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quinta-feira, 11 de julho de 2013

CIA não decifra Djavan

LINHA DO EQUADOR – Duas unidades da CIA entraram em colapso na tarde de ontem após sucessivas tentativas de quebrar o código das correspondências eletrônicas entre Djavan e Gilberto Gil. “Logramos êxito em compreender códigos nazistas, letras do Luiz Melodia e peças do Gerald Thomas. Conseguimos encontrar sentido no que dizem Tiago Leifert e Luciana Gimenez. Num esforço sem precedentes, deciframos até mesmo colunas do Merval Pereira. Mas a conversa entre o Sr. Djavan e o Sr. Gil utiliza um aparelho linguístico sofisticado demais”, revelou o espião James Michelin. Intrigado com o que chamou de “questão de segurança nacional”, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se apressou na contratação de seis mil espiões cubanos. “Parece que há um jovem gênio em Havana que invadiu os computadores da Nasa, encontrou as usinas de enriquecimento de urânio norte-coreanas e, pasmem, decifrou os versos Açaí/ guardiã/ Zum de besouro/ um imã/ Branca é a tez da manhã“, comemorou. Animado com o aquecimento do mercado de espionagem, o governador Sérgio Cabral abriu uma licitação para empresas interessadas em bisbilhotar o Rio de Janeiro. Minutos depois, um homem misterioso realizou o IPO da empresa CIAX na Bovespa. Procurados pelo piauí Herald, Gil e Djavan disseram estar ocupados trocando emails sobre as últimas colunas de Caetano Veloso no Globo. Read more: http://www.humorpolitico.com.br/satira/cia-nao-consegue-decodificar-correspondencia-de-djavan/#ixzz2YlMil5NT

quarta-feira, 17 de março de 2010

PALPITE INFELIZ!




Quem é você, Caetano, que não sabe o que diz?


Por Walmir Pimentel


Antes de tudo, já peço desculpas sobre a minha fala chula e irritada,
mas, preciso dizer alguma coisa sobre o vídeo tendencioso de Caetano. Me
perdoem desde já a pretensão, aliás, quem sou eu.?
Sem querer ser o outro lado da ferradura no discurso sobre preconceito
racista, social, econômico ou seja lá que preconceito for, Caetano é um
gênio - historicamente - promovido pela polêmica (mas que tem seu valor,
desde a tal Tropicália). A defesa dos "americanizados da bossa nova"
(Carlos Lira, Edu, Tom - o único gênio desse frenesi - Vinícius...), já
diz tudo e, é muito sintomático. José Ramos Tinhorão, um dos maiores
teóricos do samba, junto com o velho Sérgio Cabral, meteram o pau nessa
tendência modista de bossa nova, e não menos João Batista de Mello, (e que
não há como negar uma beleza artificializada e Ianque consumista), porque foi
uma apropriação descabida e maldita do nosso samba duro, de partido, sendo
maquiado para ser digerido pela classe média medíocre carioca dos anos 50 e
60. E foi isso mesmo! Os defensores da "Bossa Nova" - que de nova só tinha o
nome - foram tão covardes com nossos ícones da MPB que, tempos depois, acabaram
indo beber a ´"água de Zé Ketti, de Candeia, de Cartola, de Pandeirinho, de
Ventura, de Zé com Fome e tantos outros que, por carência financeira ou
interesses particulares, venderam primores a esses caras do Alto Leblon e
adjacências abastadas do RJ a preço de banana.
FEITIÇO DA VILA é uma canção em meio a uma "demanda" entre Noel e Wilson
Batista sim, mas, durou 3 anos e nada tem de racismo velado nem declarado -
ao contrário da defesa inconteste que Caetano faz ao Ilê Aiê, como bloco
que só desfila negro no carnaval da Bahia - e vá ao Bairro da Liberdade
confirmar o que digo!
Ninguém diz que Wilson planejou a rixa para se auto promover, visto que
Noel já era consagrado no meio do samba. E mais, ninguém diz também que foi Wilson
quem começou a polêmica, com sua canção "Lenço no Pescoço" que exaltava a
vadiagem meliante, a boemia bandida e caçada pelo estado. E não a vida
humilde e digna do morador do morro, como trabalhador, poeta, pai de
família...

Caetano é de sazonalidade conveniente a ele próprio e, digo isso, embora
seja fã desse dissimulado, em certas canções. No momento em que fez essas
críticas absurdas a música de Noel, devia estar dando "em cima" de
(perdoem-me a grosseria) algum sociólogo xiita, ou algum membro do PSTU ou
querendo sua fatia nos direitos autorais do povo Bossa nova ( ou estava
flertando com algum filho do Wilson). Ridículo e, por isso que João Nogueira
o ESCULACHOU com a cantiga IÔiÔ!!!! Mas, para quem canta no Carnegie Hall
"Áh, um tapinha não dói..". - se dizendo moderno e Kit - o vídeo é pinto!

Não há em lugar nenhum,, receita nem dogma que, afirmem a necessidade de ser
BANDIDO ou DOUTOR para ser sambista. O SAMBA É SEPARADO DAS BOBAGENS HUMANAS.
OS bobos da Bossa nova podiam até ser bons sambistas, se não fossem bons
lacaios modistas ianques....quem sabe?

Vamos as músicas que iniciaram a polêmica em 1933 e, marcaram também uma das
mais ricas parcerias do mundo do samba, que talvez CAETANO (IÔIÔ) NÃO SAIBA:







LENÇO NO PESCOÇO - 1933
(Wilson Batista)

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Meu chapéu do lado...

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

Meu chapéu do lado...

E ele toca
E você canta
E eu não dou
Ai, meu chapéu do lado...


FEITIÇO DA VILA - 1934
(Noel Rosa - Oswaldo Gogliano [Vadico])

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo!

Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café,
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba!

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem...
Tendo nome de Princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente...

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus,
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora!

Eu sei por onde passo
Sei tudo que faço
Paixão não me aniquila...
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte,
Meus senhores, eu sou da Vila!

Nesta exaltação ao bairro de Vila Isabel, podemos sentir claramente a
boemia, tão presente na vida de Noel Rosa e responsável pelo agravamento de
sua doença (tuberculose). Na canção, Noel implorava para que o sol não
nascesse, pois a roda de samba terminaria e as mulheres iriam para casa.
Vale destacar também a beleza da imagem de galhos balançando ao som do
samba.

Tendo o nome de PRINCESA é só porque toda aquela região foi batizada com nome de
abolicionistas, personagens do período abolicionista e/ou afins. Quem
conhece Vila Isabel e os nomes de suas ruas, sabem o que estou dizendo (O
que não é o caso de IÔIÔ CAÊ)

Outra referência interessante é feita à política do café com leite de São
Paulo e Minas Gerais. Apesar de a política ter se encerrado em 1930, ela
ainda estava bastante presente na memória das pessoas.

No programa Case, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, Noel criou novos
versos para o já sucesso Feitiço da Vila. Esses versos são fundamentais para
entendermos a provocação seguinte de Wilson Batista:

*Versos adicionais de Feitiço da Vila*

Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba.
Eu já saí de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.
A zona mais tranqüila
É a nossa Vila
O berço dos folgados;
Não há um cadeado no portão
Porque na Vila não há ladrão.

Nos novos versos, Noel fez uma volta à infância, não só na referência ao
choro pra mamar em ritmo de samba, mas, sobretudo, aos tempos em que a Vila
Isabel gozava a má fama de atrair ladrões. Segundo Noel, esse tempo já teria
passado, e o bairro podia se orgulhar de dormir sem cadeado nos portões.
Nesse momento, Wilson Batista viu uma oportunidade de entrar novamente em
ação.

Desde que sua canção Mocinho da Vila fora ignorada por Noel, Wilson Batista
estava fora de cena. Ainda fiel ao sonho de ser famoso e sabedor de que
nenhum compositor popular brasileiro estava tão em evidência quanto Noel,
Wilson não perdeu tempo e escreveu Conversa Fiada:

CONVERSA FIADA - 1935
(Wilson Batista)

É conversa fiada
Dizerem que o samba
Na Vila tem feitiço.
Eu fui ver pra crer
E não vi nada disso.
A Vila é tranqüila,
Porém é preciso cuidado:
Antes de irem dormir,
Dêem duas voltas no cadeado.
Eu fui lá na Vila ver o arvoredo se mexer
E conhecer o berço dos folgados.
A lua nessa noite demorou tanto,
Assassinaram-me um samba.
Veio daí o meu pranto.

Noel não podia ignorar a nova canção. O ajustamento de ritmo e a bela
melodia já continham elementos que permitiam antever o grande sambista que
Wilson Batista seria. A música era indiscutivelmente bem-feita, e o bairro
de Vila Isabel tinha sido debochadamente atacado.

O contra-ataque tinha que ser definitivo, mortal e em grande estilo. Veio na
forma de um samba intitulado Palpite Infeliz - um dos mais populares e bem
elaborados de toda a obra de Noel.

PALPITE INFELIZ - 1935
(Noel Rosa)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo,
Ao som do samba dança
até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente.
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

Obra-prima da música brasileira, o samba ficaria para sempre na memória do
povo e de Wilson Batista. Logo no primeiro verso, Noel chama atenção para o
fato de o rival ainda não ser tão conhecido: "Quem é você que não sabe o que
diz?".

Mais do que provocativa, Palpite Infeliz também é uma obra integradora, que
promove a confraternização do mundo do samba. A canção defende a Vila Isabel
com elegância, sem colocá-la acima de Estácio de Sá, Salgueiro ou Mangueira.
Para Noel, a disputa estava encerrada. Já Wilson pensava diferente, e a nova
resposta veio com um golpe baixo intitulado Frankenstein da Vila. O samba
era uma pilhéria com Noel, satirizando a sua feiúra provocada pelo defeito
que tinha no queixo, causado por um acidente na hora do parto.

FRANKENSTEIN DA VILA - 1936
(Wilson Batista)

Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém,
Que até parece o "Frankenstein".
Mas, como diz o rifão,
Por uma cara feia,
Perde-se um bom coração.

Entre os feios estás na primeira fila,
Eu te batizo "Fantasma da Vila".
Essa indireta é contigo,
E depois não vás dizer
Que eu não sei o que digo.
(Sou teu amigo)

Algumas testemunhas afirmam que Noel não deu importância ao samba, achando
até graça do deboche. Outros garantem que a história não foi bem assim.
Cícero Nunes, companheiro de muitas cervejadas, jura ter visto Noel chorar
ao tocar no assunto. Ainda no mesmo ano, Wilson escreveu Terra de Cego, e
cantou o samba para Noel no Café Leitão:

TERRA DE CEGO - 1936
(Wilson Batista)

Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho na mão.
Em versos podes bem desabafar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar.

Noel gostou da melodia, mas pediu para trocar a letra no próprio botequim.
Como Wilson também havia andado de namoro com Ceci - uma antiga paixão de
Noel Rosa -, a nova letra foi dedicada a ela. Com a música pronta, Noel
viveu um "amor de parceria": a mulher era Ceci; o parceiro, Wilson Batista.

DEIXA DE SER CONVENCIDA - 1936
(Noel Rosa - Wilson Batista)

Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida.
És uma perfeita artista, eu bem sei,
Também fui do trapézio,
Até salto mortal
No arame eu já dei.
(Muita medalha eu ganhei!)
E no picadeiro desta vida
Serei o domador,
Serás a fera abatida.
Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria.

Era o fim de uma briga musical da qual pouca gente tomou conhecimento na
época (com exceção do meio artístico). É difícil saber até que ponto Noel
guardou alguma mágoa ou ressentimento, principalmente com relação ao samba
Frankenstein da Vila. Quanto a Wilson, façamos justiça: não foi por causa da
rixa que ele se tornou alguém na vida. Seu tempo chegou pelo próprio
talento. Noel faleceu em maio de 1937. A Wilson ficou saudade, respeito e
grande admiração.

Antes de morrer, em 1968, Wilson Batista viu a briga com Noel virar disco
nas vozes de Roberto Paiva e Francisco Egídio (Polêmica, 1956). O compositor
também fez alguns sambas com menções a Noel Rosa. Entre eles, podemos citar
Quero um Samba e Terra Boa.

QUERO UM SAMBA
(Wilson Batista - Waldemar Gomes)

Diga para o dono do baile
Que nós queremos sambar
A noite inteira sem tocar um samba
Nem parece que estamos no Rio,
A terra de Sinhô e o berço de Noel...

TERRA BOA
(Wilson Batista - Ataulpho Alves)

Terra de Santos Dumont
Carlos Gomes, Ruy Barbosa,
Grande Duque de Caxias,
Castro Alves, Noel Rosa...

LOGO GENTE, HÁ COISAS QUE IÔIÔ FALA QUE NÃO DEVEMOS DAR OUVIDOS, NEM
CRÉDITOS. POIS, VEZ EM QUANDO ELE PENSA COM O CÉREBRO DO TESÃO ANAL - QUE
INFELIZMENTE, ELE PRÓPRIO DISCRIMINA PELO VIÉS INSANO DE SUA
INTELECTUALIDADE AGUDA, RELATIVA E POLÊMICA.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Caetano Veloso, o mala-mor da MPB - parte I


Diante das últimas asneiras vomitadas por esse deprorável senhor, reproduzo aqui as ótimas postagens publicadas no blog "Abobrinhas Psicolélicas"
Eis aqui a verdadeira tradução do Caetano Boboso...


Não se discute que Caetano Veloso tem o seu nome profundamente marcado na história da Música Popular Brasileira. Na verdade, não é exagero dizer que isto já ocorre desde o final da década de 1960, quando Caetano – juntamente com Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes, Torquato Neto e vários outros – esteve à frente de um movimento artístico que teve importância crucial para a nossa cultura: o Tropicalismo. Além disto, nas décadas de 1970 e 1980, ele compôs algumas grandes canções como “Cajuína”, “Muito Romântico”, “O Quereres”, “Língua”, “Como dois e dois” e várias outras que marcaram uma geração. Porém, por conta disto, muita gente alçou Caetano à condição de gênio inquestionável, quase um semideus, e qualquer crítica à sua obra e mesmo à posições pessoais suas - que nada têm a ver com música - passa a ser vista como uma espécie de heresia. Tal postura – que é compartilhada por boa parte dos jornalistas e críticos da grande imprensa – se mostrou bastante clara para mim quando há alguns dias atrás, após ter colocado neste blog uma postagem sobre o que eu chamava de “Música Chata Brasileira”, recebi vários comentários – tanto no próprio post, quanto por e-mail – cujo teor, no geral, era mais ou o menos seguinte: “Quem você acha que é para criticar o Caetano?”. Por conta disto – e também porque desde os primórdios deste blog coloquei em meu perfil que acho esse baiano um chato -, resolvi expor as razões pelas quais não consigo mais ter muita paciência para aturar o Caetano (por questões musicais e extra-musicais). Como os argumentos são muitos, vou dividir este texto em duas postagens para facilitar a leitura.

Sendo assim, vamos aos argumentos:

1-Do ponto de vista musical e poético, desde a década de 1990, a obra de Caetano só pode ser considerada mediana. Apesar de ter produzido algumas boas canções como “Fora de Ordem” e “Haiti”, grande parte do que ele compôs a partir desta época pode ser classificado como fraco ou razoável. Não é a toa que algumas das melhores coisas que ele gravou neste período são regravações de canções de outros compositores ou mesmo de antigas músicas suas (como é o caso de “Como dois e dois”). Na verdade, se analisarmos com mais cuidado, podemos notar que, já na década de 1980, ao lado de grandes composições como “Podres Poderes” e as já citadas “Língua” e “O Quereres”, Caetano andou cometendo coisas como “Comeu” ou “Eclipse Oculto”...
2-Caetano insiste o tempo todo em querer ser “moderno” e “antenado”, procurando passar a idéia de que está sempre na vanguarda e atento a novas tendências. Para mim, isto se aplica à sua obra do final da década de 1960, quando com os demais tropicalistas incorporou à música brasileira elementos da cultura pop internacional, ao mesmo tempo em que reconhecia o valor da produção musical da Jovem Guarda e de compositores considerados kitsch, que estavam fora do mainstream da MPB. Porém, a partir de então, parece-me que ele criou um personagem que acaba sendo um pastiche do que ele representou na época do tropicalismo, um pálido clone de si mesmo. Agora, ao buscar ser moderno ele parece se mover muito mais por um fascínio em estar na mídia – e na moda – e por questões mercadológicas, do que por preocupações estéticas autênticas. Neste sentido, ele busca aparecer como um artista de vanguarda e popular ao mesmo tempo, ao gravar canções de compositores considerados bregas, ao fazer shows como os que ele fazia com a banda Black Rio, no final da década de 1970, ou ao elogiar e cantar em suas apresentações alguns hits do Funk carioca, como faz atualmente. Dentro da mesma lógica, inserem-se as suas constantes aparições na revista "Caras", o sonho de consumo das celebridades vazias;
3-O personagem Caetano considera-se uma espécie de “gênio da raça”, um intelectual que entende de tudo e que pode opinar sobre todos os assuntos. Esta auto-imagem é corroborada por inúmeros de seus admiradores que não cansam de incensá-lo e de aplaudir tudo o que ele faz e diz. Dentre estes, não podemos esquecer o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (outro detentor de um grande ego) que, ao comparar Caetano e Chico, chamou o ex-tropicalista de “gênio”, classificando Chico como “elitista” e “ultrapassado” (será que isto aconteceu porque Chico era um crítico de seu governo, enquanto Caetano o elogiava?). Por conta disto, Caetano dirige um filme soporífero como “Cinema Falado” (1986) - e nenhum crítico tem a coragem de dizer claramente que aquilo é cinema da pior qualidade - ou dá declarações como as que ele deu ao jornal português “Expresso” há alguns anos atrás, em que afirma textualmente que “a colonização portuguesa do Brasil foi a pior coisa que você pode imaginar. Foi o oposto dos EUA, para onde alguns ingleses foram para criar um país melhor”. Afirmando isto, o “gênio” baiano reproduz o mais rasteiro senso comum, esquecendo toda a produção historiográfica brasileira sobre o tema - desde pelo menos Caio Prado Júnior, há mais de sete décadas –, que nos mostra que a questão essencial não é “quem” colonizou, mas sim “como” e “por que” se colonizou.

Caetano Veloso, o mala-mor da MPB - parte II


1- Como se pode notar, por tudo o que descrevi no post anterior, a vaidade de Caetano é tão grande que não lhe permite aceitar críticas: aqueles que não o compreendem são tachados de “caretas”, “medíocres”, “conservadores” ou “elitistas”. Um exemplo claro disto foi o que aconteceu no final da década de 1970, quando, em uma entrevista que deu ao “Diário de São Paulo, Caetano respondeu de forma extremamente violenta a alguns críticos musicais que lhe cobravam um maior engajamento e um posicionamento político mais claro, depois de ele dar algumas declarações de que “não sabia nada do que se passava no Brasil e no mundo”. Citando nominalmente José Ramos Tinhorão, Maria Helena Dutra, Tárik de Souza e Maurício Kubrusly, ele dizia que os cadernos de cultura dos jornais e revistas brasileiros eram dominados por uma esquerda medíocre e repressora que obedecia a dois senhores: o dono da empresa e o chefe do partido. Tal entrevista levou o cartunista Henfil a escrever uma dura crítica a Caetano chamando-o de covarde e dedo-duro por denunciar seus críticos como membros do Partido Comunista, em um país onde ser comunista dava cadeia, torturas e até a morte. Mais recentemente, na entrevista citada no post anterior e publicada no jornal “Expresso”, de Lisboa, Caetano respondeu às criticas recebidas por ter sido matéria de capa da revista “Caras” da seguinte forma: “Pode-se gostar ou não, mas acho pior, sendo realmente uma celebridade, fingir que não o sou, que sou chique. Há uma altura em que não se pode aparecer na Caras para se poder ficar numa área superior, como se se pertencesse a uma elite de bom gosto que não se mistura com a vulgaridade dos novos-ricos (...) Por isso, sou a favor do capitalismo, da vulgaridade, sou contra Adorno, que é igual à direita, que quer restaurar a aura das grandes famílias, das grandes posições de responsabilidade cultural detidas por um grupo fechado e excelente” . Não é preciso dizer que todos esses pitis foram dados com grande cobertura midiática...
2- O culto à figura de Caetano é tão forte que se construiu uma memória coletiva sobre ele que é pontilhada por inúmeros esquecimentos. A sua imagem pública é a de uma figura progressista, que foi perseguida pelo regime militar, que possui posições políticas identificadas com uma esquerda “moderna” e que sempre levantou bandeiras de vanguarda. Desta forma, há a lembrança do Caetano exilado em Londres por conta da ditadura, mas esquece-se daquele que - como citei há pouco - dizia, ainda durante os anos de chumbo, que não queria saber de política e que acusava seus críticos de “comunistas”; esquece-se do Caetano que, logo após a eleição de Fernando Collor, declarou ter grandes simpatias pelo novo presidente e por seu discurso “modernizador” ou daquele que, reiteradas vezes, declarou todo o seu apreço por Antonio Carlos Magalhães. Isto sem falar, em tempos mais recentes, do Caetano que foi alçado pelo PhDeus Fernando Henrique Cardoso – de quem se declara um grande admirador – à condição de um dos maiores intelectuais do país. No entanto, insistir em lembrar estes episódios pode fazer com que aquele que tenha esta ousadia receba a pecha de estar agindo como um “patrulheiro ideológico” ou a acusação de não ter a sensibilidade necessária para compreender as inquietações de um artista em permanente mutação (ou seria uma “obra em progresso”?).

E por estas e (muitas) outras que não tenho mais paciência para Caê e suas egotrips. E, para finalizar, não posso deixar de reproduzir as palavras do historiador português Romero Magalhães que, ao ser indagado sobre os já citados comentários do gênio de Santo Amaro da Purificação a respeito da colonização portuguesa no Brasil, respondeu: “Ele se deixou embarcar em qualquer coisa que passou à frente. Além do mais, eu prefiro o Caetano a cantar do que a falar sobre coisas de que não sabe”.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O "velho" e "chato" Simonal


Wilson Simonal sempre foi para mim um grande enigma. Nunca tinha ouvido sua música ( pelo menos achava que nunca tinha ouvido)e pensava se tratar da pior espécie de música brega ou de mau gosto. Quando perguntava a minha mãe, ela dizia que a música dele era legal e que ela cantava para mim e eu adorava...
Desconfia do bom gosto da minha mãe e ia na onda da Rita Lee e de toda a intelligentisia, para as quais o cantor era o pior exemplar da espécie humana. Afinal, Rita Lee dizia que ele era velho e chato na sua música "Arrombou a festa". Era, definitivamente, uma música ultaprassada.
Pior, era a antítese de um Chico Buarque, de um Caetano Veloso ou de um Geraldo Vandré (Depois eu descobri que Chico é Chico, Caetano é um vendido e deslumbrado e Geraldo Vandré e um... chato!).
Até que vieram os finais dos anos 90 e os filhinhos do Wilson se tornaram os darlings do meio artístico.
Aí eu pude sentir a força da música desse artista, sua voz e seu swing. Velha e chata é a Rita Lee! (Mentira, a Rita também é ótima! rs,rs).
Na verdade Simonal era um mulato famoso que andava em carrões e comia uma porção de loura. Isso ninguém perduou...

Com o filme Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, começou a reabilitação de Wilson Simonal. Não se conclui outra coisa, quando se lêem os artigos publicados em todo o Brasil. Em todos os jornais, os críticos mais parecem uma orquestra afinada para uma só composição, para um só samba de uma nota só. Em toda a mídia se repetem as saudações ao documentário, à sua imparcialidade etc. etc.

Na Folha de S.Paulo, no texto com o título épico "Simonal refaz saga do cantor", entre outras coisas se escreve:

"Aconteceu no final de 1971. Por suspeitar que estivesse sendo roubado, o cantor teria mandado bater no contador de sua empresa. Só que o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado. Não demora até que os jornais liguem as pontas – não necessariamente cobertos de verdade – e publiquem a manchete: `O cantor Wilson Simonal é informante dos órgãos de segurança do Estado´...

Mais que biografar a ascensão e queda meteóricas de um ídolo – e isso é feito de maneira empolgante –, o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito."

Preconceitos raciais e sociais

Observem que:

1. O cantor "teria mandado bater no contador". Teria mandado, em lugar de mandou.

2. "...o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado". Por acidente, ele foi parar no Dops.

3. "...o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito". Absolvê-lo... Não demora, a família entrará com processo na Anistia.

Por falar em anistia, artigo no Jornal do Commercio, do Recife, é mais explícito:

"A chance de anistia de Simonal – Filme conta história de cantor que morreu com fama de dedo-duro, mas foi mesmo uma vítima da intransigência."

No UAI, de Minas, a reabilitação continua:

"Nos dias de hoje, a maioria das pessoas que conhecem o assunto acredita na tese de que Wilson Simonal foi derrubado por uma rede de boatos, somada a preconceitos raciais e sociais que levavam, em muitos grupos, a um estado de desconforto frente ao sucesso do cantor. Simonal pende nitidamente para este lado."

Condenado ao ostracismo

No Jornal do Brasil, do Rio, o mesmo samba:

"Com um design e produção impecáveis, o trio de diretores Cláudio Manuel, Micael Langer e Calvito Leal tenta também trazer à tona a perseguição que o cantor sofreu, após a suspeita de que ele estava a serviço do Dops, na época da ditadura. Recheado de entrevistas, o filme tem o mérito de ser, em grande parte, imparcial. Mas faltam depoimentos e nomes de artistas que efetivamente promoveram o boicote... Numa montagem esperta, o papel de bicho-papão ficou só com os jornalistas do Pasquim que participam do filme: Sérgio Cabral, Ziraldo e Jaguar. Este último, em destaque, é colocado pela edição nos momentos antagônicos, em contraponto a considerações positivas sobre o cantor. Seria alguma forma de revanche? O público é quem decide."

Em O Globo, entre outras louvações, transcrevem-se as palavras de Nelson Motta, "Simonal virou um tabu, um leproso, um pária..." Mas o modo mais parcial vem do Guia da Semana, de São Paulo, em editorial (!):

"No início da década de 70, Simonal percebeu que estava sendo roubado por seu contador. De pavio curto, o cantor contratou um grupo para dar uma surra no traidor. Porém, o episódio envolveu agentes do Dops, e o obscuro fato fez com que se espalhasse a notícia de que o músico era informante do regime militar. Sem provas contra ou a favor do artista, Simonal foi condenado ao ostracismo, morrendo como um desconhecido em 2000."

Só falta absolver o cabo Anselmo

Parece ter desaparecido no espaço o texto de Mário Magalhães, quando era ombudsman na Folha de S.Paulo, em 30 de março de 2008:

"A verdade: em 1974, Simonal foi condenado por surra dada em um contador. No processo, levou como testemunha sua um detetive do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara. Ele assegurou que o cantor era informante do Dops. Outra testemunha de defesa, um oficial do 1º Exército, jurou que o réu colaborava com a unidade. O juiz sentenciou: Simonal era `colaborador das Forças Armadas e informante do Dops´. Em 1976, acórdão do Tribunal de Justiça do RJ reafirmou a condição de `colaborador do Dops´. Não foram inimigos que inventaram a parceria com o regime, exposta sem reservas pelos amigos de Simonal, que se dizia ameaçado por gente ligada `a ações subversivas´."

Pelo andar da carruagem, não demora vão fazer um documentário que absolva o cabo Anselmo. Com a repercussão em uma só nota de toda a imprensa. Como agora, no filme desta semana: Simonal, a reabilitação.