quinta-feira, 13 de maio de 2010

122 anos de 13 de maio - parte I




Renda de negros cresce 222% em 8 anos


Os consumidores negros e pardos devem fechar 2010 com uma renda de R$ 546 bilhões no bolso, o que equivale a 40% do total previsto para todas as famílias (negras e não negras) do país, de R$ 1,38 trilhão.

Isso significa que, a cada R$ 10 disponíveis para o consumo neste ano no Brasil, R$ 4 estarão em poder de trabalhadores negros e pardos (com ou sem carteira assinada). No total da população, eles representam 51%. Em 1998, eram 45%.

As projeções da renda disponível neste ano foram feitas pelo Data Popular, instituto de pesquisas e consultoria, a partir dos rendimentos das famílias da Pnad de 2008, última disponível pelo IBGE.

Os valores foram atualizados para 2010 e consideram a inflação medida pelo IPCA no período, os reajustes concedidos ao salário mínimo nos últimos dois anos e a previsão de crescimento do país de 5% neste ano.

Em 2002, a massa de renda total de negros e pardos foi de R$ 170 bilhões. Se confirmada a previsão deste ano (R$ 546 bilhões), o crescimento será de 222% em relação àquele ano.

O resultado chama a atenção porque o salário de um negro ainda é cerca da metade do de um branco. Mesmo assim, a massa de renda dos negros já representa 40% do total.

O que explica essa aparente contradição é que no total de rendimentos das famílias não entram somente salários. No cálculo estão todas as fontes de receita -como trabalhos avulsos (bicos) e temporários.

A disparidade salarial obrigou as famílias negras a estimularem também o trabalho de crianças e adolescentes para complementar a renda.

"Em uma família branca, que, em geral, é menos numerosa, é comum encontrar só o pai como gerador de renda", diz Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto. "Na família negra, os filhos trabalham. Se não for assim, não terão como pagar a faculdade e melhorar de vida."

O aumento de emprego formal e o maior acesso à educação e ao crédito são as principais razões para explicar a alta no poder de consumo dos negros. De 1998 a 2008, a proporção de negros e pardos com ensino superior completo no total de adultos (25 anos ou mais) passou de 2,2% para 4,7%.

"As políticas públicas que vêm sendo desenvolvidas desde o final do governo FHC também contribuem para ajudar na inserção do negro no mercado de trabalho", diz Meirelles.

"Antes, havia mais negros na informalidade, com renda ainda menor. Hoje não há como falar sobre a nova classe média brasileira sem falar no negro."

A classe C negra deve ter disponível renda de R$ 187 bilhões neste ano -ou 43,8% da renda total prevista para a classe C (com renda de 3 a 10 mínimos).

Mas as empresas ainda estão longe de atender ao anseio desse consumidor. "Ter uma política de inclusão não significa somente ter um sabonete específico ou colocar o negro como garoto-propaganda. Isso é um avanço, mas é preciso entender os valores e a cultura negra."

Alcir Gomes Leite, diretor-executivo e sócio da DM9, diz que empresas e marcas estão "aprendendo" a olhar para a classe C independentemente de sua cor.

"Ainda existem erros absurdos de criar estereótipos para essa classe, que tem hábitos e um jeito próprio de ser. O Brasil é um país de classes C e D, acho estranho considerar que são nichos de mercado."

122 anos de 13 de maio... Parte II




DE CADA 4 TRABALHADORES LIBERTADOS NO PAÍS, 3 SÃO PRETOS OU PARDOS, DIZ ESTUDO DE ECONOMISTA DA UFRJ

por ANTÔNIO GOIS


Passados 122 anos desde a Lei Áurea, 3 em cada 4 trabalhadores libertados de situações análogas à escravidão hoje são pretos ou pardos.

É o que mostra um estudo do economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, feito a partir do cadastro de beneficiados pelo Bolsa Família incluídos no programa após ações de fiscalização que flagraram trabalhadores em situações que, para a ONU, são consideradas formas contemporâneas de escravidão.

São pessoas trabalhando em situações degradantes, com jornada exaustiva, dívidas com o empregador -que o impedem de largar o posto- e correndo riscos de serem mortas.

Paixão, que publica anualmente um Relatório de Desigualdades Raciais (ed. Garamond), diz que foi a primeira vez em que conseguiu investigar a cor ou raça desses trabalhadores, graças à inclusão do grupo no Bolsa Família.

Os autodeclarados pretos e pardos -que Paixão soma em seu estudo, classificando como negros- representavam 73% desse grupo, apesar de serem 51% da população total do Brasil. Tal como nas pesquisas do IBGE, é o próprio entrevistado que, a partir de cinco opções (branco, preto, pardo, amarelo ou indígena) define sua cor.

Para o economista, “a cor do escravo de ontem se reproduz nos dias de hoje. Os negros e índios, escravos do passado, continuam sendo alvo de situações em que são obrigados a trabalhar sem direito ao próprio salário. É como se a escravidão se mantivesse como memória”.

Pretos e pardos são maioria entre a população mais pobre. Segundo o IBGE, entre os brasileiros que se encontravam entre os 10% mais pobres, 74% se diziam pretos ou pardos.

Para Paixão, ainda que hoje a cor não seja o único fator a determinar que um trabalhador esteja numa condição análoga à escravidão, o dado sugere que ser preto ou pardo eleva consideravalmente a probabilidade.

Em tempo: em entrevista à Record News, nesta última terça-feira, a professora Flávia Piovesan, especialista em direitos humanos, contou que estudo do professor Paixão mostra que no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU), o Brasil está em 70º. lugar. Se o Brasil fosse só de brancos, o IDH pularia para o 30º. lugar. Se fosse só de negros, cairia para 104º. lugar. Não, nós não somos racistas.

A propósito, também como singela homenagem a Kamel, clique aqui para ler o post sobre o artigo de Maria Rita Kehl, no Estadão, em que ela associa a decisão do Supremo sobre a Anistia ao assassinato sob tortura de um motoboy, num quartel da PM de Serra, em SP.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O inimigo do povo


Constituinte: Serra votou sempre contra os trabalhadores.



Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/04/23/constituinte-serra-votou-sempre-contra-os-trabalhadores-e-o-lobo-em-pele-de-cordeiro/


COMO SE COMPORTOU JOSÉ SERRA NA CONSTITUINTE
a) votou contra a redução da jornada de trabalho para 40 horas;

b) votou contra garantias ao trabalhador de estabilidade no emprego;
c) votou contra a implantação de Comissão de Fábrica nas indústrias;
d) votou contra o monopólio nacional da distribuição do petróleo;

e) negou seu voto pelo direito de greve;

f) negou seu voto pelo abono de férias de 1/3 do salário;

g) negou seu voto pelo aviso prévio proporcional;

h) negou seu voto pela estabilidade do dirigente sindical;

i) negou seu voto para garantir 30 dias de aviso prévio;

j) negou seu voto pela garantia do salário mínimo real;

Fonte: DIAP — “Quem foi quem na Constituinte”;pag. 621.

terça-feira, 4 de maio de 2010

As noves conquistas de Serra


1 - recorde histórico de obras irregulares que despencaram em SP torna Governo de SP mais eficiente do que muitos grupos terroristas:A linha 4 do metrô caiu 2 vezes, assim como o Rodoanel. Pessoas perderam casas, alguns morreram, carros foram destruídos...

2 - mais alto nível de violência já registrado em SP, e a menor transparência do Brasil .Os registros de assaltos, homicídios e etc. dispararam em SP. Para disfarçar, os dados não são mais divulgados. A política de segurança pública foi um fiasco inegável...
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,numeros-da-criminalidade-nas-ruas-de-sp-que-a-secretaria-nao-divulga,540468,0.htm
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,espera-por-bo-leva-3-horas-na-maioria-das-dps-de-sp,442059,0.htm

3 - desvio de dinheiro da saúde para aplicações financeiras a ponto de faltarem remédios em diversas cidades, e privatização dos hospitais públicos de SP. Fracasso também na saúde...
http://producao.prsp.mpf.gov.br/tac/tac_pgweb_baixa_arquivo.php?term_id=5980

4 - briga da polícia civil com a polícia militar porque o governo congelou os salários dos primeiros durante quase 14 anos, o que fez com que o poder de compra dos salários caísse para menos da metade (talvez isso também tenha motivado o desastre em SP).

5 - alagamentos sem precedentes em SP, com bairros inteiros imersos durante semanas, mesmo depois de muitos dias sem chuva. Os motivos são vários: não houve desassoreamento do rio Tietê, as reservas da Sabesp foram privatizadas e mal administradas, não foram construídos os piscinões que há mais de 10 anos se sabia que eram necessários...

6 - conquistou o apoio da imprensa de SP, porém fez compras inexplicáveis e sem licitação - foram milhões de reais para a Editora Abril, fora as mais de 5 mil assinaturas dos jornais Folha e Estado de SP. A Veja realmente deve gostar dele...

Nota: os milhões de reais dados à Editora Abril referem-se à compra de material pedagógico produzido pela editora e assinaturas da revista "Nova Escola" para todas as escolas estaduais de São Paulo. Serra eliminou 5 horas/aula de humanas do currículo escolar para inserir uma matéria inventada chamada "Apoio Pedagógico", que consiste em simplesmente passar o conteúdo da apostila aos alunos. A compra desse material foi feita sem licitação, o que é proibido por lei. Isso pode ser confirmado com qualquer profesor de humanas do Estado e com a Apeoesp.
http://www.observatoriodaeducacao.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=639:contratacao-de-revistas-e-outros-materiais-sem-licitacao-e-pratica-recorrente-do-governo-de-sao-paulo&catid=73:controle-social&Itemid=107
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/06/05/o-caso-nova-escola/

7 - quando Serra era prefeito em 2005 a cidade de São Paulo contratou com dinheiro público uma empresa esotérica para que videntes ajudassem a prever os problemas que a cidade enfrentaria. Trata-se da Fundação Cobra Coral - e do seu dinheiro, é claro.

8 - Serra é famoso por dizer que é o autor de coisas das quais sequer participou. A mais absurda foi a afirmação de que ele criou o seguro-desemprego, veiculada durante a campanha dele em 2002 para presidente (!?)

9 - Foi ministro do planejamento do Governo FHC, quando o Brasil foi à falência 3 vezes.

E a melhor promessa de sua campanha:

"Serra quer fim do Mercosul e promete desmontar legado de Lula"
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16543

PRIMEIRO DE MAIO

por Rafael Huguenin

É possível compreender certas características de um povo por meio da observação de suas comemorações populares. Ou seja, ao observarmos como a população se comporta em certas datas simbólicas específicas, podemos compreender certas traços essenciais de sua natureza e do seu estado de espírito em determinado momento. São significativas, neste sentido, as comemorações do dia primeiro de maio pelo mundo. Em alguns países, por um lado, esta data é marcada por protestos, marchas, reivindicações e confronto. Já em outros países, por outro lado, a data é comemorada com festas, shows de artistas populares e diversão.

Ainda que seja cada vez mais comum esvaziar o caráter simbólico de certas datas, reduzindo-as a meros feriados, nos quais, em meio ao lazer e à diversão, pouco se pensa no que as datas em questão se propõem a homenagear, faz-se necessário pensá-las com veemência. Ou seja, devemos relembrar o que as datas comemoram e utilizá-las como ponto de partida para uma reflexão. Sendo assim, no dia primeiro de maio, data na qual se comemora o dia do trabalhador, devemos empregar pelo menos alguns minutos de nosso dia de feriado na reflexão sobre aquilo a que este dia se consagra. Pois bem, por que se comemora o dia do trabalho em primeiro de maio?

A instituição do primeiro de maio como o “dia do trabalhador” remonta aos fatos que ocorreram ao longo dos primeiros dias de maio de 1886 na cidade de Chicago, nos EUA. Reunidos em manifestação, milhares de trabalhadores reivindicavam a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias. Dois anos antes, a FOTLU (Federation of Organized Trades and Labor Unions of United States and Canada), uma federação que congregava diversas organizações sindicais dos EUA e do Canadá, emitiu uma resolução que instituía o dia primeiro de maio de 1886 como uma data a partir da qual jornadas de trabalho acima de oito horas não seriam mais toleradasi. Quando esta data chegou, ocorreram comícios e protestos nas principais cidades norte americanas. O centro de todo este movimento era a cidade de Chicago, cidade a partir da qual se coordenava uma greve geral.

No dia três de maio, a polícia de Chicago reprimiu com violência exagerada uma manifestação pacífica dos trabalhadores ainda em greve, resultando na morte de seis trabalhadores e diversos feridos. Indignados com este ato, que reprimiu com bestialidade um movimento até então pacífico, os trabalhadores foram novamente às ruas no dia seguinte, dia quatro de maio. Concentrados na praça Haymarket, os manifestantes protestavam pacificamente quando a polícia decidiu dispersar a multidão. Os ânimos se exaltaram. O povo, revoltado, reagiu. E o caos tomou conta do lugarii. Uma bomba foi atirada em direção às forças de repressão, resultando na morte imediata de dois policiais. Cinco outros morreram depois, vários deles vítimas de balas disparadas por seus próprios companheiros. Doze trabalhadores foram mortos e diversos foram feridos. Este acontecimento tornou-se conhecido como a Revolta de Haymarketiii. Em 1889, a Segunda Internacional Socialista, em homenagem aos mártires de Chicago, declara o dia primeiro de maio como o dia internacional do trabalho, dia no qual serão feitas reivindicações e marchas de trabalhadores organizados.

No Brasil, até pouco antes do início da era de Getúlio Vargas (1930-1945), o movimento operário, incipiente no país ainda pouco industrializado, celebrava o primeiro de maio como uma data de protestos e reivindicações. Ao longo do governo de Getúlio Vargas, no entanto, sob a égide ideológica de seu trabalhismo, o dia primeiro de maio se transforma gradualmente em um dia destinado a comemorar não exatamente o trabalhador e sua luta, mas simplesmente o trabalho. Apesar de sutil, esta mudança altera significativamente o caráter e a postura assumida pelos trabalhadores no primeiro de maio. Se, antes, era um dia comemorado com passeatas, protestos, reivindicações e até mesmo confrontos, depois passou gradualmente a ser um dia comemorado com festas populares, shows de artistas famosos ou simplesmente com o puro ócio. Esta tendência prossegue ainda em nossos dias, conforme ilustram a celebrações realizadas nas principais capitais do país.

Temos hoje, felizmente, a liberdade ao menos de escolher o que vamos fazer em nossos feriados. Gozamos até mesmo da liberdade de não pensarmos naquilo que o feriado se propõe a homenagear. Mas não convém esquecer que, se hoje temos certas conquistas, como a jornada de trabalho de oito horas e até mesmo feriados, devemos isso a certas pessoas que abriram mão de suas individualidades e colocaram suas vidas em risco nas ruas, nas barricadas e nos confrontos com a repressão. Devemos honrar os que lutaram – e os que continuam lutando – para que hoje possamos gozar até mesmo da liberdade de ignorá-los. Por isso, ainda que no Brasil, hoje, ao contrário do que ocorre nas principais cidades do mundo, o dia do trabalhador seja comemorado sobretudo por meio da diversão, não devemos esquecer o exemplo dos trabalhadores de Chicago que, pelo menos naquele primeiro de maio, não foram às ruas para dançar, mas para lutar.

NOTAS

i)Ver, a esse respeito, o texto intitulado "How May Day Became a Workers' Holiday". The Guide to Life, The Universe and Everything. Eis o trecho desta resolução: "(It is) Resolved ... that eight hours shall constitute a legal day's labor from and after May 1, 1886, and that we recommend to labor organizations throughout this district that they so direct their laws so as to conform to this resolution by the time named."

ii)Esta frase faz uma referência a um verso da música Reprecaos da banda paulista Vírus 27, faixa da coletânea Ataque Sonoro, lançada em 1985. Aliás, seria interessante realizar um estudo sobre os aspectos políticos presentes na letras e atitudes das bandas punks de São Paulo no início da década de oitenta, comparando-as com as letras e atitudes de outras bandas e artistas do mesmo período histórico.

iii)O verbete em língua inglesa sobre a Revolta de Haymarket da Wikipédia é bem detalhado, possuindo diversas referências bibliográficas.


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Rafael Huguenin
http://www.rafaelhuguenin.com

quinta-feira, 22 de abril de 2010


Salve 23 de abril, dia de São Jorge!
Salve Ogum!

A manipulação midiática contra Havana é clara – mas a necessidade de mudanças na ilha, também. Dois caminhos parecem em debate: a “eficiência” autoritária do projeto chinês e uma integração mais ampla com a América Latina em mudança


Em “Cuba, Israel e a dupla moral”, artigo provocador publicado hoje no site Opera Mundi, o jornalista Breno Altman fustiga a hipocrisia da mídia comercial brasileira em relação a Cuba. Os mesmos jornais e tevês que cobram do governo Lula uma condenação do regime cubano, lembra Altman, escondem o desrespeito sistemático aos direitos humanos em Israel – onde há cerca de 11 mil presos políticos e a tortura é admitida por decisão da Corte Suprema...

Mas denunciar a manipulação não deveria levar os que admiram a independência de Cuba a menosprezar as dificuldades da ilha – nem a pensar que a trajetória seguida nos últimos cinquenta anos pode continuar a ser trilhada sem mudanças. Alguns artigos recentes, publicados em Le Monde Diplomatique, ajudam a debater problemas e alternativas.

Escrito em 2007, pouco após a substituição de Fidel por Raúl Castro, “Encruzilhada em Havana, de Pablo Stefanoni, reporta que, àquela altura, o pior da crise que se seguiu ao fim do “campo socialista” havia passado. Já não se sofria com "apagões" diários; as lojas ofereciam algum sortimento de eletrodomésticos; o petróleo oferecido pela Venezuela, em regime de escambo, completava a produção interna (equivalente a 50% do consumo), sem exigir o pagamento de divisas.

Ainda assim havia, além enorme ineficiência econômica, graves problemas sociais e políticos. Frequentemente ouvida nas ruas, a frase “o governo finge que nos paga e nós fingimos que trabalhamos” expressava o desencanto com um sistema de produção que não havia superado o dirigismo estatal. A existência de um duplo sistema de moedas (pesos desvalorizados para as maiorias, dólares para os setores em contato direto com turistas) mantinha e ampliava as desigualdades. O poder resistia a tentativas de uma democratização ampla, o que produzia episódios como a “revolução dos emails”.

À mesma época, Carlos Gabetta, diretor da edição argentina do Le Monde Diplomatique, discutia, em “Cuba, hora de mudanças”, as alternativas. Ele frisava, primeiro, um dado positivo: os dirigentes e intelectuais cubanos têm plena consciência dos três graves problemas que marcaram o “socialismo real” e foram herdados pela formação contemporânea de seu país: o regime de partido único, a ausência de pluralismo de opinião verdadeiro e a centralização completa da economia, nas mãos do Estado e do partido comunista. Por isso (e ao contrário do que ocorreu no Leste Europeu), há, pensa Gabetta, a possibilidade de uma transição que não signifique mero retorno ao capitalismo.

Esta opção prevalecerá? Quem aborda o tema é Stefanoni – e ele tem dúvidas. Segundo suas observações, os dirigentes cubanos, de quem dependerá em boa parte a resposta, dividem-se entre duas posições. A primeira equivale a algo como uma “saída à chinesa”: mais liberdade econômica, forte estímulo às empresas privadas mas... manutenção do controle rígido do partido comunista sobre o poder. A segunda, cuja força estaria crescento especialmente entre setores não diretamente ligados ao Estado, seria uma tentativa de aproximação com as experiências políticas em curso na América Latina. Nesta hipótese, a transição – certamente difícil e arriscada – significaria deixar para trás o modelo de partido único, abrir-se a uma ampla democratização e estimular o surgimento de uma sociedade civil crítica e forte. Mas não equivaleria a reforçar as relações capitalistas (Antonio Martins).