltar as armas
contra os oficiais’.”

Na Rússia apareceram cartazes: ‘Não o povo para o socialismo, mas o
socialismo para o povo; abaixo os privilégios especiais para políticos
e burocratas, os servos do povo devem ter de ficar nas filas”. Nesta
etapa, uma pesquisa de opinião na Rússia mostrou que apenas 3% votariam
em um partido capitalista nas eleições multipartidárias. Os
representantes sérios do capitalismo temiam que as demandas por uma
revolução política tomariam precedência sobre o sentimento
pro-capitalista que sem dúvida existia em algumas camadas. Um, talvez
dois milhões de trabalhadores estavam nas ruas de Beijing, com meio
milhão saudando Gorbachev em maio. Depois da sangrenta supressão da
Tiananmen, o antigo primeiro-ministro conservador britânico Edward
Heath apareceu na TV ao lado de Henry Kissinger, o notório braço
direito do presidente Nixon nos bombardeios do Vietnã e do Camboja.
Heath declarou: “Os estudantes e trabalhadores chineses não estavam
atrás do tipo de democracia que defendemos... eles estavam cantando a
Internacional”. Kissinger queixou-se de era “uma pena” que o movimento
de massas tivesse manchado o fim da carreira do líder chinês Deng
Xiao-Ping.

Para o registro, ambos se opunham ao derramamento de sangue. Mas
mais importante para eles era a manutenção das relações comerciais com
a burocracia chinesa. De forma nauseante, o deputado trabalhista de
direita Gerald Kaufman – famoso recentemente pelo seu envolvimento nos
escândalos das despesas indevidas de deputados – então porta-voz
trabalhista de assuntos internacionais, declarou: “Pode-se entender que
o governo chinês quisesse retomar o controle da praça, embora ele tenha
ido exageradamente longe demais para isso”.



Alarme no Ocidente
Thatcher também expressou alarme com os eventos no Leste Europeu,
especialmente com a perspectiva da reunificação alemã após o colapso do
Muro de Berlim. Documentos recentemente contrabandeados da Rússia e
publicados no The Times em setembro mencionam que Thatcher “dois meses
antes da queda do muro… disse ao presidente Gorbachev que nem a
Grã-Bretanha nem a Europa Ocidental queriam a reunificação da Alemanha
e deixou claro que ela queria que o líder soviético fizesse o que
pudesse para detê-la”. Ela declarou: “Não queremos uma Alemanha unida…
Isso levaria a uma mudança nas fronteiras do pós-guerra, e não podemos
permitir isso porque tal acontecimento minaria a estabilidade de toda a
situação internacional e colocaria em risco nossa segurança”.

Em uma reunião com Gorbachev ela insistiu que a gravação fosse
desligada. Infelizmente para ela, foram feitas notas de seus
comentários. Ele não se importava com o que estava acontecendo na
Polônia, onde o Partido Comunista foi derrotado na primeira eleição
aberta no Leste Europeu desde a tomada stalinista, “apenas algumas das
mudanças na Europa Oriental”. Incrivelmente, especialmente com as
subsequentes declarações belicosas do presidente dos EUA George Bush
pai sobre o Pacto de Varsóvia, ela queria que ele “continuasse
existindo”. Ela expressou especialmente sua “profunda preocupação” com
o que acontecia na Alemanha Oriental.

Mitterrand também estava alarmado com a perspectiva da reunificação
alemã e até mesmo considerou uma aliança militar com a Rússia para
“impedi-la”. Ele estava preparado para camuflar isso como “uso conjunto
dos exércitos para combater desastres naturais”, usado, de fato, como
um alerta casa as massas da Alemanha Oriental fossem longe demais. De
um lado, a posição de Thatcher e Mitterrand expressavam o medo de um
capitalismo alemão fortalecido, mas também de que as repercussões
destes eventos pudessem acionar um incontrolável movimento de massas na
Europa Ocidental e outros lugares. Um dos conselheiros de Mitterrand,
Jacques Attali, até mesmo disse que ele “iria viver em Marte se a
unificação [alemã] ocorresse”. Thatcher escreveu em suas memórias: “Se
há um exemplo no qual a política externa que eu conduzi encontrou um
fracasso explícito, foi minha política sobre a reunificação alemã”.

Gorbachev e seu séquito do Kremlin, embora lisonjeados com os
louvores dirigidos a eles por círculos capitalistas ocidentais, estavam
em pânico com o ritmo e a sequência dos eventos na Europa Oriental.
Gorbachev ingenuamente acreditava que com concessões parciais e a
recusa de sustentar os dinossauros stalinistas na Alemanha Oriental
(ele pensava que Erich Honecker, o intransigente autocrata deste país,
era um ‘idiota”), as massas seriam gratas e satisfeitas. Gorbachev não
tinha intenções, no início, de ‘liberalizar’ o stalinismo da
existência. Ele certamente não tinha intenções declaradas de
desencadear o capitalismo. Mas, como o resto dos regimes stalinistas,
ele foi arrastado pelos eventos. Não foram apenas Honecker, os
Ceaucescus na Romênia, as gangues stalinistas dirigentes na Bulgária e
em outros lugares que foram derrubados. Eventualmente, os movimentos no
Leste Europeu – na “periferia” do stalinismo – se espalharam para o
coração russo. O resultado final foi o retorno ao capitalismo na Europa
Oriental e na própria Rússia.



A restauração capitalista era inevitável?
Esse resultado era inevitável? Não há “inevitabilidade” na história
se, quando as condições para a revolução estiverem maduras, o “fator
subjetivo” estiver presente na forma de uma direção e partidos
revolucionários testados e temperados. Isso claramente faltava em todos
os estados stalinistas, especialmente na própria Rússia. Havia uma
repulsa generalizada com o governo desenfreado da burocracia, e também
demandas para reduzir os privilégios e a corrupção em larga escala.
Havia um anseio e uma busca das massas pelo programa da democracia dos
trabalhadores em todos os estados. Além disso, os eventos estavam sendo
feitos nas ruas, nas fábricas e nos locais de trabalho. Anteriormente,
os marxistas esperavam e acreditavam que era possível, logo após uma
revolta em massa, mesmo com um número limitado de quadros marxistas, a
criação de um partido de massas. Então, com a direção necessária, isso
poderia ajudar as massas a implementarem as tarefas da revolução
política: mantendo a economia planificada mas renovando-a com base na
democracia dos trabalhadores. Mas eles trabalhavam em sua maioria no
escuro, sem raízes ou uma presença real nos estados stalinistas. Dado a
presença de “estados fortes” de caráter totalitário no período que
levou direto aos eventos de 1989, um trabalho de massas sério era
problemático.

A situação era um pouco diferente na Polônia, onde pronunciadas
tendências pró-capitalistas estavam evidentes por todos os anos 1980,
especialmente após o fracasso do movimento Solidariedade de 1980-81.
Naquela época, os elementos de uma revolução política existiam até
mesmo no programa do Solidariedade, embora sob a direção de Lech Walesa
ele estivesse sob o signo da religião, da Igreja Católica. Já
coexistindo ao lado desses elementos havia sentimentos
pró-capitalistas. O esmagamento militar do movimento Solidariedade em
1981 foi realizado não pelo Partido “Comunista” Polonês – cuja
autoridade já tinha evaporado completamente – mas pelo regime
militar-bonapartista stalinista do General Jaruzelski. Isso, aliado ao
crescimento econômico do capitalismo dos ano 1980, empurrou para o
último plano a esperança da democracia dos trabalhadores e da
manutenção da economia planificada. O sentimento das massas se voltou
para outras alternativas, especialmente o retorno ao capitalismo,
revelado durante as visitas de Thatcher e Bush à Polônia em 1988. Eles
receberam uma enorme saudação nas ruas de Varsóvia, com as massas,
ingenuamente como foi revelado, esperando melhores resultados, em
termos de maiores padrões de vida, do que os do desacreditado modelo
stalinista desabando ao seu redor.

Esse processo não foi tão pronunciado em outros lugares, certamente
não na Rússia. Lá, a esperança de uma revolução política não se
extinguiu inteiramente entre os marxistas da Rússia e
internacionalmente, mesmo com os eventos na Polônia. Afinal, a revolta
do povo húngaro em 1956 foi acompanhado pela criação de conselhos de
trabalhadores no modelo da Revolução Russa. Isso depois que as massas
foram mantidas na noite escura dos 20 anos do terror fascista de
Horthy, seguidos pelos dez anos do terror stalinista. Não havia uma
tendência dominante pró-retorno ao capitalismo em 1956. O mesmo era
verdade na Polônia no mesmo ano, em 1970 e 1980-81. Em 1968 na
Tchecoslováquia havia forças que defendiam o retorno ao capitalismo,
mas elas estavam em minoria, com a esmagadora maioria das massas
buscando as idéias de democracia dos trabalhadores, resumidas na frase
do primeiro-ministro Alexander Dubcek, “Socialismo com face humana”.

O esmagamento da “Primavera” tchecoslovaca de 1968 – antes que
pudesse florescer no verão de uma revolução política – desferiu um
golpe pesado na perspectiva de uma democracia dos trabalhadores como
uma saída do impasse do stalinismo moribundo. A História não fica
parada; a agonia de morte do stalinismo por mais de uma década,
combinada com os aparentes fogos de artifício econômicos do boom
capitalista mundial dos anos 1980, geraram a ilusão de que o sistema
“do outro lado do muro”, o capitalismo ocidental, oferecia um modelo
melhor para o progresso do que o sistema frustrante da Europa Oriental
e da Rússia.


Por que a resistência limitada?
Uma das questões mais perturbadoras que confrontam os marxistas
desde então foi a pouca resistência aparente entre as massas da
população quando a Rússia tomou passos na direção do capitalismo.
Contudo, uma resposta a esse enigma pode ser encontrada na história do
stalinismo, especialmente nas diferentes fases pelas quais ele passou.
Em particular, os processos de expurgo organizados por Stalin em
1936-38 representaram um ponto de inflexão decisivo. Ao aniquilar os
últimos remanescentes do Partido Bolchevique – destruindo até
capituladores como Zinoviev e Kamenev – Stalin esperava anular a
memória da classe trabalhadora da URSS. Até então, duas gerações ainda
estavam ligadas à Revolução Russa e seus ganhos, na forma da
nacionalização das forças produtivas e de um plano de produção.

Além disso, havia um apoio generalizado entre as camadas
desenvolvidas da classe trabalhadora internacional para as vantagens e
principais conquistas da Revolução Russa. Isso apesar do fato de que,
já na Rússia nos anos 1930, como Trotsky pontuou, havia uma crítica
generalizada do regime burocrático presidido por Stalin. O advento da
revolução espanhola também teve um efeito eletrizante na Rússia, ao
gerar esperanças do triunfo da revolução mundial e agitar a memória do
que aconteceu na Rússia duas décadas antes. Stalin, portanto, conduziu
uma “guerra civil unilateral” para destruir os últimos vestígios do
Partido Bolchevique. Mas os expurgos foram muito mais longe do que
isso. Ele também usou a situação – no processo vilificando Trotsky e a
Oposição de Esquerda Internacional como agentes da contra-revolução
estrangeira na URSS – para eliminar na burocracia todas as
reminiscências ligadas à memória da revolução. Não foram apenas os
Oposicionistas de Esquerda que foram assassinados, mas centenas de
milhares de trabalhadores e camponeses, incluindo setores
significativos da burocracia. Por meio desses métodos bárbaros, Stalin
construiu uma máquina burocrática que não estava ligada de nenhuma
maneira com o período heróico da Revolução de Outubro. Pessoas como
Nikita Khrushchev, Yuri Andropov e o outros que dominaram o estado nas
próximas décadas não participaram da clandestinidade bolchevique ou na
revolução de Outubro e, em certo sentido, “não tinham história”,
certamente não a rica história revolucionária da Rússia. Todos os
elementos críticos dentro da classe trabalhadora também foram
eliminados nesta etapa.

Apesar dos monstruosos crimes do stalinismo – incluindo a execução
dos altos comandantes militares do Exército Vermelho, o que facilitou a
invasão de Hitler em 1941 – as vantagens da economia planificada ainda
eram presentes. Além disso, o capitalismo estava assolado por crises,
com o desemprego em massa da grande depressão dos anos 1930. Como
Trotsky pontuou, havia uma oposição de massas ao stalinismo, mas a mão
da classe trabalhadora absteve-se de derrubar o regime por uma
combinação de fatores. Não menor era o medo de que um movimento contra
Stalin e a burocracia abriria as portas para a contra-revolução
capitalista. Ao mesmo tempo, a indústria e a sociedade em termos
bastante gerais – e em certa medida os padrões de vida das massas –
continuavam avançando apesar da burocracia.

A morte de Stalin, contudo, levou às revelações de Khrushchev no 20º
congresso do Partido Comunista da União Soviética e ao chamado
“degelo”. Khrushchev denunciou Stalin e alguns de seus crimes, mas, na
realidade, apenas doses “admissíveis” de algumas verdades foram
permitidas. Mesmo essas verdades parciais misturadas com mentiras não
tocavam nos mitos e falsificações stalinistas. Khrushchev temia ir
longe demais e os líderes stalinistas russos como Leonid Brejnev, que
derrubaram Khrushchev, proibiram quaisquer novas “revelações” reais dos
crimes de Stalin e das causas do próprio stalinismo. Depois, eles até
mesmo aceitaram sua reabilitação parcial. Portanto, à medida que o
sistema começou a se despedaçar, não existia na Rússia nenhuma
alternativa marxista real, sem falar de uma consciência de massas
desenvolvida que apresentasse um programa de democracia dos
trabalhadores.

Teria sido inteiramente possível na época do colapso do stalinismo,
desde o final dos anos 1980, apresentar um quadro claro das razões dos
expurgos, os processos, as causas do stalinismo e a alternativa a esse
sistema desacreditado. Mas, ironicamente, os expurgos e a máquina
repressora dizimaram qualquer “fator subjetivo” que pudesse se
desenvolver e jogar um papel decisivo. Contudo, seria um erro concluir
que não havia elementos na Rússia que buscassem um programa de
democracia dos trabalhadores. Mas estes eram muito fracos para conter a
atração do ocidente capitalista, especialmente para uma nova geração
completamente despreparada, seduzida pela aparente abundância dos bens
de consumo que foram levados a acreditar que estavam lá para quem
quisesse.



Capitalismo gangster
O retorno do capitalismo barrou qualquer tentativa de investigar
honestamente as raízes e razões do stalinismo, na preparação para a
restauração da economia planificada com base na democracia dos
trabalhadores. Os poucos que tentavam eram esmagados por uma onda da
maliciosa propaganda anticomunista dos chamados jornais “democráticos”
a serviço da burguesia emergente. Eles eram o espelho burguês da escola
stalinista de falsificação. O totalitarismo stalinista, diziam, surgiu
do caráter “criminoso” do bolchevismo; a revolução russa foi um “golpe”
etc.

O que se seguiu foi uma orgia de propaganda capitalista que inundou
a Rússia pós-1989, acompanhada pelas promessas do que o então chanceler
alemão Helmut Kohl previu “paisagens florescentes” em um mundo
pós-stalinista. Na estrada do retorno ao capitalismo, as massas nestes
estados eventualmente chegariam aos padrões de vida alemães, se não
americanos. “Passando por Bangladesh”, replicava o pequeno bando de
marxistas na Europa Oriental. No melhor, o que se poderia esperar para
a classe trabalhadora da Rússia e Leste Europeu, dizíamos, era talvez
que ela afundaria nos padrões de vida latino-americanos. Isso, temos
que confessar hoje, era uma perspectiva desesperadamente otimista. A
Rússia experimentou um colapso sem precedentes em suas forças
produtivas que excedia em alcance e profundidade a grande depressão dos
anos 1930.

Entre 1989-98 quase metade (45%) de sua produção foi perdida. Isso
foi acompanhado por uma desintegração sem precedentes em toda a antiga
URSS nos elementos básicos de uma sociedade “civilizada”, com as taxas
de homicídio e crimes dobrando. Em meados dos anos 1990 a taxa de
assassinatos era de mais de 30 por 100.000 pessoas, contra um ou dois
na Europa Ocidental. Apenas dois países na época tinham taxas mais
altas: África do Sul e Colômbia. Mesmo no Brasil e México, com alta
criminalidade, os dados eram 50% mais baixos do que a Rússia. A taxa de
homicídios dos EUA, o mais alto no mundo “desenvolvido”, de 6-7 por
100.000, não era nada em comparação. Em 2000, um terço da população
russa vivia abaixo da linha da pobreza oficialmente definida. A
desigualdade triplicou.

A taxa de homicídios foi um produto e um sintoma do irrefreável
capitalismo gangster. Ex-membros da Liga da Juventude Comunista, como o
proprietário do Chelsea Futebol Clube, Roman Abramovitch, apoderaram-se
da parte lucrativa das antigas empresas estatais – como as do petróleo
– para si mesmos. Um tiroteio ao estilo dos gangsteres de Chicago nos
anos 20 a uma escala nacional ou mesmo continental ocorreu entre os
diferentes grupos sobre a divisão do bolo estatal. A economia russa foi
efetivamente partida ao meio por causa da destruição forjada pelo
retorno ao capitalismo. As rendas reais nos anos 1990 afundaram em 40%.
Em meados do fim dos 1990 mais de 44 milhões das 148 milhões de pessoas
da Rússia viviam na pobreza – definida como menos de 32 dólares por
mês. Três quartos da população viviam com menos de 100 dólares por mês.
Os suicídios dobraram e as mortos por excesso de álcool triplicaram em
meados dos 1990. A mortalidade infantil caiu a níveis de terceiro mundo
enquanto a taxa de natalidade colapsou. Em meros cinco anos de
“reforma”, a expectativa de vida das mulheres caiu em dois anos para
72, e em quatro anos para 58 entre homens. Incrivelmente, para os
homens isso era mais baixo do que há um século antes! Se a taxa de
homicídios tivesse continuado, a população russa teria colapsado em um
milhão por ano, caindo para 123 milhões, um colapso demográfico não
visto desde a segunda guerra mundial, quando a Rússia perdeu de 25 a 30
milhões de pessoas. No fim de 1998 pelo menos dois milhões de crianças
russas estavam órfãs – mais do que em 1945. Apenas 650.000 viviam em
orfanatos, enquanto o resto dessas infelizes crianças não tinham lar!

A nova burguesia, no que foi descrito como um infernal e irrefreável
saqueio, de fato roubou tudo o que podia agarrar. Ela saqueou a riqueza
e os recursos naturais da nação, vendeu o ouro, os diamantes o petróleo
e o gás estatais. Os horrores da revolução industrial – o nascimento do
capitalismo moderno – descrito graficamente no Capital de Marx – não
foram nada comparados com os monstruosos crimes com que a nova
burguesia russa celebrou sua entrada no mundo. Esse inferno na Terra
diminuiu um pouco no fim dos anos 1990 com o crescimento da renda
nacional abastecido principalmente pela exportação de petróleo e gás,
amparado no boom capitalista mundial que agora chegou ao fim.
Politicamente, o caos dos anos 1990 foi substituído pela “ordem” de
Vladimir Putin e Dmitri Medvedev. Mas a Rússia ainda não alcançou, na
produção manufatureira pelo menos, o nível de 1989-90. Essa é um
devastador veredicto ao “renascimento” do capitalismo na Rússia.
Comparada com a criança saudável e robusta da revolução industrial no
nascimento do capitalismo, a Rússia moderna ainda está lutando para
respirar, sem falar de caminhar e correr. As massas de todos os
ex-estados stalinistas carregam um terrível fardo com o retorno do
capitalismo.



Consequências de longo alcance
A classe trabalhadora internacional também pagou um preço pesado. O
colapso desencadeado em 1989 não foi apenas do aparato stalinista mas,
com ele, das economias planificadas, o principal ganho herdado da
própria Revolução Russa. A contra-revolução social que fez a roda da
história voltar atrás nestes estados também mudou decisivamente as
relações mundiais por um período. Sozinho entre os marxistas, o Comitê
por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT) reconheceu o que esse
reverso representava. Foi uma derrota histórica para a classe
trabalhadora. Antes disso um modelo alternativo para a gestão da
economia – apesar das monstruosas distorções do stalinismo – existia na
Rússia, Leste Europeu e, em certo sentido, também a China. Isso agora
era eliminado. Fidel Castro comparou o fim destes estados como
equivalente ao ‘sol sendo apagado’. Para os marxistas, essas sociedades
não representavam o sol. Mas elas, pelo menos em sua forma econômica,
representavam uma alternativa que, com base na democracia dos
trabalhadores, poderia levar a sociedade adiante.

Embora reconhecendo o que tinha ocorrido, também mostramos que essa
derrota não era da escala dos anos 1930, quando Hitler, Mussolini e
Franco esmagaram as organizações dos trabalhadores, lançando assim as
bases para a catástrofe da 2ª Guerra Mundial. A derrota do fim dos anos
1980 foi mais de caráter ideológico que permitiu aos ideólogos
capitalistas ridicularizar qualquer projeto socialista futuro.

Entretanto, embora o colapso do stalinismo fosse em grande parte um
golpe ideológico na classe trabalhadora internacional, ele também teve
sérias repercussões materiais. Isso levou ao completo colapso político
dos líderes das organizações de trabalhadores, que abandonaram o
socialismo mesmo como um objetivo histórico, e abraçaram as idéias
capitalistas de uma forma ou outra. Não apenas na Grã-Bretanha, com o
advento do Novo Trabalhismo, mas internacionalmente os antigos partidos
de trabalhadores implodiram em formações capitalistas. Eles apenas
diferiam dos partidos abertamente burgueses da mesma forma que os
partidos capitalistas liberais ‘radicais’ diferiam no passado e ainda
diferem nos EUA, na forma dos Democratas e Republicanos – diferentes
lados da mesma moeda capitalista. Nos sindicatos, as direções em sua
maioria abandonaram qualquer idéia de uma alternativa ao capitalismo.
Eles portanto procuravam se acomodar ao sistema, barganhando entre o
trabalho e o capital, ao invés de oferecer um desafio fundamental.

Se você aceita o capitalismo, você aceita sua lógica, suas leis,
especialmente a busca dos patrões em maximizar a lucro em nome dos
capitalistas em detrimento da classe trabalhadora. Isso vai de mãos
dadas com a “parceria social”. Isso pode levar ao “sindicalismo
empresarial”, que limita qualquer movimento militante da classe
trabalhadora para obter mais do que os patrões supostamente podem dar.
De fato, o desenvolvimento dos líderes sindicais domesticados,
acomodando-se aos limites do sistema, junto com o abandono de qualquer
objetivo histórico do socialismo pelos líderes das organizações dos
trabalhadores, encorajou enormemente a confiança e o poder dos
capitalistas. Isso facilitou – sem qualquer resistência real dos
líderes sindicais – uma massiva disparidade de renda em uma escala não
vista desde antes da primeira guerra mundial. O capitalismo desenfreado
não foi contido pelos líderes sindicais. Pelo contrário, isso deu a
eles pleno alcance para que espremessem impiedosamente a classe
trabalhadora a fim de obterem um maior rendimento – com uma fatia cada
vez menor indo para os salários – tudo no altar de um capitalismo
reanimado.



Teste para a esquerda
Os eventos de 1989 e suas consequências foram testes para os
marxistas e aqueles que afirmavam estarem na posição trotskista. Com a
exceção do CIT, a reação da maioria das organizações marxistas deixou a
desejar, para dizer o mínimo. Os morenistas na América Latina (a Liga
Internacional dos Trabalhadores, LIT) procurou enterrar suas cabeças na
areia, recusando-se a reconhecer que o capitalismo tinha sido
restaurado. Eles apenas mudaram de posição os eventos os acertaram na
cabeça e não era mais possivel negar a realidade. Os “capitalistas de
estado” – a direção da Tendência Socialista Internacional (IST, em
inglês), incluindo o SWP britânico – acreditavam que a Rússia e o Leste
Europeu não eram estados operários deformados, mas capitalismos de
estado. O retorno do capitalismo não foi considerado uma derrota, mas
um “movimento lateral”. Na Alemanha Oriental, o IST apoiou a
reunificação da Alemanha em uma base capitalista. Essa abordagem foi
acompanhada pela desastrosa teoria de que nada tinha mudado
fundamentalmente no mundo e que, portanto, os anos 1990 eram favoráveis
ao marxismo por serem “os anos 1930 em câmera lenta”.

Ao outro lado, os partidários do Secretariado Unificado da Quarta
Internacional também tiraram conclusões pessimistas. Seu principal
teórico, Ernest Mandel, confessou a Tariq Ali pouco antes de morrer que
o “projeto socialista” estava fora da agenda por pelo menos 50 anos!

Todos os que previram o aumento colossal do ciclo de vida do
capitalismo, junto com o enterro do socialismo por gerações, foram
respondidos na teoria com os argumentos e idéias apresentados pelo
genuíno marxismo nas últimas duas décadas. Mas o impacto dos eventos
tem sido a maior resposta aos céticos, especialmente a atual e
devastadora crise mundial do capitalismo. A intervenção econômica dos
governos capitalistas mundialmente conseguiu evitar uma repetição
imediata, talvez apenas temporária, da depressão mundial dos anos 1930.
Ao mesmo tempo, a consciência da classe trabalhadora sobre a gravidade
da situação ainda não alcançou a situação objetiva. Isso restaurou
parcialmente a confiança anteriormente despedaçada dos porta-vozes do
capitalismo mundial, que temiam que levantes em massa desafiando as
próprias bases de seu sistema se desenvolvessem em conseqüência da
crise.

Em geral, o pensamento humano é muito conservador; a consciência da
classe trabalhadora sempre esteve atrás dos eventos. Isso é reforçado
quando a classe trabalhadora não possui organizações de massas que
podem agir como um ponto de referência na luta contra o capitalismo. A
direita, mesmo a extrema-direita, parece ter sido a principal grande
beneficiária política desta crise. Isso não é único ou excepcional na
primeira fase de uma crise econômica. Algo similar também se
desenvolveu em alguns países nos anos 1930, como pontuou recentemente o
comentarista político britânico Seumus Milne no The Guardian. Contudo,
ele foi muito generalizante ao dar a impressão de que isso era a reação
imediata em todos os países. A crise de 1930 também testemunhou uma
radicalização política entre a classe trabalhadora numa extensão muito
maior do que se desenvolveu até agora nesta crise.

É verdade que houve o fortalecimento dos nazistas na Alemanha, como
resultado da crise dos anos 1930. Mas também a revolução espanhola
começou a se desdobrar e as massas entraram em ação, tardia mas
decisivamente na França de 1931 em diante. O fato que estava presente,
embora de forma imperfeita, nos anos 1930 e ainda não está hoje, eram
partidos e organizações comunistas e socialistas de massas da classe
trabalhadora que, formalmente pelo menos, se opunham ao capitalismo.
Mesmo nos EUA durante a crise de 1929-33, embora a classe trabalhadora
estivesse paralisada sindicalmente, setores significativos foram
radicalizados politicamente e mesmo o Partido Comunista, por exemplo,
engordou com novos membros. Isso ainda não aconteceu em uma escala
significativa, em grande parte resultado da ausência de partidos de
massa, ainda que pequenos, da classe trabalhadora, cuja criação
continua sendo uma tarefa urgente para os socialistas, marxistas e do
movimento dos trabalhadores. Contudo, mesmo então, embora as tentativas
de criar tais organizações já tenham sido esboçadas, sem um firme
núcleo marxista que forneça a espinha teórica para essas formações,
muitos destes novos acontecimentos podem tropeçar, alguns abortarem e
até mesmo colapsar. Não obstante, permanece uma tarefa fundamental
criar a base de tais formações no próximo período.

1989 foi um ponto de inflexão em geral e também para o marxismo.
Como a mais otimista mas também a mais realista tendência dentro do
movimento dos trabalhadores, reconhecemos que o que ocorreu foi um
retrocesso significativo para o movimento dos trabalhadores. Mas não
perdemos a cabeça. O colapso do stalinismo não eliminou as contradições
inerentes do capitalismo. É verdade, o sistema recebeu um estímulo,
reforçando o processo de globalização através do fornecimento de mão de
obra barata, como a nova fonte de exploração, até de super-exploração,
do capitalismo. Mas a própria fraqueza do movimento dos trabalhadores
encorajou a confiança, de fato a presunçosa arrogância da classe
dominante, que excedeu a si mesma nas economias bolhas das últimas duas
décadas. O húbris foi seguido pela nemesis desta crise. A paisagem do
capitalismo mundial não é de forma alguma “florescente”, mas está
empestado de milhões de trabalhadores desempregados descartadas e com o
crescimento do exército dos pobres.

A classe trabalhadora está se movendo e respondendo. O marxismo,
relegado pelos ideólogos capitalistas à marginalidade, ao enfrentar
diretamente essa situação demonstrou sua viabilidade neste difícil
período. Mas não é apenas em períodos de derrota que suas vantagens são
mostradas através de uma análise sóbria. Seu programa e políticas,
através do Partido Socialista e do CIT, neste novo período de crescente
mobilização das massas contra o capitalismo, também mostrará sua
validade. 1989 não enterrou o socialismo ou o marxismo. Ele ofuscou
temporariamente a visão da classe trabalhadora, que está agora sendo
esclarecida com a atual crise e a incapacidade deste sistema de
resolver mesmo as exigências básicas da massa dos povos do planeta.

Peter Taaffe, Secretário Geral do Partido Socialista (CIT na Inglaterra &
Gales) - 26 de outubro de 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Economia Moral das Multidões


As perspectivas de E.P. Thompsom e George Rudé

A partir da concepção da “História vista de baixo”, George Rudé e Edward Thompson sugerem que, para o entendimento da dinâmica das multidões européias dos séculos XVIII e XIX, devem ser levados em conta não só o contexto social da época, mas também todas as expectativas oriundas de tradições e costumes que variavam no tempo e no espaço.
Ao tratar das disputas trabalhistas, o padrão dos distúrbios e o comportamento das multidões, George Rudé analise as tendências à violência dessas manifestações como atitudes que evidenciavam experiências possíveis e realizáveis dentro de expectativas moldadas por expressões comportamentais inerentes às idéias e aos valores tradicionais.
Tais comportamentos turbulentos não seguiam padrões pré-estabelecidos; os elementos fortuitos e a espontaneidade devem ser levados em conta – casualidades estas que eram baseadas em uma longa série anterior de incidentes as quais lhes deram significados – mas a concepção espasmódica e instintiva das ações do povo deve ser descartada; e certo sentido de unidade nas ações dos indivíduos deve ser considerado.
A experiência de um grupo é um caminho interessante para se traçar comportamentos, condutas e costumes dos indivíduos no interior deste mesmo grupo. De acordo com Edward P. Thompson, a experiência de classe “é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente.” Neste sentido, a experiência é um elemento fundamental na obra de E. P. Thompson para entender a dimensão histórica de determinado grupo. Estudando a classe trabalhadora inglesa do final do século XVIII e início do século XIX, o autor afirma que é somente por meio da experiência que o indivíduo desenvolve e incorpora valores, constituindo-se como classe.
Para Edward P. Thompson, classe não constitui uma categoria estanque, mas um fenômeno histórico composto por uma série de experiências em relação e oposição umas com as outras, sempre se constituindo, em um contínuo fazer-se. Desse modo, a classe não pode ser definida pelo local que o sujeito ocupa nas relações de produção, mas deve ser também compreendida a partir do acesso que o indivíduo tem a determinados valores e experiências. Neste sentido, consciência de classe é

a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, idéias e formas institucionais.

Em seu estudo sobre a multidão inglesa do século XVIII, E. P. Thompson analisa os motins supostamente provocados pela fome. O autor discorda do termo turba para definir a multidão de trabalhadores e do termo motim para definir as lutas e reivindicações destes últimos. Thompson discorda da perspectiva da história econômica tradicional, para a qual os distúrbios ingleses do século XVIII eram provocados eminentemente pela fome. Para ele, é possível detectar uma noção legitimadora em quase toda ação popular do século XVIII. Neste sentido, os homens e mulheres da multidão estavam imbuídos da crença de que estavam defendendo direitos ou costumes tradicionais.
Neste sentido, Rudé afirma que grupos e indivíduos com motivações muito variadas podiam ser recrutados em apoio a uma causa comum e para dirigir seu protesto contra um alvo comum, não implicando necessariamente nenhum direcionamento ou controle por parte das lideranças. Postulando uma perspectiva totalmente contrária a História convencional da multidão, George Rudé entende que, por trás das suas atitudes impulsivas, havia a visão arguta e imaginativa e práticas que procuravam atender as questões mais prementes daquela sociedade.
Para Thompson, os motins e protestos da multidão inglesa não estavam relacionados diretamente à fome, mas à morte da economia moral das provisões e à morte da intervenção paternalista na indústria e no comércio. O homem comum defendia suas antigas noções de direito ao mesmo tempo em que procurava reafirmar o seu status profissional como artesão. Neste sentido, podemos perceber a dinâmica das práticas da multidão como atitudes que procuravam minorar as vicissitudes daquela sociedade.

Referências:
George Rudé - "A Economia Moral das Multidões"
E.P. Thompsom - "A formação da classe operária inglesa"

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ORGULHO LGBT


Parada do Orgulho LGBT-Rio tem nova data


Grupo Arco-Íris
transfere a passeata para dia 1º de novembro e divulga
agenda de eventos

Devido à ampla
agenda de atividades culturais, sociais, políticas e
acadêmicas que farão parte da programação oficial da
14ª Parada do Orgulho LGBT-Rio, o Grupo Arco-Íris de
Cidadania LGBT adia a manifestação que se dará na orla de
Copacabana. Além disso, tendo como base o alto índice do
contágio no Rio de Janeiro da gripe A (H1N1) e este evento
de grande dimensão - que no ano passado reuniu 1,5 milhões
de participantes - aglomerar pessoas oriundas de diversas
localidades, o Grupo resolveu como medida preventiva,
transferir o evento. Fontes governamentais informam que
ainda existe uma possibilidade de um pico do surto da gripe
na segunda quinzena de setembro, podendo se arrastar ainda
na primeira quinzena de outubro. A nova data é dia 1º de novembro (domingo),
véspera de feriado, período que os fluminenses e os
turistas poderão aproveitar os points da Cidade
Maravilhosa.


“O Grupo
Arco-Íris tem como missão contribuir para a melhoria da
qualidade de vida da população e isso implica que nós
não podemos ficar omissos diante de um grave problema de
saúde coletiva, visto nossa trajetória de ações
preventivas em DST e HIV/AIDS”, afirma a presidente do
Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, Gilza Rodrigues. A
presidente ainda completa: “A parada vai ser linda. Este
ano temos muitas surpresas! O cenário político do Rio de
Janeiro auxilia na produção de nosso evento. Pela primeira
vez, teremos a participação das três esferas
governamentais de maneira bastante proativa: prefeitura,
governo estadual e federal. Isto porque teremos atividades
acontecendo em espaços culturais da cidade, administrados
por órgãos do poder público como os Teatros João
Caetano, Gláucio Gill, Carlos Gomes e Sérgio Porto; e
outros equipamentos culturais, como: Terreirão do Samba;
Centro de Artes Calouste Gulbenkian; Sala Baden Powell;
entre outros”.


O coordenador geral da 14ª Parada do Orgulho LGBT-Rio, Cláudio
Nascimento, informa sobre a nova identidade visual da
campanha publicitária da 14ª Parada do Orgulho LGBT-Rio,
que utilizará um layout mais solar e colorido, sem perder o
seu sentido de reivindicação e luta pelos direitos LGBT.
“A homofobia é uma dura realidade em nosso país.
Continuaremos com a Campanha Não Homofobia, através da
coleta de assinaturas virtuais para cobrar a
criminalização da homofobia pelo Senado Federal.
Entretanto, utilizaremos outra estratégia: mostraremos o
futuro que queremos alcançar. A campanha publicitária
desse ano tem como slogan: eu tenho o direito de viver e
amar livremente. Diga não a homofobia. Uma forte
mensagem para convocar e transformar corações e mentes”.
A campanha publicitária foi idealizada pelo publicitário
Bruno Bertani, da Indústria Nacional
Design.


A 14ª Parada do
Orgulho LGBT-Rio conta com o patrocínio do Governo Federal,
através da Petrobrás; do Governo do Estado do Rio de
Janeiro, através das Secretarias Estaduais de Assistência
Social e Direitos Humanos, Cultura, Turismo, Esporte e
Lazer; Saúde e Defesa Civil; da Prefeitura Municipal do Rio
de Janeiro, através das Secretarias Municipais de Turismo,
Esporte e Lazer, Cultura; Assistência Social e Saúde; e
pela iniciativa privada possui o apoio da Vale. Ainda
conta com o apoio dos órgãos de controle urbano,
acautelamento de menores, limpeza, defesa civil e segurança
pública.


Informações
para a imprensa:
Márcia Vilella
Diego Cotta
Target
Assessoria de Comunicação
Telefone: 21
8158 9692 | 8158 9715 | 2284 2475
target@target.inf.br |
www.target.inf.br




PROGRAMAÇÃO
OFICIAL DA 14ª PARADA DO ORGULHO LGBT – RIO
2009

Data: 5 de outubro, às
19h

Local: Teatro
Carlos Gomes - Centro
Show de abertura
da Programação Oficial da 14ª. Parada do Orgulho LGBT-Rio
2009

Data: 5 de outubro a 5 de
novembro

Local: Galeria
do Centro Cultural Sergio Porto - Humaitá
Exposição:
“Nossa história, nossa força, nossa voz: 14 anos de
Parada do Orgulho LGBT-Rio”

Data: 9 e 10 de outubro, das
14h às 22h
Local:
Castelinho do Flamengo e outros locais a
confirmar.
Mostra de Filmes
Metáforas da Diversidade

Data: 9 de outubro, a partir de
23h30

Local: Cine
Ideal - Centro
Pride Ideal
Nacional com o DJ Edson Pride e a cantora Joe
Welsh

Data 11 de outubro, a partir de
23h30

Local: Cine
Ideal - Centro
Cine Ideal com
orgulho, com DJs Dupla Altar

Data: 14, 21 e 28 de outubro,
às 19h

Local: Sala Cecília Meirelles – Auditório Guiomar Novaes -
Lapa
Encontro de
Voluntários da Parada e de sua
programação

Data: de 22 a 25 de outubro,
às 19h

Local: Teatro
Gláucio Gil - Copacabana
Semana
Auto-Retratos – espetáculos e shows de resgate da cultura transformista do Rio

Data: 26 a 30 de outubro, das
15h às 22h

Local:
Castelinho do Flamengo e outros locais a
confirmar
Ciclo Arco-Íris
Pensando a Cidadania LGBT
Seminário
Estadual AIDS e Saúde LGBT

Data: 27 e 28 de outubro, às
19h

Local: Sala
Baden Powell - Copacabana
Vozes da
Diversidade – show musical com cantores e cantoras
LGBT

Data: 29 de outubro, às
21h

Local: Cine
Ideal - Centro
Festa Oficial de
Celebração da 14ª Parada do Orgulho LGBT Rio – 2009

(com a
Premiação das Cantoras Lésbicas da cena LGBT e
Lançamento da Quinta Lés)

Data: 30 de outubro, às
20h

Local: Teatro
João Caetano - Centro 8º Prêmio
Arco-Íris de Direitos Humanos
Data: 31 de outubro, das 10h às 22h

Local:
Terreirão do Samba e Centro de Artes Calouste Gulbenkian -
Centro (à confirmar) Feira Arco-Íris
de Cultura LGBT
Lesbifest –
Festival de Cultura e Diversidade entre lésbicas e mulheres
bissexuais

Data: 31 de outubro, às
22h

Local: Boate
1140 – Praça Seca - Jacarepaguá
Festa
Pré-Parada

Data: 1 de novembro, das 09h
às 18h

Local: Praia de
Copacabana, Posto 6 - Copacabana
Ação Orgulho,
Cidadania e Direitos Humanos (tendas de serviços e
informações para a população em geral)

Data: 1 de novembro, às
13h

Local: Praia de
Copacabana, Posto 6 - Copacabana
14ª Parada do
Orgulho LGBT-Rio 2009

Data: 1 de novembro, às 22h


Local: Le Boy -
Copacabana
Festa de
Encerramento da 14ª Parada do Orgulho LGBT – Rio
2009